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Até onde vai o limite dos patrocínios no futebol?

18 de julho de 202617min
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Rossandro Klinjey comenta que a polêmica envolvendo o patrocínio de uma plataforma de conteúdo adulto ao Corinthians reflete um processo de relativização de valores na sociedade.

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Participantes neste episódio2
R

Rossandro Klinjey

HostPsicólogo
D

Denise Guilherme

Co-hostDiretora pedagógica
Assuntos4
  • Patrocínios no futebolRelativismo moral · Corinthians · Fatal Fans · Conteúdo adulto · Bets
  • Caráter e CoerênciaCuradoria de conteúdo · Manipulação de redes sociais · Vícios
  • Etica e MoralEufemismo · Comparação vantajosa · Difusão de responsabilidade · Dissonância cognitiva
  • Convocação Hugo SouzaRedes sociais · Cultura algorítmica · Anestesiamento social · Mundo líquido
Transcrição14 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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?Voz B

O Divã de Todos Nós com Rossandro Klinger. O Divã de Todos Nós nesse sábado com Rossandro Klinger e comigo. Rossandro, boa tarde.

RKRossandro Klinjey

Oi, boa tarde, Peti! Boa tarde, ouvintes! Mudamos de dia, né, Peti, para ficar mais fácil aqui.

?Voz B

A gente vai estrear oficialmente em agosto, mas já estamos aqui com o Rosane. Quero trazer para você o destaque, que é o seguinte: a gente falava aqui de futebol, né, no Revista CBN, ao longo de toda essa nossa edição do Revista. E algo que chamou muito a atenção nesses últimos dias, eu quero trazer para você aqui o destaque da reportagem, reportagem que inclusive tá na Folha de São Paulo desse final de semana. O vereador de São Paulo, Carlos Bezerra Júnior, do PSD, do PSD, protocolou nessa quinta-feira uma representação no Ministério Público de São Paulo em que ele pede apuração do contrato de um patrocínio firmado entre o Corinthians e a Fatal Fans, que é uma plataforma de conteúdo adulto por assinatura.

Nessa representação, o vereador pediu que seja instaurado um inquérito civil e que o Ministério Público ingresse com ação civil pública com pedido de indenização em dinheiro e a suspensão da exposição da marca nos uniformes. Essa indenização seria revertida ao Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. O patrocínio que a gente tá falando aqui com logo da plataforma, segundo o vereador, vai atingir milhões de crianças e adolescentes.

Inclusive, aspas aqui na Folha de São Paulo, ele diz o seguinte: imagina o constrangimento para uma mãe apresentar o seu filho ou sua filha com uma camisa do Corinthians, um time do tamanho do Corinthians, com esse tipo de anúncio. Aí diz aqui o vereador: uniforme carrega valores do clube, a camisa do Corinthians já carregou a democracia corinthiana. E a minha representação, diz ele, não é contra o clube, é a defesa de crianças quando o mercado de conteúdo adulto passa a usar o futebol para promover a sua atividade.

O contrato válido até 31 de dezembro de 27 do Corinthians, que deve receber R$22 milhões da Fatal Fans com possibilidade de renovação. Isso informações que eu trago para o nosso ouvinte do jornal Folha de São Paulo. Mas tem vídeo de conteúdo do Carlos Bezerra no Instagram, também da Marina Braganti, que é política aqui em São Paulo, também falando sobre esse assunto que atinge a nós nessa reflexão sobre o esporte sobre o dinheiro. Vale tudo nos dias de hoje, Rossandro? Vale tudo? Essa é minha pergunta.

RKRossandro Klinjey

Pois é, Pétrea, ninguém acorda cínico, na verdade. Existem estudos sobre isso. O relativismo moral, que é o que a gente tá vendo aí nesse caso, ela não vai chegando de vez, é de prestação. Um grande pensador chamado Brandura chamou isso de desengajamento moral. Ele descreveu o mecanismo como: primeiro, primeiro começa assim, com eufemismo. Como é que o desengajamento moral começa, gente, para a gente entender? Primeiro com eufemismo: ah, isso não é jogatina, é entretenimento, no caso das bets, né?

Ah, isso não é aliciamento de menores, é parceria oficial, no caso de você colocar um site de conteúdo adulto. Depois vem a comparação vantajosa: ah, pior é cigarro e bebida e drogas. Entende? Para você diminuir o impacto daquela coisa. Depois vem a difusão de responsabilidade: se eu não fechar o patrocínio, o outro clube fecha, contrata jogadores melhores e ganha o campeonato. Você repara que nenhum desses mecanismos nega o valor, todos negociam com o valor.

O sujeito, ele continua se achando decente durante toda a transação. Esse é o ponto que arrepia muito a gente, porque assim, o relativismo não é uma ausência de consciência, é a consciência trabalhando em defesa do que é moralmente reprovável. É, tem um outro psicólogo americano chamado Finstinger, que ele pesquisou muita coisa a respeito disso em O Cartório da Alma, né? Ele diz assim que a dissonância cognitiva, que é o que acontece aí quando fica tentando se justificar, dizer para você que é legal quando não é, revela um desconforto sempre para o lado mais barato.

É mais barato mudar o valor do que mudar o comportamento. É mais barato mudar o valor do que perder, aspas, o patrocínio. Então o diretor do clube que assina o contrato com uma bet ou com um conteúdo adulto, ele pensou, ele não pensou assim, tipo, eu vou corromper meu torcedor. Ele pensou, futebol é negócio. Até ele acreditar nisso. Aí a gente não trai os valores de frente, entende? A gente vai reescrevendo contrato em silêncio, cláusula por cláusula, até o documento dizer sempre foi assim.

Foi assim que, por exemplo, ele estudou o caso de Eichmann, né, naquele julgamento famoso de Jerusalém sobre a banalidade do mal. Porque quando o cara fazia a planilha, ele mandava as pessoas para o campo de concentração. Ele revelou muito que ele tava apenas preenchendo uma planilha. Para ele, ele tava trabalhando, né? Na verdade, o executivo que acompanha a Beth Miranda no torcedor endividado, ele não é um monstro não, é um homem, né, aspas, de bem, cumprindo a meta.

Diria ela, Arne, que na verdade, nesse caso, o perigo é justamente esse: ele não escolheu o mal, ele nunca fez a pergunta: será que colocar uma logomarca de uma empresa de conteúdo adulto na marca de um time tão famoso como Corinthians não vai ajudar ainda mais a destruir tantas vidas como a gente tem visto hoje? A crianças e adolescentes ficarem ainda mais expostas à pornografia, tudo que isso deteriora na sociedade, é uma sociedade que relativiza os valores no exato ritmo em que precisa fazer essa pergunta muito grande.

Então acho que a gente precisa entender isso de forma muito clara. As pessoas elas ficam se desculpando. Eu tenho que fazer igual o negócio da IA, né? Não, se eu parar a IA, a China continua. Se eu parar a IA, o Google continua. E até que de repente a gente pode ter um futuro distópico porque ninguém quis dar um pause. Nós precisamos sinceramente olhar o que tá acontecendo e dizer: o rei tá nu, tá ficando ridículo, tá ficando perigoso.

A gente tem visto o aumento do feminicídio, a gente tem visto tantas coisas que não deveriam fazer parte do século 21. E essas coisas não foram acontecendo de repente, são— é como se você fosse minando lentamente o terreno de uma sociedade minimamente estável. E quando tudo ruim, todo mundo vai perdendo, não tem ninguém que ganha esse inteiro aí.

?Voz B

Eu fico pensando onde é que começa essa desfragmentação da realidade, né? Vivemos tempos de muita informação, é a rede social e a cultura algorítmica que nós vivemos hoje vai banalizando a nossa atenção, ao mesmo tempo em que a nossa atenção ela é o produto principal, né, trabalhado pelas mídias de tecnologia, desde redes sociais, as big techs. O principal produto é a nossa atenção, que tá cada vez mais desatenta e comprada. Eu acho, Rosandro, queria te perguntar se essas questões éticas e morais que estão sendo levantadas agora, tanto essa questão das bets que você falou, da maneira indiscriminada como isso vem sendo divulgado, quanto essa questão agora de conteúdo adulto pornográfico sendo patrocinador, né, de um grande time de futebol.

Eu não sei se eu faço uma pergunta para você a respeito de como os valores estão se dissolvendo na nossa, na nossa sociedade, a flexibilização da moral Ou se é porque a gente tá tão desatento. E não é a banalização da moral, é a banalização dos nossos próprios dias, da nossa própria atenção. Será que eles acharam que ninguém ia prestar atenção nisso? Como é que você vê tudo isso, Rossandro?

RKRossandro Klinjey

A gente tá no momento em que as pessoas estão se anestesiando, porque é tanto escândalo, tanta coisa, que as pessoas elas olham para aquele e vão seguindo a vida. Se não tiver um agente político, um agente social, uma organização que crite como tá acontecendo e fala, ó, isso não é, não tá, não dá, não dá para engolir isso. As pessoas vão deixando porque é tanto, é tanta dor compartilhada antes do café da manhã que você, como estratégia de sobrevivência cognitiva, você se anestesia.

Aí você começa uma guerra olhando e lamentando, depois você vê a guerra da Ucrânia e continua tomando café. Você vê uma criança sendo abusada no feed do seu Instagram, na notícia, e imediatamente rola para um videozinho engraçado de dança. E a vida Ficou desse jeito assim, completamente, como dizia Zygmunt Bauman, é um mundo líquido. Então as pessoas têm relações que são superficiais para completar esse caldo cultural. A gente tá num desses ciclos históricos de divisão política gigante que acontece a cada período de 70, 80 anos no mundo.

Então assim, a gente tem relativismos nos discursos. Quando uma coisa interessa a esquerda, ela defende mesmo quando é indefensável. Quando uma coisa interessa a direita, ela defende mesmo quando é indefensável, só para marcar território. E nisso ambos os lados do espectro político vão correndo os valores, destruindo, né, as coisas. No entanto, com relação às bets, por exemplo, deputados de ambos os partidos votaram a favor. No escândalo do Márcio, a gente tava, tá todo mundo envolvido.

Então assim, aí você fica, chega um momento, você olha e pensa assim, para onde é que eu vou? Eu acho que nesse momento a gente tem que sempre lembrar o seguinte: não posso olhar para o que tá acontecendo e pensar e cair para o sentimento de terra arrasada, de que não tem nada que ser feito. Na verdade, sempre que a gente chega nesse momento, as pessoas começam falar, gritar e recuperar aquilo que é a dignidade. Começa na nossa própria vida.

Então, em vez da gente perguntar por que é que o Corinthians está negociando o seu símbolo tão bonito, colocando ele de forma tão rasteira e pequena, pergunte a você: quando é que você em casa relativiza o mal que você faz? Quando você no seu trabalho relativiza a pequena corrupção que você faz? Quando é que você diz no final de semana que ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, e segunda é um sacana no trabalho humilhando as pessoas, pregando, fazendo coisas terríveis, sabotando.

A gente talvez comece não olhando apenas denunciando essa coisa mais coletiva assim, mas se perguntando como é que eu posso deixar de ser tão relativista, como é que eu posso realmente ter um mínimo de coerência. Porque se trata de uma profunda incoerência coletiva que só vai se resolver com a coerência pessoal, a minha contribuição, a sua contribuição. Até falei, né, eu recebi uma grana de milhões para fazer um vídeo né, a proposta dizendo que bets não viciam.

Eu ia derrubar toda a ciência neurológica dizendo que uma coisa que vicia não vicia, né? Então assim, a gente percebe isso, são valores nossos. Quais são os valores que você não tá negociando? E aqui não é um tom acusatório, gente. Eu não tô aqui olhando para você porque todo mundo tem telhado de vidro. Não é sobre ele tá apontando o dedo para ninguém. Assim, é para a gente apontar o dedo para nossa própria consciência. E se perguntar: no meu pequeno universo de influência, já que eu não sou o Corinthians, não sou, né, no meu pequeno universo de influência, o que que tá estampado na minha camisa emocional?

Que valores eu tô transparecendo com meu comportamento? Porque é essa minha mudança pessoal que vai interferir no meu filho, na minha filha, na esposa, no esposo, nas pessoas que estão ao meu redor. E esse efeito pode fazer uma metástase reversa, né, em que a gente começa a curar a célula social adoecida e não apenas ignorar e continuar olhando, se indignando, mas na nossa própria vida comum continuar fazendo as mesmas coisas equivocadas.

?Voz B

E só um último detalhe, Rossandro, que também me ocorre te ouvindo com toda essa atenção quando você fala. Eu costumo dizer, né, eu gosto de te escutar de corpo inteiro. Eu acho que a gente precisa fazer mais isso uns com os outros, que é não só deixar a informação passar, a banalidade da moral, a banalidade dos valores, a banalidade do mal, No entanto, a gente tem como hoje cultura, linguagem e método a reclamação. É assim que as pessoas se fazem ouvir, né?

Todo mundo hoje tem uma causa, tem algo para reclamar, tem algo para dizer, e a gente fica sem saber quais são as batalhas reais que devem ser lutadas, porque hoje tá todo mundo com um megafone nas redes sociais. Isso não quer dizer que as pessoas não devam ter, mas é uma linguagem belicosa demais num caso como esse. Aí a gente viu aí, citei o vereador, citei outras políticas que estão falando sobre isso nas redes, outras influenciadoras que colocaram o dedo nessa ferida de forma muito clara, precisa.

E que bom, é preciso de vozes corajosas, né, no nosso tempo, e que lutem as lutas corretas. Porque hoje parece que tá todo mundo lutando Tem todo mundo uma causa e tem uma banalização inclusive das próprias causas humanas relevantes e uma confusão dialética profunda, Rossandro.

RKRossandro Klinjey

A gente precisa fazer algo que a gente sempre insiste aqui, né, que é uma curadoria. A gente tem que de fato escolher o que é importante. A gente também tem que olhar que por trás disso tem uma grande discussão que tá sendo travada agora e que também tá politizada, que é a profunda manipulação que as redes sociais fazem no planeta inteiro poder.

?Voz D

Isso é inegável.

RKRossandro Klinjey

Homens que, 5 ou 6 empresas no mundo que tem mais poder do que chefe de estado, né, e que estão ali impulsionando o que deseja, o que não deseja, assim construindo a narrativa. Como diz Yuval Noah Harari, nós somos um ser da narrativa, né, nós construímos história. E isso é uma discussão que tá por trás de tudo isso, porque existe muito impulsionamento também nas redes sociais desses conteúdos que a gente tá falando aqui, né. Da própria pornografia, dos jogos, enfim, de tudo.

Então assim, não, ninguém tá conseguindo chegar lá assim. Os países estão tentando tomar algumas medidas e há uma pressão enorme sobre congressistas e tudo, a gente tá vendo isso. Então tem discussões profundas, a gente precisa de fato olhar para nossa própria vida e pensar assim, o que que eu posso fazer no meu lugar? Acho que quem influencia primeiro é ou denuncia ou pelo menos não se corrompe. São dois movimentos já muito bons.

Porque o que nós temos de celebridades que se corromperam para divulgar esse tipo de coisa, e ninguém chega para dizer assim: vamos deixar de seguir fulano que tá ensinando os nossos jovens a apostarem, as pessoas que têm renda mínima a perder tudo, a maridos que estão tirando a própria vida porque perdem esposa, perdem filho, perdem tudo, pessoas que estão destruindo a própria existência. Ninguém coloca isso na conta. O relativismo moral apaga toda a morte que tá por trás disso.

E é preciso dizer que essas coisas levam à morte. Vícios destroem vidas, famílias, pais sem filhos. Enquanto uma pessoa tá muito bem com seu iate porque ganhou algum milhão, alguns milhões que nem precisava, porque já são multimilionários, tem pais de famílias que tiraram a própria vida porque perderam tudo. E essa pessoa, quando tá tomando champanhe dela, ela esquece. A gente tá aqui para lembrar: é sangue que tá nas suas mãos. É sangue que tá nas suas mãos. Esse dinheiro não faria falta para muita gente.

?Voz B

Rossandro Klinger, no divã de todos nós, a partir de agora, a partir do mês de agosto, aos sábados, a 1 hora da tarde, trazendo para você essa análise profunda, inteligente, sensível, necessária, à luz da psicologia, do contato humano que o Rossandro tem ao longo dos últimos anos, das últimas décadas, olhando para as pessoas com escuta atenta. Inclusive tema de livro que ele vai trazer logo mais aí para o público, que a gente logo mais conta, né, Rossandro?

É uma alegria poder, é uma alegria poder contar com você. Embora seja muito doído, que a gente escute com atenção, que a gente ouça com atenção, e mais do que atenção, com consciência, porque só assim a gente vai conseguir transformar esse momento tão desafiador no campo público como nós temos agora. Obrigada, querido. Bom final de semana para você.

RKRossandro Klinjey

Para ti também. Beijo, gente.

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