Conflito no Oriente Médio: o que as mudanças no mercado revelam sobre o ser humano?
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- Risco Financeiro e SistêmicoDistinção entre risco calculável e incerteza · Teoria de Frank Knight · Probabilidade conhecida vs desconhecida · Impacto psicológico da incerteza · Conforto da previsibilidade
- Neurociência incertezaCérebro como sistema de previsão · Áreas cerebrais ativadas pela incerteza · Loops cognitivos · Exaustão mental · Processamento neural de ameaças
- Mercado FinanceiroAspectos biológicos e cerebrais · Influência da história de vida · Segurança afetiva na infância · Hipervigilância · Desenvolvimento de resiliência
- Estratégias para lidar com incertezaBusca excessiva de informação · Ilusão de controle · Meditação e relaxamento · Aceitação da insegurança · Reconhecimento do aspecto positivo
- Estudo de Daniel EllsbergExperimento com urnas e bolas · Preferência por risco calculável · Aversão à incerteza · Demonstração comportamental · Escolha racional vs psicológica
- Treinamento Condicionamento FísicoExposição a situações incertas · Aprendizado pela experiência · Ganho de confiança · Desenvolvimento de habilidades · Avaliação ponderada de resultados
- Discriminacao e IntoleranciaRacismo · Machismo · Misoginia · Homofobia · Estado permanente de vigilância · Impacto em mulheres
- Incerteza como OportunidadeEmpreendedorismo e risco · Novos relacionamentos · Mudança de carreira · Inovação · Crescimento pessoal
- Política e GovernoLeis e instituições funcionais · Redução da necessidade de hipervigilância · Segurança institucional · Domínio coletivo vs individual · Impacto estrutural na incerteza
- Conflito EUA-IrãMaior queda histórica da bolsa · Petróleo e mercados · Imprevisibilidade da guerra · Impacto geopolítico · Incerteza sobre desfecho
Visões do Futuro, com Álvaro Machado Dias. Oi, Álvaro, boa tarde. Muitíssima boa tarde. Bolsa de Seul teve uma enorme queda ontem, a maior da história, pior do que no 11 de setembro. O petróleo disparou, o ouro bateu recorde. Ninguém sabe como essa guerra que a gente está noticiando aqui, quase minuto a minuto, vai terminar. O problema talvez não seja a guerra em si,
que deixa os mercados completamente doidos. Toda vez que acontece uma situação de risco internacional, as bolsas ficam assim. Álvaro, por que isso acontece? O que é que isso revela sobre o ser humano? Porque a gente fala mercado como se fosse um ente, mas a gente tem que lembrar que o mercado é feito de gente. Por que isso acontece? O que é que isso revela sobre o ser humano, inclusive aquele que não investe, que nem está sabendo onde é que a bolsa opera, se ela está em alta, em baixa?
Eu acho que é bem importante a gente trazer essas discussões para a vida das pessoas, dos nossos ouvintes. E, de fato, essa incerteza que afeta mercados, ela simplesmente reflete algo sobre o ser humano de maneira mais ampla. Diria assim que o mercado financeiro é o maior laboratório comportamental do planeta. Milhões de decisões e tudo movido por expectativa, medo, cálculo e assim por diante. Olha só, acho que o grande lance,
está numa distinção que é da década de 20. Tem um economista chamado Frank Knight que separou duas coisas. De um lado, ele colocou o risco. Risco é probabilidade. Você sabe qual é a chance de alguma coisa, ainda que você não conheça o resultado. É a roleta, né? Você pode perder, mas você consegue calcular qual é a sua chance de ganhar. Incerteza é quando você não sabe quais são as probabilidades. E é o contrário do risco do ponto de vista da experiência das pessoas.
Seja ruim. É que chance calculável dá muito mais conforto, muito mais tranquilidade. Chance que você não consegue determinar traz uma sensação muito mais maluca, muito mais turbulenta. Por quê? Porque o cérebro da gente foi moldado ao longo de milhões de anos para prever. O cérebro é um grande sistema de previsão. Então, quando a gente não consegue justamente aplicar esse princípio fundamental,
espécie de loop, a gente fica presos nisso. Então, está aí o grande negócio que por que o ser humano entra em parafuso em situações como essa? Não é necessariamente pelo desfecho, mas sim pela impossibilidade de determiná-lo. Agora, Álvaro, existe uma certeza ruim e existe uma possibilidade ruim. A possibilidade ruim muitas vezes é tratada como algo mais negativo. Por que isso ocorre? Existe uma medida de
Quanto cada pessoa aguenta uma incerteza? Pois, você trouxe um ponto bem interessante. De fato, a gente muitas vezes prefere receber aquela notícia ruim de uma vez do que ficar na expectativa, ficar imaginando, ficar na incerteza. Por que acontece isso? Em última análise, se tem uma chance do desfecho não ser negativo, esse cenário deveria ser melhor. A grande questão é que a incerteza consome muito recurso cognitivo. O que isso quer dizer? Quando você perde,
Você sofre, processa, mas eventualmente você se reorganiza, você segue em frente. Agora, quando você não sabe o desfecho, você fica preso numa simulação, rodando cenários na sua mente, tentando prever o que vai acontecer e o desfecho não chega e isso vai gerando uma exaustão mental enorme. O cérebro não pode ser diretamente aproximado a um computador, mas num sentido ele lembra sim uma máquina.
facilmente preso em loops. Então, por exemplo, pensamentos recorrentes, obsessões e todo tipo de coisa que faz com que você fique reiterando algo. E a incerteza é um desses mecanismos de produção de loops. Esse é o grande problema. Tem um estudo bem legal, que é o seguinte, tem o Daniel Ellsberg, que é o cara que ficou famoso no final da década de 60, porque ele vazou uns documentos secretos sobre
a Guerra do Vietnã, chamado Pentagon Papers. Mas antes ele fez um estudo, em 61, que era o seguinte, ele botava numa urna 50% de bolas vermelhas e pretas. E na outra você não sabia qual era a proporção. Ou seja, na primeira você tinha 50% de chance de ganhar, na outra você não sabia qual era a chance. E ele simplesmente perguntava para as pessoas onde você gostaria de apostar. Claro, dinheiro de verdade. As pessoas massivamente demonstravam uma tendência a escolher a urna com 50%.
de chance. Olha que interessante isso. Ou seja, na total escuridão, a gente prefere o risco à incerteza. Esse é o grande mecanismo. Por quê? Porque a incerteza custa na nossa mente. Esse é o negócio. Álvaro, tem gente que lida melhor com a incerteza do que outras? Essa é uma capacidade, é uma habilidade de viver bem na incerteza ou não? É sim.
Tem gente que vive bem melhor na incerteza do que outras pessoas. Tem um aspecto cerebral nisso, biológico, tá? Então, áreas do cérebro hiperativadas, áreas ligadas a perigo, né? Como, por exemplo, ínsula anterior, amígdala, elas estão mais associadas a, enfim, sofrer com a incerteza. Então, tem algo que vem, assim, do ponto de vista muito profundo, da maneira como o cérebro da gente processa informações. Mas não é só isso, tá? Não é só neuroanatomia.
A história de vida pesa muito. Então, como a gente entende que algumas pessoas lidam razoavelmente bem com a incerteza e outras não? Em geral, é porque as pessoas cresceram em ambientes diferentes. Então, quando você cresce num ambiente meio imprevisível, com incerteza, mas você tem segurança afetiva, você sente que tem alguém que está lá e que realmente vai te apoiar, está com você de verdade, você relaxa num nível profundo em relação ao impacto dessas ameaças.
cedo na vida, e aí tende a desenvolver uma segurança maior. Do contrário, quando você vive num ambiente de incerteza e você sente que não tem ninguém com quem você de fato possa contar, você desenvolve uma espécie de hipervigilância, o que é normal, né? Você tem que estar muito vigilante desde cedo para lidar com as situações, afinal de contas não vai ter ninguém para te apoiar. E esse estado hipervigilante torna depois a pessoa como se ela estivesse inflamada, assim, o toque da incerteza
gera uma resposta bastante desconfortável, uma resposta muitas vezes disfuncional. A pessoa prefere escolher uma coisa ruim do que viver na incerteza. Agora, tem um ponto interessante, uma boa notícia, por assim dizer, é que dá para treinar isso, dá para você desenvolver a habilidade de viver melhor na incerteza até certo nível. E, sobretudo, isso funciona a partir da própria exposição às situações de desfecho incerto e da avaliação,
assim, tranquila, ponderada, sobre como a maior parte dessas situações não terminam em catástrofe. É aquela coisa, se você registra que você pode, de vez em quando, viver o incerto, que você não vai se dar mal por isso, você ganha um pouco mais de confiança para a próxima e assim segue. Então, qual que é a relação do brasileiro com a incerteza? Porque a gente tem várias, né? Basta acordar para entender uma incerteza com relação à inflação, governo, regras que mudam.
de alguma forma, nos torna mais resilientes frente às incertezas? Depende, tá? Essa narrativa de que o brasileiro é resiliente, ela precisa de um asterisco enorme, Fernando. Quem pode alternar entre a incerteza e o descanso, ou seja, a confiança, a segurança, desenvolve a tolerância. Agora, quem está sob incerteza contínua, segue naquela hipervigilância que eu tinha falado antes e, em última análise, adoece psiquicamente.
Então, eu acho que a gente tem dois perfis no Brasil, no mínimo. Um perfil de gente que tem a possibilidade, tem uma rede de apoio, um suporte emocional, financeiro, pessoal, segurança interior, formação, o que quer que seja, que faz com que no final do dia essa incerteza toda se choque contra uma resistência real e pessoas que não têm essa resistência real. É como o tal do colchão da segurança.
A gente não vai poder dizer que houve aprendizado a partir da incerteza, mas pelo contrário, que houve adoecimento. Agora, um ponto só que eu queria comentar sobre a sua pergunta é que a gente assume sempre que o Brasil é um lugar incerto. E, de fato, é verdade. Eu acho que o grande mote da incerteza aqui é o da violência e da criminalidade. Então, você está sujeito a um assalto, a uma situação de violência no Brasil.
traz essa hipervigilância e isso não gera aprendizado nenhum. Mas, se a gente olhar do ponto de vista geopolítico, no momento é razoável dizer que o Brasil é, por exemplo, menos incerto que os Estados Unidos. É um país que está em guerra, que é mesmo cortar relações com a Espanha ontem. É proibir uma empresa de ter contratos federais por divergência política, que é a Antropic. Então, sem juízos de valor, eu acho que o curioso é pensar que a incerteza no Brasil é forte, mas em alguns níveis, em alguns anos,
ela é menor do que em países que antigamente eram as nossas referências de segurança. O Lucas está dizendo aqui que é um jornalista desempregado, não há descanso. É o tempo todo a mente trabalhando, perturbado com a incerteza, sem descanso e ele complementa. O racismo, o machismo, a misoginia, a homofobia também despertam o estado de hipervigilância e as mulheres que estão me ouvindo agora acho que estão entendendo exatamente do que eu estou falando.
Álvaro, para a gente se despedir, dá para minimizar os impactos negativos da incerteza ou a gente está fadado a sofrer com eles? Eu acho que o Lucas trouxe uma ponte muito legal para uma forma de minimizá-los que não tem nada a ver com, ou melhor, não se reduz a ação individual de cada um de nós. Quando as leis, as instituições, o país funciona de uma forma que mitiga os fenômenos que geram a necessidade da hipervigilância, você tem, de fato, menos impactos da incerteza,
simplesmente porque a incerteza parece mais benigna. Mas isso não está no domínio de nós individualmente controlarmos, pelo menos não de maneira plena. Então, olhando para o ponto de vista das pessoas, do que a gente pode fazer, eu acho o seguinte, o instinto natural diante da incerteza é tentar mitigá-la, buscar mais informação, pedir mais segurança, antecipar os cenários, mas isso funciona só até certo ponto.
desse ponto, vira problema. Sabe, a ideia da pessoa que, por exemplo, fica lá atualizando o noticiário de 15 em 15 minutos para entender a guerra, entender as coisas que estão acontecendo, isso não reduz a incerteza de forma nenhuma. Pelo contrário, só alimenta uma espécie de ilusão de controle. E isso, enfim, só torna a pessoa mais hipervigilante, mais tensa, né? Então, o que a neurociência contemporânea mostra é que não é da tentativa de controlar o desconhecido que surge a experiência mais confiante,
mas sim da capacidade de viver a insegurança de forma mais positiva. Ou seja, a gente tem que desenvolver mecanismos de relaxamento. Então, a meditação, por exemplo, tem um impacto enorme nas experiências de insegurança. E olha que curioso, né? A pessoa está lá meditando e ela não está lidando com incerteza alguma, mas ela se torna menos hipervigilante e vive melhor esse tipo de coisa.
Então, por exemplo, a incerteza de quem trocou um emprego estável para tentar alguma coisa que acredita, de quem está num relacionamento novo, tudo isso pode ser positivo. E eu acho que a gente também tem que terminar avaliando que a incerteza é positiva, como você lida melhor com a incerteza, também reconhecendo que, muitas vezes, ela é o caminho do novo bom. Porque você não vai encontrar nada de interessante que seja diferente do status quo sem arriscar.
E na hora que você arrisca, a incerteza está aí. Então, para a gente fechar, se vocês topam, eu queria propor um encerramento com
com uma música, Travessia, do Milton Nascimento. Porque, para mim, é uma música sobre perder as referências e, mesmo assim, seguir caminhando. É uma música sobre a incerteza que pode ser boa. Não existe mapa para Travessia, mas talvez seja justamente por isso que ela vale a pena. Obrigada, Álvaro. Até a semana que vem. Até.