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Chip de testosterona: como funciona?

19 de março de 202615min
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Circulou no noticiário que um cantor sertanejo teria passado a fazer reposição de testosterona via chip. Para que serve e como funciona a reposição desse hormônio? O Dr. Luis Fernando Correia convida o Dr. Clayton Machado, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, para explicar melhor sobre o assunto.
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Assuntos11
  • Reposição de testosterona via chipIndicações clínicas · Método de implantação · Aprovação pela Anvisa · Riscos de manipulação · Alternativas industrializadas
  • Riscos e efeitos colaterais da testosteronaAgressividade e comportamento · Riscos cardiovasculares (infarto, trombose, embolia) · Infertilidade e atrofia testicular · Hepatotoxicidade e tumores · Acne e queda de cabelo · Risco de suicídio
  • Diagnóstico de deficiência de testosteronaDosagem adequada · Necessidade de duas medições · Diagnóstico de causa subjacente · Diferença entre níveis baixos e normais
  • Terapia de reposição de testosterona (TRT)Gel de testosterona · Injeções com diferentes períodos (trimestral, curto prazo) · Fórmulas industrializadas aprovadas pela Anvisa
  • Disfunção erétil e causas de baixa libidoCausas múltiplas da disfunção · Fatores psicológicos e relacionais · Terapia como alternativa · Medicações específicas para disfunção · Relação com depressão e sono
  • Testosterona reduzida em homens modernosUso prévio de esteroides anabolizantes · Tumor da hipófise · Doenças genéticas · Disfunção testicular · Sequelas de cirurgia ou radioterapia
  • Outras causas de cansaço e baixa libidoObesidade e metabolismo alterado · Depressão e medicações antidepressivas · Distúrbios do sono · Problemas cardiovasculares · Questões relacionais do casal
  • Manipulação de medicamentos e legislaçãoBrecha na legislação · Farmácias de manipulação como indústria · Falta de bula e dosagem definida · Implantes não absorvíveis com riscos · Reunião iminente na Anvisa
  • Caso do cantor sertanejo como exemploSintomas inespecíficos (cansaço e fraqueza) · Influência de celebridades em decisões de saúde · Falta de investigação adequada · Divulgação de práticas não recomendáveis
  • Regulação de HormôniosProibição pelo Conselho Federal de Medicina · Normas da Anvisa · Uso proibido para fins estéticos e performance
  • Testosterona em mulheresDeterminantes diferentes de libido · Complexidade das condições · Testosterona não é determinante
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Saúde em Foco. Com Luiz Fernando Correia. Doutor Luiz Fernando, hoje aqui nos nossos estúdios eu fiz a brincadeirinha de que vou me retirar, porque temos dois Luizes Fernandos nessa bancada hoje. Tô meio deslocada. Luizes Fernandos, tô meio deslocada. Tudo bem, doutor? Tudo, Tati. Tudo, Fernando. Bem-vindo. Obrigado. Bom, vamos falar de testosterona. Vamos falar de chip de testosterona.

vou deixar o doutor Luiz Fernando fazer às vezes. Tá bom. Então, a gente... Bom, circulou no noticiário essa semana a notícia de que um cantor sertanejo tinha passado a fazer reposição de testosterona porque estava se sentindo muito cansado, muito frágil, pouca energia, enfim, não estava conseguindo fazer tudo o que queria na vida. Pouca energia sexual também. É, ele também disse isso, é verdade. Disse, disse. É, deixou claro.

O problema começa quando ele disse que foi ao médico, dosou o cortisol e, por causa disso, ele botou um chip de testosterona para repor a testosterona. Aí começa a misturar muita coisa, né, Tati? Porque, primeiro, as queixas são bastante vagas. Podem ser causadas por baixa testosterona, que acontece. Pode acontecer no homem, principalmente com envelhecimento. Mas não é a faixa etária dele, quer dizer. Então, pode acontecer? Pode.

chip, a gente não tem, não tem formulação industrial de chip aprovada pela Anvisa pra você usar. Então, você vai ter que manipular uma coisa pra botar debaixo da sua pele que você não sabe a dosagem, não é bem, não é o caminho habitual. Ele tem 27 anos. É, então, é muito jovem pra estar com um distúrbio de, um distúrbio androgênico do envelhecimento, que se chama, quando a queda da testosterona tem a ver com o avançar da idade, né?

Então, é pra gente entender que tudo parece estar tentando se resolver com hormônio, né? Se eu tô cansado,

Inclusive questões de masculinidade, aparentemente, nesse caso. Isso incomodava muito o rapaz. Eu acho que é importante. Essas questões a gente às vezes resolve na terapia e não no médico. E a gente tem um convidado. Exatamente. Para poder explicar isso para a gente, eu pedi a ajuda do Dr. Clayton Macedo, que é da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, para nos explicar. Primeiro, Dr. Clayton, como é que a gente dosa essa testosterona nos homens?

nível a ser obtido, alcançado, e isso que eu falei, se o senhor concorda, ou seja, qual é o melhor jeito de administrar quando é necessário? Olá, muito obrigado pelo prestígio, pela oportunidade, porque acho que é um tema que nós, como somos especialistas em hormônios, os endocrinologistas, nós estamos encarando o mau uso dos hormônios como um problema de saúde pública. Como tu bem falaste aí,

Fernando, o hormônio é a bola da vez, ele é vendido como a solução para tudo, como anti-envelhecimento, para potência, para libido, para ganhar massa muscular, para fadiga crônica. A gente tem tantas outras causas de fadiga crônica. Então, é importante, existe a indicação de uso de testosterona

critérios. No caso do homem, a indicação é para homens que têm deficiência comprovada de testosterona. Não é níveis normais, baixos, não. Porque hoje existe todo um discurso de modulação ou de otimização de hormônios e o nosso organismo é muito bem regulado nesse sentido. Sempre que a gente usa um hormônio por fora, a gente bloqueia a nossa

interna, bloqueia a fertilidade, isso a longo prazo, principalmente quando suspende, pode trazer uma série de consequências. Então, o primeiro passo é se fazer o diagnóstico adequadamente. Eu não sei os detalhes desse artista, então não vou discutir em cima do caso dele, porque eu não sei as dosagens dos hormônios, não sei a indicação aparentemente indevida pela faixa etária e

pelos sintomas inespecíficos, mas vamos que ele realmente dosou a testosterona e ela realmente estava abaixo, abaixo de 300, um número grosseiro. A gente precisaria ter duas dosagens, isso é um critério importante, e mais do que tudo isso, quando existe deficiência de testosterona, nós precisamos ter uma causa tratável ou não para ser diagnosticada.

Então, se ele tem deficiência de testosterona, ele precisa investigar por que essa testosterona é baixa. Existem inúmeras causas. Hoje, talvez a causa mais prevalente de deficiência de testosterona seja o uso prévio de esteroide anabolizante ou de testosterona. É o que a literatura vem trazendo. Esse uso está tão disseminado que quando o indivíduo para de usar, ele fica com deficiência.

Esse indivíduo, ele pode ter um tumor da hipófise, ele pode ter uma doença genética, ele pode ter uma disfunção do testículo ou fez radioterapia, fez cirurgia e ficou realmente com testosterona. Aí ele precisa ter esse diagnóstico, precisa ter as duas dosagens, ele precisa ter o quadro clínico definido. Então, esses sintomas, eles são pouco específicos, né?

baixar libido, pode dar fraqueza. Então, ele precisa ter um olhar mais aguçado, principalmente interessado na saúde dele e não no quanto ele vai pagar pelo chip ou o quanto ele vai entregar de prestígio a partir desse uso quando divulgado. Ele diz, e aqui por que a gente está pegando esse caso? Porque é um cantor que tem um alcance enorme e que pode estar divulgando

coisas que ele fez em relação ao corpo e à saúde dele que não são recomendáveis para outros homens ou para outras pessoas. O que ele diz? Que quando ele descobriu que estava com testosterona baixa, não sabemos se essa dosagem foi feita da maneira correta, como o senhor está nos explicando, mas que a solução para isso foi usar um chip hormonal para tratar a condição. Então, assim, a gente sabe que anda muito em voga a testosterona para qualquer coisa, basicamente, como falamos aqui, e o chip,

também. Então, a gente está falando de dois produtos que têm sido muito divulgados e, às vezes, sendo usados para pessoas que nem precisavam deles. Tudo isso para te perguntar. Reposição de testosterona é feita com chip? Não. Então, esse é um problema. Amanhã, inclusive, nós teremos uma reunião na Anvisa para tratar sobre isso. Existe uma brecha da legislação que diz que qualquer substância, qualquer substância farmacológica,

Se é aprovada, se o insumo farmacêutico é aprovado, ele pode ser manipulado. Isso privilegia as farmácias de manipulação de uma forma nobre até, porque às vezes eu, como médico, eu preciso uma dose que não existe no mercado para o meu paciente, ou eu preciso um diluente, uma via que não é a via normalmente padronizada, que era uma solução que só existe...

injetável, eu vou querer usar num gel e aí sim, eu talvez para esse paciente individualmente eu possa trazer benefício com a manipulação. Então, ninguém aqui fala mal da manipulação. A manipulação, ela tem o seu papel e é legal, mas para a reposição hormonal, ela é uma terapia de exceção e ela deveria ser individualizada. O que que acontece?

massas se transformaram em verdadeiras indústrias, produzem com planta de fábrica, recrutam médicos para prescrição e a partir daí descaracteriza todo esse processo. Esses implantes, eles não têm bula, ninguém sabe em quanto tempo libera, quanto tempo dura, muitas vezes eles são absorvíveis, então se o paciente complica, a gente está vendo isso.

de câncer de mama que precisou retirar o implante e o implante era inabsorvível. Então a gente fica com esses riscos bastante aumentados a partir dessas terapias. Nós temos hoje fórmulas legais, autorizadas, aprovadas para repor testosterona. Quais seriam essas? A gente tem o gel de testosterona que não precisa ser manipulado.

da deficiência masculina existe na farmácia para vender. E nós temos injeções, tem vários tipos de injeção, inclusive tem uma injeção que ela é de uso trimestral, uma injeção bem cômoda para o uso, outras são de uso mais curto. Mas nunca dessa forma, nunca dessa forma de implantes hormonais. Inclusive o Conselho Federal de Medicina e a própria Anvisa proíbem o uso

de hormônios para fins estéticos e de performance como um todo, né? Mas não nega a indicação para quem tem deficiência. Doutor, além de não ajudar, pode atrapalhar. Quais são os riscos do uso dessa testosterona de forma incorreta? Sabe, quando eu vou responder essa pergunta, eu começo porque literalmente é da ponta, é da cabeça até o pé, né? Doutor, a gente tem um minuto e meio, tá?

do organismo. Então, comportamental da irritabilidade, agressividade, quantos homens aí bombados, agredindo mulheres, a gente tem visto na mídia, da dependência, da abstinência, tem risco de suicídio, se o indivíduo já tem patologia de base, ele pode desenvolver psicoses, né? O coração aumenta a pressão, altera colesterol, aumenta a gordura visceral, dá mais arritmia, dá mais infarto,

dá mais embolia, dá mais trombose, dá mais morte súbita, a gente tem visto isso. O fígado, nós temos hepatite medicamentosa e nós temos, inclusive, tumores benignos e malignos de fígado. Nós temos atrofia do testículo com infertilidade, acne, queda de cabelo e uma série de outras complicações. Tá, porque ele alega falta de potência sexual. É com testosterona que trata?

porque isso tudo pode acontecer também se a falta de potência sexual tiver outra causa que não é exatamente uma deficiência regular da testosterona. Sim, sim. Existem várias causas, inclusive deficiências que são funcionais. Por exemplo, a própria obesidade, a gordura visceral, ela altera o metabolismo da testosterona, degrada mais rápido e converte para outros hormônios.

por obesidade, é tratar a obesidade. Se a gente usa a testosterona, a gente acaba piorando o caso. O indivíduo pode estar depressivo, ter alteração da libido e da potência. Ele pode estar usando antidepressivo e ter alteração da libido e da potência. Distúrbio do sono. Então, uma infinidade. Questões de relacionamento do casal, a gente nunca pode deixar de comentar também. Então, essas causas são múltiplas.

na mulher é algo extremamente complexo e a testosterona não é o determinante da baixa de bebido na mulher. Então, acho que fica o alerta, não aceitem esses atalhos, enxerguem esse chip hormonal com um viés financeiro, econômico, de lucro, porque isso tem gritado aos nossos olhos. E para a falta de potência sexual, às vezes, como disse o doutor Luiz Fernando, vale mais um terapeuta do que exatamente um chip de testosterona.

Dr. Luiz Fernando? Com certeza. E tem medicações que melhoram disfunção erétil. Dependendo da causa, o indivíduo pode ter um diabetes, pode ter alguma outra patologia vascular que altera potência. Existem medicações ou até outras condutas para melhorar isso. Mas a testosterona, o risco é maior que o benefício. Dr. Clayton Macedo, endocrinologista, conosco hoje aqui, tirando as nossas dúvidas sobre testosterona,

convidado, doutor Luiz Fernando. Obrigado, doutor Clayton. Muito obrigado. Obrigado, Luiz. Um arremate, doutor Luiz Fernando? Eu acho que a frase, doutor Clayton, é que é fundamental. O risco não vale o benefício possível. Não coloque a sua saúde em risco, porque disseram pra você que é bom. Cuidado com o que você vê na internet, gente. Cuidado, cuidado. Obrigada, doutor Luiz Fernando. Até mais. Até terça.