Xuxa e a pressão pela juventude eterna
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- Juventude e LiberdadeXuxa e o fim de um ciclo · Cobrança estética sobre mulheres · Redes sociais e haters · Envelhecimento masculino vs feminino
- Liberdade pessoal e convivênciaPrisão de personagem · Desejo de ser eu mesma · Privilégio de envelhecer
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Rossandro, boa tarde.
Boa tarde, Tati. Boa tarde, Nadede, ouvintes.
Boa tarde. A gente vai falar da Xuxa hoje. A gente vai falar sobre o passar do tempo e a cobrança insuportável que há sobre homens e mulheres, mas indubitavelmente mais sobre as mulheres, muito mais, para que elas se mantenham jovens eternamente. Isso ainda não acabou? Não aguento mais, Rossana.
Eu acho que tá longe de acabar. Aliás, assim, nos últimos anos, a sensação que eu tenho é que a gente tem um recurso civilizatório muito significativo, porque até certas conquistas, como pelo menos o bom senso de calar diante de absurdos, hoje virou Parece que um orgulho de dizer idiotices, né? No caso da Xuxa, eu acho que foi sintomático por tudo que ela representa. O fato dela dizer assim que tá fazendo o último voo da nave, como se fosse um arquétipo do encerramento de uma vida emocionalmente vinculada a ela como jovem, usando chiquinha, loirinha, né?
Porque as pessoas ficam falando dela que ela envelheceu, mas são as pessoas que eram crianças quando ela era mais jovem, também envelheceram. Então existe uma questão aí muito interessante, é que o envelhecimento dela, o comum natural, é no fundo, no fundo, o diagnóstico do nosso próprio envelhecimento. Então é como se congelar a Xuxa também nos congelasse. Então há um desejo inconsciente da multidão de pessoas que querem que ela não envelheça, de que essas pessoas também não envelheçam.
Só que o peso sobre ela como ser humano é um peso maior, né? Porque o tempo de fato passa e ela não pôde ter uma juventude que ela via presa. Inclusive o documentário mostra muito isso. Quem dirigia ela era uma pessoa modificado, enfim, não é aqui o objetivo do meu comentário. Então ela teve, no fundo, no fundo, uma vida muito prisioneira de um personagem. Ela tá querendo se libertar, fazer o último voo da nave para dizer assim: me deixem ser eu agora inteira, né?
É claro que ela disse assim que ela também se preocupa com aparência. Eu, por exemplo, sou uma figura pública, eu me preocupo. Mas digamos que para o homem a gente paga a prestação dessa fatura da estética, sabe, tipo empréstimo do BNDES com juros suaves. Para mulher não, é leves. Para mulher é coisa de agiota com bet junto, né? É cartão no mínimo voltando no bolão assim. É absurdo a pressão estética com as redes sociais, ficou muito maior.
Antigamente, por exemplo, uma celebridade ela muito dificilmente recebia um hater, era muito difícil, né? É porque imagina, por exemplo, antigamente eu lembro conversando com um amigo meu que trabalhava na Globo, ele falou assim: no passado, se alguém não gostava de um comentarista da Globo, mandava para o nosso saque, a gente ouvia e filtrava. Mas hoje nossa rede social Você recebe no seu post lá embaixo assim comentários terríveis, né?
Então existe um peso muito maior sobre isso. Eu acho que também fala muito dessa nossa necessidade visceral aqui de que a cobrança dos outros recaia sobre a nossa própria vida. Então a gente tem que ser honesto com o fato de que esse peso sobre a mulher é muito maior. Esse peso sobre a mulher que é celebridade, que durante muito tempo viveu da imagem, é muito maior. E nisso não quer dizer que cuidar de si não é importante, cuidar da aparência não é importante, mas é que a gente tem que olhar para isso e pensar assim, dessa prisão, porque essa prisão é muito ridícula.
Por exemplo, um homem de cabelos grisalhos é charmoso, a mulher não é vista assim, sabe? Um homem envelhecendo tá ficando maduro, né? A mulher não. Então assim, até no Brasil, por exemplo, nunca se comentou a estética de nenhum presidente, só comentou quando era uma presidente mulher. Sim, ah, tá gorda, né? Então existe de fato uma pressão muito grande. Eu acho que esses eventos, eles servem para se refletir sobre uma sociedade adoecida que pressiona mais, obviamente, o mundo feminino de uma forma muito desproporcional, que tá adoecendo na ponta jovens que vivem se comparando nas redes sociais agora com imagens que são feitas por IA.
Então tem tantas coisas para refletir sobre esse evento, mas eu acho interessante a coragem dela de dizer, de dizer que quer encerrar, de dizer que quer que as pessoas entendam que a nave se foi para que ela possa simplesmente ser ela. Porque na verdade a velhice não é uma coisa que depois encontra Na verdade, é um privilégio envelhecer. Se você não envelhecer, porque você morreu antes.
A alternativa é bem pior.
É, exatamente, exatamente. É como diz um amigo meu que é neuro: não, você não quer ter Alzheimer, nada assim, é tranquilo. Você come bacon, bebe todas, não dorme, fuma, e você não vai ter porque você morre antes disso. Porque de fato são doenças que vão acontecer para uma vida longeva, na verdade.
Então a gente precisa falar, Rossandro, que a gente tá A gente tá vivendo uma época de loucura, é isso que a gente tá vivendo. Aqueles corpos esqualidos e sempre jovens. Agora as atrizes de Hollywood, não importa quantos anos elas tenham, elas têm cara de 35 anos. Da Madonna, e aqui não vai nenhuma crítica, ao contrário, toda exaltação, a Anne Hathaway, sei lá, só para citar dois exemplos. Nicole Kidman, Ariana Grande, tantas outras.
Com corpos muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito magros, vendendo isso como se fosse um novo padrão de beleza disfarçado de saúde. A Xuxa tem 63 anos e a Madonna tem 67. Ambas estão aí nos palcos, Madonna com disco novo, usando a roupa que ela quiser, A Xuxa encerrando uma carreira longeva e hiper bem-sucedida que formou tantas brasileiras e brasileiros, né, de uma maneira que ela quer, da maneira que ela escolheu fazer.
Quem é você para dizer que ela precisava ser diferente disso, que ela precisava ser assim ou assado, né? Deixa as mulheres, deixa as mulheres viverem a idade que elas têm do jeito que elas querem. Eu me canso muito porque a gente tá tratando como a gente tá voltando a tratar com normalidade coisas muito absurdas e que nos fazem muito mal.
Exato, muito, muito mal. E ciclicamente, em tempos históricos de divisão política, como a gente tá vendo essa, essa forma assim ridícula de estar no mundo, acompanha algumas pessoas. Mas também historicamente esse ciclo se esgota porque é de uma toxicidade muito profunda. As pessoas começam a fugir desse tipo de personagem que vivem lacrando com seus conteúdos extremamente nefastos, mostrando muito mais, como dizia Jesus, que a boca fala do que o coração tá cheio.
E ao mesmo tempo, a gente observa, na verdade, que as pessoas que ficam lacrando na internet— desculpa a sinceridade do que eu vou dizer agora, pode chocar algumas pessoas— estão, na verdade, tentando fugir da vida medíocre que elas próprias têm. É uma forma de, ao comentar sobre a vida dos outros, esquecer as escolhas infelizes que elas têm, que faz com que a se resuma a fazer comentários jacosos ou danosos do seu sofá furado na sua casa, né?
Ou senão sua alma, né, que tá ali de uma forma adoecida porque consegue olhar não o melhor do mundo, mas sempre o recorte daquilo que é pior segundo a sua própria visão. Então olhar para a vida do outro é uma estratégia muito clara de esquecer a sua própria existência, porque quem tá vivendo bem, feliz, satisfeito, não tem tempo para se preocupar como é que a Xuxa tá fazendo o show dela, nem Madonna, nem ninguém, nem Caetano Veloso, nem ninguém, sabe?
Sertanejo, não se trata nem de estilo, nem de— é simplesmente você não tem tempo para dar conta da vida do outro porque você tá usufruindo da sua vida. Agora, quando você não tem uma vida para usufruir, quer fugir desse sentimento ruim, aí você quer comentar a vida do outro. No fundo é para esquecer de você, né?
E o sofá furado, ele é uma metáfora ótima porque cabe em qualquer classe social, né, Rossandro?
Sim, sim, depende. Depende mesmo. Essa é a mediocridade de alma. Ela é, se tem uma coisa que ela é, ela é muito democrática. E a gente vive um certo estado de, o que a gente tá vendo hoje diante dessa crise ecológica, também tem uma crise ecológica psicológica. A mediocridade relativa do ato tá muito alta.
Muito bom. Rossandro Klinjei tá com a gente toda quarta-feira em Saúde Integral. Você tem cuidado da sua cabeça? Mais do que isso, você tem que cuidar da sua vida. Faz bem. Um beijo, Rossandro. Obrigada por hoje. Até semana que vem.
Tchau, tchau.