O filme Valor Sentimental e os abismos presentes nas relações familiares
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- Filme Valor Sentimentalmetáfora da casa rachada · personagens Nora e Agnes · ausência do pai · morte da mãe · reaproximação familiar · análise simbólica
- Relacionamentos Familiaressilenciamentos familiares · falta de toque · cobranças excessivas · distanciamento emocional · falhas afetivas
- Trauma e Comportamentotransmissão de trauma entre gerações · pais traumatizados traumatizam filhos · herança emocional · ciclos familiares · perpetuação de padrões
- Parentificação - criança mal acolhidacriança adaptada demais · autonomia compulsória · criança cuida de pais · maturidade precoce · responsabilidade emocional
- Reparação afetiva e acolhimento tardioperdão parental · renúncia de fantasia de reparação retroativa · acolhimentos tardios · construção de vínculos · resgate emocional
- Paternidade e Maternidadeabandono paterno · 15 anos de distância · trauma do pai na infância · ausência de afeto paterno · impacto na filha
- Culpa infantil estruturalculpa por abandono parental · culpa por morte parental · culpa por separação · criança se responsabiliza · fantasia de culpa
- Humanização parentalpais como crianças traumatizadas · compreensão de feridas parentais · abandono por falta de modelo · justificação vs humanização · responsabilidade e compaixão
- Diagnóstico psiquiátricoFerenczi - bebê sábio · criança mal acolhida e função de morte · Melanie Klein - culpa e reparação · pulsão de morte · defesas precoces
- Relacionamentos Amorososescolha de parceiros indisponíveis · reenactment de amor inacessível · repetição do familiar · busca do não ser escolhida · transferência familiar
- Validação Emocionalmães que não escutam · falta de reconhecimento emocional · desmentido emocional · presença sem escuta · importância de ser ouvido
- Morte e luto parentalsuicídio materno · impacto do suicídio nos filhos · luto não elaborado · transmissão do trauma de morte · abandono por morte
- Famílias escolhidas e redes de afetofiguras maternas alternativas · redes de apoio · amigos como família · recriação de vínculos · dependência saudável
CBN, Amores Possíveis, com Carol Gilguiã. Oi, Carol, boa tarde, bem-vinda, tudo bem? Boa tarde, Fê, tudo ótimo, boa tarde, ouvintes, como você tá? Tudo bem, eu adoro quando você traz pra cá, pra nossa discussão, a relação entre filmes e os Amores Possíveis, né? E hoje é um filme que eu fiquei assim, meio triste, levou o nosso Oscar, mas, bom, ainda não assisti Amores,
assistir ainda ao Valor Sentimental é a partir desse filme que você vai hoje conversar com a gente sobre que tipo de amor é possível através desse filme. Por onde começamos? Exatamente. Acho que está todo mundo com esse gosto amargo que o Valor Sentimental tirou o nosso Oscar. Mas falando que é um filmão, é bonito. É um filme maravilhoso que atravessa muita gente, que ele traz uma conversa sobre os abismos
nas relações familiares. E como pais traumatizados traumatizam filhos e os ecos desses traumas viram distanciamentos, viram angústias. A gente já falou aqui na coluna sobre traumas transgeracionais e fiquem tranquilos, se vocês não viram o filme, eu não vou dar grandes spoilers. Eu quero partir do filme pra gente discutir o que acontece com a gente e até quero já começar a pergunta
para os ouvintes se vocês têm relações difíceis com pais ou mães de vocês. E por quê? Em que contexto vocês se sentiram desamparados, desassistidos, julgados? Esse filme, ele fala sobre a volta desse pai, que foi um pai que se separou e ficou completamente ausente. E depois de 15 anos, quando a mãe dessas duas protagonistas,
morre, ele volta para a casa delas para uma reaproximação e para fazer um filme sobre aquela casa e sobre elas. A Nora, que é a personagem principal, é atriz. E a Agnes, que é a irmã dela mais nova, é historiadora. Eu acho que é bonito e simbólico pensar que o filme começa com a Nora narrando que a casa tem uma rachadura. E é uma rachadura,
que não é algo que abala a estrutura, mas é a metáfora do psiquismo dessa família. E muitas vezes eu vejo na clínica que as pessoas falam, não, mas eu tive pais presentes, eu sempre pude contar com ajuda financeira, não tive grandes traumas. Só que não é sobre os grandes traumas. Acho que pensar nessa casa rachada é convidar cada um de vocês que está ouvindo
essas rachaduras de afeto, os silenciamentos, talvez um excesso de cobranças, uma falta de toque, mães muito amargas, pais amargos. Eu vejo que todos nós temos essas rachaduras e eu quero que a gente possa olhar com elas com carinho e também poder assistir esse filme como que um convite para fazer uma reparação
relação com os nossos pais. Tem uma frase do Ferenczi, que é esse psicanalista que eu gosto muito, que ele fala, raspe o adulto e encontrará a criança. É muito importante a gente lembrar que os nossos pais são crianças grandes, são crianças melancólicas, são crianças traumatizadas, são crianças que não deram conta de muita coisa. Nada isso justifica os atos deles, mas humaniza.
O filme é um pai que vai embora, mas um menino que foi atravessado pelo suicídio da mãe. A gente entende no filme que quando ele tinha sete anos, a mãe dele tirou a própria vida nessa casa. E aí muitas vezes a gente pensa, nossa, eu que não tive a minha mãe presente, vou ser um pai presente. E esse pai abandona. Não como um movimento egocêntrico, autocentrado, como muitas vezes a gente tende a se colocar.
mas porque ele mesmo não teve a vivência do afeto, do amparo. Ele abandona porque ele foi abandonado. E quando a gente é muito pequeno, a gente acha que tudo é sobre a gente. Tem uma sensação de culpa dessa mãe ter ido embora. Então, a criança fantasia, eu não fui suficiente. Se eu tivesse sido melhor, ela teria ficado.
isso acontecer, isso acontece tanto nesses casos onde os pais tiram a própria vida, como, por exemplo, quando os pais se separam, e às vezes um dos pais se afasta da família. A criança internaliza essa culpa estrutural e vai crescendo com esse vazio, que não sabe nomear, essa culpa sem causa aparente, essa dificuldade de se autorizar a precisar.
anora essa filha com essa mesma dificuldade de se autorizar a precisar. Ela é a filha que teve que dar conta de tudo. Tem um outro conceito do Ferenczi que eu gosto muito, que é o conceito da criança mal acolhida e a sua função de morte. O que ele fala é que quando essa criança não se sente acolhida, e de novo, não é que os pais não estavam lá, mas eram pais que não sustentaram, reconheceram ou protestaram
protegeram a gente psiquicamente. Pais que talvez estivessem deprimidos, sobrecarregados, sofrendo com algum tipo de adição, pais violentos. Quando o ambiente falha, a criança começa a criar defesas precoces. Então é aquela criança que é super boazinha, que se adapta a tudo, que tem uma autonomia compulsória, que controla o afeto e que tem quase que um desinvestimento da vida.
A gente vê na Nora uma melancolia que eu vejo muito na clínica e uma interdição do apeto. Ela se envolve com um homem comprometido. Assim como o pai não está disponível para ela, ela escolhe um homem indisponível, quase como uma forma inconsciente de reviver esse amor inacessível, de reviver o não ser escolhida, de reviver a competição.
ele vai escolhendo o familiar, não o saudável. E aí a gente tem uma mãe que no filme é uma mãe que é psicóloga. E a gente vê ela escutando. A gente vê essas crianças escutando as sessões da mãe e a mãe escuta, todos analisando, mas não escuta as filhas. Quantas vezes a gente não deixou de ser escutada pelas nossas mães, que estavam ali muito tentando dar conta de tudo para sobreviver,
ter dois empregos pra pagar a sua escola, pra fazer a sua comida, pra checar a sua lição. E aí não deram conta de perguntar como você tá se sentindo. Carol, eu tenho aqui várias participações, vou pegar uma aqui muito legal. Claudio, teve uma infância muito difícil com o pai, pois ele é o terceiro filho, e segundo a mãe, eles queriam ter dois filhos, tiveram um casal antes dele. Ele conta que levou surras que os irmãos não levaram, mas a vida passou,
Pararam e quis o destino que ele fosse o filho que cuidaria dela até a morte. Aconteceu agora em 2021. Hoje, a leitura aqui de uma autora citada por você, Carol Tioquia, o fez entender melhor o passado e rever a infância dele. Melanie Klein em Amor. Olha que legal. Culpa e reparação. As feridas resistem, mas soube administrá-las melhor. Conta que não assistiu ao filme ainda que a gente está falando, mas fará o mais rápido possível.
Que tal? Lindo, lindo. E eu vejo nele um comportamento que vem muitos de nós e que vem na Nora, que é um outro conceito do Ferenc, que ele fala que é o bebê sábio. Então é a criança que amadurece cedo demais para tentar salvar o ambiente. É a criança que entende, que cuida. Ele que conta que foi cuidada a mãe agora na vida adulta. Muitas vezes é a criança que cuida do irmão mais novo, porque já está vendo a casa desestruturada.
trocando a infância por responsabilidade emocional. E quanto mais a gente se responsabiliza, quanto mais a gente vira o eixo da estabilidade, mais a gente se sente exausto, com dificuldade de relaxar, com colapsos depressivos, com crise de pânico, crise de ansiedade, porque é como se não tivesse ninguém para nos segurar. E aí quando ele traz,
A leitura da Melanie Klein, e eu indico muito, também quero convidar vocês a lerem Ferenc e lerem o texto do Bebê Sabe, da criança mal acolhida e essa pulsão de morte, e entender o que a gente faz, como é que a gente lida com esses pais, com essas faltas na nossa vida adulta. A primeira coisa é parar de desmentir a criança, porque muitas vezes a gente fala,
porque a minha mãe estava deprimida. Ou eu também nem fui tão abandonada assim, o meu pai e a minha mãe estavam aqui. É sobre o que você sentiu. Então, a gente primeiro precisa poder falar aquilo do eu. No relato do ouvinte, eu apanhava e os meus irmãos não apanhavam. Aquilo do eu fisicamente e psiquicamente em mim. Mesmo que eles tenham feito o que puderam, mesmo que esse terceiro filho gerou,
uma desestrutura financeira. Primeiro a gente tem que poder validar a nossa dor, porque senão a gente continua como adulto desmentindo as nossas dores e aí a gente vai desmentir na hora de pedir um aumento no trabalho, na hora de colocar um limite dentro de um relacionamento amoroso ou de uma amizade. Depois a gente precisa diferenciar a ausência de amor e falha da função. Provavelmente o seu pai e a sua mãe te amaram,
Como eles davam conta ou não davam conta. Amar é diferente de conseguir acolher. Provavelmente teve amor, mas faltou escuta, faltou amparo. Isso não é acusação. É poder separar as coisas e, de novo, nomear a falta. Acho que é muito importante ter um processo de perdão e sair de uma fantasia de reparação retroativa.
que ela me fez, ou eu não vou mais depender de ninguém, não quero você pra nada, porque muitas vezes a gente faz esse movimento que só amplia o ressentimento. E ao invés disso, o convite é a gente construir acolhimentos tardios, acolhimentos, eu falo muito aqui da importância das nossas redes de afeto. E aí o tempo passa, Carol, o tempo passa, você não faz isso, você não consegue nomear essa causa, você não consegue dialogar, aí o tempo passa,
eu vejo várias famílias se perdendo, se desfazendo, porque aí acontece de alguém falecer. E aí você fala assim, ai, se eu soubesse, teria feito isso antes. E você demorou e não falou. Isso é triste. Isso é muito triste e feio. O pior é, muitas vezes, esses pais vão fazer a mesma coisa com os filhos. Por mais que eles tenham sofrido muito com pais ausentes, eles também interditam o próprio sentido.
vínculos que sustentem a nossa presença, que tolerem a dependência possível. A gente tem que poder ser menos só o que cuida e mais o que pede cuidado também. Seja para os seus amigos, seja para o companheiro ou companheira, seja um colo no café durante o trabalho. Eu não estou dando conta. E acho que vale a gente perguntar as histórias dos nossos pais. De novo, não para apagar a responsabilidade
mas para humanizar. O que aconteceu? Como é que foi essa sua infância? Por que coisas você foi atravessado? Eu trago muito aqui, né? Eu perdi minha mãe, eu tinha 5 anos, meu irmão tinha 3, meu pai tinha 35 e se viu viúvo com duas crianças. E aí ele chegava em casa e eu estava chorando vendo o vídeo da minha mãe e ele falava, mas você é muito melancólica, está triste, vai ver coisas que te deixam mais triste. Isso é um desmentido.
Mas humanizar esse pai é olhar que ele vem de uma família de imigrantes que perdeu tudo e teve que sair de um continente para outro. Teve um pai que morreu subitamente e teve uma mulher com quem ele estava há 18 anos, que era o grande amor da vida dele, que morreu ele tinha 35 anos. Também é uma pessoa lidando com o próprio luto.
entender que eles estavam feridos demais para sustentar a nossa presença, liberta tanto a gente de exigir essa reparação, quanto a nossa culpa de que foi algo que eu não vi. Como pode ajudar a gente a fazer com que essa rachadura não suma, mas deixe de comandar, que a gente possa acolher essas crianças e pedir novos colos.
esse acolhimento, essa contenção, para que a gente pare de perpetuar essa sensação de abandono. Então que a gente possa olhar esses pais com mais humanidade, entender que esses tempos de reaproximação deles são os tempos possíveis. Porque muitas vezes vem isso de por que ele não veio falar comigo antes? E a personagem do filme traz isso. Porque talvez ele não deu conta. Será que não é você?
Será que não é você que tem que se aproximar? Ou será que não é você que tem que achar uma outra figura materna, seja num irmão, seja num amigo, que a gente possa recriar esses vínculos familiares com as nossas famílias de origem e também com as nossas famílias escolhidas. É isso, vamos tentar agora cada um olhar para dentro e falar assim, onde é que está minha rachadura? E a partir daí, saber por onde começar. Carol, muitíssimo... E como eu posso conversar sobre ela?
Com a minha família, ao invés de só me fechar. Carol, um beijo, obrigado pela conversa de hoje. Até segunda-feira que vem. Até segunda, um beijo. Depois quero saber sua opinião do filme. Assistirei correndo, estou super ansioso. Obrigado, um beijo. Um beijo. Beijão.