Tarifaço: ‘EUA buscavam submissão, algo que não foi oferecido pelo governo brasileiro’
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Beatriz Pacheco
Uriã Fancelli
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Ele já está comigo, Uriã Fancelli. Boa tarde, Uriã.
Tudo bem, Pétrea? Boa tarde, boa tarde a todos.
Uriã, vamos, temos alguns assuntos para repercussão hoje, mas antes de mais nada, fazendo um balanço, não tô conseguindo te ouvir. Não tá me ouvindo?
Vamos ver se a gente voltou.
Uriã, fazendo, temos muito para repercutir aqui no noticiário internacional, mas uma reflexão que eu queria ouvir de você um pouco nesse momento de Copa do Mundo, né, esse evento que mobiliza telespectadores no mundo inteiro, é recorde de visualizações no YouTube, a gente acompanha polêmicas também, polêmicas éticas também que são levantadas durante esse período, e isso a gente tem muito para falar. Mas como é que a Copa do Mundo, um evento como esse, mobiliza também empresas, economias, governos. Afinal de contas, esse tá longe de ser apenas um evento esportivo, né, Uriã?
É verdade. Inclusive, o G1 publicou uma reportagem que resume bem, né, é uma transformação que muita gente não começou a perceber. Foi uma matéria da Janice Colasso e ela diz basicamente que a Copa do Mundo deixou de ser um evento esportivo e virou hoje talvez ali um dos ativos comerciais mais valiosos do planeta. E aí ela menciona também alguns dados que são bastante interessantes, que por exemplo só nesse ciclo de 2026 a FIFA ela deve arrecadar algo em torno de 13 bilhões de dólares, que é mais de 5 vezes aquilo que faturava há 20 anos atrás.
E o mais interessante, Pétrea, não é o tamanho do dinheiro, mas é quem tá pagando, porque se antes quem pagava eram empresas como a Coca-Cola, Adidas, outras multinacionais também. Hoje você tem ali algumas petrolíferas estatais bancando isso. O caso, por exemplo, da, de uma estatal saudita ou companhia aérea do Catar, banco norte-americano. Ou seja, tem governo comprando espaço dentro dessa estrutura comercial do torneio, né?
E, mas assim, a reportagem ela muito bem escrita, excelente, super, super propícia para esse momento, mas ela para também num ponto em que a história ela fica bastante interessante também. Porque olha, nesse ano de 2026, por exemplo, quem que foi o anfitrião? Estados Unidos. E não pareceu que, pelo menos nesse momento, os Estados Unidos eles estavam interessados em seduzir o resto do mundo. Pelo contrário, a gente que cresceu ouvindo que a Copa do Mundo era sempre lá aquele, a maior vitrine para o soft power dos países, ou seja, o poder de influenciar, de muitas vezes até acabar limpando sua mensagem.
Não foi o caso desse ano, porque parecia que a última preocupação dos norte-americanos seria de colocar em prática algo que eles ajudaram a inventar, que é esse soft power. Como foi o caso da maneira como algumas delegações ao redor do mundo foram tratadas, da delegação iraniana, delegações de outros países africanos também que tiveram um tratamento bastante humilhante. Então fica aí algo para a gente refletir: muito país comprando espaço enquanto quem tinha ali talvez o maior espaço de todos talvez não usou desse espaço para poder melhorar sua imagem.
Outra reflexão também E aí eu concluo com essa, tem a ver com a maneira como a FIFA demonstrou que quando há uma disposição política ela consegue de fato mudar as suas regras. É o caso, por exemplo, de um contrato que a FIFA tinha com a Gazprom, que era a estatal russa, né, em 2022, depois da invasão é ilegal da Ucrânia, a FIFA pega e rasga esse contrato, ou seja, para mandar uma mensagem. Agora, curioso que com Arábia Saudita nada foi feito, porque Arábia Saudita vai sediar a Copa em 2034, tem hoje um contrato de centenas de milhões de dólares com Aramco, que é a estatal saudita.
E por outro lado, todo aquele— há um silêncio irônico aqui, um silêncio gritante sobre por exemplo, os direitos humanos na Arábia Saudita, tratamento das mulheres, o assassinato do Jamal Khashoggi, né, jornalista que foi morto a mando do Mohammed bin Salman. Então, em um lugar onde os direitos humanos não são, não são respeitados, por que que tá havendo por parte da FIFA toda essa conivência em relação a tudo isso? Então eu acho que fica essa, essa reflexão para gente.
Totalmente, totalmente. E por falar em Estados Unidos, Uriah, queria o teu comentário com a confirmação, né, de que os Estados Unidos vão mesmo aplicar a tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros exportados ao país. Governo brasileiro tá intensificando as discussões sobre qual vai ser a resposta prática que vai dar a essa medida. Será que vai adotar trâmites mesmo para acionar a lei de reciprocidade econômica?
Como é que a gente pode entender e aguardar, né, quais vão ser os desdobramentos, quais os riscos e ganhos se o Brasil vai adotar reciprocidade? Como é que você tá acompanhando todo esse, todo esse, toda essa história?
O primeiro ponto, e aí é sempre importante frisar, toda oportunidade que eu tenho eu falo isso, o que os Estados Unidos buscavam com essas tarifas eram principalmente submissão, algo que não foi oferecido pelo governo brasileiro. E eu digo que não é alinhamento ideológico. Então, ah, tem gente falando, ah, ele quer simplesmente, o Trump, atacar o Lula para ajudar a eleger o Flávio. Não é apenas isso. O Donald Trump já mostrou, e aí a gente pode olhar para outros acontecimentos ao redor do mundo, que ele tá muito feliz com figuras, quando são figuras de esquerda que estão no poder, mas que acabam de certa maneira ficando submissos aos interesses norte-americanos.
Caso, por exemplo, da Venezuela, ele tá feliz com a Dilma Rodrigues porque ela tá ali criando uma parceria com os norte-americanos, estão exportando petróleo para lá. Então eu não acho que era isso que ele tava buscando aqui no Brasil, é submissão. E aí quem hoje, na minha visão, oferece melhor uma possibilidade de submissão é o Flávio Bolsonaro. Então é o Flávio que já disse, inclusive em uma carta enviada ao governo norte-americano, que tem uma equipe de transição à disposição do Trump, né, caso ele seja eleito.
Ele que já disse que aceita, por exemplo, ataques contra embarcações na Baía de Guanabara, para, se for o caso ali, de ajudar a combater o crime organizado no Brasil. Então ele enxerga isso no Flávio E ele escala um pouco o discurso por enquanto em relação à tarifa. Então, 25%, com a possibilidade de mais 12,5%. Aí a gente não sabe ainda se seriam adicionais, muito provavelmente sim, tá? Depende de uma decisão também que vai ser tomada no dia 24 de julho agora.
Então as tarifas, elas podem chegar a 37,5%. Uma avaliação rápida sobre a postura do governo brasileiro tem sido de cautela, principalmente por parte do governo Lula. E eu enxergo isso de maneira positiva. Primeiro porque o Brasil não tem o cacife que teriam outros países, como é o caso da China, de comprar uma briga desse tamanho. Pelo contrário, com essas, se o Brasil resolvesse aplicar desde já e tivesse também a possibilidade de aplicar desde já tarifas recíprocas, quem vai sair perdendo é consumidor brasileiro que vai pagar mais caro pelo produto norte-americano.
Então é algo que não faz sentido. Agora, não quer dizer que adotar a lei da reciprocidade como instrumento de pressão, isso não seja algo que o governo possa fazer. Eu acredito que sim, deve ser feito. Isso é positivo porque o Brasil precisa mostrar que tem cartas na manga, na manga. E eu digo que o presidente Lula precisa de cautela É para não parecer oportunista e porque ele ainda tem um canal aberto com o Trump. As rixas que a gente observou ao longo dos últimos dias são principalmente, são principalmente talvez entre o Marco Rubio, outras figuras do governo brasileiro.
O próprio Mauro Vieira, ministro de Relações Exteriores, fez alguns comentários um pouco mais ácidos, mas eu acho importante o Lula preservar essa, essa relação que talvez não seja a melhor do mundo, mas existe ainda talvez um diálogo com o Trump que possa ser facilitado depois das eleições de outubro, se o Lula vencer.
Perfeito. Eu quero terminar com você aqui, até repercutindo. Você falou aí de Flávio Bolsonaro e essa questão internacional, né, que acaba se colocando com a política brasileira. Agora, no começo do Revista, o repórter João Rosa trazia para a gente informações E a repercussão, né, da decisão do ministro Alexandre de Moraes rejeitando nesse sábado um pedido da defesa de Jair Bolsonaro de autorização para uma visita do presidente da Argentina, Javier Milei, ao ex-presidente brasileiro na prisão domiciliar.
O encontro pretendido por Bolsonaro ia acontecer no próximo dia 25, né, a data que tá prevista para viagem do Milei ao Brasil. E na semana passada, o Milei mencionou a ida ao Brasil para apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência pelo PL e também contra Jair Bolsonaro. E nesse sentido, o João Rosa inclusive trouxe uma declaração do Flávio Bolsonaro depois dessa, dessa proibição. Eu só quero que a gente possa ouvir.
Mais uma decisão ilegal, desproporcional, covarde e cruel. O Bolsonaro foi enterrado vivo, só com a cabeça para fora da terra, e tá tomando chute na cara de Moraes. Hoje foi mais um bico na boca. O medo de que Bolsonaro, ou um Bolsonaro, volte à presidência do Brasil tirou completamente a sua condição de ser juiz.
E aí, como é que a gente pode entender, Uriã, essa tática, inclusive de Bolsonaro, de Flávio Bolsonaro também, de procurar, continuam procurando no exterior, em autoridades de fora, apoio para política nacional, para fazer política aqui no Brasil?
Eles querem colar na população que eles fazem parte dessa rede, ou seja, de algo que é maior do que eles. Isso acaba servindo também, essa decisão do Moraes como munição pela família Bolsonaro em um momento de fragilidade em que as pesquisas mostram também que eles não estão conseguindo se descolar da questão tarifária, que ainda grande parte da população brasileira enxerga nessa família como os principais responsáveis por fazer um lobby por essas tarifas, algo que eles de fato comemoraram no ano passado, não comemoraram esse ano porque entenderam o custo político disso.
Inclusive essas tarifas agora elas vão prejudicar setores do agronegócio brasileiro, um setor que eles dizem, que eles juram de pé junto que defendem. Foi mostrada hoje na GloboNews uma reportagem que disse que os estados mais afetados por essa nova leva de tarifas são aí principalmente Santa Catarina e São Paulo, que ironicamente são talvez ali os estados, ou alguns dos estados mais bolsonaristas do Brasil. Então isso é bastante irônico.
Tudo isso que acaba vindo aí, tudo isso que eu chamo de biscoito ideológico que é distribuído para o eleitorado, são ferramentas que eles vão usar para tentar virar o jogo e virar a percepção pública. O Javier Milei é sim um exemplo de uma das figuras que são, entre aspas, apadrinhadas pelo Donald Trump. E eu diria que a gente pode questionar ainda É a própria postura do Milei em relação a isso, não por ele ser de direita, por ele criticar outras figuras de esquerda, mas é quase, é quase não, é moralmente condenável um chefe de Estado de outro país vir até aqui para declarar apoio a um candidato.
As relações entre Brasil e Argentina são muito maiores do que Milei e Lula, Milei e Jair Bolsonaro. Em um momento de crescente protecionismo no mundo, de crise das instituições multilaterais, a última coisa que tanto a população da Argentina quanto do Brasil precisa são de ruídos que são criados por essas lideranças. Porque juntos, e aí é quase um clichê, Pétrea, mas juntos somos mais fortes. Por que que eu falo juntos somos mais fortes?
Porque com o Donald Trump, com essa ofensiva que tem como alvo o mundo inteiro, a gente precisa dialogar, porque o Brasil precisa inclusive da colaboração da Argentina e vice-versa para que acordos comerciais sejam negociados. Países do Mercosul não têm a capacidade de negociar, por exemplo, algumas das tarifas ou acordos comerciais sozinhos. Eles precisam negociar juntos, como esse com a União Europeia. Então Millet tá atrapalhando essa relação e Flávio Bolsonaro mais uma vez atrapalhando essa relação também, a partir do momento em que ele distorce isso que aconteceu.
Uriam Fontelli, em breve oficialmente comentarista da CBN, comecinho de agosto, né, Uriam? A gente vai anunciar oficial porque o pessoal já tá acostumado com você aqui. E outra coisa, quanta coisa para a gente repercutir, né? Uriam aqui comigo, a gente tá aqui no nosso bloco do meio-dia e 30. E falta assunto, né? Tem que ter mais espaço aqui porque o mundo tem muitos desdobramentos importantes e cada vez mais um mundo que se faz necessário o entendimento, entender todas essas peculiaridades que fazem a gente entender também o nosso país. Obrigada, Uriã. Bom final de semana e até semana que vem.
Eu que agradeço pelo espaço e por ser essa jornalista maravilhosa que entende a importância desses assuntos.