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Tarifaço e sanções ajudam a aproximar América Latina da China

24 de julho de 202620min
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Levantamento do Pew Research Center mostra que Pequim é vista de forma mais favorável do que Washington na maioria dos países da região. Bruna Santos comenta os dados e ainda traz dicas sobre livros que podem ajudar na percepção do assunto.

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Participantes neste episódio2
B

Bruna Santos

HostDiretora no Inter-American Dialogue
T

Tati

HostApresentadora
Assuntos4
  • Influencia Chinesa America LatinaPercepção favorável da China · Pew Research Center · Xi Jinping · Donald Trump e a NASA
  • Tarifas dos Estados UnidosTarifação · Sanções a políticos brasileiros · Washington
  • Relações comerciais e diplomáticas Brasil-IrãExportações brasileiras · China · Estados Unidos
  • Recomendação de LivrosMentalidade de abundância · Demon Copperhead · Vô em Cisnes Selvagens · Manutenção de extintores · Maria Valeria Resende
Transcrição22 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
TTati

CBN Pelo Mundo com Bruna Santos. Bruna Santos diretamente de Washington conosco no nosso CBN Pelo Mundo. Oi, Bruna, bem-vinda, boa tarde.

BSBruna Santos

Tudo bem? Boa tarde. Boa tarde, Bruna.

TTati

Eu tô ouvindo minha voz voltar aqui no meu fone, hein, pessoal? Eu acho que talvez seja no retorno da Bruna, de repente, não sei se Se talvez, quem sabe, pode ser melhorou. Pronto, agora já não tô me ouvindo mais. Eba! Não, eu voltei a me ouvir, mas tudo bem. Vamos nessa, vamos nessa, vamos nessa. Bom, a Bruna vai falar conosco hoje sobre uma pesquisa a respeito da percepção de China e Estados Unidos na América Latina, ou melhor, a respeito da percepção sobre a China e sobre os Estados Unidos na América Latina.

E vai falar de livro também, porque você queria estar aqui, fala a verdade, Bruna.

BSBruna Santos

Queria muito, é uma inveja boa.

TTati

Bom, eu acho que já tem um tempo que tem se discutido isso a partir das medidas primeiro anunciadas e depois efetivamente tomadas pelos Estados Unidos em relação ao tarifação, os efeitos disso e se essas medidas jogariam a América Latina, os países latino-americanos no colo da China. Agora a gente tem dados, é isso?

BSBruna Santos

Então, eu acho que tem muitas evidências já mostrando isso. Tem essa pesquisa que você mencionou, Tati, que é bem reveladora, que é uma pesquisa de um instituto chamado Pew Research Center, que ela mostra uma mudança muito importante na percepção global sobre Estados Unidos e China. Em cerca de 36 países. A China, ela já é vista para 25 desses 36 países como um país mais favorável do que os Estados Unidos. Em 22 desses países, eles observam o Xi Jinping como alguém mais confiável do que o Donald Trump.

É claro que a pesquisa, ela traz uma, uma uma métrica de percepção. Então não significa que o mundo ou esses países estejam aderindo ao modelo político chinês, mas mostra o quanto Pequim está se tornando cada vez mais confiável. E o que eu acho interessante da gente observar é que isso acontece de forma relativa. O que eu quero dizer? No momento em que a China se torna mais presente, mais familiar, mais difícil de ignorar, vamos dizer assim, isso, e também um parceiro mais previsível.

Ao mesmo tempo que está acontecendo, a percepção de confiança nos Estados Unidos está caindo. Então é uma questão relativa, não é exatamente que a China está se tornando nossa do nada um parceiro melhor, é que em relação às opções na mesa ela está realmente aparecendo como uma opção melhor.

TTati

Agora, como a necessidade econômica, né, cara?

BSBruna Santos

Nada como a necessidade econômica. E de novo, tudo é uma comparação. Se o coleguinha está indo mal, a percepção do coleguinha ao lado vai ser melhor, né? E na América Latina, os dados, eles são muito surpreendentes. Eu achei, pelo menos, porque a maioria dos países que estão ali, Argentina, Chile, México, Peru, todos eles, a China aparece à frente na medida de percepção. Os únicos que aparecem empatados é o Brasil e a Colômbia.

E eu acho que mostra, fala muito da do quanto as decisões recentes de Washington, né, a gente vem falando aqui, rodada de tarifaço, né, designação de grupos terroristas como, de grupos criminosos como terroristas internacionais. Eu acho que tudo isso vem se somando. E aí entra uma contradição que é o seguinte: Washington quer pressionar a região para sair de perto da China, mas ao fazer isso acaba entrando, acaba gerando um resultado oposto no longo prazo, porque no Brasil a China já compra quase um terço das exportações brasileiras, é uma participação na compra de exportações cerca de 3 vezes maior do que os Estados Unidos, uma participação que vem aumentando à medida que a participação americana vem caindo.

A Uncham fez um levantamento do primeiro semestre de 2026 e viu que as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram, 13% em relação ao ano anterior, enquanto que da China aumentaram, as exportações aumentaram em 22%. Então não é apenas percepção, já existe também uma mudança acontecendo no comércio, mas a percepção molda muita coisa. Bruna, além das tarifas, o que mais está influenciando esse afastamento? Então acho que tem, como eu falei, um acúmulo mais de ações e de posturas, um estímulo, né, tarifação 1.0, 2.0, sanções a juízes, a políticos brasileiros, a questão toda migratória que eu acho que afeta muito também, além, claro, da designação que eu mencionei.

Mas eu acho que é, observando ao longo do tempo, a gente saiu de um período de uma lógica de negligência dos Estados Unidos em relação à América Latina enquanto foco na sua política externa, para entrar numa lógica de engajamento muito coercitiva. Então a gente saiu assim, cara, eu não queria ser lembrado dessa forma, quase isso, né? Então, e uma forma muito pouco dialogada. Eu acho que esses exemplos que eu trouxe são uma demonstração disso.

Uma coisa que eu acho curiosa e é legal contar é que aqui eu passo muito, uma boa parte do meu tempo explicando o Brasil para o público internacional e para políticos e assim vai. E uma coisa que é difícil para eles entenderem é que o Brasil É um país que, como eu sempre digo, prospera no meio. É um país que não se vê sempre dentro de um tabuleiro Washington-Pequim e, ao contrário do que as pessoas aqui em Washington fazem, eu acho que eles insistem muito em só tratar a América Latina dentro desse tabuleiro, esse tabuleiro Washington versus Pequim.

E o Brasil é um país que prospera exatamente por nunca ter escolhido escolher lados. Ele escolheu essa independência. É um país que eu digo vive numa espécie de poligamia geopolítica. A gente quer sempre preservar esse espaço de manobra, negociar com diferentes parceiros. Então, a cada nova tarifa, a cada nova sanção, cada nova política aumenta o custo de Washington em relação a se tornar essa alternativa. E a outra coisa que eu acho curioso, e eu já falei também, acho que em algum momento aqui na conversa até com a Cristina, é que a China há anos atrás, há 16 anos atrás, quando eu mudei para Pequim em 2010, a China era um país muito distante do Brasil.

Era um país assim que comprava minério, comprava soja, as pessoas não entendiam muito bem. Hoje a China na vida do brasileiro ela tá no celular, no carro elétrico da BioID, que é um carro hoje São Paulo tá cheia. É um país que tá nas plataformas de comércio que todo mundo usa para comprar bens e blusas e tal. Então acho que para uma geração mais velha, a China e o produto chinês era muitas vezes sinônimo de algo barato e de baixa qualidade, enquanto que para os consumidores mais jovens isso pode significar uma coisa muito mais tecnologicamente avançada.

Então eu acho que essa experiência também tá mudando e na medida que ela se dá e isso tudo somado, você percebe que a China acaba não precisa ser admirada, o que precisa acontecer é ela estar mais presente, mais constante na vida e na economia brasileira e sobretudo mais estabilizadora do que a alternativa que nesse caso como potência é Washington.

TTati

Muito bem, muito interessante essa percepção geracional a respeito do que é produzido na China e essas relações comerciais. Muito, muito legal mesmo.

BSBruna Santos

Você nota isso também?

TTati

Eu acho que eu nunca tinha percebido, mas por isso que eu achei legal. Mas passarei a prestar atenção nisso. Achei boa essa leitura. Quero saber onde eu posso aprender mais. Sobre isso nos livros, ensaios, ficção, livro reportagem, ou o que que você vai indicar pra gente?

BSBruna Santos

Tá, eu quero entrar no clima da Flip, porque eu tô aqui, eu quero, eu tô aqui acompanhando super de perto a cobertura de vocês aí em Paraty. E também quero falar de livros, porque realmente eu acho que a literatura ela nos dá uma oportunidade muito única de sentar com a complexidade. Mais do que qualquer, acho que, analista internacional, ela nos ajuda a entender as coisas de um jeito mais profundo. E eu pensei em trazer aqui alguns livros que fizeram muita diferença no meu último ano.

Um é um ensaio e os outros dois são romance, e o último é um brinde porque eu tô terminando ele e a autora tá na Flip. Então vamos lá, o primeiro deles é esse aqui que chama, eu tô com a edição em inglês, chama Abundância. Que é um livro que foi traduzido para o português na edição de Portugal, mas ele tá disponível na Amazon. Ele foi escrito pelo jornalista Ezra Klein, do New York Times, e um colega dele chamado Derek Thompson.

E ele fala, ele traz um paradoxo sobre a América, sobre os Estados Unidos, que eu acho bem interessante e dialoga muito com várias coisas que a gente tem falado aqui, que é a ideia de que os Estados Unidos continuam sendo uma potência científica, tecnológica, financeira, desenvolve tecnologia artificial, cria empresas incríveis, né, como muitas das que a gente interage todos os dias, mas ainda hoje especialmente encontra muitas dificuldades para construir coisas em bases concretas.

E aí ele traz vários exemplos e um deles, que eu acho talvez o mais significativo aqui, é a crise de moradia nos Estados Unidos, o quanto o governo parou de conseguir entregar bens públicos para as pessoas e gerou hoje uma crise de moradias no país que chega a um déficit de quase 4 milhões de casas, assim, de pessoas, né, vivendo numa situação muito precária de moradia. E aí os autores, eles fazem uma conversa que é assim: como é que um país tão rico, tão inventivo, perdeu tanta capacidade de produzir, de criar, né?

E aí eles trazem ali algumas hipóteses E uma das hipóteses deles é que a gente criou muitas instâncias de, né, muita burocracia, muita instância de veto. Mas a alternativa que eles dão não é uma alternativa neoliberal. O livro não é um livro do campo da direita, ele é um livro do campo da esquerda questionando as práticas da esquerda. E é uma discussão que eu acho muito interessante porque ela traz essa crítica ao progressismo dentro do próprio campo progressista e dialoga muito com os desafios do Brasil.

Não é uma fórmula, mas é um livro super interessante e convido todo mundo para entender os Estados Unidos de hoje, né? O romance que eu queria trazer é um romance que eu achei muito bacana, que chama Demon Copperhead, e eles não traduziram porque o título é exatamente uma brincadeira com o David Copperfield, de um livro do Charles Dickens. E por que que eu acho um livro muito gostoso? E o título é esse, é o nome do menino. É publicado acho que pela Morro Branco no Brasil.

E ele é um romance que nos leva, quando você tá lendo, para uma região aqui que chama Apalaches, que é uma região americana que normalmente a gente ouve muito falar durante as eleições aqui porque é uma região muito conservadora e muito trumpista. E o romance ele faz um movimento oposto, que é assim: eu não vou apresentar essa região dentro dessa ótica, eu vou contar a vida de um menino que é um menino super engraçado, super cheio de vida, assim, meio insolente e tal.

E ele passa ali pela pobreza, pela dependência química, pelo abandono institucional. Ele fala muito no livro, o livro te mostra muito sobre a crise dos opioides aqui, que é o vício em drogas que vem do ópio, né, que é uma crise também super séria. E olha para essas coisas com muito humor, assim, não é um livro que traz uma sucessão de tragédias, mas ele nos apresenta uma uma América mais distante, sem cair naquele rótulo do tipo, ah, é uma região de pessoas que têm armas e são radicais.

Não, assim, ele traz muita verdade, muito bacana. E o personagem é um menino lindo, assim, é muito gostoso. E o outro é muito legal. Convido, gente, todo mundo, assim, pra entender e se identificar. O outro que eu também adoro que é de uma mulher que eu acho muito boa, que chama Jung Chang. É uma chinesa. O nome do livro é Vô em Cisnes Selvagens: Minha Mãe, a China e Eu. Esse livro, ele traz uma coisa, ele continua uma história que ela escreveu num outro livro chamado Cisnes Selvagens, que ficou muito, muito famoso no Brasil.

E nesse livro ela retoma a história da família dela Desde o fim da era do Mao Tsé-Tung na China, né, o cara que fez a Revolução Cultural, que instalou lá o, né, o Partido Comunista Chinês, passando pelas reformas do Deng Xiaoping, que é o cara que também fez as reformas, digamos, de abertura chinesa, e acompanha o país, né, a pobreza, a fome, o isolamento, a volta para o mundo, até chegar no atual governo do Xi Jinping. E ele fala isso, só que ele não fala isso do jeito que, sei lá, eu como analista internacional aqui falaria, né?

Ela conta a história dentro da vida da família dela e dos conflitos geracionais dela com a mãe. Então é muito bonito também porque ele fala de um, até de um contraponto com esse livro anterior que eu tava falando, do Abundância, que é, tá, a China tá lá construindo, se modernizando, mas ao mesmo tempo é um país que vive um problema cultural ali de choque entre as gerações, e um país que controla a memória histórica, que é onde é muito difícil acessar muitas vezes a memória das gerações passadas, porque há muita censura, né, muito, muitos tabus.

E é lindo, a capa é super linda, e tá publicado pela Companhia das Letras no Brasil. Eu li também em português, chama Avô em Cisnes Selvagens. Assim, lindo. A China, além do A China para além do clichê, assim, vocês vão gostar.

TTati

É muito bom.

BSBruna Santos

E o último é brinde, porque eu tô terminando ainda, e foi uma recomendação da Patrícia Campos Melo no Instagram dela, acho que umas 3 semanas atrás. E a autora tá na Flip, então, Tati, pega um autógrafo para mim, que é Extinção, da Maria Reva. E eu trouxe de brinde porque, gente, esse livro, eu nunca mais serei a mesma assim. É um livro muito bacana, porque ela tava lá escrevendo.

TTati

Tem coisa bonita que mexe assim com a gente, né?

BSBruna Santos

Nossa! E assim, é uma história que ela tava escrevendo, é uma história super curiosa que acompanha uma cientista que pesquisava espécies raras de lesmas, de caracóis. E o livro começa assim, é um livro curioso, engraçado e tal. E aí, enquanto ela tava escrevendo, um acontecimento muito drástico atravessou a vida da autora. E aí vai atravessar o livro também, que é a invasão da Rússia na Ucrânia. Então a guerra ali estourou e a autora parou de escrever nesse período.

Bom, guerra, como é que eu vou estar aqui escrevendo sobre a cientista lá que preserva as lesmas, né? Aí ela parou de escrever e de repente ela, quando retomou o manuscrito, ela decidiu incorporar na história essa ruptura, essa crise criativa que ela passou, né? Esse momento de confrontamento com essa destruição do país dela, que é a Ucrânia. E aí ela incorpora isso de um jeito que ela convida o autor para viver essa ruptura na leitura.

Então o livro mistura a trama original, e aí de repente a trama toma outro rumo, e ela começa a falar da guerra não como a guerra no pano de fundo dos personagens, mas como algo que transforma a experiência dela ali escrevendo. O título do livro é Endling, em inglês, que eu acho que é uma palavra que não tem tradução, que é uma palavra que significa o último indivíduo de uma espécie. E aí eu olhei, quando eu olhei a capa na recomendação, eu pensei, nossa, deve ser um livro sobre, sei lá, né, ecologia.

E no fim, nossa, livro super transformador, até nas páginas finais, amando. Então assim, leiam porque vale muito a pena. E de novo, cara, a literatura é um negócio que te ajuda a ir muito além da superficialidade do debate político, da rede social, e vai assim num outro, numa outra dimensão. Então assim, leiam. E eu queria muito estar aí, Tati. Espero estar no ano que vem, né? Vamos conversar com a CBN.

TTati

Programe-se, venha. Vamos, vamos conversar, claro que sim. Ô Bruna, tem alguns ouvintes pedindo para que você faça como a gente faz aqui com Zé Godói, com a Patrícia Koguchi, repita os nomes e os autores dos livros que você recomendou para dar tempo de todo mundo anotar.

BSBruna Santos

Então, Abundância, do Ezra Klein e Derek Thompson. Demon Copperhead, aí eu não falei o nome dela, é Barbara Kingsolver. Demon Copperhead. É o nome, Bárbara Kingsolver. Aí o outro é Voem, Cisnes Selvagens, Minha Mãe, a China e Eu. E o último chama Extinção, da Maria Reva.

TTati

Maravilhoso!

BSBruna Santos

Se eu estiver pronunciando errado os nomes, peço desculpa, mas é isso.

TTati

Boa, muito bom, muito bom! Bruna Santos com a gente diretamente de Washington, nos ajudando a entender o mundo e ainda dando ótimas recomendações literárias. Áreas para ajudar nesse aprendizado. Obrigada, Bruna, um beijão, até a semana que vem.

BSBruna Santos

Obrigada, queridas, beijo, beijo.

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