O incômodo com o envelhecimento da Xuxa
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Beatriz Pacheco
- Envelhecimento e MedoXuxa · Reação do público ao envelhecimento · Medo de envelhecer · Etarismo
- Juventude e LiberdadeXuxa · Juventude como trabalho · Liberdade tardia
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Refletir para viver com Rossandro Klinge. Por que incomoda tanta gente ver a Xuxa envelhecer? A rainha dos baixinhos está estreando a turnê de despedida da nave e junto com o espetáculo veio uma série de declarações que valem mais do que qualquer show. Ela tem falado sobre envelhecer com uma honestidade que o Brasil não está acostumado a ouvir de seus ídolos. Reconhece que está velha, sem rodeio, e devolveu ao público uma frase que é quase um diagnóstico coletivo: eu envelheço e elas estão envelhecendo comigo.
Aí mora o incômodo. A Xuxa não é uma pessoa para quem a viu na infância, é um marcador de tempo. Quem cresceu assistindo a nave descer carrega aquela imagem congelada como referência da própria juventude. Enquanto a rainha permanecesse intacta, loira, luminosa, uma parte de nós também permanecia. O rosto dela envelhecendo é a certidão que ninguém pediu. O tempo passou para todo mundo. Ela mesma nomeou o mecanismo. Admitir que ela envelhece é admitir que nós envelhecemos.
O incômodo com a idade dela diz mais sobre o medo de quem olha do que sobre a aparência de quem é olhado. Simone de Beauvoir escreveu que a velhice é o outro que habita em nós e que a gente se recusa a reconhecer. A sociedade trata o velho como categoria alheia até o dia em que o espelho desmente. O etarismo, no fundo, é isso: uma tentativa desesperada de manter a velhice longe, como se ela fosse contagiosa. E ela é. Chama-se viver.
Tem ainda uma camada bonita na fala dela: está vivendo os 62 porque não viveu os 25. A juventude dela foi de trabalho, imagem vigiada, corpo como produto, prisioneira de um personagem. A liberdade chegou agora, junto com as rugas. A nave se aposenta e a mulher, ela finalmente decola.