'Despencar' tem relação com 'penca'?
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
Pasquale
Carol
Daniel Fonseca
- Origem do verbo espinafrarDespencar · Penca · Parasíntese
- Uso do verbo emprestarBloco do Susto · Ednardo · Tudo Bem · Silvio Santos
— Anúncios inseridos dinamicamente —
A nossa língua de todo dia com o Professor Pasquale.
Oi, professor, boa tarde!
Boa tarde, Tatiana! Boa tarde, Nadedja! Boa tarde, ouvintes!
Boa tarde, professor! Hoje respondendo ao ouvinte Daniel Fonseca de Sete Lagoas, em Minas Gerais, que disse: gostaria que o senhor analisasse a utilização do verbo despencar para referir-se a uma queda de algum lugar. É comum vermos frases como a da notícia publicada em um site da cidade onde moro, que diz, abre aspas: carro despenca em ribanceira na Serra de Santa Helena e ocupantes são socorridos em Sete Lagoas. Fechou aspas e complementa: considero estranha essa formação, pois me remete a pencas, formas em que alguns frutos são encontrados na natureza.
Pois é, a pergunta do nosso ouvinte, super ouvinte, super assíduo Daniel Fonseca, a pergunta é muito interessante e ele acerta. Como é que é o ditado? Como é que se diz? Acertou no que atirou, no que viu, acertou no que não viu. É isso, né? Porque é isso aí, é isso aí. Mas antes, vamos ver exemplos do verbo despencar com duas canções. Vamos começar pelo Ednardo. Vocês se lembram do Ednardo?
Grande Ednardo?
Não. Pavão Misterioso. Agora lembraram, ou não? É Saramandaia?
Não, eu não tenho esse repertório não, mas sei do que você tá falando. Só não posso entrar numa conversa sobre sobre o assunto.
É Pavão Misterioso, pássaro formoso, bonita para burro essa música. O Ednardo fez parte de um grupo chamado Pessoal do Ceará. Ele, a Tete e o Roger Rogério formaram um grupo monumental no começo da década de 70. Vocês não estavam no planeta. Depois o Ednardo seguiu com carreira solo e tal. A gente vai ouvir uma canção dele chamada Bloco do Susto, né? Bloco do Susto tá num disco chamado Cauim, que é de 1978. Vamos ver aí um uso carnavalesco do verbo, do verbo X. Vamos lá.
Menina, eu acordei com uma saudade, não sei de quê, no meio do carnaval. A minha quarta-feira de sem saída e o meu corpo não dança e aquilo que eu canto não me invade natural. Assim, não há carnaval que aguente com tanta tristeza presente. Eu quero é despencar, despencar, despencar, despencar. Chove chuva, alegria do céu, lava o bloco dos sujos que a boca do povo cantará de novo um frevo bem legal. Canta, canta, faz um escarcéu, mas a tristeza lhe susta. De saca da Silva, inventa saída, inventa, inventa juvenal.
Eu quero é despencar. Despencar. Que legal!
Eu adorei essa música, mas eu fiquei um pouco aflita com a letra porque pôs muito rápido.
É frevo, né? Aquela coisa é muito rápido mesmo, né? Eu quero é despencar, despencar, despencar. Esse despencar aí não tem o sentido de cair da ribanceira, né?
Não é literal, né?
Não é literal, né? Mas vamos pensando, se o nosso ouvinte fez uma relação boa e tal, vamos pensando na penca, penca de frutas, vamos Vamos ouvir mais um auxílio e aí a gente arredonda a conversa. A gente vai ouvir Lulu Santos, uma canção dele da qual eu gosto muito, chamada Tudo Bem, composta por ele sozinho, letra e música dele, gravada no disco acústico, Lulu Acústico, de 2000. Vamos lá.
Já não tenho dedos para contar de quantos barrancos E quantas pedras me atiraram, ou quantas atirei. Tanta farpa, tanta mentira, tanta falta do que dizer. Nem sempre é só easy se viver. Hoje eu não consigo mais me lembrar de quantas janelas me atirei e quanto rastro de incompreensão eu Já deixei tanto bons quanto maus motivos, tantas vezes desilusão, e quase, quase nunca a vida é um balão, mas o teu amor me cura de uma loucura qualquer.
É encostar no seu peito, e se isso for algum defeito, por De quantos barrancos despenquei.
Lula Santos é tudo, né?
É bonito demais, né? É tudo, é muito bonito, muito bonito, bonito mesmo. De quantos barrancos despenquei. Esse despencar aí tem o sentido da queda, né? Mas também é figurado, né? Porque não se trata de despencar literalmente de barrancos, mas figurativamente, figuradamente, de levar tombos. Então, tombos que a gente leva vida afora. Bom, despencar, como diz o nosso ouvinte, ele diz, faz lá uma relação com penca, as frutas, mas é tudo isso mesmo.
O verbo despencar é formado por um processo que nós chamamos de parasíntese. O que vem a ser a parasíntese? Vem a ser a formação formação de uma palavra derivada, normalmente verbo, a partir do acréscimo de prefixo, no caso prefixo des-, e de sufixo, no caso sufixo -ar. É des- mais penca mais -ar. E esse des- com sentido de separação, de afastamento. Despencar é afastar-se da penca, uma penca de bananas, por exemplo, né? Então a gente arranca uma banana da penca, né?
E portanto essa banana despenca, ela sai da penca, ela se afasta da penca. Então despencar é sim palavra que tem relação com a palavra penca, do jeito que ele disse aí. Forma, como é que ele disse? Qual é a expressão que ele usou? Cadê, cadê, cadê, cadê?
Forma em que alguns frutos são encontrados na natureza.
Exatamente. Então é isso mesmo, despencar. Des mais penca mais ar. Vou repetir o nome do processo para síntese. Um processo muito comum: pobre, empobrecer; rico, enriquecer; belo, embelezar, né? Fraco, enfraquecer. E por aí vai. Frio, esfriar; quente, esquentar. Tudo isso a gente forma por parasíntese, repito, prefixo e sufixo de uma vez, né, colocados simultaneamente. É o caso de despencar, tá bom?
Tá bom, muito bem. Se você caiu da penca, perfeitamente, a gente vai fazer isso já já, daqui a 30, 48 minutos a gente vai despencar para fora desse estúdio, não é mesmo? Sim, muito bem. Ok. Beijo, professor. Obrigada por hoje. Até amanhã.
Beijo, queridas russas. Até amanhã.
— Anúncios inseridos dinamicamente —