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Por que transformamos outras pessoas em inimigas do relacionamento

20 de julho de 202618min
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Carol Tilkian usa a rivalidade entre Brasil e Argentina como metáfora para discutir os "inimigos imaginários" criados nas relações afetivas.

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Participantes neste episódio3
Á

Álvaro Machado Dias

HostEspecialista
B

Beatriz Pacheco

HostJornalista
C

Carol Tilkian

HostPsicanalista
Assuntos3
  • Relacionamento com amigo imaginárioRivalidade com ex-parceiros · Ciúme retroativo · Sogra como rival · Insegurança e insuficiência
  • Tempo do amor e relacionamentosVida social do parceiro · Amigos e família do parceiro · Filhos do primeiro casamento · Competição por atenção
  • Ataques do inimigo às famíliasDeslocamento do mal-estar · Evitar conflitos internos · Presença ausente
Transcrição25 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Amazon Health AI presents Painful Thoughts. I, um, I can't stop scratching my downtown.

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CTCarol Tilkian

CBN Amores Possíveis com Carol Tioquinha.

?Voz C

Oi, Carol, boa tarde!

CTCarol Tilkian

Boa tarde, Tati. Boa tarde, Nando. Boa tarde, ouvintes.

?Voz C

Carolina hoje vai fazer uma metáfora futebolística para falar de amor, e tem Argentina envolvido.

CTCarol Tilkian

Então já quero começar perguntando: para quem vocês estavam torcendo ontem?

?Voz C

Eu tava torcendo para o jogo ser melhor do que o que a gente viu, porque foi um joguinho vagabundo. Mas eu, eu tava torcendo para Argentina, mas eu não achei ruim que a Espanha ganhou, não.

?Voz D

Olha, eu tava nem aí.

?Voz C

Você tava torcendo para o árbitro, mas também não tava torcendo contra ninguém, viu?

?Voz D

Queria só me divertir.

?Voz C

Eu também, por isso achei um joguinho legal.

CTCarol Tilkian

Exceção, né? Eu não sou nada do futebol, não me envolvi com essa Copa, mas me envolvi muito com a reação dos brasileiros com as outras seleções. E com o aumento da rivalidade com a Argentina, né? Então a quantidade de brasileiros torcendo contra os argentinos me deu vontade de trazer uma provocação aqui de quem são os argentinos nas nossas relações conjugais. Porque esse movimento de torcer com uma intensidade fervorosa, talvez mais do que até a gente tava torcendo pelo Brasil, a gente tava torcendo contra contra.

Muitas vezes a gente vê espelhado isso nas nossas relações. Então você torce contra a promoção do seu ex-marido porque no fundo você camelou aquela vida apertada, e agora que ele tá separado, tá com a outra mulher com quem ele te traiu, ele vai ter uma vida tranquila. A gente já transforma o outro no inimigo. Ou nós mulheres, o quanto a gente é socializada para ser inimiga e rivalizar com a ex-mulher, a ex-namorada do outro. A sogra vira uma rival, acho que é um grande clássico.

Então já queria até abrir perguntando para os ouvintes: com quem você já rivalizou nas suas relações pessoais? Ou quem você sentiu que tava rivalizando com você? Porque, por exemplo, eu tenho ex-namorado A gente terminou super bem, fui eu que terminei. A gente era amigo e ele começou a namorar uma mulher com quem depois ele casou, que tinha muito ciúme da relação dele com as ex-namoradas. E ela rivalizava até pedir para ele parar de falar com todas essas mulheres.

E eu pensava, gente, ela tá aqui me olhando como inimiga, mas eu não tô brigando com ela. Né, eu chamei essa nossa coluna de inimigos imaginários porque eu vejo que a gente também tem esses nossos argentinos. A gente coloca essa figura do terceiro como esse causador dos problemas, da discórdia, do motivo da desatenção, para não olhar Para os nossos conflitos internos, para nossa frustração. Voltando para o futebol, a gente perdeu, fomos eliminados, mas ao invés de lidar só com isso, né, até falamos sobre frustração na coluna depois que o Brasil foi eliminado, a gente rivaliza, a gente torce contra, a gente redireciona todo mal-estar para fora.

Quando a gente fala de ex, a gente até teve uma coluna aqui que reverberou muito. Inclusive eu tenho analisando os que vieram para por conta dela, a coluna sobre ciúme retroativo, e o quantas vezes a ex-mulher, o ex-marido ganham essa proporção de inimigo imaginário. Então, por que que você ainda fala com ela? Por que que ela ainda tem a chave aqui da casa? Por que que ele liga para você para contar que foi promovido e não liga para atual namorada?

É aqui nessa relação que as pessoas têm com o ex ou com a ex dos atuais parceiros, raramente a gente tá falando sobre a pessoa e raramente a gente tá falando sobre o presente. O que acontece aqui é que a gente tá lutando com uma fantasia, a fantasia de que aquela pessoa viveu algo muito intenso com essa pessoa que hoje está com você, que essa, aquela pessoa conheceu a mãe dele ou a mãe dela que hoje é falecida, e você nunca vai ter essa conexão com a tal sogra.

A gente começa a rivalizar e a ter inimizade não com o outro homem, o antigo marido, antigo namorado, ou antiga mulher, antiga namorada, e sim com o gozo que a gente imagina que essa pessoa que tá com a gente teve com ele. Porque isso traz para gente essa sensação de eu não sou tudo para o outro, ele viveu coisas sem mim, ainda que a gente também tenha vivido coisas sem ele. Mas ter esta figura do outro faz com que todo o meu mal-estar e essa minha sensação de insuficiência seja deslocada para uma figura concreta que tá ali representando tudo que eu não sou, tudo que essa pessoa não faz comigo.

E aí, falando do não fazer, tem um outro campo que eu vejo que a gente rivaliza muito, que é a vida do outro que não me inclui. Então, o amigo próximo, a turma do futebol, as amigas do grupo da psicanálise, o trabalho. De repente a gente começa a entrar nessa lógica de: ah, você prefere ficar com eles do que comigo? Ou: ah, para suas amigas tá tudo sempre bem, né? Agora no nosso final de semana você tá cansada, quer dormir cedo.

Claro, tomou um porre com elas na quinta-feira. Como se fosse algo da ordem da competição, né? Ou, tá vendo? As crianças estão mal criadas porque você também nunca volta a tempo de dar o jantar para elas e eu tenho que dar aqui esse jantar sozinho desde que você foi promovida. Essa casa está uma bagunça. De novo, é menos sobre a bagunça, é menos sobre não gostar das amigas da sua namorada, ou ter um bode dos amigos do seu marido, e muito mais de se incomodar que essa pessoa tem prazeres e amores que não passam por mim.

Outro dia eu recebi na clínica uma mulher casada há 15 anos que tem um casamento super bacana, os dois têm uma troca incrível, mas ela se incomoda porque ele ri mais com os amigos do que ri com ela. Então, no imaginário dela, é como se ele estar só com a família, ele, ela e as 3 filhas, fosse menos divertido do que quando tá várias famílias dos amigos juntos. Então ela sempre tem esse fantasma de que nós não somos suficientes, porque quando tá a turma toda, ele ri mais, ele se diverte mais.

Ele brinca mais. Isso não significa que ele não gosta de estar com a família, são só qualidades diferentes. E o quanto, como a gente tá cada vez mais inseguro, né? Eu trouxe aqui dados da minha pesquisa sobre como o brasileiro percebe o amor e o que a gente quer, o Raio-X da Vida Afetiva, onde eu entrevistei mais de 1000 brasileiros junto com a Camila Ropeth, que também é pesquisadora e psicanalista. E o maior medo do brasileiro é não ser suficiente. 1 a cada 3 brasileiros teme não ser suficiente nas relações.

E aí a alteridade ameaça. Não é a alteridade de uma outra mulher, um outro cara com quem essa pessoa vai me trair. É interessante isso, né? Não tô trazendo o inimigo do— a colega do trabalho que eu acho que ele flerta. É sempre algo deslocado. A sogra, acho que é esse grande ícone também de rivalidade. E muitas vezes o incômodo vem como: ela interfere muito. Aqui também, trazendo um dado da pesquisa, né, 1 a cada 5 brasileiros diz que um dos grandes problemas da relação é a interferência da família.

Então a gente verbaliza: eu me incomodo porque a sua mãe vem aqui e que é dar palpite na educação da criança, na decoração da casa, nos horários que a gente almoça e janta. Mas muitas vezes é menos sobre o a sua mãe se mete demais e mais eu tenho medo de ela ser sempre o seu primeiro vínculo, seja isso a queixa de um homem ou de uma mulher. Porque fica uma sensação de, ah, você é mais fiel à sua família de origem do que à nossa família nuclear.

E aí a gente fica vilanizando, ao invés de pensar, como é que eu posso lidar com essas famílias todas juntas? E um inimigo imaginário que eu tenho visto crescer muito nos últimos tempos, e que as pessoas têm muita vergonha de falar, são os filhos do primeiro casamento. Porque a ex-namorada, o ex-marido, a sogra, os amigos do trabalho que bebem demais, que falam besteira, a gente até se autoriza. Mas como é que você vai falar que você tem ciúmes da criança de 4 anos?

?Voz D

Eu já peguei muito, tem aqui, eu tava esperando chegar nesse assunto. A Néia conta o seguinte, que a atual mulher do ex tinha ciúmes da filha, ela tinha 4 anos, até descreveu um acidente que segundo ela foi causado por essa mulher. E aí fez até ganhar tutela. Ô louco, ao nível que chegou ciúmes de uma criança de 4 anos.

CTCarol Tilkian

Exatamente. Eu vejo isso muito na clínica. E como as pessoas não falam, é muito perigoso porque elas atuam. Quando você fala até chegou a um acidente, é quando eu me autorizo a falar, porque vocês, marido da minha namorada, é um babaca. Pelo menos você Expurga essa raiva. Como a gente não se sente autorizado a falar, eu tenho ciúme da criança de 4 anos porque eu não posso transar gritando alto porque a criança tá dormindo do lado, porque eu tenho que mudar os meus planos e pensar viagens onde as crianças possam ir, eu gostaria de fazer uma viagem de uma trilha de aventura e não dá para fazer trilha com criança.

O que muitas vezes acontece é que o adulto passa a se infantilizar. E eu vejo muito isso na clínica, os adultos tendo mais problemas com os filhos dos primeiros casamentos, dos parceiros e parceiras, do que essas crianças rivalizando com as madrastas ou padrastos. Porque, de novo, a pessoa tá competindo por tempo, pela tal prioridade, por afeto. Isso tá afetando uma ferida narcísica, que é: é claro que os filhos vêm em primeiro lugar, então eu não serei o primeiro lugar dessa pessoa.

Quando a gente tem que parar de querer ser o primeiro lugar, não existe primeiro lugar. A gente tem que desierarquizar os afetos. E por que que a gente precisa dos inimigos, porque o inimigo protege o casal do conflito interno. Então, se o problema é a sogra, se o problema é o chefe que faz você trabalhar todas as horas, se o problema é o seu filho que já tem 10 anos, mas acorda no meio da noite, vem dormir aqui no meio da gente, a gente desloca o mal-estar E para de conversar sobre a gente, de, olha, sinto que a gente tá vivendo uma presença ausente.

Que é algo também que apareceu na pesquisa, que hoje a maior violência sentida pelos casais é o tratamento de silêncio e a pessoa que tá lá, mas não tá. Então, ao invés de eu dizer, puts, tô sentindo que a gente desconectou. Ou, tô sentindo falta da gente ter mais tempo de qualidade junto. O inimigo, de novo, é o trabalho, é a ex-mulher que muda os planos, é a filha. Carol, fala, fala.

?Voz C

Você falou sobre hierarquizar os afetos e eu já tinha lembrado de uma outra frase da Jeane Nunes, que é escritora, psicóloga talvez, não vou lembrar exatamente, é, né? Mas fala muito sobre relações E que eu acho que tem tudo a ver com isso. Antes vou colocar aqui o comentário da Adriana Souza dizendo: meu marido fala a mesma coisa quando temos os encontros com a turma da escola. Você imagina o quanto de risada não se dá quando você reencontra a turma da escola?

E o que é que isso tem a ver com a sua relação conjugal, né? Mas eu lembrei de outra frase da Geni que ela diz: o desejo do outro não é uma informação sobre você. Eu repito isso, vale, é um mantra da minha vida, tá? Eu acho que ajuda bastante a gente entender que o desejo do outro diz sobre o outro.

CTCarol Tilkian

E o passado do outro, pegando a turma da escola, também não é um desgaste do produto pessoa que chegou para você, porque tem essa fantasia. E eu vejo muito na clínica, a turma da escola provavelmente tem o cara com quem essa mulher transou pela primeira vez, a primeira paixão dela, tem a primeira namoradinha. E aí você fica numa ilusão de: será que agora que vai ter o encontro de 25 anos da escola e essa primeira namoradinha se separou, o meu marido vai lá querer dar em cima dela?

Ou será que eles riem tanto E no fundo isso mostra que a nossa relação está enfadonha. E acho que um ponto de atenção é que conforme a gente vai deslocando esses inimigos, a gente não se dá conta de que a gente tá virando o inimigo da própria relação. Então eu começo a ser vigilante, vou no encontro da turma da escola, como disse essa ouvinte, e aí esse cara é grosseiro. Ou ele nem quer ir, ou você volta e a pessoa tá de cara fechada.

Aí você se divertiu super, você queria abrir um vinho, continuar conversando, aí o clima fica pesado, aí vocês entram em crise. E aí o que que você faz? Culpa a turma da escola, quando na verdade quem é o grande responsável por esse escalonar do atrito Somos nós que não conseguimos dizer, tô me sentindo inseguro, tenho ciúmes, você se diverte muito com eles, o que que você gosta de fazer comigo? A gente tem que poder falar. Então acho que toda vez que a gente se perceber torcendo contra um argentino da vida real, querendo que o encontro da escola se desmarque, falando mal dos amigos do pôquer, da turma da escola, fazendo cara feia para filha do atual marido, que a gente possa olhar com intimidade, com honestidade, para as nossas inseguranças e para nossa insuficiência.

Todo mundo se incomoda em não ser tudo para o outro. Então que a gente possa falar sobre esse incômodo ao invés de negar esse incômodo para poder lidar mais com os sentimentos que são da ordem do concreto do que ficar só nessas fantasias projetivas.

?Voz C

Carol Tchuketa com a gente toda segunda-feira em Amores Possíveis aqui no Estúdio CBN, para a gente começar a semana falando de amor. Obrigada, Carol, um beijo para você, boa semana para nós.

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