O consumo também é um trabalho
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Michel Alcoforado
- Psicologia do consumo e exclusividadeDiferenças de gênero nas compras · Gestão doméstica · Cuidado com a casa · Escolhas de produtos de limpeza · Escolhas de alimentos · Leite em pó
- Gestão de Energia MentalFadiga da decisão · Sobrecarga de pensamento · Gestão familiar
- Consumismo e privilégio de classeRede de apoio paga · Proteção à Trabalhadora Doméstica
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Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado.
Michel Alcoforado, boa tarde.
Boa tarde, Tati. Boa tarde, Nadedja.
Boa tarde, Michel.
Michel hoje vai falar sobre consumo, mas não só sobre a parte talvez gostosa do consumo, mas também sobre a responsabilidade que vem junto com o ato de consumir. Tô curiosa.
É verdade. Acho que essa pauta é interessante porque ela traz para a gente duas possibilidades de pensar consumo e de pensar nossa sociedade. Primeiro ponto é que o consumo é uma atividade tão central ao nosso dia a dia, não só porque dá conta de realizar teu sonho, teu desejo, você fica feliz que resolveu todos os seus problemas, mas porque o consumo tem uma capacidade de inventar coisas ou de reproduzir coisas que já foram inventadas.
Acabou de sair uma pesquisa super interessante produzida por uma consultoria chamada Nós. Eles, durante 2 anos, acompanharam o consumo de 19 mil famílias espalhados pelas periferias urbanas do Brasil e chegaram a uma conclusão que a gente já sabia. Primeiro ponto é: a forma como a gente compra não tem nada a ver só com quanto dinheiro você tem. Porque a gente tende a pensar que o consumo das famílias periféricas é só guiado por necessidade.
Eu tenho pouco dinheiro, eu compro o que dá. Não, tem um bocado de escolha na hora que você decide o que que vai comprar, independente do salário que você tem. E o segundo ponto interessantíssimo foi as diferenças de gênero que apareceram com muita força nessa pesquisa. Quando a gente tá pensando na escolha domiciliada, do consumo domiciliar, da forma como as famílias compram, homens e mulheres chegam no supermercado de um jeito muito diferente.
O que eles chamaram atenção é que em algumas categorias a opinião de consumo de produtos, a opinião de homens e mulheres é muito distinta. Então, quando a gente está pensando em material de limpeza, as mulheres estão muito mais preocupadas do que os homens com esse assunto. O homem chega lá e compra qualquer coisa. O segundo ponto interessantíssimo é na categoria alimento, aquilo que a família vai comer. As mulheres estão infinitamente mais preocupadas e atentas a que marcas são essas que elas vão consumir.
Isso não é por acaso, né? A gente tá falando aqui de um modelo de família que ainda persiste no Brasil, onde cabe às mulheres a decisão sobre o cuidado da casa e, sobretudo, nesses dois campos que são fundamentais ao bom funcionamento da família, que é de que jeitinho a gente vai viver, com limpeza, higiene, né, dando conta disso, mas também que tipo de comida a gente vai comer. Então, as mulheres se preocupam mais com isso porque essa é usualmente a tarefa que lhes cabe dentro da gestão familiar.
Mas olha que interessante, elas se preocupam mais com isso também porque se der ruim é com elas que o B.O. vai ficar, com o desafio vai ficar, né? Então quando elas mandam os maridos, sei lá, pro mercado pra dar conta de comprar material de limpeza ou comprar comida, o que que acontece com muita frequência? Ele faz a escolha de marca que ele quiser. Ele olha, ah, sabão em pó, vou mexer com isso não, vou comprar o mais barato. A desinfetante, ah, não vou pagar esse preço dessa marca não, vou comprar mais baratinho.
As mulheres, como estão, como estão mais acostumadas, né, a fazer esse tipo de compra, elas sabem quando é que a relação de custo-benefício vale a pena e onde é que dá pra trocar e comprar mais baratinho com menos eficiência e onde que não dá. Os homens não, vão fazendo escolhas péssimas só preocupados com preço. E no campo da comida também, uma categoria que chamou atenção dos pesquisadores foi a categoria leite em pó. O que afasta os homens da parentalidade também, né?
Porque na hora de comprar leite em pó, os homens chegam lá e compram qualquer um, porque eles falam: ah, leite em pó, mesma coisa, eu vou comprar o mais barato. Até porque é um produto caro, né, quando você pensa no orçamento familiar e na gestão ali das compras do mês. Aí os homens compram mais barato, as mulheres não, elas vão lá e vão comprar o melhor para dar para os seus filhos. Então, pesquisa muito interessante para mostrar que não é porque você tem menos dinheiro que você compra qualquer coisa.
Mas essas escolhas daquilo que a gente vai comprar, o que escolhas a gente vai fazer, o gênero e a gestão do cuidado da casa estão interferindo fortemente.
É mais um elemento para explicar, Michel, porque que nesse contexto, né, nesse cenário doméstico que a gente tá imaginando, essa estrutura de família, a mulher tá mais suscetível a ter a fadiga da decisão depois, né? Porque uma coisa é a marca de todas as compras, e aí ela ainda tem que saber O que que vai ser feito para a família se alimentar em todas as refeições? O que que a criança tá aceitando, não tá? Quais são os compromissos?
Qual que é a rotina ali da lida doméstica, né? Que dia que tem que lavar roupa, que dia que tem que passar, que dia que tem que guardar. Então é um tijolinho, né, nesse castelo que gera uma sobrecarga danada de pensamento e de prática.
É porque escolher dá trabalho, escolher consome atividade mental. Eu brinco sempre que a diferença— eu fiz pesquisa, vocês sabem, né, com super ricos durante muitos anos. E eu brinco sempre que a principal diferença de um super rico para um rico é que o super rico não precisa tomar decisão para as coisas mais comezinhas do dia a dia. Ele paga alguém para tomar decisão. Isso sobra tempo, né, faz com que sobre tempo para ele fazer coisas que verdadeiramente interessam para ele.
Então o super rico não tá preocupado qual é a carne que vai comprar, não tá preocupado Qual é o carro que vai usar, não tá preocupado quando desce da casa de praia pra praia qual é o drink que ele vai tomar. Tá tudo lá decidido por alguém que ganhou pra isso. O que a gente tá vendo aqui na gestão da casa e da família é que as mulheres fazem isso sem ganhar, né? E isso é trabalho, e isso alivia alguém de ter esse trabalho. Então, mais um elemento pra sacrificar ainda mais e complexificar o dia a dia de uma mãe na hora que tá fazendo o gerenciamento da família.
Eu sei que aqui a gente está examinando o consumo pelo gênero, deixando para lá o não é porque tem mais ou menos dinheiro que se compra assim ou assado. Mas quando a gente observa classe social, há diferença?
A diferença tende a ser maior nas classes populares porque elas contam com uma rede de apoio paga menor, né? Então talvez no caso de famílias de classe média, de classe média alta, essas pequenas escolhas ficam no colo da empregada, né? A patroa talvez já coloca a lista, e aí numa mera investigação do que que é a dispensa, é aquele hábito se coloca, porque não cabe nem esse trabalho é transferido para os empregados. Mas de certo modo, mesmo nas famílias de classe mais alta, é essa percepção de quando a roupa tá bem lavada, se o cheirinho da roupa tá bom, se o amaciante foi capaz de entregar maciez esperada, E não importa a classe social, também é uma preocupação das mulheres, né?
Ou é uma preocupação que cai no colo das mulheres. Então eu diria que alivia, mas não resolve.
Perfeito. Michel Cofarado conosco às segundas, quartas e sextas em Pra Onde Vamos, que você só ouve aqui no Estúdio CBN. Obrigada, Michel, um beijo para você, até sexta-feira.
Adorei, até sexta, beijo grande, tchau tchau.
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