Precisamos de ‘amigos de verdade’ para viver bem?
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- AmizadeSeres sociais e a busca por interação · Amizade · Philia
CBN Comunicação e Liderança com Leny Quirilhos. Conosco aqui no estúdio a Leny Quirilhos. Tudo bem, Leny?
Tudo bom, Sardenberg. Boa tarde, boa tarde, Cássia, boa tarde para todos. Boa tarde, Leny.
Mais uma vez, muito obrigado pela sua participação direta aqui com a gente no estúdio. E como sempre, respondendo a questão dos nossos ouvintes. No caso é o Luiz do Rio de Janeiro. É um tema legal, questão da amizade. Ele diz o seguinte, que tá em contato com muitas pessoas, tem muito, tem contato com muitas pessoas, mas sim, mas sente falta de amigos de verdade. Ele fala assim, daqueles poucos e bons. Ele quer saber o que tá acontecendo com ele.
Nossa, com ele e com grande parte das pessoas, não é? Aliás, assim, você, né, Sardenberg, você é uma pessoa que cultiva amigos de uma forma bastante poderosa. Você já manifestou várias vezes o tanto que você sente quando você tem que ficar isolado, sem poder participar, estar presente. E esse é um traço seu que é muito positivo e bastante relevante. Na prática, minha gente, a gente tá vivendo um momento delicado em relação a isso.
Para vocês terem uma ideia sobre a questão do valor da amizade, Aristóteles, lá atrás, antes de Cristo, né, ele dizia que a amizade tem lugar de honra entre as virtudes humanas. Ele já chamava atenção para isso. Na Grécia Antiga tinha um termo que é philia, com PH, que se refere ao amor entre os amigos. E esse termo ocupava posição central na sociedade da época. Nós somos seres sociais, o nosso cérebro é um cérebro social que busca a interação, que busca o contato.
Só que na nossa sociedade moderna, o que que tá acontecendo? Algumas coisas colaboram para isso não acontecer do jeito que deve. A gente tá vivendo numa velocidade extremamente rápida, a gente tá na era da ligeireza, não é? A gente tá assistindo vídeo, ouvindo áudio do WhatsApp na velocidade 2 e por aí vai. E o tempo das pessoas é algo cada vez mais escasso. Com isso, existe um prejuízo na realização de parcerias. Então, os autores colocam, os pesquisadores, que a gente tá num momento que eles chamam de recessão de amizades.
E é um problema muito maior na idade adulta, porque a criançada ainda tem a oportunidade de estar junto na escola, não é? De estar com outras crianças em outros ambientes. Eu trouxe um levantamento, gente, da Survey Center on American Life, que mostra o seguinte, escuta só: nas últimas 3 décadas caiu de 75% para 59% o número de pessoas que contam com um melhor amigo, que dizem assim: ah, eu tenho um grande amigo. Aumentou de 3% para 12% o número de pessoas que diz que não tem ninguém próximo com quem pode contar.
De 3 para 12%. E a gente sabe que as relações são assim a pedra fundamental para o bem-estar, principalmente para o bem-estar mental. A gente sabe que solidão mata, que são as relações sociais que são os maiores preditores, primeiro, de felicidade. É algo que é comum a todas as pesquisas sobre felicidade no mundo, estabelecimento de relacionamentos saudáveis, e é também a base para a situação da saúde mental e da saúde física.
Solidão mata a gente. Quando você tá sozinho por falta de escolha, né, não por uma escolha, você acaba adoecendo mentalmente, corporalmente. São vários aí os indicativos. Então quando a gente pensa nas causas, eu gostei muito da expressão de uma psicóloga chamada Doutora Camila Ribeiro. Ela diz que a perda do tempo emocional para sustentar a intencionalidade e consolidar ligações duradouras. Porque isso exige atenção, isso exige cuidado da nossa parte.
A pressa contemporânea, como a gente já referiu, o avanço da internet que está ocupando aí o espaço das interações, do tempo dedicado. Então, antes, por exemplo, a gente chegava um pouco mais cedo em casa, pegava o telefone e ligava para o nosso amigo, batia um papo. Ou até com algum parente. E hoje a gente vai lá no celular e fica olhando as nossas redes sociais, não é? E tem um termo interessante também que é de um sociólogo americano, o Dr.
Ray Oldenburg, que ele diz o seguinte, ele chama de o terceiro lugar. O que que é o terceiro lugar? É um lugar que é separado do trabalho e da nossa casa. Então nós hoje ou estamos em casa ou estamos no nosso trabalho e a gente tá cada vez vivenciando menos esse tal terceiro lugar, que é quando você vai, encontra um amigo num barzinho, você vai jantar num restaurante com seu amigo, você vai até a praça, você convida o seu amigo para ir ao cinema e etc.
Agora vem cá, vocês têm ideia, minha gente, de qual é a fase mais crítica, a faixa etária mais crítica para isso? Eu tendo achar que é a partir dos anos, mas posso estar enganada. Pois é, eu também pensava isso, Cássia. Olha só, na pesquisa da Pew Research nos Estados Unidos, os jovens são a geração com maior problemas em consolidar amizades, muito mais do que os idosos, os jovens. E quando a gente olha o que acontece, esses caras, gente, eles têm vida social, a gente sabe disso, só que é uma geração muito individualista e é uma geração muito conectada superficialmente.
Então eles ficam com a falsa impressão que eles têm um monte de amigos nas redes sociais e tudo mais, mas claro, são relações superficiais que não atendem a essa necessidade do olho no olho, do toque, do abraço, que é tão relevante, que faz tanta diferença. Eu trouxe uma frase do psicólogo Cláudio Paixão, lá da Universidade Federal de Minas Gerais, que diz que a amizade entre adultos exige intencionalidade. Ou seja, dá trabalho, precisa de dedicação, precisa de tempo para que isso aconteça, de planejamento e de proatividade da nossa parte.
Ou seja, o cultivo dessas relações para que a gente alcance esse grande ganho. E é um ganho imenso. Aristóteles já dizia o que que é um amigo. Ele falava: é uma única alma habitando dois corpos. Esse é o conceito da amizade. Amizade faz bem para o cérebro, amizade faz bem para o corpo, promove bem-estar mental, espiritual. E vale a pena a gente se dedicar a isso, porque senão nós sofremos muito com essa falta. E a boa comunicação permite que as interações sejam cada vez mais apropriadas e positivas.
Leny Quirilos, mais uma vez muito obrigado pela sua participação aqui e até a semana.
Até a semana, muito obrigada, gente. Até mais, Leny. Um ótimo restinho de semana aí para vocês.
Obrigada. Uma coisa importante, né, antes de você sair, Leny, é que você disse que a amizade deve ser cuidada, planejada, né? Não é ficar simplesmente esperando que aconteça alguma coisa, né?
Exato, e tomar iniciativa, se dedicar, planejar o fim de semana, isso, dedicar tempo a isso. Exato, vale a pena.
Obrigado, Leny.
Obrigada, gente.