As críticas de Milei ao governo brasileiro
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Tudo é Política com Maria Cristina Fernandes.
Maria Cristina Fernandes, boa tarde.
Martina, boa tarde.
Boa tarde. Bom, ouvimos aí no Estúdio CBN com a Nadedja Calado as acusações, as ofensas, né, proferidas pelo presidente da Argentina contra o presidente do Brasil num tempo em que— num tempo, eu quero dizer, nos últimos dias, né, porque o tempo também tem sido muito rápido e relativo. Mas em que se discute mais profundamente um pouco, e talvez levando um pouco mais a sério, interferências externas na nossa eleição, né, Maria Cristina?
Sim, Tati, foi um discurso muito grave, viu? Eu tava lá na convenção e foi, foi o momento mais ovacionado de qualquer orador daquela convenção, foi a fala do Milei, né? Mais do que o Flávio, mais do que o Flávio Bolsonaro, senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, mais do que o Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, candidato à reeleição. E, mas então ele fez sucesso ali no público bolsonarista ao insultar o presidente da República e o ministro Alexandre de Moraes.
Agora, o que é que vai derivar disso tudo? O Brasil, como se sabe, chamou o embaixador Júlio Pitelli, embaixador do Brasil em Buenos Aires, chegou hoje pela manhã. Esse é um protocolo, né, nos protocolos diplomáticos. Esse é um dos primeiros passos aí para demonstrar o desagrado com outra nação. Como o presidente Lula tá recebendo o presidente da Coreia hoje lá em Brasília, Lee Jae-myung, e o chanceler Mauro Vieira embarca hoje no fim da tarde para posse da Keiko Fujimori em Lima, A conversa com o Bittelli deve acontecer na quarta, mas já quem aposte que o Bittelli não volta para Buenos Aires, mas pelo menos não enquanto não passarem as eleições.
E a recomendação que eu ouvi hoje no Palácio é que o presidente Lula não deve responder ao Milei. Só para o ouvinte que não tiver ligado, o Milei chamou o Lula de presidiário e ladrão. E por que não deve responder? Porque as pesquisas têm mostrado que toda essa agenda de política externa do Flávio Bolsonaro, que chamando interferência externa, né, chamou o Trump, agora chama o Milei para se meter nas eleições do Brasil. E isso tá sendo percebido pela população, Datafolha mostrou isso.
O Nexus, o BTG hoje também mostrou isso. Por mais que o Lula tenha trabalhado esse discurso, esteja trabalhando esse discurso da defesa da soberania, quem mete o bedelho no Brasil são os brasileiros, há opiniões divididas, pelo menos no que diz respeito ao tarifaço. Há um chamamento de responsabilidade lado a lado. Então, e os eleitores querem que se negocie e tal. Então, nessa questão de política externa, é preciso cuidado e pense a noção devida do quanto que é importante para o Brasil manter relações abertas e amigáveis com os países.
E a recomendação é que Lula não chafurde nesta lama do Milei e evite posicionamentos como os que tomaram o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que chamou Milei de palhaço, ou do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, que chamou Milei de patético e puxa-saco do Trump. De fato, a presença do Milei nessa convenção do PL parece ter dois públicos: o Trump, como querendo se mostrar como líder regional que está ali para tornar, ajudar a tornar a América do Sul um único bloco de direita, extrema-direita, e o outro é seu próprio público interno lá na Argentina.
Ele exibiu uma camisa da seleção argentina lá enquanto o Flávio segurava a bandeira brasileira. Ele exibiu uma camisa da seleção. E por que isso? Ele inclusive falou disso ao voltar para Argentina, disse que o Brasil teria patrocinado uma campanha contra a Argentina na Copa.
Ah, gente, por favor, né?
Prova alguma? Pois é. Aí o que ele quer é despertar a ojeriza Argentina contra o Brasil e tá movendo todos os ódios que ele encontra pelo caminho, né?
Inclusive esse rescaldo aí da Copa.
Mas isso é o que é o Millet, né? Millet fez-se politicamente com isso. Agora, o fato é que tudo isso levou ao ponto mais grave das relações entre os dois países. Eu falei com dois embaixadores hoje, falei com a Mônica Hirsch, que é do SEBRE, né, e é uma cientista arquiteta especializada nas relações Brasil-Argentina, morou décadas em Buenos Aires. Nem na tensão de Itaipu, né, na construção de Itaipu, que foi na ditadura, que foi um momento de grande tensão entre os dois países, se chegou a qualquer coisa parecida nesses mais de 200 anos de relação bilateral.
E o curioso, Tati Nadeja, é que o Milei vem insultar o presidente do país para o qual a Argentina mais vende. Por mais que a Argentina abre mercado nos Estados Unidos, abra mercado na China, o Brasil continua sendo o principal destino das exportações argentinas, né? Mas o fato, e isso quem me chamou atenção foi a Mônica Hirsch, é que não dá simplesmente para desprezar o Milei, porque ele nesse discurso, foi um discurso de quase meia hora lá no centro de convenções do Pacaembu, ele fez um longo, ele quis, além dos insultos, ele quis mostrar como ele, a política econômica dele deveria ser seguida no Brasil e não é.
Na verdade, ele domou a inflação. A inflação da Argentina era estratosférica. Ele conseguiu domar com custo social altíssimo, né, e com apoio dos Estados Unidos. E ele ganhou as eleições no Congresso recentes e conseguiu mitigar a liderança da Cristina Kirchner. E há chances reais de que ele se reeleja, a despeito de estar enfrentando uma queda de popularidade agora. Se ele usou essa vinda ao Brasil, esses insultos ao Lula e esse discurso muito aguerrido para conseguir reverter esta queda de popularidade, não parece que será o caso, porque a repercussão foi muito negativa.
Eu tava lendo o noticiário do La Nación, que é um jornal, digamos, conservador. Um jornal mais à direita, disse que dificilmente algum presidente argentino será capaz de reproduzir o desastre que o Milei fez para as relações internacionais da Argentina, como o Milei fez neste fim de semana. Então, e o quanto que isso pode afetar afetar o país, a economia do país. Então uma reação de fato muito ruim por parte da imprensa. A gente não sabe exatamente como é que isso chega na população, mas eis que o Milei veio aqui para provocar, o Lula veio aqui para despertar animosidade entre Brasil e Argentina e entre argentinos e brasileiros.
E a recomendação geral é que ninguém desça para se chafurdar na lama com o presidente argentino. Perfeito.
Maria Cristina Fernandes conosco diariamente em Tudo É Política. Obrigada, Maria Cristina, um beijo para você, até amanhã.
Beijo, Tati, na Debs. Até amanhã, boa tarde aos ouvintes.