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Flip 2026: 'Kolkhoz', de Emmanuel Carrère

23 de julho de 202610min
0:00 / 10:43
Diretamente da Flip, José Godoy destaca o novo livro de Emmanuel Carrère, Kolkhoz, apontando a mistura de gêneros como forte tendência da literatura atual.

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Participantes neste episódio2
Á

Álvaro Machado Dias

HostEspecialista
J

José Godoy

ComentaristaJornalista
Assuntos2
  • Emmanuel Carrère e "Kolkhoz"Emmanuel Carrère · Kolkhoz · Mistura de gêneros literários · Autobiografia · História familiar russa
  • Gêneros literários e preferênciasMistura de gêneros · Tensão EUA-Irã · Noite no Coração · Feminicídio
Transcrição23 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
JGJosé Godoy

Clube do Livro CBN com José Godói.

?Voz B

Ai, tô adorando! O Zé Godói chegou aqui, falou, tá parecendo um consultório médico. Isso, próximo, por favor.

JGJosé Godoy

Me lembrou muito lá um posto de saúde, tem perto da minha casa, é muito parecido até a arquitetura. Eu fiquei até com um pouco de calafrio assim, eu sou meio hipocondríaco, já achei que ia tomar uma injeção aqui. Tomar nova dose da COVID aqui, cara. Tudo bem, você já sabe, já reaprendeu a andar nas pedras?

?Voz B

É difícil, né? Haja tornozelo, né?

JGJosé Godoy

Eu fiz uma preparação naquela bola que a gente conversou semana passada, eu fiz um fortalecimento de tornozelo e parte interna das coxas.

?Voz B

Incrível, incrível! Ele andou a manhã inteira hoje para ver se tava funcionando a preparação que ele fez.

JGJosé Godoy

Cara, o que não resolveu foi, foram 5 horas de micro-ônibus, o meu joelho começou a dar umas estaladinhas.

?Voz B

E a lombar?

JGJosé Godoy

A lombar nem me fala.

?Voz B

Ai, meu Deus, que veieira, hein, Zagodói? Começamos bem.

JGJosé Godoy

Mas amanhã eu vou fazer uma aula de yoga, 7 da manhã.

?Voz B

Yoga, inclusive, é um tema que o autor que você traz hoje já abordou numa obra, né?

JGJosé Godoy

Sim, acho que é uma obra que fez bastante sucesso, né? A gente vai falar hoje aqui no Clube do Livro do Emmanuel Carrère. O Carrero é um fenômeno, Tati. É um daqueles escritores, acho que foi ganhando aos poucos o público brasileiro. Ele, além de escritor, ele é cineasta também. Eu fui, eu sou leitor dele desde as primeiras publicações, né, o romance russo de Monroe, O Bigode. E aí eu fui percebendo assim, aumentando muito o interesse pela obra dele, né?

Assim, a gente vê pela dimensão do catálogo de um autor estrangeiro, diz muito sobre o interesse do público local, né? E no Yoga eu percebi que ele estourou algumas bolhas assim, né? Porque você percebe quando um escritor circula mais num universo mais literário, né, de leitores mais literários, gente que lê muito literatura, e quando você extrapola isso, gente que tipo, ah, quero ler um romance, faz 6 meses que eu não leio um romance.

Essas pessoas foram comprar o Yoga assim. Eu acho que muita gente leu no Brasil. O que eu tô falando agora hoje é o Cocós, que tá saindo agora. É um livro que o ano passado fez bastante barulho na França. Você conseguiu mostrar aí? Eu até achei que ele ia ganhar o Goncourt, ele acabou não ganhando. Ele ganhou o Médicis, que é outro prêmio bem importante na França. É o livro dele mais autobiográfico. O Carrère, acho que em boa parte dos livros dele, ele tá num lugar que escritores muito interessantes que produzem hoje estão.

Que é misturar gêneros a ponto de você não saber mais como classificar esse livro, entendeu? Eu acho que isso é uma tendência muito forte da produção narrativa atual, e o Carrera é um desses grandes nomes. Você lê os livros dele como romance, como ensaio, como relato pessoal, em alguns momentos são narrativas de viagem, dependendo do enfoque que ele dá. Esse livro, ele é Eu acho que a arquitetura, né, a escrita, o modo como ele produz a escrita dele é uma escrita muito literária, muito ficcional.

Mas o que ele trabalha aqui são dados muito factuais que cobrem ali um século da vida da família dele. O livro começa com a cerimônia de um velório coletivo da mãe dele. A mãe dele, a Hélène Carrère d'Encausse, foi uma super acadêmica francesa, foi presidente da Academia Francesa. E ela é, depois que ela morre, ela é enterrada com honras de Estado, com a presença do Macron. Então ele abre o livro contando a história desse momento, e depois ele vai visitar a casa dos pais e descobre um acervo gigantesco do pai dele, não sobre a própria família, mas sobre a família da mulher que acaba de morrer.

E ele vai mergulhar. O pai dele era obcecado pela história da família da esposa, e realmente é uma história incrível, porque é uma história de russos imigrados que vão passar por tudo, desde a Revolução Russa no comecinho do século 20, Segunda Guerra, a experiência da imigração na Europa, no caso na França, a queda do Muro de Berlim, né, o fim do socialismo, até chegar na guerra da Ucrânia. Então, de certo modo, é um daqueles livros que conta uma história pessoal, familiar, muito íntima, e ao mesmo tempo revela um pano de fundo histórico, social, político instigante de uma época repleta de grandes reviravoltas e transformações políticas e sociais muito relevantes.

Então é um livro assim para quem Para quem acompanha a obra do Carrero vai se interessar. Para quem não conhece, é um bom livro de entrada. Para quem tem muito interesse século 20 vai gostar. Para quem tem interesse no que aconteceu com a pós-revolução russa vai se interessar. Acho que tem muitos caminhos, muitas conversas com diferentes autores. Então acho que ele é um daqueles autores que, se você tem interesse na produção atual, você tem que ler. Assim, eu acho que é daqueles autores meio incontornáveis, né?

?Voz B

O Zé, eu tô te ouvindo com muita atenção, mas quero voltar no começo da sua fala sobre a mistura de gêneros literários. Você acha que isso é uma tendência? Eu tenho observado alguns autores, tem uma outra autora que tá na Flip, é Natasha Paná, que fala sobre feminicídio no livro dela chamado Noite no Coração, e que também é uma mistura, né? É um pouco de reportagem, é um pouco de ensaio, é um pouco de, tem um pouco de tudo ali.

Ela faz essa costura. Eu tô aqui reproduzindo o que eu ouvi porque eu ainda não li e tô louca para ler. É o único livro que eu vou comprar nesta festa, me prometo. É, é. Olá, Marcela, você tá vendo? Até agora a gente tava falando o quê? Ah, não comprei nada, não sei mais o quê, mas esse aí eu não vou ter como escapar. Ela também faz isso. Você acha que isso é uma tendência ou não?

JGJosé Godoy

Sim, eu acho que é. Eu tenho assim, eu tenho uma aposta. Eu acho que algumas vezes nas artes acontece isso, os artistas, né, no caso os escritores, começam a produzir uma nova forma E depois os críticos vão começar a catalogar essa forma, e depois o mercado vai ter que encontrar um nome para essa forma, que eu acho que tá acontecendo. Acho que a gente tá tendo muitos escritores, muitos escritores importantes. Algumas das escritas mais interessantes que a gente tá vendo atual, contemporâneas, são nessa praia da mistura do inclassificável, vamos dizer assim, em termos de gênero.

Acho que a crítica mais arejada já tá percebendo isso, e o mercado daqui a pouco vai ter que ser meio balançado para poder conseguir colocar alguma coisa que não seja nem ficção e nem a não ficção, que é uma generalização que para mim me incomoda muito, né? Me incomoda muito. Acho que isso é ruim para prêmio, é ruim para o leitor que vai na livraria. Eu acho que a gente vai ter que aprender a melhor, a classificar de uma forma melhor para refletir o que tá acontecendo na literatura, né?

?Voz B

Deixa eu me ajeitar porque eu tô aqui do lado de um autor convidado da Flip esse ano. Amanhã meio-dia, né?

JGJosé Godoy

Amanhã meio-dia.

?Voz B

Conta tudo, com quem, sobre o quê?

JGJosé Godoy

Amanhã eu vou estar então na Flip aqui, na programação oficial. Para quem não tá em Paraty, pode acompanhar pelo YouTube, né, da Flip, que é legal também, mantém, potencializa, né, essas mesas todas, não só a minha como todas as outras. Eu vou participar de um papo com Solano Benítez, que é um grande arquiteto paraguaio responsável pela pelo projeto do Museu Jorge Pompidou que está sendo erguido em Foz do Iguaçu. Essa é a primeira filial do museu aqui na América do Sul.

E eu vou falar um pouco do meu livro recém-lançado, A Ilha do Silêncio, que conta a história meio de uma ilha no extremo sul do Chile e cujo, cujo um dos, talvez o principal personagem é um grande arquiteto chileno chamado Miguel Launer. Então a gente vai ter uma conversa que vai vai circular entre memória, arquitetura, violência de Estado e outras questões que têm a ver com o meu livro. Eu acho que um pouco com o trabalho dele também.

?Voz B

Muito legal. Bom, então fica o convite para acompanhar ao vivo Zé amanhã no YouTube da Flip ao meio-dia. E eu vou fazer o convite também para que, se você quiser saber mais sobre o livro dele, buscar no nosso site a entrevista que ele nos deu aqui ao Estúdio CBN lá na Feira do Livro, falando sobre A Ilha do Silêncio. Que é um Ilha do Silêncio. Falei certo, né? Ai, meu Deus, sempre confundo tudo. Que é um belo livro, é um belo livro para quem gosta de história, para quem gosta de arquitetura, para quem gosta de diário de viagem até, né?

Porque é um pouco. Então vai lá no nosso site, procura entrevista com Zé antes ou depois de ler o livro. E para não perder o hábito, faz o resumo do livro sobre o qual você falou hoje, por favor.

JGJosé Godoy

Tá bom, Tati. Ó, falei hoje então do Emmanuel Carrère, Proust, que é um escritor francês. Falei de Colcoz, C-O-L-C-O-Z, tá saindo aqui no Brasil pela Alfaguara. E a tradutora, maravilhosamente, tem um sobrenome maravilhoso essa semana, que é Mariana Delfini. Muito fácil de falar. Obrigado, tradutora. Tradutoras todas me parando aqui em Paraty, alguns me elogiando. Eu falei para elas: vocês têm que ajudar o comentarista e mandar o seu sobrenome soletrados para ele por áudio, por favor, porque o infeliz aqui tem que falar, né?

Sou eu que tenho que falar aqui e pagar o mico. Mas a Mariana Delfini não sofre disso, é uma excelente tradutora, traduziu boa parte dessa produção do Carreira aqui no Brasil.

?Voz B

Legal, Zé, obrigada pela visita, boa mesa amanhã, boa Flip de você.

JGJosé Godoy

Obrigado, querida. A gente tá ficando especializado, né, em fazer esses papos nessas feiras, né? Bom, beijo aí para Marcela, o pessoal do estúdio, e obrigado ao espaço aí. Valeu.

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