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AI slop e o cansaço digital: quando a abundância de conteúdo começa a corroer a confiança

05 de março de 202610min
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A inteligência artificial está mudando radicalmente o que vemos nas redes sociais. Imagens falsas, vídeos absurdos e histórias emocionalmente manipuladoras circulam em escala inédita, gerando bilhões de visualizações, mas também um crescente cansaço digital. O chamado AI slop já provoca reações de rejeição, ironia e desconfiança, levantando um debate urgente sobre confiança, atenção e responsabilidade das plataformas.

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Assuntos8
  • Crescimento de capacidades de IADefinição de AI slop como preenchimento de espaços vazios · Facilidade de produção de conteúdo com IA · 20% do conteúdo em redes sociais gerado por IA · Conteúdo formatado de forma pobre e manipuladora · Vídeos curtos (8-8 segundos) com plot twists · Reprodução de clichês e padrões comuns
  • Gêmeos Digitais e Entretenimento DigitalAcúmulo de informações · Falta de surpresa no conteúdo · Rejeição e desconfiança crescente · Sensação de repetição infinita · Indiferença frente ao mesmo conteúdo
  • Acesso a Informação e Pensamento CríticoImpossibilidade de pensamento reflexivo · Reforço de padrões sem inovação · Privilégio humano da metacognição · Fragilidade da Civilização · Consumo passivo vs pensamento ativo
  • Desaparecimento da Autenticidade e HumanidadePerda de elementos humanizadores · Sucesso irreal e sem sofrimento nas redes · Ausência de vulnerabilidade e dor · Moralismo artificial e sem autenticidade · Referência ao heterônimo Álvaro de Campos de Fernando Pessoa
  • Explosões e acidentes com motoresEvolução desde a prensa (século XV) · Período de 500 anos para dobrar conhecimento · Aceleração com computação · Dobra de produção a cada 8 horas (até 2020) · Intensificação com IA e redes sociais
  • Cultura e SociedadePapel da transmissão de conteúdo na formação humana · Influência do que lemos e vemos · Estagnação quando desinteresse ocorre · Reprodução de padrões limitados · Impedimento da capacidade reflexiva
  • Mecanismos de ação e funcionamentoAlgoritmos de feed e seções 'Explorar' · Dados de medição em plataformas (Instagram, YouTube, LinkedIn) · Captura de atenção através de viradas narrativas · Sequenciamento de vídeos curtos · Incerteza sobre origem e autoria do conteúdo
  • Crise InstitucionalIncerteza sobre origem do conteúdo · Desconfiança crescente · Dificuldade em diferenciar real de gerado · Sofismo e desinformação · Período de guerra informacional
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Para Onde Vamos, com Michel Alcoforado. Michel Alcoforado, boa tarde. Oi, Michel. Em esse minuto. Oi, Michel, tudo bem? Oi, Michel, você está no ar na CBN para todo o Brasil, quiçá para todo o planeta, quiçá para outros planetas. Sim, boa tarde, Tati, boa tarde, Fernando. Boa tarde. Bom, Michel hoje vai refletir, vai nos levar também a refletir sobre a abundância de conteúdo,

um prato de comida feia que seu amigo comeu ontem e está lá se gabando, mas é bombardeado com o perdão do trocadilho infame para quem está em período de guerra, com informação, às vezes informação, às vezes boato, às vezes informação fraudulenta. E vamos refletir, então, sobre o nosso cansaço digital, quando muito conteúdo começa a nos deixar desconfiados.

interessante, que pra mim pode ser resumido numa seguinte frase. Tá ruim, mas vai piorar. E vai piorar muito. Ah não, não dá essa notícia assim pra gente. Saiu uma matéria recente com vários especialistas falando sobre esse fenômeno de um cansaço de uma produção excessiva em relação a conteúdo e algo que tá sendo intensificado ainda mais com a onipresença das inteligências artificiais. E tem uma palavrinha pra esse fenômeno em inglês, mas que a gente facilmente é capaz de entender aqui. Se chama

slot. Slot, pra gente traduzir, seria o buraco, o encaixe, que você pode usar, por exemplo, pra sua agenda. Você tem aquela vida cheia de compromissos e aí alguém pergunta, dá pra tomar um café? Aí você fala, deixa eu ver se tem um slot. Que é esse buraquinho na agenda que você abre pra enfiar alguma coisa a mais. O que tá acontecendo é que na produção de conteúdo não tem mais esse espaço pra respiro. A gente, diante da facilidade com que podemos produzir, textos, imagens,

vídeos ou qualquer coisa, todo mundo, cada um de nós, pode aproveitar para aumentar a produção de conteúdo disponível nas redes sociais. E essa fuga, ou essa sanha, essa vontade de tentar arrumar todo mundo produzindo muito conteúdo, muito conteúdo, acaba gerando um tipo de conteúdo que entra no encaixe. Então, todo buraco de rede social, todo vazio, é ocupado por esse novo jeito de falar sobre si mesmo e de falar sobre o mundo.

E aí tem uma pesquisa super interessante mostrando que, acredita-se, segundo esse dado, que 20% do conteúdo disponível hoje nas redes sociais já foi produzido por uma inteligência artificial. Como é que eles fizeram esse cálculo? Olharam lá aquelas ofertas de conteúdo que o Instagram, o YouTube, o LinkedIn, todas essas plataformas oferecem para você. Que é aquele famoso explorar, sabe? Você entra lá e ele diz, olha, dá uma olhadinha nisso aqui.

E dos 500 primeiros vídeos ofertados para boa parte dos usuários, em média de 100 a 105 eram produzidos por inteligência artificial. E qual é o dilema? O dilema é que esse tipo de conteúdo que está sendo produzido por essas inteligências são conteúdos formatados de um jeito ainda muito pobre. Vídeo que só está ali preocupado em capturar a tua atenção, né?

um plot twist que vai te manter preso ali numa sequência de vídeos desse modo? Ou é um conteúdo cheio de travessão que só reproduz aquilo que já foi falado e que todo mundo já sabe, com uma linguagem soça e baseado num monte de clichês que são comuns dentro das plataformas digitais? E isso tem gerado um grande cansaço. E o cansaço vem de onde? O cansaço vem do acúmulo de informações, mas o cansaço vem também da falta de surpresa.

presa no conteúdo que a gente está consumindo. Vamos chegar no primeiro ponto. O primeiro ponto é o acúmulo de informações. Olha que interessante. Quando a gente inventou a prensa ali pelo século XV, ou seja, as pessoas para compartilharem aquilo que estava na cabeça delas, elas não precisavam pegar uma caneta e um papel e preencher ali páginas em branco para escrever alguma coisa, mas tinha um modo mecânico de reprodução de conhecimento. A gente demorou 500 anos para dobrar a quantidade de conhecimento.

disponível no mundo. Então precisou de 1.400 a 1.900 para a quantidade de dado e conhecimento disponível no mundo dobrasse. E com a invenção da computação, mas sobretudo com a possibilidade de você ter um microcomputador dentro do seu bolso, que é o que o celular é, a gente hoje dobra, até 2020, a gente dobrava a produção de conhecimento e dados no mundo a cada oito horas. Agora com rede social e com inteligência

isso foi levado à enésima potência. Então é dado pra caramba, ninguém sabe o que está lendo, de onde está lendo, como está lendo. Então isso gera um sofrimento enorme. Mas há um segundo aspecto interessante aí. Como essas inteligências artificiais se valem de um conteúdo já disponível para produzir mais conteúdo, a sensação que dá na gente é de que a gente já viu esse filme. Com todo respeito aqui à programação da televisão, é quase como se fosse aquele filme que a gente via toda tarde, sabe?

Lagoa Azul, né? Esse Lagoa Azul... Tem nunca. Que você fica... Ou se não, Karate Kid, sabe? Você abre... Futiluso. Isso. Você abre o seu Instagram, o seu LinkedIn, a sua plataforma aí preferida, e a sensação é de que você tá vendo o mesmo filme. E resultado, o que isso dá? O primeiro é um reforço dos patrões, né? Abre... Tira qualquer possibilidade da gente trazer reflexividade pro pensamento. Que talvez seja a única coisa

nós humanos temos em relação aos outros animais. É a capacidade da gente não só pensar, mas pensar sobre o pensar. E isso é que faz com que nós avancemos enquanto civilização. Agora, há um outro aspecto interessante nisso também, que é a ideia de inundar a gente com conteúdo, com o mesmo conteúdo, você tira qualquer possibilidade de inovação. Então, para devolver já para vocês, o jogo está nessa coisa,

do cachorro correndo atrás do próprio rabo. Só que uma hora cansa. E a gente já tá ficando cansado. Eu tô fazendo exercício aqui que é tentar lembrar qual foi a última vez que eu me surpreendi com algo na rede social. Não consegui ainda. Se não for no noticiário, né? Se não for no noticiário em Brasília ou fora de Brasília, fica difícil a gente se surpreender. É o mais do mesmo mesmo. É tudo reciclado. E como é que é aquele poema do Fernando Pessoa, que eu não conheço

Eu conheço mais ninguém que fracasse. Eu vou buscar pra não falar bobagem. Mas é todo mundo muito bem sucedido nas redes sociais. Ninguém tem dor. Ninguém tem chulé. Ninguém tem mau humor. Ninguém fica pé da vida com o mundo. Quer dizer, isso tem bastante. Indignação tem bastante. Mas é sempre de um pedestal moral muito bizarro, né? É que não é do humano, né? Não é do humano. Então, esse jogo cria... Não só, né? Quando você lê, você fica chateado com o que leu.

vai gerando um certo fastio diante do, talvez, o principal ponto fundamental na reprodução daquilo que é a sociedade, que é a transmissão de conteúdo, né? A gente se forma a partir daquilo que a gente ouve, que a gente vê e que nos contam. E se a gente não continua interessado nesses aspectos que são básicos da nossa formação, a gente vai deixando de andar pra frente, vai ficando andando em círculo, né? Que é o que tá acontecendo agora. É isso aí. Põe a minha linha reta, né? Como eu pude esquecer,

Professor Pasquale estiver nos ouvindo, já já chega uma mensagem aqui que eu sei. Mas começa assim. É o Álvaro de Campos, um dos heterônimos do Fernando Pessoa. E começa. Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. É o Instagram. É. É o Instagram levado à enésima potência agora com essas inteligências artificiais. Porque quando a gente escrevia ainda tinha erro de digitação. Agora nem mais tem isso, né? Então a humanidade foi deixada completamente de lado. Legal.

O Conforado tá com a gente de terça e quinta, ou as terças e quintas-feiras, por enquanto, aqui nesse estúdio CBN. Obrigada, Michel. Beijão. Até a próxima surpresa. Até terça. Toda vez que você fala por enquanto, eu acho que o RH vai me ligar, hein? É. Você sabe que na terça-feira eu falei isso e imediatamente pensei a mesma coisa, mas é que a gente tá tentando surpreender o nosso ouvinte, sabe? Mas é de um jeito bom, eu prometo.

Um beijo. Tchau, tchau. Tchau, Michel.