Luto infantil não é um evento, mas é um rio ao longo da vida
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- Luto infantilLuto infantil · Antonella · Tutor de resiliência · Olavo de Carvalho
- Transformação do vínculo com o falecidoLuto saudável · Vínculo com o morto
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Refletir para viver com Rosandro Klinge. O Brasil inteiro viu uma cena do jornalismo que merece mais do que viralizar. Merece ser entendida.
E tu, minha linda, tudo bem?
Tudo.
Hoje é dia de que Nossa Senhora? Me conte.
Do Carmo.
Do Carmo, muito bem. Tu gosta da santinha?
Gosto.
Já rezou para ela hoje?
Já.
O que é que você pediu para Nossa Senhora do Carmo?
Me conte.
Que me proteja, que nada aconteça comigo, que todo mundo aconteça nada, porque minha mãe ela faleceu, minha mãezinha.
Oi, meu amor.
Me deixa proteção, cuida da minha mãe, porque isso foi muito difícil de mim, sabe, me apoiar.
Meu amor, tu perdeu tua mãezinha? Foi?
Foi em maio. Ô, meu amor, eu sinto muito.
Como é seu nome, meu amor?
Antonella.
Recife, manhã de quinta, festa de Nossa Senhora do Carmo. A repórter da Globo Bianca Carvalho faz a pergunta mais comum do jornalismo: o que você veio pedir? Uma menina de 8 anos, Antonella, responde o que ninguém estava preparado para ouvir: pediu proteção. Contou que a mãe morreu em maio, que fez 8 anos sem a mãezinha. Aí aconteceu uma coisa rara na televisão ao vivo. O jornalismo tem cronômetro, mas a dor não tem. A repórter, conhecida por sua sensibilidade, abaixou o microfone, dobrou o corpo até a altura da menina e escutou.
Boris Cyrulnik, psiquiatra francês que estudou órfãos a vida inteira, chama isso de tutor de resiliência: a pessoa que aparece no meio do escombro e, só pela presença, avisa à criança: o mundo ainda é habitável. Pode ser uma professora, uma vizinha, pode ser uma repórter que a menina viu pela primeira vez naquela manhã e nunca mais vai esquecer. Criança não faz luto como adulto. Adulto entra na tristeza e mora nela um tempo. Criança faz luto em pausa e tempos, chora e 5 minutos depois está brincando.
O adulto olha e pensa: já superou. Não superou nem de longe. Ela só não aguenta mergulhar na dor inteira de uma vez. Entra na dor, sai, entra de novo. O luto infantil não é um evento, se parece mais com um rio que acompanha o crescimento. Antonella vai perder a mãe de novo aos 15, na primeira paixão, de novo na formatura olhando a plateia, no casamento não vendo a mãe no altar. Quando for mãe, sem ter a mãe como rede de apoio.
E o detalhe mais bonito: a menina disse que a mãe vê ela em todo lugar. A psicologia passou décadas pregando que luto saudável era desligar-se do morto, até descobrir o contrário. Quem elabora bem não corta o vínculo, mas o transforma, sublima e sacraliza. A ciência levou 70 anos para chegar onde essa menina chegou com 8. Fica essa bela imagem: um microfone abaixado e abraço que esquece o tempo do cronômetro para acolher o tempo da alma. Quantas Antonelas passam pelo nosso dia esperando que alguém faça o mesmo?
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