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10 anos do fim da política do filho único na China

30 de julho de 202614min
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Marcelo Ninio, diretamente da China, relembra a “política do filho único” na China, que foi uma medida de controle demográfico implantada em 1980. O especialista explica que a medida foi justificada pela “preocupação do governo de ter uma explosão demográfica”. Ouça para saber mais!

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Participantes neste episódio2
T

Tati

HostApresentadora
M

Marcelo Ninio

ReporterEspecialista em geopolítica
Assuntos3
  • Crise demográfica chinesaEncolhimento da população · Baixa fertilidade · Envelhecimento da população · ONU
  • Gestão e Organização Social na ChinaControle demográfico · Explosão demográfica · Reabertura econômica · Mao Tsé-Tung
  • Adoecimento e infantilização da sociedadeSíndrome do pequeno imperador · Individualismo · Aversão ao risco · Psicologia coletiva
Transcrição11 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
MNMarcelo Ninio

CBN Pelo Mundo com Marcelo Ninho.

TTati

Oi, Ninho, tudo bem?

MNMarcelo Ninio

Oi, Tati, tudo bem? Você?

TTati

Tudo joia. Vamos falar sobre o fim da política do filho único na China, o fim dessa política completou 10 anos, mas o início dela tem mais tempo que isso. Vamos começar do começo? Conta para a gente em que contexto essa política foi implementada, em que época.

MNMarcelo Ninio

É, Tati, essa política do filho único foi instituída em 1979. Era uma época que a China tava se abrindo para o mundo, né? Tava implementando aquela política de reabertura, abertura econômica. E essa política do filho único, ela foi justificada pela preocupação do governo em ter uma explosão demográfica, porque a China tava vindo de um período muito difícil, um período politicamente e também economicamente difícil. Nos anos 50 teve uma grande fome aqui na China, depois entre 66 e 76 teve um período politicamente muito conturbado aqui da Revolução Cultural e tal.

E então em 76, o Mao Tsé-Tung, que foi o fundador, o grande líder e o fundador da República Popular da China, morreu. Em 79, 78, 79, começa a reabertura econômica da China. E a ideia do governo e a preocupação do governo era de que, como havia uma escassez de recursos, né, depois desse período difícil, era preciso ter um controle demográfico rígido. E isso resultou nessa política de filho único que durou de 79 até 2015, teve um aspecto até brutal, né, de esterilização, de abortos forçados, muita repressão, que deixou uma marca muito forte na sociedade chinesa.

TTati

Sim, bom, mas agora a gente entra no nosso assunto mesmo depois desse contexto, porque essa política foi encerrada em 2015, mas ela continua tendo impacto na sociedade chinesa. Como é que é possível perceber esse impacto no dia a dia aí, Nínio?

MNMarcelo Ninio

Isso tem, como eu falei, essa política deixou marcas, né? Pode parecer meio extemporâneo falar disso hoje, né? Talvez o ouvinte esteja se perguntando, afinal, saiu alguma estatística nova, alguma uma decisão do governo, nem precisa, porque esse é um tema recorrente aqui na China, porque afeta boa parte das pessoas que hoje, afinal, formam a população adulta do país, né? Como a gente falou agora, recapitulando, teve esse contexto histórico, né, de 79 até 2015, então foi esse processo doloroso.

Eu diria então que não só é uma questão recorrente, é uma questão permanente, porque formou várias gerações de filhos únicos. E muita gente chama de um dos experimentos de controle populacional mais drásticos da história da humanidade. E o primeiro impacto, né, o que se sente e que é o mais visível, e nas políticas do governo, na preocupação hoje em dia, é o impacto demográfico. Sente hoje o encolhimento da população, porque se em 79 o governo queria conter a explosão demográfica, hoje a preocupação é a baixa fertilidade.

Em 2022, esse foi um marco, a população da China pela primeira vez encolheu. Foi a primeira vez que a população chinesa encolheu em 6 décadas, desde a grande fome que aconteceu na década de 60, como eu já mencionei. Então, é, por que que isso, é, por que que isso tira o sono do governo, Tati? Porque o país está envelhecendo antes de ficar rico, né, que é a clássica armadilha da renda média, como chamam os economistas, da estagnação econômica.

No ano passado, para você ter uma ideia, foram registrados 7, um pouco menos de 8 milhões de nascimentos aqui na China, e no mesmo período, em 2025, foram 26 milhões de chineses que chegaram à idade da aposentadoria. Então é óbvio que é uma conta que não fecha. E não é só um problema para o sistema previdenciário chinês, né? E por isso até o governo tá aumentando a idade de aposentadoria, mas também para a ambição do país, né?

Para competitividade da economia. Tem estimativas que mostram que até a taxa de fertilidade da China já tá em um filho por família, por mulher, né, que é menos de metade do mínimo que em tese é necessário para reposição populacional. Então tem, por exemplo, uma projeção da ONU que em 2100 a China vai ter uma população de mais ou menos 700 milhões, que é metade do que tem hoje. E tem outros demógrafos dizendo que vai ser metade disso.

Então essa é a parte da demografia, e isso é uma preocupação grande do governo, de produtividade. Afinal, a vantagem comparativa da China sempre foi muito baseada no tamanho da população, né? Mas tem também uma, uma, um lado social, né? O problema é que desde que a China aboliu a política do filho único em 2015, o governo não consegue estimular os chineses a terem mais filhos, né? Primeiro acabou a política do filho único e foi para política dos 2 filhos, depois foi para 3 filhos, e mesmo assim, com incentivo financeiro, com incentivos sociais, por exemplo, como ampliação da licença-maternidade, a taxa de fertilidade não cresceu como o governo esperava.

E outra coisa para completar, além das estatísticas, desse impacto na economia e na demografia, tem o efeito na sociedade, né? Por isso que eu— os efeitos duradouros da política do filho único. Imagina um país com várias gerações de filhos únicos, né? Talvez aqueles idealizadores da política de filho único em 79 não tenham pensado nisso, mas aqui na China é um fenômeno conhecido como a síndrome do pequeno imperador. Quer dizer, a criança criada pelos pais e avós com superproteção, né?

E que um fenômeno individual, um fenômeno familiar que acaba virando um fenômeno coletivo, né? Porque tem tantas famílias com com filhos únicos. Então, inclusive, estudos mostram que as pessoas que cresceram aqui na China nessas circunstâncias tendem a ser mais individualistas, avessas ao risco, ter menos confiança no próximo. Claro que não são todos os nascidos na China nesse período, nos últimos 40 anos, que são filhos únicos, porque houve exceções.

Por exemplo, minorias étnicas não entraram nisso, algumas populações rurais também não, mas há uma grande parte da população que teve, que foi submetida a essa política, para dizer que é um fenômeno social, né? Por exemplo, um estudo recente, um estudo recente que é um motivo de preocupação para o governo e para ascensão da China como potência, que a maioria dos militares hoje na ativa foram filhos únicos. Então gera uma preocupação o que tipo de espírito de luta e de isso tem nessas pessoas que são criadas por avós e pais.

Então é um experimento com desdobramentos que ainda estão muito longe de ser totalmente desvendados, né?

TTati

Nossa, muito interessante, porque você traz um panorama muito amplo de como uma política pública, com todos os problemas que ela tem, você citou, é capaz de transformar uma sociedade, né, transformar uma cultura, enfim. Mas você disse que o governo chinês, desde 2015, quando foi abolida a política do filho único, tem tentado estimular as famílias chinesas a terem mais filhos e não tem tido muito sucesso. Por que não se quer ter mais filho na China?

MNMarcelo Ninio

Pois é, isso aí, primeiro voltando assim, muita gente assim, os especialistas já dizem que foi um erro. Talvez seja fácil dizer hoje, né? Teve essa preocupação na época, no fim dos anos 70, do fim dos anos 70, né, de conter uma explosão demográfica na China porque os recursos eram escassos, né? Não havia ainda essa perspectiva que a China ia se tornar essa potência econômica ainda. Havia intenção, mas não havia ainda uma visão clara.

Então havia essa intenção de conter o crescimento populacional porque os recursos eram escassos. Mas hoje já se fala que foi um erro porque o crescimento populacional já estava em queda. Nos anos, no começo dos anos 70, havia uma média de 5 filhos por família, e já no fim dos anos 70 já era mais ou menos a metade disso, 2,5. Então já não havia necessidade. Então foi um exagero instituir uma política tão drástica, né, nesse sentido.

Mas hoje em dia, assim, há várias teorias para explicar por que que esses incentivos que o governo tá fazendo, tá dando para promover a para aumentar a fertilidade não tá funcionando. A principal delas é econômica, né, porque a China passou por um processo de urbanização muito rápido nos últimos 40 anos e ficou caro ter filho nas cidades. Isso não é só na China, né, em vários países, principalmente com educação, que é a grande prioridade dos chineses.

E outra coisa, para ter mais filhos é preciso ter apartamentos maiores, e isso também significa mais despesas. Então o principal motivo apontado para a relutância dos chineses em ter mais filhos é esse econômico. E também há estudos que mostram que acaba sendo um ciclo, né, porque os pais que foram filhos únicos preferem também ter só um filho, porque acham que vale a pena concentrar o investimento em uma só criança, né. Uma sociedade muito competitiva, né, como a chinesa, Isso acaba contando como um fator.

E aí há outros fatores que também, que é um impacto psicológico e social de crescer sem irmãos, sem tios e sem primos, né? Isso aí é outra história que não é levada em conta, mas deveria ser, né? Mas numa sociedade muito competitiva acabam sendo levados em conta outros fatores. Agora, Como eu falei, teve essa urbanização muito acelerada. Ao modernizar a China, o nível de educação subiu, muitas mulheres deixam para ter filhos mais tarde, preferem também não ter filhos, né, rompendo com as imposições sociais tradicionais da sociedade chinesa.

Isso também tem um peso, é também uma liberação da mulher desse papel de ter, de ter, de desempenhar esse papel na sociedade. E por último, tem o próprio efeito da política de filho único na, vamos dizer, na psicologia coletiva. Porque depois de décadas de interferência do Estado e de uma interferência muitas vezes brutal numa questão que deveria ser de caráter privado, a sensação é de que os chineses não vão ceder aos apelos do governo para ter mais filhos.

Agora, aquela história, né, quem decide o tamanho da família somos nós, não o governo. Então é quase uma resposta assim àqueles anos, décadas de repressão, né? Essa é uma sensação que eu tenho conversando com famílias chinesas e também lendo sobre o assunto. Não é exatamente uma conclusão científica, mas uma coisa que é baseada em estudos, especialistas dizem, especialistas em demografia dizem que é possível usar a força para conter o aumento da população. Muito mais difícil é criar incentivos para aumentar a fertilidade.

TTati

É isso, perfeitamente, perfeitamente. Marcelo Ninho falando conosco diretamente da China, toda quinta-feira no nosso estúdio CBN. Obrigada, Ninho, um beijo para você, até a semana que vem.

MNMarcelo Ninio

Sempre um prazer, Tati, até a próxima.

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