Interferência externa deve ampliar tensão até as eleições
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Eduardo Graça
- Interferência Externa em EleiçõesJavier Milei · Alexandre de Moraes · Presídio Federal de Brasília · Governo argentino · Governo dos Estados Unidos · Urnas eletrônicas
- Oposição interna ao Trump sobre guerra no IrãEstados Unidos · Irã · Forças Armadas e Defesa · Estoque de mísseis · Teerã
- Estratégia eleitoralDonald Trump e a NASA · Partido Democrata · Expansão do Republicanos na Alesp · Eleições de meio de mandato · Lei e ordem
Oi, boa noite, Vera querida, boa noite, Carol. Oi, Débora, boa noite, ouvintes.
Edu, a gente viu nesse fim de semana, né, uma nova rodada de crise entre o governo brasileiro com os governos aí da Argentina e dos Estados Unidos. Até as eleições de outubro, a pressão dos países comandados por adversários ideológicos do PT tende a subir. De que forma isso tende a impactar as nossas relações diplomáticas, a própria eleição e a economia?
Pois é, para quem tinha ainda alguma dúvida, né, Vera, esse fim de semana ilustrou como essas eleições aqui no Brasil definitivamente não serão iguais àquelas que passaram, embora a efetividade dessas interferências externas seja questionável. Na convenção do PL aqui em São Paulo, o presidente argentino Javier Milei Chamou o presidente Lula de presidiário, ministro Alexandre de Moraes de lixo careca. O ministro da Fazenda, Dário Durigan, entrevista hoje, chamou Milei de palhaço.
Mas a reação oficial do governo brasileiro, vi Itamaraty, foi a de convocar o embaixador argentino para explicar as grosserias. O embaixador brasileiro na Argentina de volta à Brasília, além da manifestação sóbria e firme do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que tirou o episódio do bate-boca e o levou para o devido universo das relações entre duas nações amigas, e no caso do Brasil, como ele frisa, o principal sócio comercial da nossa vizinha.
O Milei provavelmente vai bater pé, não vai se desculpar oficialmente, tentando com isso ganhar alguns dividendos ali com eleitor argentino, mas não deve escalar ainda mais a queda de braço, até porque isso complicaria ainda mais a campanha do aliado dele, Flávio Bolsonaro, aqui no Brasil. A maioria das pesquisas mostram que os brasileiros torcem o nariz para interferências diretas estrangeiras. Sejam elas histriônicas, como foi a do Milei, ou menos teatrais, mas nem por isso menos graves, como o caso dos dois funcionários do Departamento do Estado americano que, após a reportagem do Washington Post informando que eles viriam ao Brasil para questionar as nossas urnas eletrônicas, tiveram os seus vistos negados.
A Casa Branca deve reagir de imediato com algum tipo de reciprocidade, negando, por exemplo, visto alguns nomes do segundo escalão do governo brasileiro. E não tenho a menor dúvida de que seguirá tentando outros todos os caminhos até outubro para deixar clara a sua preferência por Flávio Bolsonaro. O Trump acredita que ele foi decisivo, o que também é questionado por analistas dentro e fora dos Estados Unidos, para vitórias recentes da direita na própria Argentina, nas eleições legislativas lá, na Colômbia, no Peru e em outros países latino-americanos.
Mas essa interferência explícita também prejudicou, mostram estudos, candidatos apoiados por ele que acabaram derrotados no Canadá, na Austrália e mais recentemente na Hungria.
Edu, faltam 100 dias, né, para as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Essas eleições vão definir quem é que vai controlar o Congresso por lá. Quais são as principais apostas do governo Trump e da oposição democrata nesses próximos 3 meses de campanha?
Débora, ontem a gente viu um retrato do que vai ser a campanha democrata. Eu tô me referindo especificamente ao evento em torno desses 100 dias que foi feito na Pensilvânia, não por acaso o estado mais decisivo dos mais decisivos na disputa presidencial, que reuniu o líder da oposição na Câmara, o Hakeem Jeffries, e o governador Josh Shapiro, um dos favoritos para ser candidato à Casa Branca em 2028. Os dois incentivaram os democratas a, nos próximos 3 meses, baterem na tecla de que esse pleito agora de novembro é um plebiscito sobre o Trump 2.0, que em 2024 o Trump foi recontratado pelos eleitores para gerenciar a economia americana e que ele falhou.
E agora precisa ser fiscalizado pelos democratas para o país começar a voltar aos eixos. Que em 2 anos os bolsos dos americanos ficaram mais vazios, a inflação mais alta, inclusive pelos tarifações e a guerra no Irã, e que houve enriquecimento sim, mas dos amigos do presidente, com indícios graves de corrupção e uso do poder para benefício da família e dos negócios de Trump. As pesquisas mostram que esse discurso tá funcionando até agora, mas os republicanos também têm as suas armas.
Eles estão apostando majoritariamente em duas frentes. A primeira é a de que o corte de impostos e o tarifaço gerarão mais empregos com a reindustrialização do país e melhorarão a economia em médio prazo. E a segunda, que é a que os democratas temem mais, é engordar o discurso que eles já têm da lei e da ordem com a difusão do medo em eleitores independentes com avanço da esquerda nas prévias do Partido Democrata, que estão sendo impulsionadas pela percepção popular de sucesso até agora da administração do socialista Zohran Mandani em Nova York.
Os republicanos têm 100 dias para convencer o eleitor de que um Congresso democrata significaria um legislativo antiamericano que se posicionaria não só contra os eventuais erros da Casa Branca, mas contra as ambições futuras do próprio país, no momento crítico em que os Estados Unidos travam uma guerra sem fim no horizonte contra o Irã.
Edu, queria te ouvir rapidinho sobre a guerra no Irã, porque Washington cada hora fala uma coisa, né? Fala em negociação, depois fala em ataques mais terríveis nos próximos dias. O Trump tá no meio no modo shuffle. Que que a gente pode esperar aí nas próximas semanas?
Pois é, e o governo Trump precisa encontrar uma narrativa interna para que a guerra não seja um fator que retire votos dos candidatos governistas em novembro. É, há sinais mais claros do porquê desse morde-assopra da Casa Branca, viu, Carol? O Wall Street Journal publicou duas reportagens nos últimos dias ouvindo fontes das Forças Armadas americanas que mostram que a suspensão dos bombardeios diários ao Irã tá relacionada ao nível muito baixo de estoques de mísseis do sistema de defesa aérea americana, que são fundamentais para reduzir o efeito das retaliações iranianas.
Os mísseis foram usados pelos Estados Unidos de tal forma desde fevereiro que não há vazão para se seguir os ataques sem risco de mais mortes e feridos americanos, o que complicaria Trump. O jornal também detalhou como Teerã se recuperou muito mais rapidamente do que Washington imaginava do estrago feito pelos primeiros e intensos ataques ao país lá em fevereiro, se adaptando ao novo teatro de guerra, retaliando e causando, como a gente viu, baixas nas tropas e danos em equipamentos militares e nas bases americanas no Oriente Médio.
Enquanto as negociações seguem, Teerã segue jogando com o fato de quem precisa de opinião pública a seu favor é o governo Trump. Lá, a guerra teve um efeito contrário, com a diminuição do protagonismo dos manifestantes pró-democracia e o fortalecimento em torno da pauta de sobrevivência nacional da linha dura, ou seja, Deu tudo errado para Trump até agora.
É isso. Esse foi o Eduardo Graça, repórter especial, colunista do Globo, comentarista da CBN, conosco todas as segundas. Obrigada, Edu.
Boa noite, gente. Obrigado a vocês.
Tchau, tchau.