'Passear o cachorro' ou 'passear com o cachorro'?
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- Passear o cachorro vs passear com o cachorroDiferenças de sentido entre as duas formas · Passear o cachorro: levar o animal para passear · Passear com o cachorro: passear juntos · Exemplos em dicionários · Uso transitivo versus intransitivo do verbo · Construção verbal em português
- Língua PortuguesaPresente do indicativo: passeio, passeias, passeia, passeamos · Presente do subjuntivo: passeie, passeies, passeie · Diferença entre fala e grafia · Regra para verbos como recear, cear, pentear · Dificuldades de pronúncia
- Literatura e referências históricasMachado de Assis em Brás Cubas · Canção Enquanto Seu Lobo Não Vem de Caetano Veloso · Movimento Tropicália (1968) · Estados Unidos do Brasil como nome oficial até 1967 · Verbo passear em contexto musical e literário
- Construções gramaticais similaresVerbo brincar: brincar o boi · Brincar o carnaval · Construções regionais específicas · Paralelo com passear o cachorro · Uso em contextos folclóricos
- Comparação entre idiomasInglês: walk the dog · Construção sem preposição em outros idiomas · Semelhanças entre português e inglês
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Professor, boa tarde. Tati, querida, boa tarde. Fernando, querido, boa tarde. Boa tarde. Ouvintes, queridos, boa tarde. Hoje, dúvida de Márcia Sobral, ela escreve de Goiânia. Ela conta que outro dia, professor, o filho de 13 anos, disse que ia passear com o cachorro. Imediatamente, ela fez uma intervenção dizendo que era passear com o cachorro. Ele, então, me disse que... Pera aí, pera aí. Pera um pouco só. Volte e acho que você...
cruzou as coisas. É. O meu filho de treze anos me disse que ia passear o cachorro. Ah, exatamente. Então, tá bom, vou começar tudo de novo, porque realmente, vamos lá. Olha só que uma figura de treze anos fez comigo. O cara que entendeu a hora que falou em voz alta, presta atenção. Vamos lá, o filho de treze anos dela disse, mãe, eu vou passear o cachorro. Ah, ela olhou e falou assim, filho, você vai passear com o cachorro.
Então, me disse que ninguém fala assim, que todos que ele conhece falam o, e não com o. Quem é que vai passear? É o cachorro. Tá correto, professor. Ainda ela pergunta se é uma inovação dessa geração ou essa construção é possível desde sempre. A pergunta é excelente. E se a gente pegar no dicionário Wise, que eu não sei se está aberto aí, querido Fernando.
aqui. Se não, isso. Então, você abra e você já põe lá passear. Tô aqui. E você vai ter, você vê que ele põe entre parênteses século quinze, não é? Sim. E o primeiro sentido que ele dá, você vai ler pra mim, por favor, o número um. Ir ou conduzir alguém ou um animal a algum lugar com o fito de, aí tem entre parênteses C, entre
ou exercitar, percorrer em passeio. E aí tem aqui o exemplo. Passeava os cachorros todas as noites. Sempre passeavam juntos. Que beleza. Passeava os cachorros. Claro. Claro que passear com os cachorros é perfeitamente possível. Há uma mudançazinha de sentido, né? Se eu digo que eu vou passear com o cachorro, vamos juntos. Eu e o cachorro vamos passear.
Passear o cachorro, parece que a intenção é dizer que eu vou levar o cachorro para passear. Ele, cachorro, vai passear. E esse uso de passear desse jeito que pareceu estranho à nossa ouvinte, parece mesmo estranho porque não é sempre que se usa, não é sempre que a gente ouve. Se você pegar um dicionário de regência do Francisco Fernandes,
obra de referência, né? No verbo passear, logo de cara, ele dá como exemplo conduzir em passeio. Aí vem passear as crianças, passear o cavalo, né? E mais pra frente ele vai dando exemplos literários e um deles é de Machado de Assis, da obra Brás Cubas. Ele diz, e passeava eternamente as suas
vestes de arlequim em derredor da espécie humana, né? Passeava as suas vestes, né? Saía pra andar, pra exibi-las, não é? E por aí vai. O uso mais frequente de passear é o que a gente vai ouvir numa canção antológica da época da Tropicália, do começo da Tropicália, está justamente no disco Tropicália,
de mil novecentos e sessenta e oito, um disco antológico definitivo na cultura brasileira, um arranjo magnífico do Rogério Duprá, a canção se chama Enquanto Seu Lobo Não Vem, composta por Caetano Veloso, cantada por ele, vamos ver aí o verbo passear repetido a exaustão, vamos ouvir.
E esse passear, professor? Esse passear é um verbo intransitivo, né? Vamos passear na floresta escondida, meu amor. Vamos passear na avenida.
Essa música foi feita em plena ditadura e há aí uma série, esse coro que fica no fundo fica dizendo os clarins da banda militar. Há uma hora em que ele diz, a gente cortou antes, mas vem uma hora que ele diz vamos passear nos Estados Unidos do Brasil e eu não sei se todo mundo sabe que o nome oficial do Brasil até 1967 era esse, Estados Unidos do Brasil. A mudança se deu em 67.
mas entrou de verdade em vigor em 68. Vamos passear escondidos. Olha só. O meu primeiro passaporte, que é da década de 50, e eu guardo até hoje, está lá, Estados Unidos do Brasil. E o Caetano usa o verbo passear aí com todos esses sentidos, o sentido concreto de passear, mas também aquele sentido um pouco figurado, de dar uma olhada,
dá uma espiada, né? E por aí vai. Eu lembro que esse verbo passear termina em e-ar, né? E-ar. E a conjugação dele é igual à conjugação de todos os verbos que terminam em e-ar. Cuidado na grafia, né? No presente do indicativo eu passeio, com i tu passeias, com i ele passeia, com i nós
passeamos sem o i, vós passeais sem o i e eles passeiam com o i. A mesma coisa acontece no presente do subjuntivo. Ela quer que eu passeie, que tu passeies, que ele passeie, que nós passeemos, que vós passeies e que eles passeiem. Em todos os outros tempos, não vai haver esse i depois do é.
Então, eu passeava, eu passeei, eu passearei, eu passearia-se, eu passeasse. E por aí vai. Embora na fala, na oralidade, seja muito comum a gente botar um i na emissão. A gente ouve e diz com muita frequência. Nós passeamos hoje, parece que há um i lá.
E, em suma, mas essa observação que eu fiz vale para a grafia de todas as flexões dos verbos terminados em ear, recear, cear, pentear, patentear e por aí vai. Então, ela quer que eu ceie lá do verbo cear, mas eu não sei se cearei. Cearei. É meio difícil de dizer.
Dá uma vontade de dizer se iarei, né? Mas sem esse i, pelo menos, na grafia. Então, vocês costumam... Fernando, você tem cachorro em casa? Eu não lembro se você... Tem um gato. Que não sai de casa. Tem um gato. O gato não vai pra rua, né? A gente não leva gato pra passear. Pelo menos é o que eu sei. Nos meus parcos conhecimentos de gato. Gato, em geral, não gosta de sair de casa, né?
Tem sempre os passeantes que voltam e tal, mas em geral, territorialistas dizem. Então, se você tivesse gato, se o seu gato gostasse de rua, Fernando, você passearia o seu gato. Ou passearia com ele. Se você passeasse com ele, os dois dariam um rolê. Mas para passear o gato, você está saindo especificamente para levar o gato,
uma bandola. Professor, tem aqui uma dúvida da Débora Costa, nossa querida companheira em BH. A nossa Débora Costa? A nossa, a nossa. Coisa nossa, a Débora Costa. Ela diz assim, tem uma toada do boi caprichoso de 2023 que se chama Pode Avisar que tem essa frase para brincar o boi. E ela pergunta, é a mesma lógica que o professor está abordando? Parece que sim. Essa é outra construção
que certamente tem um uso local, um uso específico e tal, mas faz sentido. Eu estou até vendo aqui se há registro disso. Brincar o carnaval e tal. Brinquei a minha mocidade. Isso, de certa forma, faz...
Faz sentido como conexo, né? Sim. Brincar o bui. Mas eu não conhecia. A Jana, na sua ouvinte, está dizendo que em inglês se diz walk the dog, também sem a preposição. E ela falou, quando eu ouvi pela primeira vez, eu estranhei. E o U ou a Keuri Guerra está dizendo, parem de falar passear no rádio que o Pitoco aqui de casa ouve e quer sair e está chovendo. Pitoco.
Toco não vai passear hoje, não. Genial. Genial isso. Genial. Professor, eu achei aqui, brincar no Einstein, brincar o carnaval como exemplo. Participar nos folguês dos carnavalescos. Brincar o carnaval tem. E brincar o boi, né? O que ela disse? Brincar o boi? Não. Brincar o boi, é. Pode ser esse boi, não sei se é o boi, o boi bicho mesmo, ou o boi... Como é que chama?
O boi, como é que chama o grupo lá? Do Buma Meu Boi? Boi, não é boi protegido, como é que é? Caprichoso e garantido. Isso, caprichoso e tal. Pode ser isso, né? Brincar. Não, é isso, é totalmente isso. É o que a Débora tá dizendo. Faz todo o sentido do mundo. Ah, legal. Ótimo. É isso. Tá bom. É bem essa de brincar o carnaval. Tá bom. Como na mesma lógica de brincar o carnaval. É isso. Tá bom. Obrigada, professor.
Um beijo e até amanhã. Até amanhã. Amanhã o boletim vai ser gravado, a gente se fala ao vivo na segunda, tá bom? Um beijo pra vocês. Um beijo.
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