O que explica a nova crise entre Brasil e Argentina?
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Beatriz Pacheco
Ariel Palacios
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CBN Pelo Mundo com Ariel Palacios.
Ariel conosco como toda quarta-feira, um pouquinho mais cedo hoje. Oi, Ariel, boa tarde!
Como está Fernanda? Como está Tatiana? Nossa, mãe, isso que é entrar na cena, já estou alterando tudo isso. Fernando, que está lá em Londres passeando, como está Tatiana? Como está Nadeja? Como estão ouvintes e videntes que nos veem também?
Ouvintas, ouvintes, não tão bem quanto Fernanda. Começou maravilhosamente hoje.
Não, hoje foi assim misturando suco de laranja com chá que deu esse efeito.
Não façam isso em casa, não misturem suco de laranja com chá.
Não, não, não, é o novo— como é que era? Não misturem melancia com leite, era isso? Era leite, manga com leite, manga com leite, com manga, que dava um revestimento estomacal, não era isso?
A história que matava, né? Mas é lenda, mas é lenda, é lenda.
Bom, vocês nunca ouviram o raio, o ponto de luz? Isso era no interior do Paraná. Então se você bebia líquido, água, por exemplo, no sol, dava ponto de, abre aspas, ponto de luz, fecha aspas, e você ficava com a boca torta. Que isso? Eu ouvi isso, exatamente, eu ouvi essas besteiras quando era criança lá em Londrina. Aí eu falei, peraí, então como é que um beduíno faz no meio do deserto do Saara?
E assim, tá um calor do cão, a gente não pode beber água?
Exatamente, vai saber essas superstições que existem, que espero que já tenham acabado todas.
Bebam água, viu? Inclusive, se você beber água, por exemplo, que a cidade tá seca. Vamos lá, Ariel, porque as tretas entre Brasil e Argentina não acabam. Milei teve no Brasil, na convenção do PL, disse coisas muito graves a respeito do presidente Lula. Insultos que foram repudiados pelo governo brasileiro. A gente tá vivendo a crise dos insultos? Como é que a gente pode definir essa crise diplomática entre os dois países?
Como os historiadores vão classificar, vão chamar aqui, tentam botar essa crise dos insultos, Tatiana? Bom, o fato é que o governo argentino está insistindo agora com a teoria que que sempre houve insultos, então que isso é algo costumeiro. Estão tentando relativizar isso daí. Inclusive, Adrián Javier, que é o porta-voz do presidente Milei, veio com esse argumento, é que sempre houve insultos na relação bilateral. Isso é totalmente falso.
Nunca um presidente brasileiro xingou um presidente argentino publicamente em 200 anos de relações entre os dois países. Na contramão, sim, mas apenas um precedente antes de Milei, a do ditador da província de Buenos Aires. Digo província de Buenos Aires porque a Argentina tava totalmente fragmentada por causa de uma guerra civil. Então não existia uma Argentina propriamente dita, mas a província de Buenos Aires era maior, a mais importante, não é?
Então isso nos tempos em que a Argentina tava em guerras civis e governava o território bonaerense o caudilho Juan Manuel de Rosas. Que chamava Dom Pedro II de Rei Macaco, né? Então é falsa a informação de que sempre houve insultos de ambos lados. Não, do lado brasileiro nunca houve, e do lado argentino só o caso de Milei com sua linguagem chula e de Juan Manuel de Rosas há 175 anos. Bom, o lado peculiar disso tudo, que o próprio porta-voz de Milei, que tentou relativizar essa situação, Adrián Javier, que está no cargo há poucos meses, foi insultado por Milei em várias ocasiões antes de chegar ao governo.
A postagem mais emblemática de Milei sobre Javier é de 2020, quando disse a seguinte frase, um tweet ainda naquela época, era o Twitter, não era o X, e ele diz assim, abre aspas, olha, preste atenção na saraivada de insultos em apenas um tweet, é uma obra-prima, abre aspas, sempre sustentei que Javier é um imbecil total, além disso é um picareta que fala sobre Keynes sem tê-lo lido, parênteses, ainda guardo tweets que o provam.
Fecha parênteses. E é um péssimo economista que passou o tempo errando tudo, além de ser militante de Macri. Ponto. Agora o idiota voltou a se superar. Fecha aspas. Então temos imbecil total, picareta, péssimo economista— aí não é um insulto, aí é uma classificação, não é?— e idiota. Tudo isso, 4, 5 insultos em um tweet por parte do atual presidente sobre o atual porta-voz. Bom, enquanto isso, Milei não fez mais de forma direta insultos a Lula, mas fez várias repostagens de aliados seus criticando o presidente brasileiro.
E de forma geral, imprensa argentina continua criticando Milei por seu comportamento chulo. E enquanto isso, chanceler argentino Pablo Kirchner, que no fim de semana participou do comício de Flávio Bolsonaro e depois repostou o discurso de Milei, com os insultos a Lula incluído, tentou hoje cedo mostrar o governo Milei como vítima. Exatamente numa manobra de invertida, uma tentativa de inverter a situação, Hirno, que não é diplomata de carreira, como aliás boa parte dos chanceleres argentinos ao longo da história dos últimos 80 anos, disse em entrevista que o governo, abre aspas, não está respondendo e não vai responder, fecha aspas, as declarações que estão fazendo Lula e seus ministros.
Ou seja, referência às declarações feitas pelos ministros Durigan, que chamou Milei de palhaço, e de Boulos, que o chamou de caricatura patética. Ou seja, aliás, não é recomendável subir na mesma estratégia de alguém que te criticou, porque você acaba se parecendo muito. Então, meu modesto conselho: não sigam o comportamento de Milei, porque não é contra-producente, e o cara tenta tirar proveito, tal como agora, não é? Aí o chanceler Kirchner disse ainda que é que estão em uma disputa eleitoral no Brasil.
Então, que é como que tudo isso estaria dentro de um certo contexto político, enfim, sabe-se lá. A coisa então tende a continuar.
Ariel, como é que tá a situação do Milei dentro da Argentina?
Bom, tudo isso é interessante, isso, porque tudo isso está acontecendo no momento, num contexto de desaprovação popular de Milei. Uma pesquisa da consultoria Projection indica que 40 40,1% dos entrevistados afirmam que estariam dispostos a votar em um candidato que não gostem, já votar em um candidato que não gostem, seja lá quem for, só para impedir que Milei continue como presidente. Então, não é interessante, é uma pesquisa não sobre intenção de voto, é uma pesquisa de você votaria em alguém mesmo detestando esse alguém só para que Milei não continue no poder.
Bom, então, 40,1% votaria em qualquer coisa para impedir que Milei continue como presidente. Outros 37,5% afirmaram que votariam candidato que não gostem, só para impedir que o peronismo volte ao poder. Já Milei e o peronismo, ambos não estão bem vistos na Argentina. Mas isso deixa tudo muito claro como é que a situação de Milei— e vários analistas hoje inclusive estavam comentando rumores no âmbito político em Buenos Aires que os insultos de Milei a Lula no fim de semana teriam sido um pedido do presidente Trump para que Milei tentasse bagunçar a campanha eleitoral brasileira.
E outros analistas dizem que Trump nem precisava pedir isso, porque é o Milei de sempre, turbinado mais uma vez, que recorre ao seu estilo chulo, grosseiro, de disparar insultos contra todo tipo de pessoas. Recordando que Milei, na época da campanha eleitoral, comparou o Papa Francisco com um dejeto fecal, num país católico, né? Então só dá para ver ali, entre vários outros insultos que disparou sobre os mais variados presidentes latino-americanos, isso ao longo dos últimos anos, durante a sua presidência e antes de ser presidente, quando era deputado, e antes mesmo disso, quando era economista, um economista que não era famoso.
Ariel, da Argentina para o Peru, Keiko Fujimori tomou posse, décima presidente do país em 10 anos, o que sugere um cenário político bastante instável, obviamente com a participação dela, né?
Exatamente, ela mesma que foi aqui, contribuiu em boa parte para essa instabilidade institucional peruana. Bom, o fato é que 26 anos depois do ex-ditador Alberto Fujimori renunciar por fax desde o Japão, no meio de um grande escândalo de corrupção. Isso mesmo, foi a primeira e última vez que um presidente barra ditador renunciava por fax. Nunca isso havia acontecido, nem voltou a acontecer depois ao longo da história mundial. Fujimori havia feito uma viagem para o Japão e aí decidiu renunciar e não voltou mais ao Peru.
Voltou, mas depois preso. Enfim, é bom, o fujimorismo, 26 anos depois daquele evento, O fujimorismo voltou ao poder no Peru. Keiko Fujimori tomou posse ontem, se tornando a primeira mulher eleita presidente do país. O Peru já teve presidentes, mas mulheres mais provisórias, não é? A vitória aconteceu na quarta tentativa. Keiko tentou 3 vezes ser candidata a presidente, sempre ficava no segundo turno, perdia todas as vezes por mais estreitíssima margem de votos.
E desta vez inclusive perdeu, perdeu, ganhou por apenas 50 mil votos sobre o esquerdista Roberto Santos. E Keiko assumiu reivindicando abertamente o legado do falecido pai, condenado por corrupção, por crimes contra a humanidade. Antes da cerimônia, ela postou a mensagem, abre aspas, papai, hoje o Peru lembra de você e milhões o levam em seus corações, fecha aspas. Para os partidários de Keiko, o retorno do fujimorismo representa uma promessa de ordem e de estabilidade, mas para seus críticos, a volta do fujimorismo reabre feridas de violações aos direitos humanos que nunca cicatrizaram no Peru.
E no discurso de posse, Fujimori afirmou que estava recebendo um estado à deriva e disse que empregará as forças armadas no combate ao crime organizado e que durante os momentos de estado de emergência os militares poderão assumir temporariamente o controle interno de várias regiões do país, sem, perdão, em coordenação com a polícia, né? É a décima presidente em uma década, como você citou, Tatiana. E o fato é que a própria Fujimori desempenhou um papel crucial nos sucessivos confrontos entre o parlamento e o Poder Executivo, porque ela ficava armando situações que debilitavam os presidentes provisórios, e acabou dando nisso uma década e 10 presidentes no Peru.
Na posse estiveram presentes Javier Milei, Daniel Noboa, Santiago Peña e vários presidentes sul-americanos. Mas também ocorreram manifestações antifujimoristas em Lima, especialmente realizada por parentes das vítimas dos massacres que o fujimorismo realizou nos anos 90, e aliás incluindo dezenas de milhares de mulheres entre os crimes do fujimorismo. Dezenas de milhares de mulheres indígenas que foram esterilizadas à força naquela época.
Ariel, qual é a efeméride?
Efeméride num dia como este, só que de 1986. Olha só, 40 anos. Isso é muito interessante. Os presidentes— só tô me tocando agora que eram 40 anos— os presidentes da Argentina e do Brasil, Raul Alfonsín e José Sarney, assinaram em Buenos Aires os Acordos Econômicos de Integração Mútua, que seriam o pontapé inicial, o trampolim para futura criação do Mercado Comum do Sul, ou seja, o Mercosul. Então olha só que coincidência esse momento, não é, com os dois países naquela ocasião voltando à democracia, saindo de regimes autoritários, numa onda autoritária de novo no planeta, né.
Agora, 40 anos depois, mas dando o pontapé inicial, acabando com as desconfianças mútuas. Alfonsín convidou Sarney para visitar as instalações nucleares que a Argentina tinha, né? Havia um grande temor no Brasil na época que a Argentina tentasse preparar uma bomba nuclear. Argentina tá décadas mais na frente em matéria de energia nuclear do que o Brasil, já tinha várias usinas nucleares funcionando. Toda aquela tensão que havia militar, inclusive desconfianças, tudo isso foi se diluindo graças à ação desses dois presidentes, Sarney e Alfonsinho.
E diria que especialmente no caso, nesse caso, há 40 anos não era fácil hoje em dia como falar em integração econômica. Já existia o caso da União Europeia, um exemplo, mas não muito mais casos no resto do continente. Muitas pessoas diziam que isso não ia funcionar. Bom, o fato é que anos depois, 5 anos depois, foi criado o Mercosul. E o Mercosul iniciou com um intercâmbio comercial entre os 4 sócios que era de apenas um, era menos de 1 bilhão de dólares, eram quase 900 milhões de dólares, e hoje são mais de 30 bilhões de dólares.
Então a coisa funciona do ponto de vista comercial funciona bem. Poderia funcionar melhor, mas funciona muito bem.
Música, Ariel.
Música: a valsa do Maxine do filme Gigi. É uma melodia de Alan Jay Lerner, um clássico dos anos 50 da Broadway e de Hollywood.
Quase me dá vontade de dançar, não que eu saiba.
Eu tô vendo, eu tô vendo.
Muito bom, Ariel. Ariel Palacios conosco toda quarta-feira no nosso CBN Pelo Mundo. Obrigada, Ariel, um beijo para você. Até a semana que vem.
Muito obrigado, até mais, tchau tchau.