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Como a estabilidade impacta no mercado de trabalho?

12 de março de 202617min
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Michel Alcoforado comenta sobre o futuro do trabalho, o conceito de ‘fricção produtiva’ e a mudança na identidade profissional dos jovens atualmente. Ouça.
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Assuntos11
  • Fricção ProdutivaConflito construtivo vs conflito destrutivo · Pesquisa Tessa Shorchel Harvard · Equilíbrio entre ideias diferentes · Apatia em ambientes sem discordância · Instabilidade excessiva causa ansiedade
  • Estabilidade vs DinheiroPreferência por estabilidade em 86% da amostra · Pesquisa Companhia de Talentos com 73 mil brasileiros · Jovens valorizam ainda mais estabilidade que gerações anteriores · Ambição sem sacrificar previsibilidade · Trade-off bem-estar profissional
  • Skills vs ProfissãoColetânea de habilidades como nova identidade · Oferta flexível de competências · Adaptação contínua de skills · Identidade descentralizada de cargo · Múltiplas habilidades simultâneas
  • Segurança PsicológicaConfiança nas regras e normas · Risco de expor ideias impopulares · Construção coletiva não só por liderança · Clareza sobre limites de discussão · Necessidade de combinado prévio
  • Inteligência ArtificialRisco de desemprego em massa · Substituição de funções humanas · Monitoramento contínuo de skills · Competição com máquinas · Necessidade de adaptação contínua
  • Futuro do TrabalhoDiscussões em SXSW Austin · Possível desemprego em massa · Mudança de relações contratuais · Reconfiguração de identidades · Redelineamento econômico necessário
  • Identidade ProfissionalValor pessoal baseado em produtividade · Mudança de paradigma geracional · Aposentadoria e ciclos de vida · Conceito de bem viver · Desvinculação de profissão como identidade
  • Comportamento JovensValorização de estabilidade acima de tudo · Apatia no trabalho como sintoma · Ansiedade profissional como alternativa · Rejeição ao conflito produtivo · Busca simultânea por ambição e segurança
  • Trabalho como Organizador de VidaRevolução Industrial como marco histórico · Organização de tempo segunda a sexta · Educação como preparação para trabalho · Aposentadoria como ciclo importante · Conceito de bem viver ligado a trabalho
  • Jornalismo e Inteligência ArtificialMalemolência como atributo não-replicável · Ética jornalística como proteção · Combinação de informação entretenimento e surpresa · Dimensão humana irreproduzível · Papel social além da mera informação
  • Educação com IAEscola Alpha em Austin como exemplo · Professor como coach momentâneo · Jornadas individualizadas por IA · Ausência de salas de aula tradicionais · Skill como novo ofício
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Para Onde Vamos, com Michel Alcorforado. Michel, boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, Michel. Bom, Michel, hoje vai falar de algo que está faltando no mercado de trabalho para muita gente, que é estabilidade, que pode ser também um conceito ilusório, não, Michel? É, é. Sobretudo nesse mundo onde todos os anos e todos os dias as coisas parecem mudar

que a gente está fazendo. Tati Fernanda, eu estou aqui em Austin, no Texas, porque começou o SXSW, que é o principal evento de criatividade e inovação do mundo. E todos os anos, os principais criativos americanos e europeus se reúnem aqui para discutir qual vai ser o grande movimento que vai transformar a forma como a gente se relaciona com tecnologia, mas também com o mundo do trabalho. E é interessante, porque eu trouxe essa pauta, porque ela bate,

ela conversa muito com o principal assunto que a gente está discutindo aqui, que é o conceito de fricção produtiva. O conceito é esse mesmo, fricção produtiva. O que é isso? Uma pesquisadora de Harvard chamada Tessa Shorchel, ela mostrou que quando a gente entra no mundo do trabalho e tem aquele modelo de conflito, que é o conflito suficientemente bom para gerar novas ideias, os colaboradores de uma determinada organização acham isso bom.

Mas quando a gente entra num tipo de conflito ou discordância de ideias que gera instabilidade, isso boa parte das vezes causa mais ansiedade do que ganho. Agora, o outro ponto que ela traz também é quando você está trabalhando num lugar que não tem nenhum tipo de discordância, não tem nenhum conflito de ideias, o que bate na porta desse time, dessa equipe, dessa organização é uma percepção de apatia. Todo mundo fica com aquela cara de que trabalha num lugar onde nada muda,

onde tudo é igual todo dia e ninguém tem nenhuma necessidade de propor um novo caminho ou uma nova solução para os dilemas que enfrenta no cotidiano. Por que eu trouxe esse assunto? Sai uma pesquisa interessante agora, feita pela Companhia de Talentos, que eu acho que é uma consultoria que ajuda grandes organizações na contratação e entendimento do que é o mundo do trabalho, com brasileiros tentando entender um pouco da ideia de estabilidade e entender um pouco se salário ou estabilidade é a coisa mais importante.

Então, foi uma pesquisa feita dentro do Brasil, com mais de 73 mil trabalhadores, e mostrou que 86% deles têm valorizado muito mais estabilidade do que dinheiro. Então, se tivesse que fazer uma escolha, ah, o que você prefere? Você prefere ganhar bem e viver atormentado pelo mundo do trabalho? Ou você prefere ter uma vidinha mais ou menos mais calma, com uma noção de previsibilidade no mundo do trabalho? Ou salário? As pessoas preferem muito mais estabilidade do que dinheiro. E esse fenômeno é bem interessante,

porque ajuda a gente a explicar também o que é o comportamento dos mais jovens nesse tema. A pesquisa mostra que quando a gente olha para os mais jovens, estabilidade é ainda mais importante do que dinheiro. Só que isso não afasta eles da ambição de querer melhores cargos ou de querer melhores posições. O que está ali dado é que eles querem encontrar um mundo do trabalho onde essas duas coisas existem. Ou tem a possibilidade de você ter previsibilidade,

O jovem não é bobo, né?

ou elas estão querendo dinheiro. O grande movimento que essa nova geração está aí dentro do mundo do trabalho é a tal da fricção mesmo, é a discordância. Porque você sabe bem, eu e Tati, com esses anos todos de carreira que já temos, que boa parte das melhores coisas que a gente encontra no trabalho, ou das piores também, vem desses impasses que o mundo do trabalho pede. É quando você acha que uma pauta é importante e a Tati não acha,

não acha que esse assunto é interessante. E aí, a gente discutindo, discordando e conversando sobre os dilemas que a gente vai enfrentando, a gente vai conseguindo dar contorno para um programa. Esse tipo de conflito, que é o conflito que gera movimento, que é o conflito que propõe novos caminhos, que é o conflito que, às vezes, abre portas para a inovação, é muito importante dentro do mundo do trabalho, mas as pessoas não querem pagar esse preço. Os jovens, sobretudo. Eles não querem pagar esse preço.

se expor para proporem novas ideias e escutarem feedbacks que não são só feedbacks positivos ou concordância com as suas próprias ideias. Eles não querem ter o esforço de propor para o chefe, com todo o risco que uma nova ideia pode colocar para o negócio ou mesmo para a tua posição dentro da organização. Eles não querem entrarem dentro desse movimento que é bom. E aí, qual é o jogo? O jogo é que eles estão caindo

lugares, né? Ou ficam apáticos diante do trabalho, com aquela sensação que a gente já discutiu aqui outras vezes, que é uma certa percepção que os mais velhos têm em relação aos mais jovens, de um desinteresse em relação ao mundo do trabalho, ou sofrem. Sofrem com ansiedade. Então, o caminho é, olha, como é que a gente constrói no mundo do trabalho uma discordância que seja boa pra todo mundo. E boa pra todo mundo o quê? Com segurança psicológica e com os acordos e normas bem pautados, pra todo mundo,

conseguir lidar com outras opiniões e ter também chance de expor outros caminhos. E aí, a gente sai desse binômio estabilidade versus estabilidade, sai desse binômio concordo, discordo, sai desse binômio tá dando certo, tá dando errado, sai desse binômio é muito novo, é muito igual todo dia, é a mesma coisa. Mas aí precisa ter disposição, né, Michel? Precisa ter disposição, precisa ter disposição, mas precisa ter um outro elemento,

importantíssimo, Tati, que é segurança psicológica, que é um outro assunto que a gente está discutindo abessa aqui. O que é segurança psicológica? O fulano que trabalha contigo ou o fulano que está no teu time, ele tem que entender que quando você coloca uma opinião de forma mal colocada, isso não desabona a tua posição ou isso não compromete a tua reputação. Nada mais é do que, olha, um dia não estava bem, não estava com a melhor ideia ou pelo menos topou o risco de fazer isso.

ambiente de segurança psicológica, onde as pessoas se permitem arriscar ou se permitem entrar em debates para trazer novas ideias, ele não é construído só pela liderança, obviamente o chefe tem um papel importante nisso, mas ele é construído como um time. E aí, quais são os caminhos mais importantes nesse jogo? Primeiro, é confiança nas regras do jogo, né? Precisa estar bem combinado esse acordo. Precisa estar bem combinado que hora a gente pode parar, que hora que a gente pode começar, que hora que a gente pode falar e que tipo de temas são discutíveis ou não.

aspecto que é importantíssimo também aí, que é a relação de confiança que se estabelece no time. A tal da fricção produtiva, ela só é possível quando você consegue entender que dentro desse jogo todo, apesar das discordâncias, a confiança está dada. E todo mundo tem o mesmo objetivo, né? Todo mundo tem o mesmo objetivo. Então, parece fácil a escolha do tipo, ah, está buscando estabilidade ou está buscando dinheiro? Quero um caminho ou quero outro?

Mas o jogo é mais complexo. A gente precisa construir times onde esse processo todo esteja balizado na ideia de que conflito pode levar a boas ideias e que conflito não é briga, que eu acho que no Brasil, às vezes, essa confusão aparece. A discordância aparece sempre que tem alguém querendo te derrubar, alguém querendo brigar com você, o que não é nada disso. E o segundo aspecto importante aí é chamar a atenção para... Discordar faz parte do dia a dia, né? Inovação faz parte do dia a dia.

de entrada para a gente inovar. Concordo. Ô Michel, tem um outro ponto aqui que eu acho legal que você traz, que é o trabalho fora do centro da identidade. Fernando e eu tivemos uma longa conversa ontem fora do ar, a partir de um evento do qual eu fui participar em Brasília, no auditório do Tribunal Superior do Trabalho, sobre o futuro do trabalho. Uma das pautas era um possível desemprego em massa com o uso massivo da inteligência

artificial para daqui a alguns anos e o que é que se vai fazer a partir daí as economias vão ter que ser redesenhadas as relações de trabalho também enfim, mas um dos aspectos é como é que ficam as pessoas numa sociedade em que o valor delas é determinado sobretudo pelo que elas produzem se elas não produzirem mais e não só isso mas a identidade delas muitas vezes também está centrada nessa produtividade

Isso está mudando, né? Mudando por completo, mudando por completo. E aí alguns aspectos rondam esse assunto e eu acho eles são interessantíssimos. Também gosto. O primeiro deles é que a gente não pode deixar de lembrar que desde a Revolução Industrial, o trabalho foi o organizador da vida no mundo, capitalista, ou no mundo ocidental de uma forma geral. E organizador da vida por quê? Porque foi o trabalho que te deu uma relação específica com o tempo.

A gente só sofre domingo de noite, que tem segunda-feira, ou só comemora sexta-feira,

porque vem o sábado, porque tem o trabalho. Se não tivesse o trabalho, a gente não tinha essa organização de tempo. A gente com trabalho também entendeu o curso da vida de uma forma geral. Você entra na escola não só para se formar enquanto cidadão, mas, sobretudo, para virar força de trabalho. Então, quando você tem seu primeiro salário, foi porque a sociedade se organizou para que, em algum momento, você tivesse habilidades que fossem bem desejadas pelo mundo do trabalho, ao ponto de, quando você entrasse numa empresa,

Não por acaso também a aposentadoria, um momento importante na nossa carreira, na nossa vida, porque determina uma nova fase, onde você vai ter mais tempo para fazer outras coisas. E a sociedade, de uma maneira geral, se organiza, de alguma maneira, para você ser bancado e seja retribuído pelo esforço todo que você fez para construir o mundo que a gente vive hoje. Então, o trabalho tem um papel importantíssimo na organização do tempo, da nossa subjetividade,

da nossa ideia de ciclo de vida e na ideia de como a gente pensa, o que é o bem viver também. E aí, quando as inteligências artificiais começam a ameaçar a nossa posição no mundo do trabalho, porque está em jogo, é qual vai ser o valor do trabalho na nossa vida, para além só do pagamento das contas ou da ocupação do teu tempo. Aqui em Austin, ontem, eu fui numa escola totalmente guiada por inteligência artificial. O nome da escola chama Escola Alpha.

Parece um escritório de empresa, engraçado. Você entra, parece que você está entrando num co-working. E um dos aspectos que o diretor mais gostava de reforçar na nossa conversa era de que não existiam salas de aula, porque todos os alunos criam jornadas individuais guiadas por inteligências artificiais. E ele mostrava que a presença do professor não fazia mais sentido, porque eram softwares que apresentavam as lições para os seus alunos

quase de coach, de tentar mostrar pro aluno, olha, diante de alguma dúvida um pouco maior, se você precisasse de um contato humano, eu tava ali pra isso. E a primeira pergunta que eu fiz pra ele era, puxa, então a ideia de professor deixa de ser quase como um ofício e vira só um skill, né? Eu brinco que é quase um para-choque, eu brincava com ele. Um para-choque diante das dificuldades de aprendizado. Ele falou, é. E eu disse, então o professor é o quê? Nesse momento, assim, como é que

Alguém se vê como professor dentro desse jogo, né? Que mudanças vão estar dadas aí? Ele falou, um professor é um coach, né? Que é acionado momentaneamente quando ele precisa. Esse é um outro jogo. Então, num mundo onde eu não tenho mais um contrato claro de trabalho que determina que eu vou vender oito horas por dia da minha vida, de segunda a sexta-feira, por 11 meses.

um mês pra eu ficar em casa de férias descansando pra eu poder voltar pro mundo do trabalho o mundo onde a gente é acionado pelas skills que tem, que é isso que essa escola trata ela te forma em novas skills é um mundo onde a gente não tem mais uma profissão como determinadora da tua identidade mas você tem um conjunto de skills que você treina elas melhora elas, desenvolve elas e você oferece pro mercado então são as skills que a gente coleciona que formam

gente e não uma profissão que determina quem a gente é, que mostra um novo jogo, né? Então, eu tenho observado aqui, como boa parte das discussões, que esse mundo novo do trabalho que se abre é um mundo onde a gente desenvolve skills, oferece elas ao mercado e fica atento até que ponto as inteligências artificiais e as máquinas vão ser capazes de copiar as nossas habilidades. Sim. E na medida que elas copiam, a gente busca outras, né? Então, eu, vocês aqui,

desenvolvemos alguma habilidade de comunicação, a gente tem que ficar atento. Porque se o chat GPT e as outras inteligências começarem a falar tão bem quanto a gente, ou a explicar coisas tão bem quanto a gente, talvez a gente tenha que procurar outra coisa para fazer. Então, eu e vocês, não estamos aqui pela faculdade que fizemos ou pela profissão que temos, mas por um conjunto de habilidades que fomos capazes de desenvolver de uma forma que os outros que estão aí disponíveis no mercado de trabalho não tiveram. E isso vai determinar um outro eu para a gente.

contei lá no evento que eu e Fernanda, de vez em quando, em conversa com você, a gente brinca. Quer colocar um robô aqui para apresentar o Estúdio CBN? É bom, vai funcionar. Nunca, jamais, com a nossa malemolência. Depois de conversar um pouco com a inteligência artificial, que eu uso bastante de vez em quando, eu comecei a entender que o robô pode aprender malemolência. Então, quer dizer, o que nos resta é a ética jornalística mesmo, que robôs jamais aprenderão.

Então, mas aí que está o ponto que eu acho que é mais interessante. E que legal que a gente está discutindo isso tudo aqui. Porque se a gente parte do pressuposto que o Estúdio CBN é só informar, dizer qual é o tema do momento, talvez as máquinas consigam fazer isso em algum momento. Se a gente parte do pressuposto que o Estúdio CBN tem um papel também de ser um entretenimento, talvez as máquinas em algum momento consigam fazer isso.

todos os outros colunistas e Jana, e todo mundo que está aqui envolvido nesse projeto, a gente faz tudo isso ao mesmo tempo, né? A gente informa, a gente faz pensar, a gente diverte, a gente traz uma dimensão de surpresa para o contato com os ouvintes. E fazer tudo isso ao mesmo tempo, as máquinas não serão capazes de fazer. Então... Vai sair mais caro. Então, acho que para a gente ainda tem um pouquinho de trabalho ainda. Vamos ver até quando, mas ainda tem alguma coisa ainda para fazer.

Michel Comforado está conosco toda terça e quinta em Pra Onde Vamos. Valeu, Michel. Por enquanto. Por enquanto. Em breve novidades. Beijo, beijo. Até terça. Beijo. Tchau, tchau.

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