Como o cérebro hoje vive em alerta constante?
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- Sinais de alerta para saúde cognitivaHiperconectividade e excesso de interrupções · Evolução do cérebro e ameaças pontuais · Notificações, e-mails e redes sociais · FOMO (Fear of Missing Out) · Cérebro cansado pela interrupção
- Custo cognitivo da multitarefaAumento da carga cognitiva · Dificuldade de concentração e leitura · Custo de atenção e fadiga mental · Perda da capacidade de contemplação · Redução da criatividade
- Imediatismo em RelacionamentosDiferença entre chamar atenção e prestar atenção · Empobrecimento das relações reais · Atenção parcial em conversas familiares · Necessidade de pertencimento e ser visto · Impacto em crianças e adolescentes
- Mente versus cérebroDesconexão proposital e momentos de tédio · Importância do 'dolce far niente' · WhatsApp como comunicação assíncrona · Momentos de silêncio para o cérebro florescer · Cuidar do cérebro com respeito
Saúde Integral com Rossandro Klinge.
Rossandro Klinge, boa tarde, Rossandro.
Boa tarde, Nadete. Boa tarde, ouvintes.
Rossandro, hoje é Dia Mundial do Cérebro e eu acho que o nosso cérebro tá passando por um momento complicado. A gente tá num momento de conexão, toda hora vem um alerta, toda hora exige alguma coisa, exige a nossa atenção. Como lidar?
Às vezes eu tenho pena do meu, acho que eu tenho pena do seu também.
Muita, nossa!
Acho que os ouvintes também, porque o maior problema da vida moderna talvez não seja o excesso de trabalho, mas justamente esse excesso de interrupções. São muitas facilidades que a gente tem, mas paradoxalmente muita pouca tranquilidade mental. A gente começa a lembrar o cérebro humano do ponto de vista do desenvolvimento dele. Ele evoluiu para responder a ameaças pontuais. Por exemplo, eu tô aqui no aeroporto de Porto Alegre, acabei de descer de uma palestra do interior do estado, tá aquela chuva, os rios subindo, então as pessoas estão, trauma do que aconteceu, em estado de alerta.
Mas acontece que esse estado de alerta para ameaças pontuais como essa, tudo bem. Durante milhares de anos, o estado de alerta surgia diante de um predador, de uma tempestade, como acontece aqui, um conflito, uma guerra, ameaça de uma perda de visão, e essa ameaça passa, o organismo volta ao equilíbrio. Só que hoje a gente tem, como você lembrou, notificações, e-mails, mensagens, redes sociais, notícia em tempo real, medo de perder alguma coisa, que é o famoso fear of missing out, o FOMO, tem necessidade de responder imediatamente às coisas, de gente do outro lado que acha que você visualizou tem que responder.
Então nenhum desses eventos representa um risco real para a gente, mas eles acionam no menor ou maior grau o mesmo circuito de vigilância e de recompensa. O resto que a gente tem disso, e a gente sente no nosso dia a dia, é um cérebro que quase nunca desliga. Então estamos cansados apenas pelo que a gente faz, mas sobretudo pela interrupção constante que a gente tem. Essa que não gira da sociedade, da atenção parcial e constante.
Aí a gente ainda tem outra coisa, tem uma alternância constante entre tarefas, né? Então, aumento de carga cognitiva, e esse aumento de carga cognitiva reduz nossa concentração para, por exemplo, ler um livro. Muitas pessoas que são boas leitoras relatam dificuldade para ler, de voltar a ler, de concentrar. Não tem, porque a nossa mente, na verdade, não foi feita para multitarefa. Para atividades complexas. Uma coisa é você atender um telefone enquanto olha uma panela e abre a geladeira e pega um suco.
Não são tarefas complexas. Agora, quando a gente troca rapidamente de foco, é uma mensagem urgente do WhatsApp, é um email aqui, aí você aí e chega alguém do seu lado. Isso vai pegando, vai pegando a gente. Isso tem custo de atenção e a memória trabalha de um jeito que gera fadiga mental. E as consequências eu sinto, você sente, eu acho que ouvinte sente. A gente começa a diminuir, por exemplo, capacidade bonita da contemplação.
E você, por exemplo, tá voltando para casa depois de se alimentar no CBN, sei lá, no Uber, e de repente é só olhar a cidade. Deve estar olhando WhatsApp e as notificações, e alguém que mandou mensagem. Olhar uma casa que você nunca viu, de repente aparece no caminho uma árvore que você nunca viu. A gente não tem mais como continuar. E aí, claro, por não ter esses inputs da leveza do do, como diz o italiano, dolce far niente, né, o doce nada fazer, a gente reduzindo nossa capacidade de criatividade, porque é preciso esses hiatos de estímulo para que o que a gente absorveu se reconstrua de um modo diferente, dê uma resposta criativa.
Aí também tem uma coisa que às vezes eu sinto muito, que é o aumento da irritabilidade. Eu sinto, por exemplo, que quando eu vejo várias mensagens, aspas, importantes no WhatsApp, me dá irritação. É a necessação de todo mundo demandando de você, entende? E aí vai piorar o sono, a ansiedade aumenta, o circuito de memória de aprendizado diminui. No fundo, no fundo, a gente tá com o cérebro hiperestimulado, que não é necessariamente um cérebro mais inteligente, é muitas vezes tão somente um cérebro mais cansado.
Que realmente o que a gente vive hoje não significa que a gente tem aqui para resolver isso, fazer mais exercícios cognitivos, né? Muito pelo contrário, talvez seja criar um momento em que a gente precise não fazer nada, não responder nada, não aprender nada, e que a gente possa fazer com que o cérebro também encontre silêncio para florescer. Acho que é uma das coisas que a gente tem que pensar sobre o dia de hoje, né, gente?
Sem dúvida. Me lembrou o que você disse, Rossandro, uma publicação de uma moça. Ela tava brincando, mas é um pouco sério, falando: meu cérebro não entende a diferença entre receber uma mensagem do meu chefe falando que a gente precisa conversar e um urso vindo atrás de mim me atacar. Quer dizer, os mecanismos modernos acendem o nosso primitivo, né?
Exatamente. E vivemos em um mundo que tudo chega com aparência de prioridade. Isso é muito ruim. O cérebro, ele, cada notificação compete pela mesma atenção, como a moça perguntou do urso. Só que existe uma diferença entre aquilo que chama atenção e aquilo que a gente presta atenção pelo ver agora. Tem uma diferença entre aquilo que chama atenção e aquilo que merece atenção. As redes sociais, por exemplo, elas disputam a atenção, mas as pessoas que nós amamos é que merecem a nossa atenção.
O mercado, ele compra a nossa atenção, rouba a nossa atenção, ele disputa, mas a nossa vida, a nossa vida de ser humano, ela precisa para acontecer saudavelmente de nossa atenção. Eu preciso estar atento a ouvir meu corpo, aos sinais de uma doença que está chegando, de uma ansiedade que se repete, de cabeça que se repete. Então a saúde do cérebro é muito menos da quantidade de informação que a gente recebe, muito mais da qualidade daquilo que a gente escolhe prestar atenção.
Então a gente precisa fazer esse recorte, o mundo não vai fazer isso por nós. Que nesse dia de hoje a gente aprenda que o melhor que a gente pode fazer por essa máquina incrível, que muitos dizem que a gente usa pouco ela, mas não se trata de usar mais ela distraindo-se, que trata de usar mais ela com foco, com intenção e atenção. Se você tiver cansado, fadigado, estressado, confundindo uma notificação do WhatsApp com um alerta laranja de tempestade, e não é isso.
E, Rossandro, também poderia parecer, né, que assim, um lado positivo é que facilita as conexões, mas não é qualquer conexão que é de qualidade, né? Não é estar em contato com todo mundo ao mesmo tempo, todo mundo te demandando ao mesmo tempo, como você falou, não é o mesmo que estar conectado com as pessoas?
É, e o que a gente observa, Nadedja, é que nesse movimento a gente deixa de dar importância a quem tem que estar do nosso lado, dando relevância a quem tá mandando a mensagem, ou o que a gente tá vendo. E o que tem gerado ainda como consequência é um profundo empobrecimento das relações reais. Por esse excesso de inputs externos, a gente às vezes tá conversando com o filho, com a esposa, olhando o WhatsApp, respondendo, clicando, E você não tá lá, né?
Tem uma frase muito bonita que eu acho da trilogia do Avatar, é que as pessoas ali buscam pertencimento. Em um momento que acontece algo significativo, e o outro diz assim: eu te vejo, né? Ou seja, é tipo: você é importante para mim, você é relevante para mim, eu enxergo que você busca, que você quer. Eu acho que a gente não tem se visto, e isso tem gerado um custo muito grande para Especialmente crianças e adolescentes que têm pais que vivem também com essa atenção parcial constante, às vezes pelo mundo do trabalho, às vezes por imaturidade mesmo dele das redes sociais.
Precisamos voltar a nos conectar, precisamos não fazer muitas coisas, precisamos aprender a— a gente vai ter que aprender que aquilo não é prioridade, ou então a não dar prioridade até que se torne um aprendizado para nós, né? Tipo, em vez de colocar se o filho pode dormir mais cedo, que tal buscar o tal celular para dormir mais cedo.
Por falar em botar o filho para dormir mais cedo, é uma coisa que tem que ser passada para os filhos também, né, Rossandro? Porque a gente tá nessa dificuldade, corre o risco de acabar passando para frente.
Passa porque eles copiam os modelos, eles veem isso, entendeu? Eu tava vendo meus filhos brincando com celulares, de que tinham celulares, não tem, mas estavam brincando com um negócio que parecia um celular. Se eles estão brincando com isso é porque eles veem que para mim É uma coisa importante. E aí você passa a se policiar de quando tá com eles, assim, desconectar, sair, deixar do lado, né? Eu acho que as pessoas têm que entender, e a gente também, que o WhatsApp é o novo email.
Você responde quando você pode, não porque mandaram agora você tem que responder agora. Comunicação assíncrona, é assíncrona, não é sincrônica. Quando eu puder, eu respondo, mesmo que esteja lá online, cara. Tô online, mas não tô online para você, tô online para o mundo, para mim, para família, para minhas questões. E você também. Então assim, quando puder vai ser respondido, né? Então é importante a gente começar a criar um circuito de aprendizado novo diante dessas novidades para elas não destruírem nossas relações e nossas conexões reais e mais profundas.
E um último ponto, Rossandro, na prática o que que a gente pode fazer? A gente se submete a um— você falou sobre criar esses espaços, né, de desconexão. A gente se submete a uma situação de tédio, de não conectar com esses dispositivos propositalmente, o que que a gente faz?
Eu acredito que funciona bem. Vou te dar uma experiência pessoal minha. Nem todo mundo passa por isso, mas hoje até tem Wi-Fi em alguns voos, mas eu até evito conectar porque nos voos era momento em que ninguém me demandava, porque eu ia embarcar e falei a palavra assim: gente, eu tô entrando no avião agora, passar 3 horas offline. Olha, as melhores ideias que eu já tive sobre livros, sobre artigos, sobre coisas, sobre alguma contribuição que eu ia dar com o que eu faço como psicólogo acontecia justamente nesse momento.
Às vezes um de madrugada, porque não tinha ninguém demandando, e não tem aquela ansiedade de que alguém tava tentando falar comigo, que eu tinha que de vez em quando dar uma olhada no WhatsApp para ver se tem alguma coisa urgente acontecendo. E aí, justamente porque meu cérebro relaxava, porque eu não podia fazer nada, eu conseguia ter ideias, insights, sabe? A gente vê que na história da ciência vários insights aconteceram no momento que o pesquisador, a pesquisadora saiu do microscópio e foi dar uma volta no campus da universidade, por exemplo.
O cérebro precisa desses momentos de desconexão para ressignificar, reorganizar aquilo que capturou ao longo do dia. A gente não tem dado esse espaço. É igual aquela criança que estuda no colégio, aí leva o celular, aí não se concentra, aí chega em casa, tem que ter professor de reforço porque não se concentrou na aula que deveria ter aprendido. A gente tá muito nesse sentido aqui, sabe?
É o Dia Mundial do Cérebro. O cérebro é um órgão, né? A gente precisa cuidar dele ativamente.
Com respeito.
Perfeito, Rossandro Klinge. Aí, obrigada por hoje, pela reflexão, e boa semana para você.
Para você também. Tchau, tchau.