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O luxo de desacelerar o tempo: quem pode pagar para envelhecer melhor?

10 de março de 202615min
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A indústria da longevidade cresce ao redor do mundo oferecendo diagnósticos sofisticados, terapias personalizadas e protocolos que prometem retardar o envelhecimento biológico. Sessões que custam até 1.300 dólares, programas anuais de milhares de dólares e experiências em hotéis de luxo fazem parte de um mercado que se expande rapidamente. Enquanto isso, no Brasil, o envelhecimento populacional avança em ritmo acelerado, mas ainda marcado por desigualdades profundas. Entre a promessa de “resetar” a idade biológica e a realidade de quem envelhece sem acesso a cuidados básicos, a pergunta sobre quem pode viver mais (e melhor) ganha contornos sociais e políticos.
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Assuntos12
  • Igualdade SocialDiferença de vida entre bairros ricos e pobres · Alto de Pinheiros vs Tiradentes · 20 anos de diferença em São Paulo · Privilégio e acesso à saúde · Condições socioeconômicas e mortalidade
  • Tempo como ativo econômico e de saúdePrivilégio de desacelerar · Tempo para cuidados de saúde · Gestão do tempo de vida · Diferença de tempo para trabalho vs cuidados · Impacto do tempo no envelhecimento
  • Mudança de paradigma e pensamentoEstágios tradicionais de vida · Ruptura com modelos antigos · Comportamentos esperados por idade · Novo modelo de vida ativa contínua · Desigualdade ampliada por longevidade
  • Mudancas ClimaticasReforma previdenciária · Taxa de natalidade declinante · Pirâmide demográfica invertida · Sustentabilidade do sistema · Debate público insuficiente
  • Tecnologia EmpresarialTerapias personalizadas caras · Diagnósticos sofisticados · Protocolos anti-envelhecimento · Custos de programas de longevidade · Sessões de até 1.300 dólares
  • Autonomia FinanceiraAutonomia como função de renda · Dependência económica · Capacidade de autossustento · Relações de compra-venda · Planificação financeira
  • Qualidade de VidaAutonomia funcional · Capacidade de fazer atividades básicas · Força muscular e mobilidade · Bem-estar na velhice · Investimento preventivo
  • Infraestrutura e Mobilidade UrbanaPeriferias e longas distâncias · Impacto do deslocamento na saúde · Cidades grandes brasileiras · Privilégio de morar perto do trabalho · São Paulo como exemplo
  • Política e GovernoUniversidades da terceira idade · Programas desde anos 1990 · Associações comunitárias · Papel das igrejas · Ações coletivas de saúde
  • Envelhecimento Populacional32 milhões de idosos · 16% da população acima de 60 anos · Envelhecimento acelerado · Crescimento demográfico de idosos · Impacto populacional
  • Mecanismos de ação e funcionamentoVenda de imóveis em vida · Viager · Endividamento de idosos · Mercado financeiro paralelo · Classe média desamparada
  • Aumento de longevidadeEnvelhecimento populacional mundial · Impactos econômicos · Livro de George Félix · Debates multidisciplinares · Fenômeno global
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Pra onde vamos? Com Michel Alcoforado. Oi Michel, boa tarde. Boa tarde Tati, boa tarde Fernando. Boa tarde Michel. A gente tem falado muito sobre envelhecer bem e o que significa envelhecer bem, né? Envelhecer com qualidade de vida, acho que sobretudo é isso, qualidade de vida, o que compõe uma qualidade de vida, né? Dinheiro, tempo, conforto, amigos,

sociais, isso é muito importante. Tirando amigos, quer dizer, talvez, mas tirando amigos, todo o resto é pago. É porque o Fernando, você não leva ele pra tomar uma cerveja, ele rompe com você, sabe, Michel? Diariamente. É uma manutenção cara essa amizade aqui, viu? Mas brincadeiras à parte, é isso mesmo. Tirando amigos, o resto é pago. E quando a gente fala sobre pagar, a gente tá

selecionando uma parte da sociedade brasileira que tem condição de envelhecer bem, certo? Gente, isso, Tati e Fernando. O ponto é que, mais do que nunca, a gente vem se dando conta de que tempo é dinheiro. Não só na gestão das nossas decisões diárias, se você decide encontrar com fulano e quanto você vai pagar, se você vai ao cinema, se você vai ficar em casa para economizar, ou quanto te pagam pela sua hora de trabalho. Mas quando a gente pensa no próprio curso da vida,

vamos durar cada vez mais por aqui, e isso vai cobrar com que você gerencie suas contas de uma forma muito diferente da maneira como seus pais e seus avós fizeram, ganha uma importância enorme nos nossos tempos. Por que eu trouxe essa pauta aqui hoje? Primeiro é que cada vez mais tem disseminado aí nas redes sociais e no debate público a ideia de que o novo luxo é tempo. Gente com possibilidade de não fazer nada ou decidir o que vai fazer,

facilmente classificado como aqueles que compõem as elites brasileiras, ou uma certa elite econômica brasileira. Só que esse assunto não está só na gestão cotidiana, não. Está também na maneira como a gente pensa o envelhecimento. No final de 2025, o Mapa das Desigualdades, que é um relatório que eu acompanho sempre com muito carinho, trouxe um dado que se repete ano a ano, que é a expectativa de vida em bairros de São Paulo. Então, um dos maiores IDHs na cidade de São Paulo, reconhecido como um bairro chique, nobre, que é o Alto de Pinheiro,

um adulto, um idoso, vai ter uma expectativa de vida em torno de 82 anos. E quando a gente olha para um outro bairro da periferia, muito pobre, a expectativa de cidade Tiradentes é em torno de 62 anos. Então, alguém que tem mais dinheiro em São Paulo tem 20 anos a mais de vida, em média, do que alguém que tem menos dinheiro. E aí, isso está atrelado, obviamente, às condições de saúde, trabalho e de construção mesmo

relacionada com privilégios, que na hora da morte também vai se mostrar como um privilégio importante, mas também na maneira como essas pessoas pensam a longevidade e pensam o tempo. Isso tem movimentado um mercado. O Brasil hoje é um país com mais de 32 milhões de idosos, quase 16% da população brasileira tem mais de 60 anos, e isso cobra dessas pessoas um investimento pesado em como é que elas querem envelhecer ou como é que elas vão envelhecer.

processo de envelhecimento. E isso tem movimentado o mercado de uma forma geral, porque a gente está falando aqui de não só pensar essa casa para o processo de envelhecimento, pensar um conjunto de novas terapias e cuidados que vão ser necessários para essas pessoas nesse momento, mas também pensar como é que você quer envelhecer. Então, não importa se você tem 20, 30, 40 anos, já está todo mundo indo para a academia levantar pezinho, não só preocupado em como é que vai ficar bem ou mal na foto, na roupa, mas como aquele pezinho que você está

levantando vai permitir que com 70, 80, 90 anos você tenha a possibilidade de levantar a sua mala dentro do avião ou fazer as coisas básicas da casa que você vai ter um acúmulo de músculos que vão te permitir isso. Isso tem um custo enorme, a gente não pode esquecer disso. Tem um custo enorme que abre possibilidades de alguns investirem nisso e outros não. Um dos elementos importantes que fez a gente cair nesse lugar está muito ligado ao esfaceleamento da ideia do ciclo de vida ou do curso da vida tal qual a gente pensava antes.

No passado, a gente gostava de imaginar que a vida era separada em estágios. Cada momento te cobrava um determinado comportamento que, apesar das dificuldades ou das diferenças sociais, esperava-se mais ou menos a mesma coisa dos mais velhos. Quando você olhava, por exemplo, para alguém que era velho na periferia ou para alguém que era velho num bairro nobre, a reclusão, o cuidado com os netos, mais tempo dentro de casa,

grupos. Agora, quando a gente acha que não tem mais essa coisa de ter um tipo de comportamento específico para uma idade específica, a gente começa a aumentar esse plano de desigualdade. Porque para você continuar ativo com mais anos, você precisa investir pesado nesse negócio. Então, o resumo dessa conversa hoje é mostrar que o fato da gente aumentar a longevidade tem trazido uma outra camada para o ciclo de desigualdade que

já traz, né? Num país como o Brasil, outras tantas, né? Então, o desafio aqui é pensar como é que a gente diminui isso também. Coletivamente, né? Porque tá caro, né? Coletivamente, não? Coletivamente, obviamente. Obviamente, coletivamente. Não tem outro caminho, né? Não tem outro caminho. E aí, política pública é fundamental nesse jogo, porque as saídas que a gente tem visto hoje, pra além,

de forma muito clara, não podemos deixar de lado, de levar em consideração o trabalho das universidades da terceira idade, que desde os anos 90 vem assumindo um espaço importantíssimo no debate público, sobretudo dentro das universidades, permitindo que pessoas com mais idade voltassem à universidade, não para fazer o curso normal universitário, mas para desenvolver trabalhos, colaboração, encontro com os outros, ou hobbies e lazer,

e coisas que lhe davam motivação para estar na vida ainda. Então, um trabalho importantíssimo. O trabalho importante também das associações comunitárias permitindo ações, exercício físico, encontro coletivo, essas coisas todas. O trabalho das igrejas também, não importa a vertente religiosa. A igreja católica organizou durante muito tempo, mas as igrejas evangélicas também, ao seu modo, fazem essa organização da percepção

de uma vida ativa, apesar da idade que você tem, são um contraponto dentro de qualquer saída individual. Porque a saída individual é caríssima, né? É importante marcar isso. Sai uma matéria interessantíssima na BBC essa semana mostrando que pessoas para se planejar para o envelhecimento, mesmo depois na fase já mais longeva da vida, gastando 3 mil dólares para saber como é que esse corpo funciona, como é que ele consegue funcionar do melhor jeito daqui para frente.

O cenário brasileiro deve ter coisa parecida também. Então, enquanto a gente olhar para isso como um elemento individual, o custo e o peso de ficar velho vai ser maior. Se a gente pensar isso como política coletiva, isso abre mais chances. Da gente pensar um modelo de sociedade, não só que aceite outros modelos de envelhecimento, mas que também proporcione que pessoas no fim da vida ou nessa fase mais longeva tenham a possibilidade de continuar, dando conta de fazer aquilo que precisa fazer.

eu acho que com menos recorrência do que a realidade impõe. Porque a gente tem uma população que está envelhecendo, esse é um dilema posto, e obviamente isso para os economistas, eles devem estar me ouvindo agora falando, como assim a gente não está discutindo? Os economistas eu espero que sim, mas eu quero dizer, é um debate social ainda muito inicial, porque a gente está envelhecendo muito rápido, a taxa de natalidade está caindo, a pirâmide está se invertendo, você vai ter menos gente

sustentar mais gente nesse país, socialmente falando, com o pagamento de seus impostos e a reversão desses impostos em benefício previdenciário. E a gente tem discutido, eu acho isso, com menos urgência do que o tema exige, não, Michel? Com certeza. Um autor que eu gosto muito para esse assunto é o Jorge Félix, que é jornalista, comentarista da TV Globo, e ele tem um livrinho que eu adoro que se chama Economia da Longevidade e Envelhecimento Populacional, muito além da Previdência.

como esse envelhecimento populacional, que é um fenômeno mundial e traz ali debates importantes para várias disciplinas, não tem como ser feito sem a gente pensar sobre economia também, sobre dinheiro. Eu estive com ele ano passado em Paris, que ele estava fazendo uma pesquisa interessantíssima no seu pós-doutorado, e ele me contava de um mecanismo que tem na sociedade francesa que está sendo cada vez mais usado diante do aumento da longevidade dos franceses,

e do empobrecimento dos mais velhos, que é um mecanismo de... Tem um nome específico que agora não vou lembrar, mas é a venda de um imóvel, a venda do seu imóvel ainda em vida. Então, o que os velhinhos franceses fazem? Eles vão à imobiliária, oferecem o apartamento que eles estão morando, com preço muito abaixo do mercado, eles recebem aquele dinheiro do comprador naquele momento, mas o comprador só pode, obviamente, receber esse apartamento depois da morte desse velhinho.

na França, gigantesca, ao ponto de os velhinhos estarem entrando em dívidas nesses acordos por qualquer dinheiro. O mercado financeiro se organiza para saber se até que ponto vale a pena investir num imóvel, sei lá, de alguém com 70 anos, que é diferente de alguém de 80, que é diferente de alguém de 90, dado a expectativa de vida. E isso é a última saída de uma classe média que não estava preparada

tanto, mas também não teve condições de pensar que custo era esse que era ter a idade que tem. Então, não dá para pensar em envelhecimento sem pensar em dinheiro, porque a gente num mundo marcado por relações de compra e venda, autonomia e dependência estão também diretamente conectados ao dinheiro que você tem ou a capacidade que você teve de se planejar financeiramente para isso. Então, o debate da Previdência precisa ser mais complexo do que a forma como os economistas estão fazendo hoje, que é só a planilha de Excel do governo.

É justo, um debate importante, é verdadeiro e necessário, porque se a gente não pensar sobre isso, não vai dar para pagar a aposentadoria de ninguém. Mas o debate é muito mais complexo do que parece. Interdisciplinar mesmo. Ô, Michel, só uma questão ainda com relação ao tempo, que você falou bastante, e um contraponto. A gente já falou aqui sobre um grupo, sobre pessoas, que todo mundo tem um amigo que é assim, que nunca tem tempo para nada, tem sempre uma reunião, acorda mais cedo, dorme mais tarde, e está cheio de compromisso.

É mais importante quando tem muito mais compromisso. E aí você traz agora essa questão do tempo como um ativo financeiro. Como cada um pensa na saúde nesses dois grupos? Quem vai primeiro? Tempo é um ativo financeiro sempre. Até tempo para se cuidar, né, Fernando? Toda vez que eu falo para pesquisadores europeus ou americanos que uma pessoa que mora na periferia

de São Paulo, no extremo leste ou no extremo sul, pode demorar três horas para chegar no trabalho, mais três horas para voltar para casa. Só para conseguir sentar no posto de trabalho, passar o crachá, isso obviamente impede tempo para pensar em alimentação, tempo para pensar em exercício físico, tempo para pensar como é que se cuida, tempo para fazer exame, tempo para ir no médico, tempo para ter tempo com a família, com os amigos.

Isso obviamente complica e complexifica muito a gestão da própria vida e impacta em longevidade.

O privilégio está nesse ponto, né? Morar perto do trabalho numa cidade como São Paulo ou qualquer outra grande cidade brasileira permite que as pessoas tenham tempo para poder gerenciar a própria vida, para poder comer melhor, para poder dormir melhor, para poder chegar no trabalho mais disposto, para poder pensar em saúde mental e essas questões todas. Os mais pobres no Brasil não têm essa possibilidade, né? Alguma. E isso é um problema.

Eu tô aqui, você tá falando, eu tô te ouvindo, tô lembrando de coisas que eu ouvi, conversando com o Fernando, a gente tá aqui desenhando o apocalipse. Michel conversa com a gente de terça e quinta, por enquanto, pra onde vamos? Trazendo caminhos de resposta pra essa pergunta. Não, o Michel não vai vir menos. Por isso que eu tô falando por enquanto. Ele vai vir mais. Ele vai vir mais.

Aguarde, é o famoso, vem aí. Michel Ocoforado, obrigada por hoje, um beijo pra você, até quinta-feira. Michel Ocoforado, por enquanto, qualquer coisa sempre muda o nome do quadro. Tchau, Michel. Beijo, tchau, tchau.

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