Como boas amizades fortalecem a nossa identidade
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Carol Tilkian
Carol
Beatriz Pacheco
- Desafios nas amizadesConstrução da autoestima · Olhar genuíno dos amigos · Superação da rivalidade
- Amigas e revelação de verdadeDiferença de elogio genérico · Amizade como relação lateral · Apropriação de qualidades
- Validação e Criação PessoalConfiança na trajetória · Olhares que revelam qualidades · Voz interna e superego
- Reconhecendo e Superando a SolidãoEstatísticas de solidão · Convite para aprofundar vínculos · Importância de ambientes sociais
CBN Amores Possíveis com Carol Tchukian.
Carol Tchukian, boa tarde.
Boa tarde, Tati. Boa tarde, Nadédia. Boa tarde, ouvintes.
Bom, Carolina, depois de um intensivão num grupo de mulheres, não sei se eu podia revelar isso, mas já revelando, resolveu que vai falar de amizade feminina. E é um assunto que eu adoro. Fiz um encontro de mulheres e o primeiro tema foi esse: amizade entre mulheres. Por que que a gente é ensinada a concorrer em vez de cooperar? E quais são os benefícios que a gente perde ao escolher a concorrência e não a cooperação?
E eu chego aqui muito atravessada por essa nossa volta de Flip. Eu e Tati estávamos na Feira Literária de Paraty. Tati apresentou o estúdio quinta e sexta, direto da feira. Foi incrível. E uma das mesas que mais me atravessou foi uma mesa dessas mulheres que eu admiro e são minhas amigas, que é Tati Vasconcelos, Liana Ferraz, Cris Fibb. E eu também fiz uma mesa na Casa Folha. Eu queria muito fazer uma mesa, não tinha espaço. De última hora apareceu uma mesa.
Então foi uma pauta assim que eu montei muito rapidamente, tudo que eu sabia, mas muito rapidamente.
Com a gente precisa— desculpa te interromper— a gente precisa confiar nisso, tá? No que tem dentro da gente há 20 anos, há 30 anos, há 15 anos, há 10 anos. Pode continuar.
Aproveitando essa sua fala, isso é— a Tati acabou de trazer um exemplo do que eu quero falar. Ela me fala muito isso porque eu sou uma pessoa CDF que tenho aqui meu docs da pauta da CBN com mil páginas. Que quero sempre hiper detalhar e pesquisar. E ela fala, Carol, confia na sua trajetória de trabalho, você já sabe. Eu ouvi de uma amiga que foi ver essa mesa, falou, cara, eu preciso que você saiba que tá, a Casa Folha tava lotada, que tinha muita gente do lado de fora querendo te ouvir.
Essas pessoas foram para te ouvir. É porque a gente se esquece, né? Na mesa da Tati, da Liana e da Cris, umas falaram para as outras, né? A Liana fala: nossa, quantas vezes eu tive que falar para Tati, para Cris: vocês são escritoras, vocês já são escritoras. E o que que eu quero falar hoje da importância da gente trazer esses olhares, porque muitas vezes a gente quer dar conselhos. E é tão potente e transformador a gente ter olhares dessas amizades femininas, olhares que fazem a gente crescer.
Eu tava trocando áudios com a Tati sobre essa pauta, né? Ela falou, são falas que me lembram do que eu esqueci de quem eu sou. Então eu já queria até abrir para os ouvintes perguntando Que falas de amigas suas ou amigos seus você já recebeu que te fizeram te ver de outro jeito? Relembrar que você é algo ou iluminar algo que você nunca tinha visto, né? Por que que eu tô trazendo a iluminação? Porque eu trago muito aqui o quanto o eu, né, sob a perspectiva da psicanálise, não se constitui sozinho.
A gente sempre se constitui a partir de olhar do outro. Eu trago sempre essa citação do Winnicott, né, que é o que o bebê vê quando vê os olhos da mãe. E Freud também traz que uma unidade como o ego não é formada per se, ela é formada a partir da percepção de como a gente foi visto e nomeado e amparado pelos nossos cuidadores primários. O que acontece é que muitas vezes esses cuidadores primários deixam a gente num único lugar.
O olhar familiar muitas vezes fixa e diminui a gente. Então o ideal de eu nasce da voz da família: todos os homens dessa família têm que ser fortes. E aí, se você é um menino sensível que chora, você já é repreendido. Ou você não poderia ser tão inteligente quanto a sua irmã, tá sempre de recuperação. E aí o fato de você ter muitas amigas, ser extrovertida, puxar papo com todo mundo, é tido como algo que te faz ir mal na escola e vai fazer você ser alguém menos bem-sucedida.
E não como uma qualidade. Nossa, que interessante, você se interessa pelos outros. Você tem uma capacidade incrível de fazer amizades. A gente acaba criando essa nossa percepção de quem nós somos a partir dessas falas, que são falas de amor, mas são falas de invalidação e inadequação, e elas viram essa voz interna. E aí a gente menospreza quem a gente é. Eu ouvi isso de um primo que é muito meu amigo. É, e eu já trouxe esse exemplo aqui, mas eu acho que vale trazer.
Eu sou essa pessoa que faz amizade muito facilmente, que tem facilidade de falar em público, que vou paquerar na Flip e de repente tô falando sobre suicídios na família e abrindo meu coração e ouvindo o cara que eu tô paquerando.
Tipos de paquera, né?
Gente, eu me identifico tanto com isso!
Não é? Por exemplo, eu fui pra UOL um dia pra ajudar minha família. Ai, mas você traz assuntos muito pesados. O que eu ouço de amigos: você traz assuntos sensíveis, que eu já ouvi de paqueras. Nossa, que incrível a gente poder ter essa conversa! Mas eu só me autorizei porque eu ouvi esse primo amigo falar. É muito bonito isso, a forma como você se conecta rápido com pessoas. E eu falava: ah, mas eu não sou boa na minha planilha financeira como o meu irmão é.
Ninguém é bom em tudo, né?
É, e assim, não é uma coisa ou outra, a gente não tá competindo, mas a família te coloca nesse lugar, né? Então um é o inteligente, o outro é o filho problema, o outro é a carente. As amizades, elas não estão nesse lugar da narrativa psíquica. Esse olhar da Tati que fala, você já sabe, ou do primo amigo que fala, é lindo que você xaveca falando dos nossos traumas familiares, você já cria uma conexão ali. E aí é um testemunho que é diferente de um elogio genérico, né?
É alguém que está prestando atenção em você. É ouvir a Tati, a Liana e a Cris Ouvir essas amigas que deixaram de fazer outras coisas para ir ouvir minha mesa e te olham e falam: olha, eu vejo algo em você que talvez você ainda não se permite ver. É muito transformador. E por que é bonito isso vir de amizades? Porque a amizade, ela é lateral, ela é escolhida.
Não tem hierarquia nenhuma, né?
Exatamente. Na família tem hierarquia. E mesmo nas relações conjugais, a gente tem uma dinâmica de poder e tem algo muito também dos papéis estabelecidos e fixados naquela dinâmica de parceria romântica. E muito no desejo é o desejo da falta, né, segundo Lacan. E a gente tem algo do que que eu quero dessa relação. Muitas vezes eu puno o outro porque eu estou frustrado na relação. Eu hoje de manhã tava atendendo uma analisanda que tá passando por uma crise conjugal e o marido fala, olha, eu fiz aqui uma autoanálise e eu acho que a gente tá em crise por conta dos seus, sua depressão crônica, por causa dos seus distúrbios de imagem.
Então assim, nossa, você fez uma autoanálise e você tá me atacando? Esse tipo de dinâmica tende a acontecer menos nas amizades, por mais que nós, principalmente nós mulheres, sejamos educadas para rivalizar. Acho que por isso que eu quero trazer essa pauta do poder ter um testemunho, um elogio tira a gente desse lugar. O testemunho é essa versão que você acha que você ainda não chegou. E acho que amizade traz esse lugar de é uma relação que não quer nada de você e ao mesmo tempo são mulheres ou são homens que você admira.
Quando essa pessoa fala eu te vejo ocupando esse lugar, quando a Liana fala Tati, você é escritora, quando a Tati me fala você já sabe Quando essas amigas me falam, foram ouvir você, né? Porque eu tô lá falando, nossa, mas essa Casa Folha vai receber Carla Madeira, vai receber Ana Cláudia Quintana Arantes.
Será que vão me conhecer?
É muito bonito. E muitas vezes a gente não fala porque a gente cai na armadilha do, não, mas ela já sabe, ela já sabe que eu admiro o trabalho dela. Ela já sabe que eu admiro a forma como ela é sensível. Ela já sabe que eu adoro que é ela a amiga que junta as amigas. Não, gente, a gente precisa ser relembrada e a gente economiza muitas vezes o testemunho que não só sustentaria a outra mulher ou outro homem, mas que ampliaria essas nossas possibilidades de ser.
É a pessoa que fala, você já é, se apropria disso, que te ajuda a ficar menos refém dessa fala dos pais que viraram o nosso superego. E aí acho que tem um convite de pensar quais são os ambientes que você tá escolhendo. Essa volta da Flip, né, há 2 anos, A gente teve essa viagem que muito nos aproximou, eu, Tati e Liana. E a gente se aproximou muito também com outras mulheres muito potentes, escritoras, jornalistas, psicanalistas, psiquiatras.
Em que ambientes você tá circulando? Ao conhecer essas mulheres, você convida elas para um jantar, para um café? Porque hoje, para aprofundar o vínculo, exatamente, né? A OMS, eu sempre trago esse dado, mostra que 1 a cada 6 pessoas no mundo se sente sozinha. E o Poder Data aponta que 1 a cada 3 brasileiros diz que só tem um amigo próximo. A gente pode ir para ambientes onde tem pessoas que a gente admira e fazer esse convite de aprofundar o vínculo.
A gente escolhe os lugares pelos quais a gente circula e a gente escolhe fazer esses convites para um jantar, para uma viagem. Talvez você não saiba como se aproximar. Aproxima elogiando algo que essa pessoa fez.
Eu queria convidar genuinamente, né, porque também dá para perceber quando alguém tá te elogiando só para te agradar, né?
Exatamente, são olhares sensíveis, específicos. Eu no aniversário fiz uma caixinha de cartões e envelopes e pedi para os meus amigos escreverem traços meus que eu menosprezo, coisas minhas que eles acham que eu ainda não vejo. Faça isso hoje, se você tá ouvindo, manda uma mensagem muito específica. Para um amigo, testemunhe algo desse crescimento, dessa potência que talvez essa pessoa nem sabe nomear como potência. Mostra para ela que ela já tá ocupando um lugar que ela nem imagina que ela ocupa, que o fato dela ser diferente do irmão, dela não ter casado de novo e o ex-marido já Não significa que ela é menor, ela é sortuda, ela é perdedora.
Exatamente. Queria até saber se vieram divisões, relatos de ouvintes, de elogios.
Vai, Nádia, arrasa!
A Sônia falando aqui que ela amou a pauta de amizades e o que elas dizem para você. E o exemplo dela é bem apropriado assim para o contexto que a gente tem aqui, porque ela tá falando que no caso dela é o que ela tá ouvindo, é que ela escreve bem, que ela teria muita coisa para dizer. Então ela, a mesma questão, né, da escritora em potencial. Sendo, se descobrindo assim por via das amigas.
E o quanto essa pauta foi discutida nos últimos 4 dias em Paraty, porque a gente nunca teve tanta mulher escrevendo. Nós somos o maior público comprador de livros, o maior público leitor, e agora a gente tem visto muitas, muitas, muitas mulheres escrevendo depois de muito tempo de silenciamento e de insegurança. Então posso, Carol? Eu vou te passar a palavra, mas siga escrevendo, apenas escreva. Se vai publicar, se vai fazer sucesso, se vai Isso aí é outra coisa. Escreva, como ela chama?
Sônia.
Sônia, um beijo para você. Vai, Carol.
Sônia, escreva e faça um exercício de falar sobre isso com as suas amigas. Eu modero um grupo na Casa do Saber que chama Mais Elas, é um curso em comunidade super legal sobre recomeços. Esse semestre a gente tá falando sobre A arte de recomeçar. E o grupo é muito focado em mulheres com mais de 40 anos. E na primeira, no primeiro encontro, eu pedi que elas compartilhassem um pouco o momento de vida e como é que elas estão vivendo esses recomeços.
E muitas delas, assim como a Sônia, falaram, mas eu não sei se a minha história é digna de ser contada aqui. Toda história a gente faz isso na nossa roda de amigos. Você fala, nossa, essa amiga tá passando por um divórcio super difícil, eu vou contar sobre o meu maravilhamento com os passarinhos que estão vindo comer mamão que eu tô deixando na minha varanda? É isso que tá te atravessando hoje. Que a gente possa entender que toda história, toda emoção é digna de ser compartilhada.
Se para você tá difícil começar a escrever, Faz esse exercício de começar a dividir a sua vida numa mensagem de áudio, numa conversa, e coloca no papel. A gente se alimenta de histórias de outras pessoas. Ter alguém que leia, que fala, eu me importo com as suas palavras, eu me transformei com as suas palavras, é muito bonito. E muito potente que a gente— a Liana teve até— eu fico anotando frases das minhas amigas dessas mesas e ela teve uma fala muito bonita que ela falava: eu deixo as palavras saírem porque elas vêm um pouco com os ruídos que fazem parte do que está acontecendo.
Sônia, escreve como der, sem achar a palavra certa. Sem querer achar o estilo, que a gente possa expressar quem é. E escreve agora como der um elogio genuíno para uma amiga que talvez tenha se esquecido que ela já é muitas coisas que você vê nela.
Muito bem. Carol Tchoukian, com a gente toda segunda-feira para a gente começar a semana falando de amor. Ela sempre fala que amor é o que a gente faz, né? Porque é uma boa discípula de bell hooks. Então eu queria te agradecer por ser a minha— talvez eu me emocione— eu quero te agradecer por ser amiga que, me apropriando das palavras da Liana, tá sempre na primeira fila. Obrigada por isso.
Te amo, estarei sempre lá.
E obrigada por sempre aqui, toda segunda-feira, Amores Possíveis com Carol Chuquian.
Boa semana, beijos, boa semana.