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Memória e identidade: fotografia gera conexão com o outro e á 'contorno' de nós mesmos

17 de março de 202610min
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Michel Alcoforado fala sobre como a fotografia assumiu posição importante ao dar o contorno de nossa identidade própria e gerar conexão com o outro. A mudança dessa relação entre humanos e foto vai desde a invenção da câmera digital ao publicar uma imagem nas redes sociais. Ouça.
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Assuntos8
  • Fotografia e identidadecontorno da identidade pessoal · narrativa pessoal no feed · seleção de imagens · reflexo de quem somos · expressão do eu
  • Câmera digital vs analógicainvenção da câmera digital · revelação de fotos como surpresa · processo analógico com filme · aceleração de produção · câmera no celular
  • Instagram e plataformas de compartilhamentofundação em 2010 · Mike Krieger como fundador brasileiro · 1.3 bilhões de imagens por dia · feed e stories · muda percepção de compartilhamento
  • Memória e nostalgia digitalconceito de nostalgia digital · reativação de memórias antigas · deletar fotos em transições de vida · fotos do passado vs dia a dia · confusão da memória com identidade
  • Engajamento com conteúdo antigo35% maior engajamento · pesquisa de psicólogos americanos · reengajamento através de memórias · interação baseada no passado
  • Fotografar como ato de conexãofotografar como forma de cuidado · memória compartilhada · álbum de família · criação de pontes de contato · edição coletiva
  • Confusão temporal nas redes sociaisperda de clareza sobre passado · presente e futuro misturados · desafio de temporalidade · continuidade de identidade através do tempo
  • Gêmeos Digitais e Entretenimento DigitaliPad como moldura digital · álbum dinâmico de fotos · engajamento contínuo familiar · hipnose visual · passeio visual pelas memórias
Transcrição19 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

Para onde vamos? Com Michel Alcoforado. Michel, boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Tudo bem, Michel? Vou procurar aqui se eu tenho fotos com Michel Alcoforado. Tenho. A gente tem algumas. Algumas que, inclusive, não deveriam ter nem ido para o Instagram, não é mesmo, Michel? No carnaval eu deletei tudo, viu? É, pois é. Enfim. O Michel hoje vai dar um de bad bunny, dizer que a gente tem que tirar mais fotos,

Porque... Você sabe que eu tenho feito isso? Você gosta de tirar foto, né, Tati? Eu adoro. Eu sou conhecida na minha turma de amigas. Como a pessoa que, se todo mundo esquecer tudo, pega o telefone da Tati. Porque vão ter lembranças lá que ela fez. E eu tenho feito, em vez de fotos posadas, eu tenho feito registros em vídeo das minhas situações sociais. Sobretudo quando eu tô com as minhas pessoas. Que é tudo mais quentinho, mais íntimo.

e tal. Fotografar também é cuidar, Michel? É, você sabe, você faz ideia mais ou menos de quantas fotos são tiradas todos os dias ao redor do mundo aí, segundo as pesquisas. Nossa, deve ser um número assim que esfrega a banalidade das fotos na nossa cara. Tem mais zero do que a gente sabe falar, mas diga. Cinco bilhões, cinco bilhões de fotos são tiradas todos os dias no planeta. E dessas cinco bilhões, 1.3 delas ou vão, ou descem pro Instagram,

como foto de feed, ou viram stories, ou viram algum formato simular uma foto, como pequenos videozinhos que a gente fica fazendo aí e falando da nossa vida nas plataformas digitais. É impressionante, se a gente pensa só no Instagram, com 1.3 bilhões de imagens sendo baixadas dentro da plataforma, no final de um ano a gente está falando que dentro do Instagram tem mais de 475 bilhões de imagens que são postadas dentro dessa plataforma.

E eu quis começar a conversa por aí por conta desses dois elementos que mudaram a relação dos humanos com a fotografia. Há um primeiro movimento super importante ali no final dos anos 90 e no começo dos anos 2000, que é a invenção da câmera digital. Para quem é mais jovem e não faz a menor ideia do que era tirar uma fotografia antes, você tinha que comprar uma câmera que não era barato, comprar aquele rolinho de filme, você plugava dentro da tua câmera, você viajava com aquela câmera.

Aí, para você ter controle da imagem, você olhava num negocinho pequenininho, que era a lente, e ali você tentava tirar uma boa foto. Mas o resultado mesmo só ia se dar quando você revelava as fotos. E essa revelação das fotos era uma grande surpresa. Não à toa, a gente ficava ansioso pela revelação das fotos, mas também compartilhava essa ansiedade com os outros. Ai, quase senti essa ansiedade agora da minha mãe falando. Passei para pegar as fotos do vôlei.

Ai, vem logo. Ficaram boas. E você não sabia, porque às vezes queimava, às vezes você abria a maquininha lá na hora errada. Enquadramento ruim. Então, quando a gente pode tirar foto com câmera digital, ou quando a gente pode ter a câmera digital dentro do celular, a nossa produção de imagens acelera de forma muito rápida. E a fotografia fez parte do nosso dia a dia. Mas tem um segundo movimento interessante, que é quando a gente começou a grudar essas fotos digitais

sociais. E aí o Instagram teve um papel importantíssimo. Pode parecer que o Instagram está na nossa vida desde sempre, mas ele foi fundado em 2010 por um americano e por um brasileiro. O brasileiro é o Mike Krieger, que é filho de uma elite paulistana, se eu não me engano, que muda para os Estados Unidos para fazer faculdade e funda esse negócio, que é um aplicativo, ou é uma plataforma digital, que muda por completo também a nossa ideia de compartilhamento de fotos. Quando a gente junta esses dois elementos, o que muda por completo?

muda a nossa percepção do para que serve uma foto, do que serve ser enquadrado numa foto, mas, sobretudo, o impacto de uma foto nas nossas relações. Em dois campos. O primeiro é da conexão. Como eu uso uma foto para criar conexão com os outros ou como eu penso na edição dessa foto para girar pontes de contato com pessoas que estão no meu entorno olhando aquelas imagens. Então, antes era no face a face. Era comum quando fulano voltava do casamento,

Aí a família era convidada para poder ver o álbum no casamento, ou de uma viagem importante, ou você ia na casa da sua avó, ou da matriarca da família, porque ela guardava essa ideia de um objeto, que era a foto, que gerava conexão, gerava edição, mas era também fruto de uma memória compartilhada. Mas há um segundo movimento decisivo aqui, que vai mudar completamente na nossa relação com as fotos, que é a ideia de memória. E a ideia de memória conectada com identidade. Que tipo de fotos são essas?

a gente passa a escolher e desce para o feed e que tipo de narrativa que essas fotos ao longo do todo vão contar sobre a gente. Então, os mais jovens não passam por isso, mas a gente, quando vive um grande momento brusco na vida, uma separação, ou você começa um novo relacionamento, ou muda de emprego, ou faz uma viagem importante, quando você quer esquecer alguma coisa, muita gente vai lá no feed do Instagram e apaga aquelas fotos, porque sabe que essa memória que está ali

está preocupado em inventar um outro, ou está preocupado em esquecer. Então, mudou por completo. E aí eu estou aqui no Texas ainda, em Austin, no South by Southwest, e um dos conceitos falados aqui numa das palestras foi o conceito de nostalgia digital, que é o que as plataformas conseguem trazer para a gente com a fotografia e com essa memória que volta, vira e mexe, te lembrando de coisas que você fez no passado que você nem fazia mais ideia. E aí engaja mais.

reengaja mais. Tem um estudo que foi falado aqui no South by South, que é um estudo feito pela Associação de Psicólogos Americanos. Uma associação que junta psicólogos preocupados em fazer pesquisa nesse campo das ciências PC. E eles vão mostrando que a gente, quando vê uma foto do passado, você tem uma perspectiva de engajamento 35% maior do que uma foto só do teu dia a dia. Então, lembrar do passado,

é importante porque gera mais engajamento, mas gera mais engajamento porque possibilita comunicação, conversa, interação, a partir daquilo que a gente fez no ontem, mas que continua dizendo muito sobre a gente hoje. Então, a fotografia não assumiu um lugar na nossa vida por acaso, ela sempre foi importante desde que foi inventada séculos atrás, mas continua tendo importância porque ela gera essa conexão do humano e nos faz lembrar quem a gente é,

dá contorno pra nossa própria identidade e nos ajuda a nos conectar com os outros de um jeito que outras mídias não conseguem fazer. Michel, vou te contar uma história. Sempre adorei revelar foto e não fazia isso há muito tempo e ganhei um porta-retrato digital. Como se fosse um iPad, você coloca ali e ele fica ali rodando as fotos. E tava lá jogado, ninguém colocava as fotos, ninguém ligava. Daí decidi um dia assim, vou ligar esse treco. E coloquei um monte de foto.

coloquei um monte de fotos. Daí minha mulher colocou, o Cauê colocou, tá? Você fica hipnotizado. Eu tive que mudar de lugar, porque senão você ficava só olhando. Olha lá, olha a criança pequenininha, olha essa viagem. E a gente aqui discutindo vício em tela, né? Outro tipo de tela. Mas é que tá, você fica lá, você passa assim, você passa e olha assim, nossa, olha o Igor pequenininho. Lembra! Lembra disso, tá? É, muito legal. Foi legal, foi legal.

Ele fica ligado lá, você coloca um tempo, né? Não deixa ligado o dia todo e tal, mas ele fica lá mostrando,

um pouco da nossa vida, da vida da família. Foi bom, foi legal, tem sido legal. Mas o engajamento foi tão grande que vocês ficaram presos ao negócio, tive que mudar de lugar. Tive que mudar de lugar. Comprova as pesquisas aqui da Associação Americana de Psicólogos. Então, ele rouba o olho, assim, você fica passando de repente, opa, olha que legal. Maldita tela, mas dessa vez foi legal. Tá tudo bem, tá tudo bem. Tá bom, algo acrescentar, vai, Michel. Só pra complementar, Fernando, acho que traz um aspecto interessante, porque

A gente vive um desafio de tempo, e não é de tempo só da vida mais acelerada. É um desafio de não termos muita clareza do que é o passado, do que é presente, do que é futuro, porque tudo parece muito misturado depois do impacto das redes sociais nas nossas vidas. E o que fica claro nesse ritual bobo de usar a tecnologia para lembrar da gente do passado é uma percepção de conexão, uma percepção de que o tempo passou, uma percepção de que a gente ainda está aqui,

há de infinito, mas vai lembrando de onde a gente veio, quem a gente é e pra onde a gente tá indo. Então, fotografia é bárbaro, né? Impressionante como captura a gente mesmo. Muito bom. Michel Cofrado conosco em Pra Onde Vamos, que você só ouve aqui no nosso estúdio CBN. Obrigada, Michel. Um beijo pra você. Até quinta. Quinta, quinta, tô no brasa, hein? Tô de volta. Quero saber tudo aí desse SXSW. Tchau, Michel. Bom retorno.