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Quem decidiu que existe uma idade para parar de mudar?

20 de julho de 202612min
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Aos 70 anos, muita gente ainda aprende, se apaixona, muda de cidade e reorganiza a própria vida. Por que, então, continuamos agindo como se mudar por dentro tivesse prazo de validade? Estudos recentes mostram que existe uma vontade de mudar e um movimento que segue eficaz ao longo de toda a vida adulta.

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Participantes neste episódio3
B

Beatriz Pacheco

HostJornalista
C

Carlos Alberto Sardenberg

HostJornalista
C

Carlos Eduardo Éboli

HostJornalista
Assuntos3
  • Reinvenção pessoalMudança de carreira · Novos relacionamentos · Aprendizado contínuo · Viver melhor
  • Idade e juízoReinventar a vida · Prazo de validade para mudanças · Balzac
  • Tratamentos e TerapiasDifusão dos saberes psis · Urbanização no Brasil · Cidades pequenas vs. grandes
Transcrição39 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Amazon Health AI presents Painful Thoughts. I, um, I can't stop scratching my downtown. Mm-hmm. Yeah, but I'm not itching to go downtown and tell a receptionist I'm here to talk about my downtown. Some things you'd rather type than say out loud. There's no question too embarrassing for Amazon Health AI. Chat your symptoms and get virtual care 24/7. Healthcare just got less painful. Pra Onde Vamos com Michel Alcoforado.

?Voz B

Fala, Michel, boa tarde.

?Voz A

Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando.

?Voz C

Boa tarde, Michel.

?Voz B

Tem gente que quando passa de uma determinada idade acha que não é mais possível fazer algumas coisas. Por exemplo, vou usar uma anedota particular aqui. Quando eu fiz 30 anos, o que já faz bastante tempo, eu achei— eu era, sempre fui super festeira, organizava festas aqui na redação da CBN quando eu era repórter, aqui no começo dos anos 2000 e tal. Quando eu fiz 30 anos, eu falei, não, eu tô muito velha, eu vou fazer um almoço de domingo para comemorar.

?Voz A

E foi boa, hein?

?Voz B

Corta para os 48.

?Voz C

Morroi quem riu.

?Voz A

Isso que eu ia falar, nem combina, né?

?Voz B

Não combina, né?

?Voz C

Foi só um intervalo de tempo que ela pensou isso.

?Voz B

Durou só aquele aniversário. Aí eu entendi que o Balzac tava errado, que todo mundo que dizia que a mulher que aos 30 anos tá velha tava errado. Fui ressignificando várias coisas.

?Voz A

Eu tô falando, conseguindo imaginar a cena, você assim, uma música de fundo, um jazz, taças batendo, pessoas vestidas com a camisa Podemos na Casa, falando baixinho num jardim.

?Voz B

Foi bonito, foi, foi bonito. Mas no ano seguinte eu fiz uma festa que terminou só 2 dias depois. Não, mentira, isso eu nunca fiz. Mas enfim, voltei ao normal porque entendi que não tem idade para fazer um monte de coisa que a gente gosta de fazer. E pode continuar fazendo. E eu tô aqui falando do meu lugar de mulher, né, Michel? E a gente sabe, enfim, que o recorte de gênero aí faz diferença. Mas muitos homens também deixam de fazer coisas porque, ah, não tenho mais idade para isso.

?Voz A

É, homens, eu acho que aí tem um recorte de classe também que é importantíssimo da gente levar em consideração. Mas acho também que tem aspecto que a gente vai discutir no comentário de hoje regional também, tá? É, e eu vou já contar como é que o lugar onde você mora pode te ajudar a repensar esse processo de reinvenção ou não ao longo da tua vida. É, comumente aí, o senso comum, e todos nós de uma forma geral acreditamos que o processo de envelhecimento vai te dando menos possibilidade de reinvenção, né?

A gente vai começando a achar que, ah, eu tô muito velho para isso, ah, eu não deveria mais mudar, ah, eu já sou assim mesmo. Ah, já tô em paz com isso, não vou mudar, não vou, vou continuar com essa vidinha mais ou menos desse jeito que eu tô vivendo, por como se não houvesse mais tempo para mudança. E o ponto que é super interessante hoje, a gente pensando nos processos de envelhecimento em 2026, ou nessa década que a gente tá vivendo no mundo de hoje, é que você consegue mudar e consegue repensar sobre os próprios caminhos, a própria, o próprio processo de envelhecimento, sobre o teu dia a dia.

Até o teu último suspiro. Nunca é tarde para tu ter a chance de viver uma outra vida, mas nunca é tarde também para você ter a possibilidade de repensar sobre a vida que você tá levando. E isso, há uma ferramenta importantíssima que nos ajuda a pensar sobre esse processo de reinvenção, de que vida é essa que a gente quer levar, ou como é que a gente dá conta de reinventar a vida que a gente tá levando, que é a terapia. Quem já conviveu com gente de mais idade, ou com pai ou com mamãe, chegou em casa e falou assim: ah, Acho que vou procurar um psicólogo, acho que vou procurar uma terapia, acho que vou me cuidar.

Hoje menos, mas antigamente ia escutar das pessoas mais velhas dizerem: Ih, mexe com isso não, você não precisa disso, isso aí é falta de trabalho, isso aí é falta de procurar outra coisa, vai encher a cabeça, sei lá, com outra coisa, não se mete na terapia não. E olha que contraponto interessante: durante muito tempo, e ainda hoje é assim, As populações com mais idade são aquelas, junto com os mais jovens, que mais atravessam dilemas de saúde mental.

Por conta do quê? De uma série de fatores. No final da vida, você é obrigado a experienciar não só a ideia de que tá chegando no final dos teus tempos, né, então a morte, ela deixa de ser uma ilusão e ela começa a se apresentar como algo que vai te atravessar em algum momento, coisa que a gente, quando tem menos idade, gosta de acreditar que não vai chegar. Um segundo ponto importante é o esfacelamento das relações, né? Você vai tendo de conviver com gerações mais jovens que vão levando suas vidas, mesmo filhos e netos, e aí seus vínculos com os outros ficam mais frágeis.

Mas há um outro elemento interessantíssimo que prejudica a beça, saúde mental, que é uma diminuição forte do conjunto de relações com pares. E aí, que pares são esses? São os pares horizontais, assim. O que eu tô querendo dizer com isso? Você cada vez menos tem a possibilidade de conviver com gente da tua idade ou da mesma geração que você. E aí você começa a ter que conviver com gente muito mais jovem do que você, que faz parte de outro mundo, tem outros interesses, outras ambições e por aí vai.

E aí, apesar de saúde mental ser um assunto super importante pra quem tá envelhecendo, ou pra quem já tem mais idade, boa parte das pessoas mais velhas no Brasil e no exterior são muito reticentes a esse tipo de coisa. Aí você tá pensando, puts, mas por que meu pai, minha mãe, minha avó, sei lá, precisam tanto procurar uma terapia e são contra isso? É... 2 fatores são importantes aí. E aí a gente pode olhar pro ponto de vista da geração, mas também pra um aspecto interessante da regionalização.

A difusão dos saberes psis, a ideia de que terapia era importante, que você podia contratar um terapeuta, e sentar no divã de costas pra alguém e contar da tua vida, que você ia sair melhor dali, é muito— cresceu muito, sobretudo nos anos de 1970, que é quando a gente tem dois movimentos atuando lado a lado. Primeiro, as pessoas começaram a achar que podiam ser donas da própria vida e o seu valor individual era muito mais importante do que o teu pai, a tua mãe, a família, o Estado, sei lá quem mais quem ia querer que você tivesse um determinado tipo de vida.

Mas a gente também começou a entrar num processo importante de urbanização no Brasil. Então, numa cidade grande, é muito mais fácil você se sentir dono da tua própria vida, sem se importar com a opinião dos outros, do que quando você mora numa cidade pequena, ou você mora num lugar onde a comunidade tem muito controle sobre a tua própria trajetória. Então, nesse momento dos anos 70, quem começou a entrar de cabeça no mundo da terapia?

Eram os jovens das grandes cidades, das camadas médias, que tavam podendo viver a vida do jeito que queriam viver, mas também tinham grana pra poder começar a pagar a terapia. Então, ali, quem passou por esse período ali, sendo jovem, achando terapia um negócio legal, era um pedacinho da sociedade, assim, um microcosmos, um pedacinho de nada. Todo o resto da sociedade achava que aquilo não valia a pena. E o que a gente tem observado agora, e várias pesquisas no Brasil e nos Estados Unidos estão mostrando, é que isso tá ficando pra trás, tá?

Gente de mais idade não só tá frequentando mais terapia, apesar de ser um grupo que frequenta, em comparação com os outros grupos, ainda é um número muito menor, mas quando eles vão e chegam no consultório do psicólogo, do psicanalista ou da terapeuta da linha que você achar que mais vale pra você, Quando eles chegam lá, eles não saem. O comprometimento é infinitamente maior. E aí os ganhos são grandes por quê? Primeiro porque a vida muda numa velocidade, até não importa a tua idade, tão grande que a reinvenção é algo que vai se apresentar pra todos nós.

Não é porque você foi um pai de um jeito, ou você foi uma mãe de um jeito, ou se portou de um determinado jeito e sempre funcionou, que em 2026 vai continuar funcionando. Não vai, porque nada tá funcionando mais ou menos como funcionava no passado. E aí, essa é uma questão. E o segundo ponto é que as pessoas claramente, dado o comprometimento delas, conseguem entender que tem outras possibilidades pra além da visão que elas tinham do que querem viver.

E com isso elas começam a viver melhor. Então, os pacientes com mais idade, sobretudo aqueles com mais de 70 anos, quando chegam no consultório de um terapeuta, Eles não faltam, se comprometem com o tratamento e rapidamente começam a entender ou a ver que pode ter uma vida com sapato mais folgado, assim, com mais conforto. Mesmo que o horizonte de possibilidades, dada a idade, é menor do que alguém que tem menos idade, mas mesmo assim nunca é tarde para viver uma vida melhor.

E aí reinvenção é uma regra, tá podendo se reinventar até o último segundo agora, não tem mais esse negócio, já passou não.

?Voz C

Legal, fico imaginando também na cena quando uma pessoa aos 70 vai procurar uma terapia, fico imaginando o tamanho do conteúdo e a qualidade do conteúdo que será compartilhado. Riquíssimo, é riquíssimo. Muita gente, o pessoal ainda não começou a escrever sobre essa cena com terapia, Mas tem várias, várias pessoas falando assim, ó, Mauro tá com 49 anos, iniciou agora o maitai, voltou a estudar, jogar vôlei.

?Voz B

É isso, é isso.

?Voz C

Se o corpo permite, por que não? A Cris, ela fala assim, ó, por exemplo, não permite. A minha mente diz que vai, o corpo às vezes para, certo? Mas ela faz muita coisa e as pessoas mais novas acabam julgando. Ela não liga, às vezes concorda porque o corpo não deixa, bola para frente.

?Voz A

Terapia serve para isso também, para a gente ligar menos para os outros e mais para gente.

?Voz B

Gente, tanta gente pós- 40, 50, 60, 70, casando de novo, separando pela primeira vez, pela segunda, pela terceira, arrumando um parceiro, uma parceira nova, aprendendo uma coisa nova, fazendo um curso novo, mudando de carreira, né?

?Voz C

E aos 65 voltar a andar de patins, aí é muito radical.

?Voz B

Que legal! Não esquece as proteções, né? Cotoveleira, joelheira e tal, porque aí se quebra, fica um pouquinho mais difícil de colar.

?Voz A

Dá para se reinventar até o último segundo. Que beleza! Muito melhor do que antigamente. Muito melhor.

?Voz B

Eu acho que é isso que faz a gente ter gosto pela vida, né? Que graça teria definir uma vida ali como exigem da gente tão cedo, né, Michel? Até os 30, 35 anos você precisa escolher e tá no topo da sua carreira, você precisa estar casado com seus filhos ou encaminhando isso já, você precisa ter conhecido boa parte do mundo, você precisa estar formado e bem formado. Imagina ter que viver assim para todos sempre só porque você acha que você tá velho demais para mudar, né?

?Voz A

E agora não precisa mais nada, pode tudo, se joga.

?Voz B

Nada, é isso aí, tá bom, adorei. Tchau, um beijo, Michel. A gente se fala na quarta, você tá de volta aqui. Sexta nós na Flip, certo?

?Voz A

Sim, quarta eu já tô em Paraty. Você também?

?Voz B

Eu vou estar no caminho durante o Estúdio CBN, eu vou estar na estrada.

?Voz A

Eu já vou fazer de lá, mas sexta a gente se encontra no Estúdio CBN em loco, né? Na Flip.

?Voz B

Não vejo a hora.

?Voz A

E Fernando, boas férias, hein?

?Voz C

Obrigado, Michel. Até a volta.

?Voz A

Tapa o umbigo, tá, querido?

?Voz D

Porque a gente tá com inveja.

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