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A vida em pontos: como a gamificação transformou desejo, trabalho e valor em placares permanentes

19 de março de 202610min
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Vivemos cercados por métricas que nos dizem o que vale a pena desejar. Passos contam mais que saúde, entregas mais que segurança, produtividade mais que sentido. A promessa da gamificação era tornar a vida mais engajadora. O efeito colateral tem sido transformar escolhas complexas em placares simplificados, e, muitas vezes, exaustivos. Michel Alcoforado reflete sobre esse cenário. Ouça.
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Assuntos5
  • Gamificação de atividades cotidianasAplicativos de rastreamento e tracking · Pontuação como mecanismo de incentivo · Jim Rats e competição de atividade física · Engajamento forçado entre colegas · Aplicativos de entrega e transporte · Transformação de comportamentos em métricas
  • O problema da pontualizaçãoMétrica substitui o objetivo real · Esvaziamento de sentido na atividade · Culpabilidade por não atingir metas · Preocupação com ranking vs saúde · Geração de sofrimento e ansiedade · Substituição do fim pelo meio
  • Gamificação em saúde, alimentação e consumoAplicativos de contagem de calorias · Rastreamento de ciclo menstrual · Quantificação de consumo de água · Aplicativos de entrega de comida · Substituição da consciência corporal por números · Perda da relação com necessidades reais do corpo
  • Privacidade de dados e monetizaçãoColeta de dados comportamentais pessoais · Lei LGPD e proteção de dados · Dados como commodity de maior valor · Empresas ganham com comportamento rastreado · Value exchange: dados por prêmios virtuais · Monetização gratuita de informações pessoais
  • Consumo digital excessivo e paradoxo das telasProliferação de aplicativos desnecessários · Aumento de tempo de tela e dependência · Pressão paradoxal: menos tela vs mais apps · Diminuição de abertura de aplicativos · Falta de engajamento nativo
Transcrição20 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

Pra onde vamos? Com Michel Alcorforado. Fala Michel, boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde. Já faz tempo que a gente fala sobre gamificação e eu acho que essa palavra ficou um pouco mais familiar para a maioria das pessoas a partir da entrada em vigor no Brasil dos aplicativos, aplicativos de transporte e aplicativos de entrega que usam essa lógica que é bastante criticada, inclusive por especialistas do trabalho,

no funcionamento, no jeitão de existir. Mas o que o Michel vai nos trazer hoje é que essa lógica, ela extrapolou o jogo, o trabalho e hoje determina até valor. Pois bem, vocês usam aí aplicativo de... Eles têm um nominho que se chama aplicativo de tracking, que é que é aplicativo que fica mapeando, que tipo de atividade você está fazendo e te dá uma pontuação para aquilo que você fez. Eu não uso não, quero saber. Não? Não.

Não sei de nada, não. Como é que é? Eu me perdi. Faz o quê? Você consegue fazer aquele monte de quilômetro na natação só da sua cabeça? Sem precisar ficar medindo, né? Eu uso... A medida da piscina, você acredita? Eu faço a contagem na cabeça, mas quando tem que fazer tempo, eu uso no celular. Não tem nem aquele relógio bacana. Eu tenho que sair da piscina. Ah, é? Tem que ir lá e molha todo o celular e aperta. Você é outro, fecha.

É isso. Analógico. É um nadador. Nosso Joano Maranhão, analógico. Por isso que eu perco tempo. Chego atrasado.

Eu vou trazer também esse ponto de vista aqui. Mas a gente não pode deixar de lado uma verdade, que é como é que as nossas relações e nossos hábitos de consumo, de vida, estilo de vida, se transformaram depois da entrada dos aplicativos que existem para mapear as nossas atividades cotidianas, perceber se a gente está atingindo essas metas e nos premiar diante disso. Não à toa, os designers, quando começaram a desenvolver esse negócio, deram o nome de produtividade

Atividade feliz. O que é isso? Você não consegue fazer alguma coisa, aparece um aplicativo, começa a medir o quanto você está fazendo ou deixando de fazer, estabelece um conjunto de metas, na medida que você consegue alcançar essas metas, ele vai lá e te dá uma bonificação. Funciona muito, por exemplo, e a gente já falou sobre isso aqui em outros comentários, para exercício físico. 40% da sociedade brasileira não dá conta de fazer toda a atividade física que a OMS prevê ou estimula

a gente faça pra ter uma vida saudável. Então, um aplicativo que faz sucesso aí na redação, a beça da CBN e também no Brasil é o Jim Rats, que é um aplicativo onde você pode comparar com seus colegas quem tá fazendo mais atividade física, quem não tá. Tem um aqui, né? Você sabe. É, você tem, né? São os marombeiros da CBN, eu tô lá. Mas eu tô no pelotão do meio, assim. Eu não sou das mais relapsas, mas também não sou das mais assíduas, porque tem um pessoal marombeiro aqui que você olhando, você não dá nada, mas você fala, pô... E você? E você?

como é meu orgulho, deve fazer parte desse exercício físico, mas também faz do de leitura, não faz não? Não. Desculpa te decepcionar. Tem de leitura também? Dois de não sei quanto. Não, leitura eu anoto analogicamente também os livros que eu leio no ano, então vou fazendo a pilinha, a pilha dos livros lidos e tal. Eu tô tentando sair um pouco da lógica da produtividade, sobretudo pra poder ler por prazer mais do que por necessidade ou porque vou produzir alguma coisa a partir.

daquela leitura, sabe? Então, isso é legal, porque quando a gente consegue trazer a pontuação como uma forma de estímulo para você dar conta de uma atividade que você valoriza ou precisa fazer, e aí a pontuação é esse estímulo fundamental, está legal, não tem nenhum problema. Só que acontece que depois que o povo começou a usar esse tipo de traqueamento, esse tipo de avaliação de você estar conseguindo dar conta ou não das suas metas cotidianas, o jogo foi para outro canto.

Mesmo os designers que inventaram esse negócio agora falam no problema da pontualização. O que é o problema da pontualização? A gente entra no aplicativo de exercício para tentar, através dos pontos, fazer mais exercício. Mas, no final das contas, a gente está mais preocupado com o ponto do que com o exercício. O mesmo se dá dentro do mundo do consumo. Os aplicativos de entrega, pode ser do teu aplicativo de transporte, o mesmo de entrega de comida, também tem isso.

Aí no final você está mais preocupado em pontuar no aplicativo do que comer bem ou dar com necessidades cotidianas. Então quando a gente cai nesse lugar de que o ponto interessa mais do que a atividade em si, gera um esvaziamento na experiência e aí acaba gerando mais sofrimento do que ganho. O fim virou meio, né? É isso. O fim virou meio, o meio virou fim, talvez sejam as duas coisas, mas o ponto é que a gente começa a fazer a coisa,

do que pela atividade. E aí fica esvaziado de sentido e qual é o jogo? O jogo é que você começa a se culpabilizar por não dar conta da meta. Então você não leva em consideração que num dia você não acordou bem pra fazer exercício e decidiu dormir até mais tarde. Mas aí você tá preocupado que perdeu posição no ranking da rádio, né? E isso vai afetar a tua reputação. Aí você entra lá, manda mensagem pros amigos, olha, hoje eu não fui malhar porque eu tô mal. Você fica mais preocupado com o ranking do que com o exercício.

Começa a abrir o aplicativo de contagem de caloria e fica mais preocupado se você está atingindo o número de calorias necessárias ou ultrapassando do que o momento que você está vivendo com os outros. E aquela, o porquê que você está comendo, estou deixando de comer, se está com fome ou não está com fome, como é que seu corpo está se comportando. A gente começa a mais se preocupar com a quantidade de copos d'água que bebemos do que se a gente estava com sede ou não,

das intempéries aí que você tem enfrentado. Então, quando o número importa mais do porquê que você está fazendo o que você está fazendo, aí é bom ficar atento, porque pode dar ruim e pode gerar mais sofrimento do que ganho nesse processo. As empresas ganham como dessa forma? Ganham o que dessa forma? Vamos pegar algum exemplo? Não, eu acho que tem um aspecto importantíssimo que a gente não pode deixar de lado,

com o uso de um determinado comportamento, o estilo de vida, logo de largada você já ganha o uso do aplicativo. Pode parecer besteira, mas há uma disputa entre as empresas de tecnologia e as empresas de aplicativo, não só de fazer você lembrar que existe o aplicativo, mas você abrir o aplicativo. No meu celular e no celular de vocês, sei lá, deve ter 50, 60, até 100 aplicativos.

a gente quase não abre. Você abre com frequência o WhatsApp, você abre o e-mail, você abre a conta do banco. Agora, todos os outros você quase não abre. Então, quando você gamifica essa experiência, de partida você gera um engajamento maior, o que permite que essas empresas rentabilizem sobre o teu comportamento e estilo de vida. Um outro ponto que eu acho que é importante chamar a atenção é que toda vez que você traqueia um determinado comportamento, quantifica um determinado comportamento, você está liberando seus dados, né?

o teu ciclo menstrual está na data certa, se você está se alimentando de forma correta, ou se você está fazendo exercício físico da forma como deveria estar. Apesar da lei de LGPD, que é essa que protege nossos dados, tentar garantir o máximo possível o sigilo contra essas informações, no mínimo, no mínimo, a empresa que está fazendo o traqueamento está usando isso para si. E aí, a maior riqueza dos nossos tempos são os dados. Você está dando de graça algo que você podia estar

cobrando só em troca de coraçãozinho ou estrelinha, né? É por isso que eu vou mal, então, na competição do Jim Reds. Não é porque eu não treino, é porque eu esqueço de colocar ali o que eu fiz. Aí, na contabilidade final, né, eu saio perdendo. Acho que é por isso. Fora que, né, se a gente também, abrindo uma outra janela, que não será desenvolvida aqui hoje, mas eu vou deixar. Se a gente tá discutindo, se uma discussão contemporânea é menos tela, por que que a gente tá falando de 100 mil aplicativos pra tudo,

na vida que vai nos deixar mais com o rosto na tela, né? Se a ideia é ficar com menos tela, então Fernando é que tá certo. Tem que colocar um cronômetro ali na beira da piscina e faltando o tempo que ele faz. Eu sugiro que o Fernando abra um curso online nas telas pra nos ensinar a abandonar as telas. Ele vai ficar rico. O problema é que ele vai abandonar a gente. Olha só, eu trabalho o dia todo olhando pro relógio. Cronometrando.

É relógio. Aqui é tudo matemática. Tudo é cronômetro. Embora não pareça às vezes.

É, pra quem ouve não parece, né? Não tem noção do que é isso. Tem vários aqui cronômetros. E aí você chega na piscina, você fala assim, eu preciso olhar pro cronômetro de novo. Cadê o prazer da história, entendeu? Mas a gente é analógico. A gente tem nosso cronômetro humano, que é a Janaína, né? Que tá a todo momento perguntando, vai entrar, vai sair. Chega, para, vambora, comercial, né? Repórter CBN, a massa maravilhosa Janaína.

Muito bom. Ela é aquela que fica com o martelo no cronômetro. Vai! E quebra o relógio.

Bate no relógio, a gente tá no lucro. Tem isso também, né? Ah, é, por enquanto. A cara dela. Valeu, Michel. Michel, obrigada. Um beijo pra você. Até terça-feira. Até. Tchau, tchau. Um beijo grande. Valeu.