Episódios de Comentaristas

Luto infantil não é um evento, mas é um rio ao longo da vida

22 de julho de 20264min
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Rossandro Klinjey traz o vídeo da repórter da TV Globo tendo contato com uma menina de 8 anos em luto pela morte da mãe. O comentarista aborda as dificuldades do luto infantil e a necessidade de um carinho de qualquer pessoa.

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Participantes neste episódio3
R

Rossandro Klinjey

HostPsicólogo
A

Antonella

Convidado
B

Bianca Carvalho

Reporter
Assuntos2
  • Luto infantilLuto infantil · Antonella · Tutor de resiliência · Olavo de Carvalho
  • Transformação do vínculo com o falecidoLuto saudável · Vínculo com o morto
Transcrição22 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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RKRossandro Klinjey

Refletir para viver com Rosandro Klinge. O Brasil inteiro viu uma cena do jornalismo que merece mais do que viralizar. Merece ser entendida.

?Voz C

E tu, minha linda, tudo bem?

AAntonella

Tudo.

?Voz C

Hoje é dia de que Nossa Senhora? Me conte.

AAntonella

Do Carmo.

?Voz C

Do Carmo, muito bem. Tu gosta da santinha?

AAntonella

Gosto.

?Voz C

Já rezou para ela hoje?

AAntonella

Já.

?Voz C

O que é que você pediu para Nossa Senhora do Carmo?

?Voz A

Me conte.

AAntonella

Que me proteja, que nada aconteça comigo, que todo mundo aconteça nada, porque minha mãe ela faleceu, minha mãezinha.

?Voz C

Oi, meu amor.

AAntonella

Me deixa proteção, cuida da minha mãe, porque isso foi muito difícil de mim, sabe, me apoiar.

?Voz C

Meu amor, tu perdeu tua mãezinha? Foi?

AAntonella

Foi em maio. Ô, meu amor, eu sinto muito.

?Voz C

Como é seu nome, meu amor?

AAntonella

Antonella.

RKRossandro Klinjey

Recife, manhã de quinta, festa de Nossa Senhora do Carmo. A repórter da Globo Bianca Carvalho faz a pergunta mais comum do jornalismo: o que você veio pedir? Uma menina de 8 anos, Antonella, responde o que ninguém estava preparado para ouvir: pediu proteção. Contou que a mãe morreu em maio, que fez 8 anos sem a mãezinha. Aí aconteceu uma coisa rara na televisão ao vivo. O jornalismo tem cronômetro, mas a dor não tem. A repórter, conhecida por sua sensibilidade, abaixou o microfone, dobrou o corpo até a altura da menina e escutou.

Boris Cyrulnik, psiquiatra francês que estudou órfãos a vida inteira, chama isso de tutor de resiliência: a pessoa que aparece no meio do escombro e, só pela presença, avisa à criança: o mundo ainda é habitável. Pode ser uma professora, uma vizinha, pode ser uma repórter que a menina viu pela primeira vez naquela manhã e nunca mais vai esquecer. Criança não faz luto como adulto. Adulto entra na tristeza e mora nela um tempo. Criança faz luto em pausa e tempos, chora e 5 minutos depois está brincando.

O adulto olha e pensa: já superou. Não superou nem de longe. Ela só não aguenta mergulhar na dor inteira de uma vez. Entra na dor, sai, entra de novo. O luto infantil não é um evento, se parece mais com um rio que acompanha o crescimento. Antonella vai perder a mãe de novo aos 15, na primeira paixão, de novo na formatura olhando a plateia, no casamento não vendo a mãe no altar. Quando for mãe, sem ter a mãe como rede de apoio.

E o detalhe mais bonito: a menina disse que a mãe vê ela em todo lugar. A psicologia passou décadas pregando que luto saudável era desligar-se do morto, até descobrir o contrário. Quem elabora bem não corta o vínculo, mas o transforma, sublima e sacraliza. A ciência levou 70 anos para chegar onde essa menina chegou com 8. Fica essa bela imagem: um microfone abaixado e abraço que esquece o tempo do cronômetro para acolher o tempo da alma. Quantas Antonelas passam pelo nosso dia esperando que alguém faça o mesmo?

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