Por que a gentileza começou a parecer suspeita?
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Michel Alcoforado
- Generosidade InconvenienteWorld Giving Index · Indonésia como Pivô Geopolítico · História da África · Jogo dos Bens Públicos · Pressão social
- Cultura de filantropia no BrasilDoação anônima · Redes sociais · Índice global de doação · Controle de doações
- Caridade e FilantropiaInfluenciadores e doações forjadas · Doação de sangue para faltar ao trabalho · Vantagens em concursos públicos · Currículo e trabalho voluntário
Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado.
Tá vivo, Michel? Boa tarde!
Deus do céu, a rave dos livros, né? Para a gente que não foi nem rave, que ficou lendo livro quando tinha idade para ir, aí agora que já passou do tempo de tudo resolveu fazer rave dos livros. Eu não sei como é que você aguenta isso todos os anos.
Há 15 anos é assim, Michel Cofurado, o corpinho não aguenta mais. A cabeça até que sim, mas o corpinho padece, né?
É, eu adorei o Walter Gullman dizendo que adora o pé de moleque de Paraty, né, que são aquelas pedras que foram colocados pelos escravizados para pavimentar a cidade, mas que ele sugeriria levar todas elas de tão bonitas para o museu, tirar das ruas, provocando gargalhadas na plateia, não é mesmo? Eu concordo, porque a gente tem que dar conta dessa quantidade de compromissos, andar de um canto a outro, ainda ficar se equilibrando naquele monte de pedra escorregadia. Mas sobrevivi, um pouco quebrado ainda, Sensação de ressaca, sabe?
A Daniela Reis, que é jornalista, escritora e tal, ela fala que a segunda-feira ou domingo é tipo a quarta-feira de cinzas, assim.
Exatamente.
A Janaína, que teve lá também, tá aqui: total, é isso mesmo. A Nadédia, que foi ano passado, tá aqui assim, ó, concordando também.
Precisa de um sustinho. Ainda bem que ela foi com a idade apropriada, né? Eu já não tenho mais idade, fui mesmo assim.
Olha, mas eu caí bastante nas pedras, escorrega A gente tá falando, a gente tá falando da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, que aconteceu nesse último, nessa última semana, né? Começou na quarta à noite, foi até domingo. Michel, o rei de Paraty, esteve lá em todos os lugares, todos os lugares para onde você olhava. Mentira, não, também não foi assim, também não foi assim, mas Michel tava bem concorrido nessa Flip, que eu sei, e teve com a gente também no nosso estúdio CBN, diretamente de lá.
Você sabe que o assunto que você propõe hoje, acho que pode conversar com o assunto que a Carol Tchukian nos trouxe agora? Você tava ouvindo?
Eu tava ouvindo, tava, tava, adorei. Eu achei que já era conexão assim.
Ela falou sobre a importância da gente contar com as amigas, sobretudo com os olhares das amigas ao nosso respeito, que possam nos lembrar de algo ao nosso respeito que a gente mesmo esqueceu. E ela sugeria: faz um elogio hoje para uma amiga sua, lá lá lá lá lá lá. E eu dizendo: mas também não é qualquer elogio, porque dá para perceber quando esse elogio é sincero e quando não é. E aí eu falei: olha só que o Michel vai falar sobre por que a gentileza começou a parecer suspeita. Combina, não combina?
Combina, combina. Você sabe que todos os anos é Vários institutos, mas sobretudo um que eu adoro, que se chama— é um instituto que gera uma classificação do grau de generosidade de cada país, né? Isso é feito por uma fundação chamada Charity Aid, que a sigla é fácil, mas eles produzem um relatório anual que se chama World Giving Index, né? Que nada mais é do que um índex de capacidade de doação de cada país. E já há muitos anos a Indonésia figura entre os países que mais as pessoas doam, dão um tempo e dão um dinheiro. 90% da população indonésia fez doação financeira no último ano e 70% doou tempo para os outros para tentar construir um país melhor.
E olha que doido, isso não tem nada a ver com dinheiro, porque a África proporcionalmente enquanto continente é o continente que mais as pessoas estão envoltas ou envolvidas em grandes doações. Então, se a gente comparar a renda per capita dos países africanos com a quantidade de dinheiro que eles doam, eles estão anos-luz na nossa frente e anos-luz também na frente de países desenvolvidos. Mas isso abriu brecha para a gente pensar um pouquinho sobre a generosidade, como é que a generosidade cada vez mais tem sido fonte de desconfiança.
Para os ouvintes entenderem aqui de forma fácil, simples, olha, você começa a olhar para alguém que fez uma grande doação, aí você olha para a pessoa, uma série de interrogações começam a aparecer na nossa cabeça. Tá doando por quê? Tá doando para aparecer? Tá doando porque tá querendo ganhar alguma coisa com isso? Tá doando porque quer aparecer bem na fita? Tá doando porque tá achando que vai ganhar alguma coisa de volta? É difícil que a gente acredite que alguém tá doando só porque quer doar ou tá doando só porque tá preocupado em ajudar o outro.
Então, a ideia da generosidade como fonte de desconfiança não é nova, mas ela vem se intensificando nos últimos anos. E como é que os especialistas fazem essa medição? É de um tipo de experimento chamado Jogo dos Bens Públicos, tá? É muito utilizado por cientistas sociais economistas e por estatísticos. Eles fazem uma brincadeira mais ou menos assim: coloca um grupo de pessoas numa sala e distribuem uma quantia de dinheiro igual para todos eles, ou fichinhas mesmo, tá?
Pode ser fichinha parecida com aquela que a gente, que tem cassino, sabe? Fichinhas mesmo de jogo de brincadeira. E aí faz uma seguinte proposição para os participantes: olha, todo o dinheiro que vocês derem para uma caixinha pública, não guardarem na sua caixa pessoal, na sua poupança individual, vai ser multiplicado por um determinado valor e a gente vai dividir isso por todos os participantes. Então, para ficar claro aqui, quanto mais as pessoas doarem esse dinheiro para o bem público, esse dinheiro vai ser dividido por um maior número de— vai ser multiplicado por um determinado valor, isso vai ser dividido por todo mundo. Então, se todo mundo doar, é bom para todo mundo.
Né?
Isso vai ficando claro. Só que qual que é o jogo? É esse teste, ele é usado para a gente medir grau de confiança das pessoas na brincadeira ou no acordo, e também para medir o altruísmo das pessoas. E o que eles observam é que o peso da sociedade interfere para o bem e interfere para o mal. Por que que interfere para o bem? Interfere para o bem porque se todo mundo começar a doar e você não doar nada, pega mal para você. Então, países que têm uma taxa de doação maior ou que têm um compromisso maior com a coletividade, com o bem público, automaticamente isso força que mais gente se preocupe em doar, porque fica feio se você não doar, né?
Muito comum em pequenas comunidades religiosas ou mesmo pequenos grupos que o hábito da doação é frequente. Aquele que não doa passa vergonha. E aí doa mesmo sem querer doar. Então a pressão social é importante. Só que por outro lado, tem um lado muito negativo nesse jogo também, porque eles repararam que o apetite de doação das pessoas variava a partir da percepção que o grupo teria sobre o próprio comportamento. Então se tem um grupo, eu, você e Nadedja, se eu dou 100, você doa 50 e você e Nadedja doa 50, Eu fico com medo de doar 100 porque eu vou ficar pensando, putz, a Tati e a Nadédia vão achar que eu tô doando mais porque eu quero mostrar que eu tenho mais dinheiro.
Coisa de rico, né?
É, ainda não, né? Tô trabalhando aqui.
Mas o temor é que a gente pense que sim.
Que a gente pense que sim, exatamente. Ou que a gente pense, ou que vocês pensem que eu quero ficar por cima da carne seca, que eu vou ganhar alguma coisa porque eu tô doando mais. Ou que eu quero aparecer. Não por acaso, no Brasil, e em outros países isso acontece também, há um tipo de doador que é muito frequente, que é aquele que doa, mas pedindo sigilo ou privacidade em relação à própria doação, porque tem medo dessa avaliação pública.
E a gente acha isso bom, usualmente, né? Você fala, ah, que bom, fulano é tão generoso que ele nem quer doar. Só que ele nem quer que digam que ele doou. Só que isso é ruim também. É ruim por quê? Porque acaba dando em menos gente doando, e aqueles que doam, doam menos do que doariam se tivesse uma pressão pública sobre os próprios comportamentos. Então, quando você vai, sei lá, num museu nos Estados Unidos e tem aquele monte de quadrinho com gente dizendo, olha, essa cadeira foi doada pela família X, esse quadro foi doado pela família Y, essa obra foi doada sei lá por quem, de algum modo, as famílias que estão naquele entorno se preocupam em doar.
Quando a gente tira isso, a gente para de ter essa pressão sobre o próprio comportamento. E aí que dá nesse fenômeno que é cada vez mais comum, sobretudo em tempos onde a privacidade se transformou em algo raro e tudo tá às mostras ou às claras aí pra tudo quanto é lado. Em tempos de redes sociais, a desconfiança sobre a própria generosidade tem pesado à beça. Então, em lugares como o Brasil, por exemplo, apesar da gente ter melhorado, Ganhamos 3 posições no último ano.
Ainda é um tempo muito delicado. A gente deveria falar mais do que tá doando e julgar menos quem tá doando para que a gente construa uma sociedade que a doação se transforme em um elemento importante do nosso dia a dia.
E uma sociedade como a nossa, imensa, profundamente desigual, né? Será que teria efeito, Michel, se a gente falasse mais sobre isso de uma maneira menos preconceituosa até? Porque acho que é disso que se trata, né?
Até seria isso.
Eu acho que teria um efeito fundamental.
Só para dar o meu exemplo, cronicamente online é sempre, né, vou dar exemplo de um perfil, mas tem vários assim perfis de redes sociais que são sobre fazer caridade ou fazer trabalho voluntário. Então, para citar um, é uma pessoa que recebe doações dos seguidores para comprar comida para distribuir para pessoas em situação de rua nos Estados Unidos. E todo, todo, todo vídeo você vai ver uma briga nos comentários, vai ter sempre uma pessoa falando: para que mostrar?
E a outra respondendo para incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo, para doarem para essa causa. Todos, todos terminam com essa mesma discussão.
E o que incomoda tanto a pessoa que tá vendo aquele vídeo e questiona: para quê mostrar?
É isso, a gente tá brecando a cultura ou a constituição, a construção de uma cultura de filantropia no Brasil. Então É bom deixar público pra mais gente se sentir obrigado a... Ao mesmo tempo, quando fica público, é bom a gente não questionar. Porque se questiona o quanto fulano deu, por que que deu, quanto vai dar, o que que ele tá ganhando com o que tá dando. Todo mundo aqui já ouviu isso antes, né? Toda vez que você vê uma grande doação de alguma pessoa que tem muita grana, aparece sempre o questionamento: ah, mas deduziu do imposto.
Ah, mas tá querendo aparecer. Ah, deixa para lá, né? Vamos focar aqui no resultado final e menos no quais são as intenções, se há intenções para isso.
Tem um ouvinte aqui dizendo que costuma ser mais genuíno quando não é tão relacionado a questões de trabalho apenas, onde tem mais diplomacia e teatralidade. Acho que foi isso que ele quis dizer. Envolve apenas duas pessoas. E a coisa da doação, ele está dizendo, pode ser usada mais para aumentar o próprio ego do emissor quando tem mais de dois indivíduos. E que tem questões sociais e econômicas que precisam ser colocadas, senão, para não cair no discurso raso de doar pouco para alguns é muito, doar muito para outros é pouco.
Eu acho que no Brasil a filantropia é um dilema tão grande ainda que é melhor a gente estar preocupado se as pessoas estão doando. O volume é uma questão para daqui a pouco. A gente ainda doa pouco aqui, né? Só para ficar claro, nesse índex global A gente tá na 86ª posição. Quem não é muito versado aí nos números, é a posição 86 do planeta, assim. A gente tá mal, a gente tá mal pra caramba, muito atrás de vários países da América Latina e muitíssimo atrás de vários países que são infinitamente mais pobres que a gente, com renda per capita menor, com PIB infinitamente menor, como já citei aqui.
A Indonésia figura entre os países, é o país que mais doa no mundo, e os países africanos são aqueles que mais doam proporcionalmente. Então, se a cultura da doação virar uma realidade, é importante. E olha, eu acho engraçado, num país que a gente questiona sempre o pagamento de impostos, porque sabemos, né, que vira e mexe os nossos impostos não são destinados do jeito que deveriam ser, a doação é um ótimo aspecto pra isso, né, pra gente chamar atenção pra possibilidade de você não só definir para onde vai o seu dinheiro, mas também controlar para onde esse dinheiro tá indo.
Várias instituições da sociedade civil já fazem esse tipo de controle e, mais do que isso, desenvolveram uma série de métricas e indicadores para mostrar o impacto da doação. Então, o argumento contra tá perdendo valor porque a gente desenvolveu a BESSA e uma série de mecanismos para tentar fazer com que a doação se transforme numa realidade nacional.
É, os ouvintes estão falando, o Alexandre aqui citou um exemplo, tem vários, né, de benefícios para doadores. Ele tá falando sobre doação de sangue, que as pessoas doam para faltar ao trabalho. E aí tem aquelas outras coisas, né, doa sangue para ganhar vantagem em caso de empate em concurso público, mas que seja, né, ou só para se promover.
Tem ouvinte dizendo aqui, lembra daquele influencer que forjou uma doação?
Eu lembrei, hein.
1 milhão para se promover, porque enfim, o mundo é horrível também, né, Michel Alcoforado?
É, mas aí a justiça tá aqui para resolver esses casos e a justiça divina resolverá depois. Então aí eu tô tranquilo, eu tô tranquilíssimo.
Eu também.
Bom, eu já ouvi falar muito sobre a questão, por exemplo, é bom você colocar no seu currículo que você fez trabalho voluntário. Mas bate uma culpa mesmo assim, dá um constrangimento, tipo, nossa, vou colocar aqui que eu fiz. Não deveria, né?
Não, não, não.
Vamos ficar em paz, né? Porque tem algo que a gente tá ajudando. Eu acho que esse é o caminho. E no Brasil essas avaliações são sempre constantes, isso atrapalha. A gente tem que resolver esse negócio.
Tô bom. Michel Cofrado conosco às segundas, quartas e sextas, enchendo a gente de perguntas, enchendo a nossa cabeça de minhoca em Pra Onde Vamos. Obrigada por hoje, Michel, por todas elas. Um beijo para você, até quarta.
Até quarta, espero que mais vivo no corpo e na mente.
Se bebe água.
Beijo.