Por que sentimos nojo? Como ele engatilha tantas sensações físicas?
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- Nojo como emoção evolutivaemoção mais antiga · anterior à linguagem · anterior à cultura · defesa ancestral · origem evolutiva
- Nojo como sistema imunológico comportamentaldefesa comportamental · sistema de proteção · detecção de contaminação · cascata de reações físicas · reação pré-consciente
- Variação cultural do nojoinsetos como alimento · diferenças geográficas · adaptação cultural · contexto regional · normalização vs. repugnância
- Teoria de 'coisas fora do lugar'Mary Douglas (Pureza e Perigo) · contexto simbólico · deslocamento como causa · exemplo sapato · fronteira simbólica vs. higiene objetiva
- Nojo e supressão sexualexcitação sexual suprime nojo · estudo alemão com estímulo erótico · intimidade protegida · contexto evolutivo · troca de fluidos
- Dimensões sociais e morais do nojoreações morais · correlação ideológica · conservadorismo vs. liberalismo · associação com pureza · componente social
- Nojo como estado pré-consciente e resistentedificuldade de desaprender · resistência à manipulação · extinção limitada · chocolate em formato de cocô · conflitos existenciais
- Expressão facial universal do nojocareta facial única · contração do lábio superior · enrugamento do nariz · reconhecimento transcultural · expressão exclusiva
- Nojo ancestral e riscos modernosproporcionalidade ao risco · fluidos corporais · comida em decomposição · feridas abertas · desconexão com perigos atuais
- Nojo e histórico de doenças infecciosassensibilidade à pureza · função genética · proteção familiar · transmissão de doença · variação adaptativa
- Nojo em condições neurológicasDoença de Huntington · TOC (transtorno obsessivo compulsivo) · perda de reconhecimento · compulsões de limpeza · áreas cerebrais disfuncionais
- Nojo moral e enraizamento corporalpreconceitos baseados em nojo · dificuldade de desmontar · origem corporal vs. opinião · rigidez comportamental · conflitos profundos
- Paul Ekman e expressões faciais universaismapeamento de emoções · sistema FACS · série Lie to Me · microexpressões · emoções universais
- Nojo e deslocamento contextual (feijão em lata)exemplo etnográfico Nova Guiné · artificialidade vs. alimento natural · Paul Ekman em Nova Guiné · dissonância cognitiva · contexto cultural
Visões do Futuro, com Álvaro Machado Dias. Oi, Álvaro, boa tarde. Boa tarde. Boa tarde. Alô? Opa, me escutam? Ah, agora sim. Tudo bem? Tudo ótimo. Então tá bem. Bom, hoje o Álvaro vai trazer uma sensação, um afeto, um sentimento, sei lá. Que é muito comum e se eu falar, todo mundo vai falar. Ah, sei, já senti. Nojo. Todo mundo já sentiu.
todo mundo acha que sabe o que é. O Álvaro vai desmascarar o nojo hoje, aqui, nesse espaço. A pessoa, Álvaro, em geral, se manifesta fisicamente quando ela sente nojo, né? É impossível sentir nojo e não fazer um sei lá, uma careta ou ter uma reação assim. Por que que o nosso cérebro reage com tanta violência a algo que muitas vezes não é perigoso, mas causa
algum tipo de nojo, repugnância. Olha só. Pois é, você disse que o nojo é uma emoção mais física, que a gente reage com a careta, fazendo sons. E eu digo também que é a emoção mais antiga que a gente carrega. As emoções foram surgindo ao longo do processo evolutivo em série. Elas não aconteceram todas em paralelo, muito pelo contrário. E antes de existir linguagem, antes de existir cultura, no sentido que a gente conhece,
E a razão é simples. O nojo é a peça central do que a gente pode chamar de nosso sistema imunológico, ou seja, nosso sistema de defesa comportamental. Olha que interessante essa ideia, né? Um sistema de proteção contra os riscos do nosso próprio comportamento. Quer dizer, o comportamento de você com fome lá e comer uma coisa que não está tão legal assim e assim por diante. Então, o cérebro, como esse grande sistema de organização da vida, ele não vai esperar.
você encostar numa coisa contaminada para reagir. Pelo contrário, ele vai detectar esse sinal, aparência, o cheiro, a textura e assim por diante, e disparar uma cascata de reações fortes, físicas, como você falou, Tati, que vão gerar uma proteção, uma coisa que acontece num domínio não consciente, muito antes de você ter clareza de que aquilo lá pode ser uma roubada na tua vida. Tem um pesquisador muito legal, chamado Paul Rosen, da Universidade da Pensilvânia,
Estados Unidos, que ele mostrou que o nojo é a única emoção que tem uma expressão facial dedicada só a ela. Olha que legal, que é reconhecida em todas as culturas do planeta. Quando você fez assim, o que que acontece? Você tem uma contração do lábio superior, tem um enrugamento do nariz e o rosto dá uma murchada. Essa é a expressão, essa cara de pra dentro, de uma coisa virada pra si mesmo. Isso não importa se você nasceu em São Paulo ou numa
aldeia no, sei lá, no Camboja. Cara de nojo é sempre a mesma. E uma coisa agora que é legal, a intensidade do nojo que uma coisa provoca, ela é proporcional ao risco de contaminação que ela traz no nosso antigo ambiente ancestral, ou seja, lá na Idade da Pedra. Então, por exemplo, fluidos corporais, comida em decomposição, feridas abertas, tudo isso gera nojo máximo, porque durante muito tempo foi bastante perigoso.
Então, quer dizer, o nojo tem essa ancestralidade mesmo, né? E para fechar, eu queria só comentar uma coisa. O nojo, ele não é só ligado a coisas físicas. O mesmo componente que, enfim, interno do nosso cérebro que vai reagir a essas coisas físicas, também gera reações morais. Olha que interessante. O nojo é uma emoção social, que inclusive tem associações ideológicas.
que, por exemplo, pessoas mais conservadoras sentem mais nojo do que seus pares liberais. Então, o nojo está lá como uma reação que forma as nossas próprias opiniões, junto com a pureza, junto com a ideia de limpeza e outras mais. Então, o nojo é super complexo e super profundo na nossa existência. Álvaro, já que você falou sobre outras culturas, o nojo muda muito de lugar para lugar. Vamos dar um exemplo aqui. Insetos. Insetos nojentos.
lugar que é refeição. Tem outros lugares que não, que é só nojento mesmo. Como é que se explica essa variação nas culturas? Pois é. Ano passado eu estava na China e eu realmente vi sendo vendido na rua uns palitinhos com escorpiões, com formigas. Tem até um inseto ali, um besouro, que para mim lembra muito barata, sabe? É um negócio estranho demais e super normal para o pessoal da região. Não é uma coisa que a cultura urbana abraçou,
no interior, com certeza. E como é que pode surgir essa variação tão grande entre culturas? Olha só, tem um livro, que eu acho que é o grande livro para quem quer conhecer o nojo, que chama Pureza e Perigo, da Mary Douglas, de 1966, super antigo. E a Mary resolveu essa questão, por assim dizer, de uma vez só. A tese central dela é que aquilo que a gente classifica como nojento tem uma relação só parcial
a higiene objetiva. A grande questão é a fronteira simbólica. Quer dizer, é aquilo que está deslocado, que está estranho. Ela tem até uma frase famosa que é o nojo é uma questão das coisas fora do lugar. Algo assim. Então, por exemplo, o sapato no chão é normal. O sapato em cima da mesa de jantar é nojento. Nada mudou no sapato, mas esse deslocamento, essa violação é o que cria o estado
não natural, um estado de estranhamento. E eu acho que esse estranhamento que explica a variação cultural. Entende? Então, por exemplo, se alguma coisa está fora do seu habitat, por assim dizer, ela tem muito mais chance de produzir nojo. Então, por exemplo, no Japão, esses queijos europeus que cheiram forte, eles causam uma repulsa genuína. Na França é refinamento, né? Tem essa questão, por exemplo, do inseto e tem uma que eu acho que é bem
legal que, assim, sociedades que têm um histórico de doenças infecciosas são sociedades mais sensíveis a questões da pureza. Portanto, o nojo acaba sendo mais forte. Por quê? Porque, afinal de contas, detectar que alguém pode estar contaminado pode significar você se afastar e você não também acabar sendo um vetor de doença dentro da família. Então, do ponto de vista genético, tem sentido. Entende essa coisa? Então, está por aí a história. Ou seja, nojo,
é muito cultura porque ele é dado pelo deslocamento das coisas. A barata como um objeto, sei lá, representada num livro de biologia, não é nojenta. A barata andando em cima da cama é completamente nojenta. Está aí a chave desse entendimento. Existe algum tipo de condição neurológica, psiquiátrica, em que a pessoa não tem nojo ou, ao contrário, que ela é muito nojentinha?
Isso fala alguma coisa sobre a nossa saúde mental? Existe sim. Tem um caso da doença de Huntington, tá? Essa é uma doença neurodegenerativa genética. Ela não é muito comum, mas como ela traz sintomas intensos e como ela ocorre em famílias muitas vezes, quase sempre, ela acaba sendo bem estudada. Então, é uma daquelas doenças sobre as quais a gente conhece muito.
então, eles perdem a capacidade de reconhecer nojo, olha só. Então, isso vai acontecendo mesmo. Agora, tem um outro lado também, né? Então, no transtorno obsessivo compulsivo, o famoso TOC, a gente tem excessiva sensibilidade e um sistema imunológico de defesa comportamental super exacerbado, né? Ou seja, aquela compulsão por limpeza, por exemplo, por evitar contaminação,
uma forma de reação exacerbada ou de nojo exacerbado, do ponto de vista do sistema, mesmo que a pessoa não esteja sentindo nojo como a gente sente pontualmente, porque é uma coisa muito mais crônica, o sistema é o mesmo, inclusive as áreas do cérebro que estão disfuncionais. Quer dizer, o toque, no final das contas, é uma condição baseada no excesso de nojo e o resultado é maior rigidez comportamental, fazer as coisas repetidamente.
e assim por diante, porque justamente a rigidez é aquilo que faz você evitar o erro, evitar você, enfim, cair numa roubada. Está aí a relação entre esses desvios da normalidade cerebral e o nojo. Álvaro, tem uma relação que parece estranha, mas é o seguinte, sexo e nojo. A gente sabe que a excitação e repulsa estão muito perto uma da outra. O que explica essa relação, essa vizinhança?
Essa pergunta é legal, porque de fato a gente vê essa fronteira tênue entre excitação e repulso e até isso explica porque algumas pessoas veem algumas coisas como nojentas e outras como não. É o que há de mais interessante. E de onde vem essa ideia? Por que as coisas são assim? Olha, é profundo, mas eu queria começar rapidamente contando um experimento muito interessante, um estudo alemão, que fez o seguinte,
distribuiu mulheres em três grupos. Um grupo assistiu um material erótico, outro material esportivo, um vídeo, e outro um vídeo neutro. Depois foi pedido que todos realizassem umas tarefas que objetivamente eram nojentas, tipo tocar num lençol usado e coisas assim. O grupo, que estava mais sexualmente excitado, achou as tarefas bem menos nojentas. Olha que interessante. Quer dizer, antes da gente explicar por quê, fato é,
Que a excitação sexual suprime o sistema do nojo. E isso faz sentido evolutivo, né? Afinal de contas, o ato sexual envolve troca de fluidos, contatos íntimos, proximidade extrema com o corpo de outra pessoa. Tudo aquilo que em qualquer outro contexto ativaria nojo máximo. Então, enfim, tá aí a relação. Aí, o que eu acho que é legal é o seguinte, a gente pensar que no final das contas,
proteger a intimidade. Então, assim, por que essas duas coisas são tão próximas, né? Excitação e repulsa, né? A luz do nojo, né? Repulsa como nojo. Porque, no final das contas, isso faz com que o casal, ele tenha uma intimidade mais forte e mais bem protegida em relação aos outros. É essa, o resto da sociedade. Afinal de contas, pra eles, aquilo é íntimo, pros outros, eventualmente, é nojento. Entende? Tá aí a chave desse mistério. Dá pra gente desaprender o nojo? Olha,
É, dá um pouquinho, tá? Mas é bem difícil, tá? Eu acho que essa dificuldade, inclusive, caracteriza, né? Conta a história do nojo. Porque, assim, o nojo é uma emoção muito resistente à manipulação, tá? A tentativa de extinção, como dizem os cientistas, os psicólogos cognitivos e assim por diante. Por quê? Porque ele é pré-consciente, ele não tá ali no nível do conhecimento. Então, todo mundo consegue aprender a reconhecer,
no domínio cognitivo aquilo que em algum nível causa repulsa. Mas isso não significa que lá no fundo a pessoa faça as pazes com essa sensação. Tá aí, muitas vezes, a origem de alguns conflitos bem profundos do ponto de vista íntimo, né? Então, o nojo, ele não é uma teimosia, ele é um estado existencial mesmo. Tem um estudo, que eu lembrei aqui, que é muito legal, que é o seguinte. Então, olha cada ideia, né? Olha essa daqui. Pessoal, numa universidade,
A americana ofereceu uns pedaços de chocolate para os sujeitos, só que eles tinham um formato de cocô de cachorro. O que acontece? Ninguém queria comer. Todo mundo está vendo que é chocolate. Mas não adianta sentir nojo. Por quê? Porque o nojo não é racional. Pelo contrário, ele opera por uma lógica de contaminação, de defesa íntima. Então as mudanças são limitadas por causa disso. A exposição repetida ao estímulo que causa dor do nojo,
só leva a um aprendizado mais superficial. Eu acho que isso vale para o nojo físico, mas também vale para o nojo moral. Preconceitos enraizados no nojo são os mais difíceis de desmontar, justamente por isso. Porque eles não estão enraizados na opinião, mas sim lá no corpo. E está aí, acho que parte do problema que toda a sociedade vive hoje em dia. Olha, tem aqui a participação da Jana Carvalho. Ela falou que o Paul Ickman viajou para Nova Guiné para estudar sobre expressões de nojo.
Eu fui atrás da história e realmente é verdade. E os nativos sentiam nojo quando os cientistas comiam feijão em lata. Tem a ver com as culturas que a gente discutia anteriormente. Isso. O Paul Ekman é um dos maiores estudiosos das emoções que existe. É um sujeito que fez aquele sistema que é usado naquela série Lie to Me. Uma série, não sei o nome em português, mas é uma que você detecta as emoções das pessoas e se elas estão mentindo ou não com base em microexpressões.
Falações bem sutis do rosto e do corpo. E, de fato, nesse mapeamento, ele mapeou o nojo. Aliás, ele propôs que algumas emoções são universais e o nojo está entre elas. É o nojo, a tristeza, a alegria, não lembro de todas. Mas, enfim, o nojo é uma delas. E qual que é a ideia do feijão em lata? Por que isso causa nojo? Pela lógica do deslocamento que eu falei. O feijão não causa nojo nenhum, muito pelo contrário.
vem do fato dos nativos comerem feijão. O que é estranho para eles é a lata, é o deslocamento desse objeto totalmente artificial. Então, a hora que você põe a artificialidade em contato com o alimento, você cria aí uma dissonância, um tilt na mente que faz com que as pessoas sintam uma vontade de rechaçar aquilo, de rejeitar aquilo, que é justamente o nojo. Tá certo. Álvaro, mais uma vez, obrigado pela
e até semana que vem. Valeu, Álvaro. Valeu, até lá. Até.