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Polilaminina ainda carece de comprovação científica e está em fase inicial de testes

19 de março de 202611min
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Luis Fernando Correa fala sobre a polilaminina. A substância foi apresentada como potencial avanço no tratamento de lesões neurológicas, mas ainda está em fase inicial de pesquisa. O médico avalia que a divulgação ocorreu de forma precipitada, sem respaldo em estudos consolidados.
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Assuntos9
  • Polilaminina e potencial terapêuticoReconexão de nervos danificados · Lesões agudas e crônicas de medula · Testes em animais e humanos · Mecanismo de ação · Estrutura da substância
  • Divulgação prematura e impactos na comunicaçãoFalta de dados científicos no anúncio · Coletiva de imprensa sem artigos publicados · Promessas exageradas · Polarização nas redes sociais · Rol de expectativas irrealistas
  • Registro e regulação de pesquisas clínicasBancos de dados oficiais · Clinicaltrials.gov · Banco de dados brasileiro · Obrigatoriedade de registro prévio · Rastreabilidade e transparência
  • Erros e falhas na pesquisa da polilamininaAplicação em humanos anterior ao registro · Inconsistências de datas · Morte de paciente durante pesquisa · Falhas de registro de dados · Problemas metodológicos
  • Comunicação Científica e ResponsabilidadePapel de jornalistas · Análise crítica de dados · Educação em comunicação científica · Questionar promessas · Aprender lidar com informação científica
  • Revisão por pares e processo editorialPré-print · Especialistas independentes · Rejeição de manuscritos · Crítica acadêmica · Correções solicitadas
  • Fases de Desenvolvimento de MedicamentosFase 1 de segurança · Fase 2 de dose e eficácia inicial · Fase 3 de confirmação · Evolução dos estudos · Status atual da pesquisa
  • Uso compassivo e judicializaçãoFerramenta regulatória da Anvisa · Processos judiciais · Solicitações de uso em casos sem solução · Aproximadamente 60 solicitações · Cerca de 30 aplicações em diversos estados
  • Estrutura institucional de suporte a pesquisadoresFalta de apoio administrativo · Conhecimento regulatório · Negociação com indústria farmacêutica · Exposição desnecessária a mídia · Fragilidades do sistema
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Saúde em Foco. Com Luiz Fernando Correia. Oferecimento, você luta pela sua saúde. A gente também. Alice, plano de saúde como deve ser. Doutor Luiz Fernando Correia hoje está conosco aqui no estúdio do Jornal da CBN, ao nosso lado. Bom dia, doutor Luiz Fernando. Bom dia, Milton. Bom dia, Cássia. Bom dia, ouvintes. Bom dia, doutor. Doutor Luiz Fernando, a gente tem e acompanhou já ao longo do tempo aí uma série de discussões em torno do uso da polilaminina.

E imagino que hoje a gente já tem uma visão um pouco mais clara sobre esse assunto. Houve um grande movimento ali a favor, parecia que era a salvação de tudo, mas a história começou a ser revista. E eu queria que o senhor trouxesse para nós aqui um olhar sobre o que nós temos agora. Então, isso é interessante, porque agora a gente consegue olhar meio de longe, né? A coisa foi meio temporal mesmo, no final do ano. E tudo começa quando a gente tem uma apresentação, uma coletiva de imprensa do Laboratório Cristalha, em setembro.

Parece que foi tudo junto, mas foi em setembro. E dali a coisa... Só que o tom da prosa já foi muito promissor demais. Já foi anunciada a produção do medicamento. Uma coisa que ainda não estava... Enfim, um atropelo com relação à ciência. Não tinham... Geralmente as coletivas de imprensa têm pelo menos uma referência de artigo científico junto, onde é apresentado. Nesse caso, não tinha. Isso chamou a atenção de todo mundo. Eu lembro de estar aqui em São Paulo gravando o podcast da CBN

Léo Costa, que é um divulgador científico, eu falei, mas como é que a gente vai falar disso? Uma pesquisa nacional. Só que a mídia atropelou a gente, como sempre. E o que é pior, quando a mídia capturou essa notícia desse jeito, promissor demais, mas sem questionar a falta de dados científicos, isso chegou nas redes sociais, a explosão foi inevitável, a polarização foi inevitável. Então, desde promessas de que vamos ter um Nobel, vamos resolver o mundo,

cura, quer dizer, tudo isso muito solto. E agora chegou a hora da gente, a gente vem já desde dezembro, as pessoas que falam de ciência, a gente falou aqui no nosso programa, os outros divulgadores científicos têm falado bastante, colocando um pouco de calma nessa história. Em que pé nós estamos? Esse que é importante. Existe uma pesquisa de base feita pela professora Tatiana, na UFRJ, que descobriu como é que junta os pedacinhos de laminina para fazer a polilaminina. Isso foi,

Tem uma patente registrada no Laboratório Farmacêutico Brasileiro para a produção dessa substância. Ela foi utilizada em cães, foi publicado um artigo científico numa revista. Depois, ela foi aplicada em humanos, num estudo piloto. E aí começa a complicação, porque quando você faz uma pesquisa, você tem uma obrigação hoje em dia, já décadas, há mais de 20 anos, toda pesquisa tem que ser registrada num banco de dados oficial. Por quê?

Eu faço a minha pesquisa e não conto o que deu. Se deu ruim, eu não conto. Então, as revistas científicas obrigaram, passaram a obrigar que você registre antes de começar, porque eles vão saber o que está acontecendo. Então, um dia você pode ser cobrado. Aquela sua pesquisa deu certo? Você não pode esconder o que deu errado. E, nesse caso, já tem um problema, porque a aplicação nos humanos foi feita antes do registro da pesquisa nos bancos de dados.

E aí vem gente falando, ah, mas é no banco de dados americano, no clinicaltrials.gov,

Tem, tem que botar lá. É a prática do mercado. Mas tem um banco de dados brasileiro para você registrar a sua pesquisa, do governo brasileiro. Então você tem a obrigação de fazer as duas coisas. Isso não foi feito. Isso criou um problema. Porque você tem uma pesquisa que está anunciada, está registrada depois de ter começado. Então eu não sei se mudou, se escolheram quem aplicou. A importância disso, gente, não é burocrática. Se eu não disser em quem eu vou usar e sair usando,

em quem eu vou usar. Não estou dizendo que foi feito, mas isso pode acontecer. Isso gera uma desconfiança natural. E foi uma das causas da rejeição do pré-print, do artigo publicado pelo grupo, que foi submetido a revistas científicas e foi rejeitado. A primeira questão da rejeição foi, mas vem cá, ninguém sabia que você estava fazendo essa pesquisa? Apareceu depois da... Se a aplicação começa em 2016, você tem registro da pesquisa esse ano, em 2022. Então, quer dizer, tem uma coisa errada. Isso já chamou atenção.

Estavam errados na pesquisa, registrados no papel, no pré-print. E pré-print, para quem não lembra ainda, é aquele... Eu faço, não é um rascunho, mas eu faço uma primeira versão, coloco na prateleira. Galera, olha aí e vê se está certo. Todo mundo pode olhar, a ideia é essa. A crítica entre os acadêmicos, ela é natural e é importante. São outros pesquisadores que vão olhar e dizer, olha, achei que tem uma coisinha estranha, você pode corrigir? E também serve como registro. Olha, sou eu que estou pesquisando.

prateleira, esse aqui é meu, tem essa função. E ali tem alguns erros importantes, alguns erros de registro. O paciente 1, por exemplo, faleceu no início da pesquisa e estava no acompanhamento por um ano. Isso era um erro difícil de você justificar. Enfim, isso tudo gerou agora uma revisão mais calma, com um pouco mais de cuidado. A mídia agora conversou de novo, entrevistou novamente a professora, ela reconheceu esses erros.

Ela reconheceu que ela assumiu o que não sabia, que tinha que ser feito o registro. Então, a gente agora pode entender algumas fragilidades que eu acho que a gente tem que aproveitar como lição. Os pesquisadores brasileiros são fantásticos. A gente acabou de lançar uma vacina contra a dengue que o mundo pesquisa há décadas. A pesquisa da vacina dengue tem mais de 60 anos. E o Brasil conseguiu fazer a dele. A gente tem que apoiar isso e tem que lembrar do nome desses pesquisadores também. Não é para buscar Nobel, é para fazer isso.

Agora, qual o apoio institucional que essas pessoas têm? Porque não tem que ser o pesquisador que tem que discutir com a indústria farmacêutica, que tem que saber o registro, saber a regulação. A universidade tem que fornecer isso tudo para o pesquisador. E a gente sabe que não tem. Então, fica o alerta educativo nesse processo todo que, do nosso lado, jornalistas, temos que ser mais críticos. E aprender a lidar com esses dados.

E do lado da instituição, a instituição tem que apoiar formalmente o pesquisador para não deixar, como ficou a professora,

Tatiana exposta da maneira que foi a todos os meios de comunicação. Doutor, e aquela questão de os pares avaliarem a pesquisa? Como que está em relação a essa pesquisa? Então, ela foi submita. Como é que isso acontece? Eu faço um trabalho científico e quero publicar na Nature. Eu mando para o editor da Nature. Olha, está aqui meu trabalho, nosso grupo. Ele escolhe três especialistas que não estão ligados à minha pesquisa, que não recebem dinheiro para fazer isso e eles vão avaliar essa pesquisa.

pesquisa criticamente. E devolvem para o editor dizendo, olha, não gostei disso, não gostei daquilo, isso aqui está estranho. O editor manda de volta para o pesquisador. Isso foi tentado três vezes já, em três revistas do primeiro nível, vamos dizer assim. Então, essa é a revisão por pares. São pessoas que não estão ligadas à pesquisa original, indicadas pelos editores-chefes das revistas para criticar, analisar criticamente aquela pesquisa e devolver o que precisa ser corrigido. E qual é o cenário que se tem hoje, então,

a pesquisa? A gente tem, Milton, a pesquisa tem uma autorização, existe uma autorização de um registro de pesquisa de fase 1, que é de segurança pela Anvisa, da Anvisa, para cinco pacientes, e não tem nenhum paciente registrado até esse momento, para justificar. E tem o outro lado que aconteceu, que foi a confusão da judicialização, que a gente também vem por cima disso, né? Esse uso compassivo que a gente ouviu falar, é uma ferramenta da Anvisa, só que a Anvisa tem que processar esse pedido,

e autorizar que você use uma coisa que está sendo pesquisada num caso que não tem solução. Isso leva um tempo. Por que as pessoas vão para a justiça? Porque leva um tempo. Então, para passar por cima do tempo da Anvisa, judicializa-se esse uso compassivo. E é o que tem acontecido até hoje. Nós temos um registro de perto de 60 solicitações com 30 aplicações da polilaminina em diferentes estados do Brasil. A pesquisa continua, ainda tem um longo caminho.

A gente está na fase 1. Isso. Fase 1, fase de segurança. Saber se, olha, remédio

Não é remédio que funciona. Remédio faz mal? Faz bem? Não matou ninguém? Beleza. Vamos para a fase 2. A fase 2 já é a fase de determinação da dose e, eventualmente, já temos alguns dados na fase 2 de eficácia. Começam a aparecer evidências. E a fase 3, que é uma fase onde eu tenho tudo isso feito, é seguro, tem sinais de que funciona, eu já sei quanto é que eu tenho que dar de dose ideal, eu vou fazendo um monte de gente para poder comprovar a eficácia. E aí você atende aqui a Patrícia, que no final das contas pergunta o seguinte,

Tá bom, mas essa substância serve para quê, então? Ou poderá servir para quê? Em princípio, a proposta, e o que foi mostrado pela professora Tatiana em animais e em células no laboratório, é que essa substância pode funcionar para refazer conexões de nervos de uma medula que foi lesada agudamente. Foi isso que a gente sabe. E também cronicamente, porque ela testou cronicamente em animais. A gente tem que lembrar que quando a gente pensa em medula, a gente pensa num fio. Mas é muito mais um fio, daqueles fios de telefone antigos,

tem um monte de cabinho dentro. Então, raramente você tem a lesão de todos eles. Alguns estão amassados, alguns estão cortados, realmente. Pode acontecer a secção total, é verdade, em alguns casos. Então, a ideia é que essa polilamina possa facilitar a recuperação, aonde ela seja possível, dessa reconexão, desses fiozinhos quebrados dentro do grande cabo que é a medula. Doutor Luiz Fernando Corrêa, muito obrigado por todos os esclarecimentos, pelas informações,

volte sempre aqui ao estúdio. Obrigado, eu que agradeço a vocês. Até mais.

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Alice

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