Episódios de Comentaristas

'Tarifaço dos EUA mistura motivações políticas e comerciais'

17 de julho de 202617min
0:00 / 17:22
Bruna Santos avalia que a interdependência entre as economias limitou o alcance das tarifas impostas por Donald Trump.

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Participantes neste episódio3
S

Speaker D

Host
S

Speaker E

Host
B

Bruna Santos

ReporterDiretora no Inter-American Dialogue
Assuntos5
  • Lei RouanetTarifácio 2.0 · Produtos afetados · Lista de exceções · Interdependência econômica · Donald Trump
  • Comércio e Relações EconômicasDisputa comercial · Motivações políticas · Lobby de empresas americanas · Marco Rubio
  • Renegociação de DívidasLei de reciprocidade · Campanha eleitoral · Negociação descompassada
  • Tarifas dos Estados UnidosSeção 301 · Segurança nacional · Suprema Corte
  • Data Centers e InfraestruturaImpacto ambiental · Consumo de energia e água · Geração de empregos · Comunidades locais
Transcrição38 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

— Anúncios inseridos dinamicamente —

BSBruna Santos

Boa tarde, gente, tudo bem?

?Voz D

Tudo bem. Estamos aqui lidando com esse novo tarifação e as repercussões dele, políticas econômicas, Enfim, o que que os Estados Unidos decidiram afinal, hein, Bruna?

BSBruna Santos

Então, afinal, quem ouve o Estúdio CBN já sabia um pouco, porque na semana passada a gente já adiantou, né, gente? Então vamos também puxar a sardinha aqui para nós. Sim, uma decisão dos 25% de tarifa entra em vigor então no dia 22 de julho, Tarifácio 2.0, que é menor do que o de 50% que a gente teve no ano passado. Afeta vários produtos brasileiros, mas também tem uma extensa lista de exceções e eu acho que é aí que a gente tem que também focar.

Claro, tem ali muitos produtos, calçados, máquinas, móveis de madeira, alguns produtos, bens industriais e maquinário, mas ficaram de fora o café, o café solúvel, que eu até comentei na semana passada, carne bovina, laranja, produtos muito importantes da cesta aí do trabalhador, do produtor americano. Tem uma parte muito significativa e até tem uma estimativa de uma economista nossa aqui, membro do Instituto, Mônica Debole, que ela fez ali um olhar de toda a pauta exportadora brasileira e do que tá nas exceções das tarifas, tanto das que saíram agora quanto as que já estavam aplicadas no aço e no alumínio.

E a nossa estimativa é de que 66 centavos de cada dólar exportado pelo Brasil aos Estados Unidos não estão nas tarifas, não estão sofrendo tarifas. O que que isso quer dizer assim na prática, né? Que apesar da retórica super forte de tarifação e veio, né, com muita violência, uma retórica muito política nessa declaração, a gente vê os limites da realidade econômica americana e vê aí um mapa da interdependência entre os dois países, do quanto há uma interdependência muito forte entre o Brasil e os Estados Unidos em relação a muitos produtos e a dificuldade que os Estados Unidos têm hoje de taxar esses produtos para não gerar inflação.

E eu acho que também demonstra uma dificuldade do governo Trump hoje de voltar ao patamar que ele aplicou lá atrás no primeiro tarifácio, no tarifácio 1.0, né? E eu acho que o exemplo mais didático dessa interdependência para mim, que ficou muito evidente aí ao longo do último ano, é a fabricação, a necessidade que os Estados Unidos têm de celulose para fabricação de papel higiênico. Apenas 80% De toda a celulose americana hoje, a celulose que a América compra hoje vem do Brasil para produzir coisas básicas como os produtos de higiene em papel.

Então acho que tem aí uma característica estrutural da economia brasileira que é a vantagem com commodities e com esses produtos que acaba sendo um trunfo nesse cenário, né?

?Voz E

Bruna, você falou sobre as exceções, agora para o setor produtivo que foi pego, que foi afetado, é tarifa de 25% para todo mundo?

BSBruna Santos

Tarifa de 25% para todo mundo? Claro que tem, você tem que analisar ainda uma tarifa que vai ser divulgada amanhã, amanhã não, na semana que vem, segunda-feira, muito provavelmente, tem mais por vir, que diz respeito a uma investigação sobre trabalho escravo. E essa tarifa, ela é uma tarifa que pode ser aplicada na alíquota de 12,5%. A gente ainda não tem clareza do que vai para as exceções desses produtos. A outra coisa que eu quero dizer para o setor produtivo que está afetado, que, de novo, o Brasil não vai sofrer uma catástrofe comercial com essas tarifas porque realmente vai ser um impacto muito concentrado e limitado, mas vai ser muito concentrado em alguns setores, em algumas regiões do país.

A gente olha ali Santa Catarina, Paraná, Serra Gaúcha, produtores de madeira, enfim, vai ser muito concentrado. Esse grupo ainda pode continuar negociando com o governo americano, a aplicação das tarifas não encerra objetivamente a negociação.

?Voz D

Tá bom, esses os mais afetados. Quem ficou de fora, Bruna?

BSBruna Santos

Quem ficou de fora? Vamos lá, ficou de fora café, carne bovina, suco de laranja, aeronave civil.

?Voz D

Ô, que boas notícias!

BSBruna Santos

É, componentes de aviação, então assim, Embraer sobretudo, medicamento, vários insumos farmacêuticos entraram ali na lista final. E aí acho que vale ressaltar a importância das empresas americanas nesse lobby, vamos dizer assim, né? Semana passada eu até trouxe aqui a informação de que a Nestlé, de que a Coca-Cola, de que várias empresas grandes fizeram manifestações pedindo para que não tarifassem produtos brasileiros. Sim. E uma coisa que eu acho curiosa, gente, é que assim, quando você vai, sei lá, tomar um café da manhã, você não vê Made in Brazil nos rótulos, porque são insumos que são comprados, mas que são daí processados e vendidos aqui.

Mas uma boa parte do café da manhã americano vem do Brasil, desde o café ao bacon ao suco de laranja, né?

?Voz E

Tá, agora, foi realmente uma disputa comercial? Porque a gente, quando a gente pensa numa disputa comercial, você pensa, bom, eu peço alguma coisa, o outro lado cede alguma coisa. Estados Unidos pediram alguma coisa? Foi uma decisão política contra o governo Lula?

BSBruna Santos

Então, eu acho muito boa essa sua pergunta, porque isso é para mim um pouco a dor e a delícia desse processo todo, porque não é uma disputa comercial ou política, é as duas coisas. Comercial e política. Eu sempre explico as tarifas como um monstro de duas cabeças. Você tem uma cabeça comercial e uma cabeça política. A cabeça comercial tá representada pelo Jameson Greer, no escritório do representante de comércio americano. A gente até falou na semana passada um pouco sobre as motivações dele, o histórico dele.

E a outra cabecinha é a cabecinha do Marco Rubio, com a motivação política, com as lentes eleitorais, que é um sujeito que olha para o Brasil com profunda antipatia em relação à esquerda brasileira, em relação ao presidente Lula. Ele quer ver o Brasil com um presidente mais alinhado ao trumpismo. Mas essas duas cabecinhas, elas trabalham para o presidente Trump, que é quem vai fazer, tomar a decisão final. Então acho que, eu acho ingênuo da nossa parte imaginar que a motivação foi apenas comercial ou é apenas política, porque não é.

E isso, por que que eu acho que é importante a gente levar em consideração? Para não termos a ilusão de que um presidente simpático aos Estados Unidos ou subserviente aos Estados Unidos salvaria o Brasil das tarifas, porque isso não aconteceria. O Brasil mais próximo ao Trump, um governo brasileiro mais próximo ao Trump, poderia mudar o tom da disputa, mas ele não mudaria a lógica das tarifas. Isso é muito importante do Brasil entender.

A lógica das tarifas, ela vem de uma motivação de visão. E eu expliquei isso até na semana passada, os caras acreditam, eles não acreditam mais em globalização, eles acreditam na necessidade de uma política industrial e comercial que fortaleça os Estados Unidos nesse lugar de trazer as fábricas de volta e de usar as tarifas como um instrumento de negociação.

?Voz D

Aí vale qualquer argumento, né? A gente citou aqui ontem, citou anteontem também, eu acho, a manchete do editorial do Guardian de ontem ou anteontem, foi anteontem, foi um pouquinho antes de acontecer, que é assim: Trump transforma a soberania brasileira em prática comercial desleal ou em delito comercial. Então quer dizer, você dá o nó retórico que você quiser para justificar uma aplicação de sanção tarifária. Mas aí te pergunto, te ouvindo falar sobre motivações políticas e também econômicas, essa coisa que não dá para separar uma coisa da outra, O Brasil vai retalhar os Estados Unidos com tarifas em outras áreas?

BSBruna Santos

O Brasil tem essa prerrogativa. Eu acho que politicamente acho que tem que separar a análise. Obviamente as coisas não são separadas, mas para poder analisar acho que a gente tem que separar um pouco o joio do trigo. Politicamente, que vai ser o tom dos próximos meses, a gente está entrando em campanha no Brasil. A mesma coisa nos Estados Unidos. O tom dos próximos meses é um tom político. Politicamente, qualquer resposta brasileira, seja de utilizar a lei de reciprocidade, seja de lançar mão de qualquer outro instrumento, ela vai ser lida em Washington pela lente política.

E o Lula vai utilizar isso também como um artifício político. Ele ganha, ele tem dividendos políticos com isso, todo mundo sabe. Então eu acho, francamente, que ao contrário do que muita gente diz, que a lei de reciprocidade seria uma bravata brasileira, eu discordo. Eu acho que a lei de reciprocidade é uma prerrogativa que o Brasil tem, é uma, digamos assim, é uma faca que ele pode ir para negociação, deixar na mesa e não utilizar, mas as pessoas sabem que o Brasil tem esse instrumento.

E tem ainda, eu acho que a possibilidade de, uma vez que a análise técnica, a negociação técnica entra em compasso de espera por conta das eleições nos dois países, quais serão as medidas que vão ser tomadas pelo lado brasileiro para pelo menos não queimar as pontes, para que uma vez passado esse momento eleitoral e cumpridas as eleições no Brasil de forma legítima, democrática, a gente possa recomeçar um novo capítulo nesse diálogo e talvez até entrar num acordo mais amplo para redução dessas tarifas.

E aí eu acho que entra um pouco, e voltando ao que você falou, Fernando, desse, dessa dinâmica da negociação, que eu acho que ficou muito contaminada nos últimos meses. Porque uma das coisas que ficou muito claro para mim é que tanto o Brasil quanto os Estados Unidos parece que eles foram para pista de dança negociar, mas estavam dançando músicas diferentes. O que que eu quero dizer com isso? A compreensão deles, dos negociadores, sobre o que significava negociar era muito diferente.

Os Estados Unidos queriam que o Brasil desse uma concessão e o Brasil tava ali querendo dançar um forró assim, querendo ir para um jogo comercial mais comercial, né? É num compasso mais, digamos, igualitário, né? Enquanto que os Estados Unidos estavam jogando um outro jogo. Eu acho que essa natureza da negociação foi algo que desde o início foi muito descompassada. Não houve uma compreensão mútua.

?Voz E

Agora, Bruna, pegando o histórico, voltando lá para o dia 2 de abril, naquele Liberation Day, que o Trump vai lá e mostra aquela placa com um monte de países e do lado lá a tarifa para todos eles. Depois disso, aquilo foi determinado pela Suprema Corte americana que era ilegal, tiveram que ressarcir os países e tal. E aí o governo Trump começa a buscar formas de aplicar tarifas a outros países usando outros mecanismos. No caso do Brasil, foi essa Seção 301 que você já explicou para a gente o que que funciona. Ele tem buscado essas alternativas para outros países também? Ou é só o Brasil?

BSBruna Santos

E não, ele tem buscado para todos os outros países, inclusive países aliados. Uma brecha, achar uma brecha. Mas o que que acontece? Ele tem entre os mecanismos a 232, que é uma outra seção, que ela pode ser utilizada somente para aquelas coisas que você justifica como segurança nacional. Então, claro, suco de laranja e café não é segurança nacional, logo ela entra na chamada 301. Que é essa que a gente vem conversando, que virou o canivete suíço do Trump no momento.

E aí é bom você lembrar, trazer esse histórico, porque no momento que a Suprema Corte foi lá e disse, olha, você não pode mais usar esse instrumento que você usou para o tarifaço do Liberation Day, que era um instrumento chamado IEPA, você agora tem essas outras cartas na mão. Essas outras cartas na mão, elas são mais morosas, jurídicas, burocráticas, Mas é o que você tem. Então hoje ele tem basicamente esses dois instrumentos.

O instrumento da 301 está se tornando o novo canivete suíço, assim, é a nova epa dele, é o que ele tá lançando mão para toda e qualquer tarifa, assim. Então é por isso que a gente vê motivações um pouco tortas. Quando você pega as motivações do Brasil, você olha, bom, tem uma motivação relacionada aqui à propriedade intelectual, mas tem algumas que são meio tortas, né? Governança do Pix, o que que isso tem a ver, assim, né? Necessariamente.

Então por isso que a gente acaba vendo justificativas um pouco sui generis, vamos dizer assim, dentro desse quadro.

?Voz D

Tá bom. Bruna quer falar de data centers. Nós ficamos curiosos aí, mas o que que você acha, Nelly, perguntar para Bruna sobre data centers?

BSBruna Santos

Posso só explicar isso?

?Voz E

Claro.

BSBruna Santos

Eu tava conversando com a Jana, nossa produtora aqui, eu disse, Jana, não aguento mais falar de Trump e de tarifa, quero falar de outra coisa.

?Voz D

Vamos falar de data center, Bruna, vai.

BSBruna Santos

Então, data center, gente, o que tá me surpreendendo muito é que da noite pro dia passou a acontecer um consenso na sociedade, inclusive nos governos locais, sobretudo no governo do estado de Nova York, de que data center não é uma boa ideia no país, de que não faz sentido os Estados Unidos produzirem, trazerem investimento pra construir um grande bloco de concreto que vai utilizar muita energia, muita água, gerar inclusive barulho nas comunidades.

E o que mais me surpreendeu foi que recentemente eu tive no Brasil com uma delegação de políticos aqui americanos e um deles me olhou e disse assim, nossa, como o Brasil ainda tá entusiasmado com essa história dos data centers, né?

?Voz D

E lá no Pet Love... Mas também discutindo gasto energético, sobretudo, né?

BSBruna Santos

Sobretudo. Então uma coisa que eu tô achando muito interessante de observar e convido todo mundo aqui que nos escuta a olhar é o quanto essa chave tá virando, ao contrário de ser uma chave do entusiasmo completo em todos os governos aqui, da noite para o dia virou um algoz. As pessoas estão muito preocupadas com esse tema. Posso falar disso num outro momento, quando eu tiver uma folga e o Trump não render tanta história sobre tarifa.

?Voz D

Mas aí eu já tô pensando se a gente tem que se preparar para o Trump instalando data centers americanos por outros países pelo mundo.

BSBruna Santos

Ah, com certeza! Essa já é a preocupação número 1. Espero que não venha com o rosto dele pintado, como ele tem feito com outras coisas por aqui, você citou Nova York porque Nova York suspendeu a implantação de novos data centers, tipo assim, novos data centers, foi um dos primeiros estados.

?Voz E

Um ano, um ano, vamos pensar o que tá acontecendo. Foi mais ou menos isso.

BSBruna Santos

É, foi, eu acho isso um movimento super interessante porque havia um entusiasmo muito grande da parte desses governadores, né? E agora você tem um Wisconsin fazendo alguns movimentos, Nova York com muita E qual foi a virada de chave, Bruna? Olha, eu acho que é o impacto nas comunidades e a conclusão de que não gera tanto emprego assim.

?Voz E

Só para construir, né? Para construir você gera, depois tem meia dúzia.

BSBruna Santos

É, você constrói, precisa de muita gente para ir lá, né, montar tudo, e depois precisa de duas outras pessoas observando aquilo. E quando eu converso com pessoas que estão estudando mais a fundo, elas me dizem que aqui nos Estados Unidos está gerando um problema sério de custo de energia e gerando um problema de barulho. Isso eu achei uma coisa muito interessante, assim, que torna as comunidades insalubres. Uma pessoa me falou assim que é tipo morar em São Paulo ou em Washington hoje, tá uma névoa horrorosa também dos incêndios no Canadá, assim. Mas aí tá um tema muito interessante de observar.

?Voz D

Muito bom, desdobraremos aqui no nosso CBN Pelo Mundo às sextas-feiras. Com a Bruna Santos diretamente de Washington. Beijo, Bruna, obrigada por hoje. Até a semana que vem.

?Voz E

Tchau, tchau.

BSBruna Santos

Até, tchau, tchau.

— Anúncios inseridos dinamicamente —