O relacionamento acabou, só esqueceram de te contar
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
Michel Alcoforado
- Divorcio e RelacionamentosDivórcio alpino · Abandono em relacionamentos · Comunicação abrupta de decisões
- Comunicação em RelacionamentosEvitar conversas difíceis · Comunicação não violenta · Estabelecimento de canais de diálogo
- Relacionamentos modernos e aplicativosGhosting · Falta de rituais claros em relacionamentos · Descompasso de temporalidade
- Divórcio na pandemiaRelacionamentos durante o isolamento · Dificuldade de sair de casa após divórcio
Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado. Michel Alcoforado, boa tarde, Michel.
Boa tarde, né, Dédia, tudo bem?
Depende, você vai me falar aqui que o amor acabou? Eu tô meio preocupada.
O problema é que agora acaba só por um lado e conta para o outro como se fosse uma grande surpresa. A gente vai falar sobre Esse termo aí que tem feito um barulho danado nas redes sociais, mas que também tem mobilizado, sobretudo, pessoas que vivem de pensar ou de trabalhar junto a novos relacionamentos, porque tem mudado o jogo, que é o divórcio invisível. Já ouviu falar disso? Não. Então, como é que as pessoas— eu brinco que é o ghosting de relacionamento longo, sabe?
Meu Deus!
É porque ghosting é uma palavra que ficou ultra mega usada aí quando a gente tá pensando em relacionamentos que surgem. Nos últimos tempos, mas sobretudo aqueles que têm como origem os aplicativos de encontro. E o que é o ghosting? O ghosting tem duas figuras que estão lá nos aplicativos. Aquelas figuras começam a se relacionar de algum modo, só que num determinado momento, sem nenhuma razão, alguém decide desaparecer. E isso é fruto de muita frustração e muito dissabor, porque as pessoas se sentem traídas, dado que elas achavam— um lado achava que tava mega curtindo, que a conversa tava mega andando, enquanto o outro lado tava achando que não valia mais a pena continuar.
Eu tenho ouvido muitos pesquisadores sobre esse assunto. Carol Tchukian é uma grande pensadora desse tema, mas eu também já fiz bastante pesquisa sobre esse tema. E eu sempre digo que o ghosting, ou essas novas palavrinhas que a gente foi obrigado a lidar depois da entrada dos aplicativos no campo do relacionamento, é fruto de um descompasso temporal entre as duas figuras que estão ali flertando. Porque como não tem mais um conjunto de rituais claros que vão marcar o começo de um relacionamento, tipo ninguém pede mais ninguém em namoro, ninguém vai na casa de ninguém para pedir a mãe ou pai ninguém, a mão do outro, ninguém mais comunica, vamos, eu tenho aquela conversa, vamos começar a namorar, cada um fica num determinado momento do relacionamento, ao ponto de você ficar sempre em dúvida, né?
De que momento você tá, em que momento que tu tá. Então às vezes um acha que tá só ficando, outro acha que tá namorando, um acha que já vale a pena mostrar para o pai, o outro acha que não vale a pena, que é só um mais um dos encontrinhos que você tem aí na sua rede de contatos. Um acha uma coisa, outro acha outra. Qual que é o jogo que tem aparecido agora? É se descompasso de temporalidade tem afetado também relacionamentos que já são consolidados, relacionamentos mais longos Mas também relacionamentos que o pacto do dito, que tipo de relação a gente tem, já tá estruturado no documento, que é o tal do relacionamento invisível, o do divórcio invisível.
Que que é isso? O fulano tá lá vivendo uma vida tranquila até que o outro, em determinado momento, chama ele na chincha e fala: ei, não tá bom pra mim não, vamos separar? E aí as pessoas falam: ué, mas como assim vou separar? A gente não tá vivendo nenhuma crise. Eu não percebi que você tava chateado com nada. É, eu achei que tava tudo mais ou menos do jeito como sempre foi. Por que que você decidiu separar? E aí os psicanalistas, os psicólogos têm percebido que boa parte desse processo de separação ou de divórcio, que antes precisava ser combinado e vivido em conjunto como casal, agora é vivido de forma individual.
Um sozinho acorda de manhã e fala: eu acho que eu quero separar. E aí, junta seus próprios botões, chama seus amigos, trata na sua própria análise esse processo de separação, e quando tá decidido, chama o outro pra essa conversa. Então, se o processo de se apaixonar por alguém é individual, cada vez mais o processo de divórcio também é visto como algo individualizado. E aí vira uma grande surpresa, né? Porque a pessoa já resolveu com ela mesma, já tomou a decisão, E depois ela vai lá e só comunica a outra parte dentro desse jogo, dentro desse, que deseja separar e que tá em busca de outro momento na vida, e por aí vai.
E é engraçado porque as soluções para esse processo, como é tudo de surpresa, são bem interessantes também. Porque se um acorda de manhã e decide separar, o outro precisa saber onde vai morar, que tipo de relação você vai ter, como é que ficam os documentos, muda o nome, não muda o nome, por aí vai. E aí vários advogados têm chamado atenção pra um tipo de relacionamento, onde esse divórcio ele acontece onde as pessoas continuam morando na mesma casa, continuam dividindo a mesma conta, só não dormem mais na mesma cama, mas elas vão viver durante um tempo até cada um encontrar o seu lugar junto, como se estivessem casados.
Então comunica pra todo mundo, ó, separei, não estamos mais juntos, mas tá morando aonde? Tá morando aonde? Tô morando na mesma casa. E tô dividindo sofá, vendo televisão no mesmo sofá. Só não devo mais satisfação a essa pessoa com quem eu dividi a vida. E aí vão vivendo vidas separadas até o momento onde um deles consegue encontrar um novo caminho. É engraçado porque esse processo parece uma solução mais fácil, né? Mas porque você não precisa ter a conversa de uma crise, não precisa trocar com outro nesse momento de crise, mas revela uma dificuldade grande porque acaba gerando ainda mais sofrimento, dado que as coisas não são de forma clara, né?
Então cuidado com divórcio invisível, hein? Você pode estar já separado sem saber que tá.
E nessa separação aí que a pessoa continua na mesma casa, teve muito na pandemia, né? Teve as duas coisas na pandemia, né? A pessoa que começava um relacionamento já casando porque o único jeito de se ver era ir morar junto por causa do isolamento, e quem divorciava e não conseguia sair de casa porque o isolamento social também não permitia procurar uma outra casa e morar com outras pessoas, enfim.
É, na pandemia foi uma saída, mas eu acho que a pandemia só reforçou algo que a gente tem visto com muita frequência desde a entrada das plataformas vitais no mundo dos afetos mesmo, né? Que é algo que eu vou até falar na sexta-feira quando tiver aqui com Tati aqui em Paraty, que é muito baseado num livrinho que a Paula Sibília, que é uma grande pensadora, traz Que é essa coisa que a gente desenvolveu uma eu-epistemologia, assim.
Como se o mundo só existisse a partir do nosso próprio ponto de vista. Então, se eu acho que não vale mais a pena seguir nesse relacionamento, se eu acho que não vale mais a pena continuar junto, eu não preciso dar sinal nenhum, eu só preciso comunicar pra você. Eu acordo de manhã e falo, ó, quero separar. E ponto, separa. E dado que a vida é mais complexa do que a sua decisão, né, você tem condições materiais, você precisa decidir onde vai morar, Como vai fazer com as contas?
Como faz com a poupança que vocês têm junto? Como faz com os filhos? Quem tem filho? Como faz com a documentação? Você é casado no papel? As pessoas são obrigadas a sustentar um arranjo estrutural de um relacionamento, mesmo quando individualmente elas já decidiram seguir caminhos distintos. E isso ficou claro na pandemia, mas continua, né? Continua atravessando boa parte dos casais aí.
Qual que é a do divórcio alpino, Michel?
Um divórcio alpino, essa é péssima, até uma violência. Divórcio alpino surge nas redes sociais também, mas a gente viveu coisa parecida. Já não lembro a serra, não sei se foi em São Paulo, é que um casal ou duas figuras que estavam flertando decidem subir uma serra. Em determinado momento, o garoto andava muito devagar, a moça queria flertar com ele, ela decide deixar ele para trás e abandona o garoto que fica perdido na montanha.
Isso não foi uma invenção brasileira não, tá? Isso foi uma invenção de um vídeo que surgiu nas redes sociais na Suíça em 2023. Era um casal que tava vivendo um momento difícil no relacionamento. Num determinado momento, eles subindo aos Alpes, subindo os Alpes suíços, eles discutem. E aí o rapaz decide seguir seu próprio rumo e deixa a moça lá, abandona ela. Então é uma violência, né? Não tem nada a pensar além disso. Mas isso acabou se transformando, como viralizou, num tipo também de nome para esse tipo de divórcio onde um decide sozinho tomar um outro caminho, comunica de forma abrupta aquela nova, aquela nova decisão E aí segue seu próprio rumo sem olhar pra trás.
E tá cada vez mais frequente, né? Eu diria, vamos dando tempo ao tempo, né? Começou junto, pra terminar precisa estar junto também, né? Porque uma relação, de algum modo, apesar de um bom relacionamento saudável conservar as vontades individuais e os espaços individuais, é bom a gente perceber que algum tipo de congruência ou algum tipo de convergência é importante até na hora de terminar um relacionamento, né?
Eu sempre vou ter um exemplo do TikTok, né, Michel? Então vamos a ele, que eu vi recentemente.
Você me atualiza, eu adoro.
É muito tempo de tela, menina. Que foi uma moça, mas acho que teve mais de um post, mas eu vi uma moça, ela com vários clipes assim, ela chorando muito, e ela falando, eu chorei um ano inteiro, e aí eu terminei o relacionamento e eu não chorei nenhuma vez. Ou seja, ela tava terminando sozinha e terminar mesmo foi só quando ela avisou, né?
Então, isso é engraçado porque as pessoas ficam nessa coisa de, ai, vai pra terapia, vai pra terapia, como se fosse solução pros relacionamentos. Nesse caso dos divórcios silenciosos, ele é silencioso pra uma das partes, né? Porque essa pessoa que tá cuidando da sua própria terapia, ela fica ali elaborando, né, por décadas, décadas, décadas, até decidir sair dessa relação. Então, ele é silencioso pra um lado, mas os consultórios dos psicanalistas e dos psicólogos tão lotados de gente que tá amadurecendo essa decisão até seguir o próprio rumo.
Então é isso, né? Você amadurece sozinho, aí você comunica para o outro. Se o outro for legal, é um problema. Agora, se o outro for tóxico, tá tudo certo, né?
Acho que a gente fica evitando conversar, né, Michel? Porque aí tem vários lados, né? Tem o lado de quem não quer realmente conversar, mas acho que tem um lado de quem talvez quisesse conversar se o outro soubesse conversar, porque tem toda a questão da da comunicação, da comunicação não violenta, de enfim, de falar. É difícil conversar com outro, né? Não deveria ser se tratando do seu parceiro romântico, mas é difícil conversar com outro.
E é muito difícil a gente conversar com outro, sobretudo num modo de vida onde cada vez mais tá difícil a gente estabelecer canais de diálogo, né? Porque para conversar Você precisa colocar o teu ponto de vista, escutar o ponto de vista do outro, entender por que que o outro tem vontade de dizer o que diz, e minimamente se colocar no lugar do outro pra conseguir fazer com que o outro também entenda quais são as suas razões e o seu ponto de vista.
Num mundo onde a gente tá transformando tudo em pílula e toda e qualquer possibilidade de canal de convergência se transforma em canal de conflito, A gente tá deixando de fazer isso. Então tá faltando treino, né? Acho que ouvir, falar, se colocar no lugar do outro, entender por que que o outro diz o que diz, não à toa são habilidades cada vez mais valorizadas nesse mundo de hoje.
É verdade. Tem vários ouvintes aqui participando, o pessoal vai colocando suas histórias, né? Tem um ouvinte falando que, olha só, o pessoal aqui faz um oversharing, né, uma superexposição. Ele falando, tô pensando exatamente nisso. Em me separar desse jeito, simplesmente ir embora. Aquele climão, né?
É simplesmente ir embora, é isso aí mesmo.
Michel Alcoforado, depois dessa, um beijo para você. Obrigada pela conversa hoje.
Até logo, um beijo. Até sexta, tchau tchau!
Até.