Flip: livro "Eu Mereço!", de Paula Sibilia
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Michel Alcoforado
- O livro 'Perfeita' de Rafaela S. GuidoSaída de Bolsonaro da UTI · Sociedade do cinismo · Hipocrisia vs. Cinismo · Autenticidade e rebeldia
- Festa Literária Internacional de Paraty· CulturaPedras escorregadias · Chiques de Paraty
Pra onde vamos com Michel Alcoforado? É o rei de Paraty, Michel Alcoforado. Boa tarde.
Boa tarde. A gente teve uma amiga, a gente tem uma amiga, né, Cris Nalmóveis, que era considerada prefeita de Paraty, né? Temos que combinar com ela, você pode ser rei.
Você chegou por cima, nossa família imperial aqui, ó, é o Michel que manda. Tudo bem?
Tudo bem com você?
Tudo bem, tropeçando muito nas pedras. Meu Deus, trabalhando demais.
Você não olha nem para as casas, né, nem para os autores. Os autores passam aqui anônimos porque as pessoas estão sempre olhando para o chão. Isso aqui, Paraty, eu acho que é um banho de humildade. Você é obrigado não tem nada a ficar, né, olhando para o chão todos os dias que fica por aqui. Quando ameaça chuva é pior ainda, né, porque algumas pedras são lisas. E aí não há o que que faça. Mas olha, os chiques de Paraty continuam chiques, né?
As senhoras de linho, chapéu Panamá, óculos escuro grande, estão aqui andando como se não tivesse tênis confortáveis. Isso aí. Aí os senhores também, quatrocentões, com seus, com as suas roupas, estão tudo, tá tudo tranquilo assim. Eu não sei, acho que é muitos anos de treinamento, né? Eu e você que somos recém-chegados que estamos sofrendo.
Então Bom, eu frequento essa festa faz tempo, né, mas nunca me acostumei, não, nunca me acostumei, sigo escorregando por aí. Mas vamos que vamos, já que estamos aqui, Michel meio que convencionou sem convencionar que às sextas no Pra Onde Vamos ele vai falar sobre livros. E bom, hoje da Philips tem que ser, né?
Então é um livro de uma pesquisadora que é antropóloga brasileira-argentina, argentina-brasileira, que é Paula Sibília. Ela é antropóloga, depois ela foi fazer mestrado e doutorado em comunicação. Hoje ela é professora da Universidade Federal Fluminense. E Paula Sibília acaba de lançar um livro publicado pela editora Uhuu que se chama Eu Mereço. Eu adorei o título. É isso mesmo, Eu Mereço. Eu mereço por quê? Porque antigamente a gente gostava de acreditar que para você merecer alguma coisa, fosse boa ou fosse ruim, você precisava ter feito alguma coisa por isso.
Então você se comportou direitinho na escola, você ganhava estrelinha porque tinha se comportado bem. Agora, se você fez alguma coisa ruim, a ação e reação ia te devolver no mesmo truco. Agora não. A Paula vai estudar esse fenômeno que ela acredita que hoje as pessoas acham que elas merecem só porque elas são elas.
Os alecrims dourados.
Então, só que antes, quando era só alecrim dourado, era uma meia dúzia, mas parece um comportamento massificado. E o que ela vai muito, de forma muito interessante, mostrar é que essa sociedade que a gente está vivendo hoje Não é mais uma sociedade da culpa, não é mais uma sociedade do arrependimento e não é mais uma sociedade da castração. Ou seja, onde a gente deixa de fazer o que a gente quer em nome do bem comum. Pelo contrário, essa é uma sociedade onde a gente acha que a gente é tão mais importante do que o coletivo que autenticidade, rebeldia, é falar o que você quer, é fazer o que você quer sem pensar nas consequências.
É um sinal de autenticidade, ou fulano tem talento, ou fulano pode o que quer. E aí ela chama atenção para um reflexo, um debate interessante, que ela vai falar que a hipocrisia, a hipocrisia deixa de ser um valor dos nossos tempos, e a gente tá vivendo em tempos do cinismo. Como é que se dava a hipocrisia? Hipocrisia era assim: você vivia um casamento longo e aí dava suas puladas de cerca. Mas o pai tava lá fazendo o papel de pai, né, dizendo para os filhos e para filha sobretudo que não podia se comportar de outro modo.
Quem essa pessoa era? Era um hipócrita, né? Ou senão você tava comprando, comprando, comprando, comprando, comprando, olhava para moça que trabalha na sua casa, ou qualquer pessoa mais simples, e dirigia: você não pode comprar. Ou senão você dizia para o seu filho: olha, não pode fazer tal coisa, aquela coisa que mãe falava que era Faça o que eu faço.
Eu ia falar, minha avó falava isso: faça o que eu digo, não faça o que eu faço.
É, então esse é o típico dilema da hipocrisia, porque na hipocrisia, o que que a gente pode fazer? Você tem uma liberdade fingindo que a regra não existe, né? Então você aceita a regra, momentaneamente você finge que ela não existe, e aí você faz, vive a sua liberdade. Agora não, a hipocrisia saiu de moda. O que a Paula vai mostrar? Que o cinismo tá na moda. E que que é o cinismo? Apesar da regra, eu resolvo não segui-la. E apesar de eu não seguir, isso não é ruim, é bom, porque é um sinal claro de que eu faço o que eu quero.
Então, má educação, político que não se comporta, toda quebra da liturgia da vida pública ou do espaço público, do decoro, se esfacela, se esfacela, porque as pessoas acham que quando elas rompem com a regra, elas estão sendo elas mesmas, porque elas merecem ser elas mesmas. E aí a vida social vai ficando difícil para caramba, né? Então dá para entender tudo, dá para entender desde porque que no jantar de família tá cada vez mais difícil a gente conviver com os outros.
Porque às vezes a família era assim, né? Família é um bom momento de hipocrisia. Você tem lá a regra, o jantar de família tá dado, todo mundo se odeia, mas você faz a figuração ali de que é importante aquele vinco. Agora não, né? A gente não consegue mais ter sociabilidade com ninguém porque cada um quer ser o que é, independente dos acordos, para poder dizer: eu mereço ser quem eu sou.
Muito bom, tá tudo lá, tudo lá.
Paula Sibília, leia Eu Mereço, Eu Mereço, publicado pela editora Uhuu.
Perfeitamente. Michel Confrato tá com a gente toda segunda, quarta e sexta. Às sextas ele escolhe um livro para conversar aqui com você. Obrigada pela visita, eu adorei. Espero que a gente se trombe, gente, vai se trombe, não literalmente, né, porque a gente tá falando escorregar e tal.
Fica tranquila que até o final da Flip eu te arrumo um cargo, afinal Então você vai ter um cargo na corte, tá bom?
Tá ótimo para mim. Um beijo.
Você quer ser ministro das comunicações?
Não sei, vou ter que trabalhar muito.
Ah, tem, na minha corte trabalha. Beijo, beijo, tchau!