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Empatia tem gênero?

03 de março de 202616min
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A ideia de que mulheres são naturalmente mais empáticas do que homens está tão enraizada na cultura que raramente é questionada. Mas pesquisas recentes mostram que as diferenças são menores do que imaginamos, e que socialização, expectativas e contexto pesam mais do que biologia fixa.

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Assuntos12
  • Empatia e SolidariedadeMito da empatia feminina natural · Pesquisa em 47 países · Diferenças minimamente significativas · Biologia versus socialização
  • Binômio poder-cuidadoAssociação de poder aos homens · Economia do cuidado feminina · Maternidade e trabalho de cuidado · Estrutura de gênero na sociedade
  • Relacionamentos FamiliaresDiferenças menores em bebês · Transição para infância · Papel da socialização · Construção cultural de valores
  • Reinvenção pessoalRompimento com padrões violentos · Masculinidade não-violenta · Reconhecimento de direitos do outro · Famílias antenadas
  • Licenca Paternidade AmpliadaLicença maternidade estendida · Licença paternidade · Modelo nórdico · Equidade no cuidado parental
  • Mentalidade EmpreendedoraInversão de comportamentos de gênero · Meninas construindo coisas · Meninos falando de sentimentos · Desenvolvimento precoce de empatia
  • Profissões de cuidado exigem empatiaTrabalho de enfermeiro/a · Profissão de professor/a · Cuidado com bebês · Reconhecimento do outro
  • Importância de alternância nos papéisFlexibilidade de identidade · Desenvolvimento de novas habilidades · Não ser preso em uma caixa · Múltiplas disposições
  • Estupro coletivo no Rio de JaneiroMasculinidade violenta · Falta de reconhecimento de direitos · Percepção do outro como ser de direitos · Educação em direitos
  • Neurociencia e CerebroMito do cérebro feminino · Hormônios e genes · Pesquisa neuroendócrina · Resultados inconclusivos
  • Escola e proteção de criançasEducação em empatia · Novo modelo educacional · Responsabilidade institucional · Construção de indivíduos funcionais
  • Histórias Pessoais e de ViajantesChoque cultural Canadá-Brasil · Ressignificação de licença parental · Negociação familiar · Novos modelos de família
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Para onde vamos? Com Michel Alcorforado. Michel, boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Oi, Michel. Michel, hoje vai mexer com os mais ouriçados, talvez os menos empáticos, não sei. Quem é mais empático, homem ou mulher em geral? Então, essa é uma questão que movimentou a beça ciência na Inglaterra nos últimos tempos, mas porque vai muito de encontro a nossa ideia de senso comum,

em geral, as mulheres, uma carga maior de empatia do que é os homens. Para a gente começar essa conversa, todo mundo na mesma página, Tati, Fernando, acho que é importante a gente dizer que é empatia, que é uma dessas palavras que de tanto a gente usar, acabou por ficar gasta. Empatia seria essa predisposição, essa possibilidade que cada um de nós temos de não só nos colocarmos nos lugares dos outros, mas também de compreender as questões que atravessam gente, muito diferente da gente, mas que com esse sentimento, com essa predisposição,

predisposição, você facilmente consegue reconhecer aquilo como uma dor, como um sentimento, como uma necessidade, por mais instante que ela esteja da sua vida, do seu dia a dia. E, usualmente, a gente tende a colocar esse tipo de predisposição muito mais no colo das mulheres do que dos homens na sociedade ocidental. E aí os cientistas pararam para chegar à seguinte conclusão. Empatia é coisa de mulher mesmo, é coisa de menina?

Ou não, não tem nada a ver com isso. Isso é fruto, único, exclusivamente, da maneira como a gente cria

inventa meninas e meninos nessa sociedade que a gente vive. E é interessante que a Universidade de Cambridge foi uma das lideranças nesse processo todo, e os dados vão mostrando que em mais de 47 países onde a pesquisa foi feita, essa diferenciação entre a quantidade ou a predisposição, o tamanho da predisposição de homens e mulheres em relação à empatia, não se mostrou relevante. As mulheres, pelos 47 países onde foi feita a pesquisa,

elas são só minimamente mais empáticas do que os homens. Isso é muito mais da nossa cabeça do que um dado real mesmo. E aí uma explicação que é usada por uma neurocientista inglesa, que é a Gina Whipple, ela vai falar que isso compõe uma ideia, que é uma ideia bastante comum no nosso dia a dia, da persistência ou da existência desse negócio que alguns vão chamar de cérebro feminino. Como se houvesse hormônios, genes e outras características

biológicas que fazem com que mulheres tenham determinados tipos de sentimentos em relação a outros. Então, tanto na pesquisa na genética, quanto nas investigações de neurociência, se comprovou que não. Não, não tem isso, né? As diferenças são ocasionais, mas elas não permitem que a gente chegue a nenhuma conclusão fechada. Elas são sempre fruto de resultados muito inconclusivos. O que é o ponto aqui interessante, né? Os meus cientistas,

da vida. A gente te perdeu aqui. Volta no começo dessa frase, por favor. Os mesmos neurocientistas e biólogos que fizeram, que estavam interessados nessa questão, começaram a fazer pesquisa com meninos e meninas ainda na primeira infância ali. Naquela transição do momento onde você é um bebê pra quando você começa a já entrar na infância. E nesse movimento, onde ainda a sociedade não fez o seu papel de incutir todos os valores em nós, as diferenças eram menores ainda do que

a gente vê no dia a dia. E aí, o que se chega à conclusão? Que, obviamente, no dia a dia ou na hora que você está na padaria, no trabalho, em casa, as mulheres são mais empáticas não é porque elas são naturalmente construídas para empatia, mas que elas são ensinadas a desempenhar esse papel. E eles chegaram à conclusão que tem um binômio aqui, um par opositivo, que é fundamental também na estruturação das diferenças de gênero na nossa sociedade.

que é o binômio poder-cuidado. De forma muito costumeira, no nosso senso comum, a gente atribui mais facilmente posições de poder ou a imagem do que são lugares de poder aos homens. E a economia do cuidado e o território do cuidado, muito ligado a vários campos, como a maternidade, o trabalho em várias instâncias, está muito mais atrelado às mulheres. E o fato de a gente achar que as mulheres são mais empáticas é por conta de que o trabalho do cuidado por si só, só existe.

se a gente tiver algum grau de empatia. Não tem como você cuidar de um bebê se você não reconhecer que aquele choro é verdadeiramente genuíno. Não tem como você assumir o lugar como enfermeira ou enfermeiro no lugar se você não reconhecer que a dor, a situação debilitada daquele doente é real. Não tem como você ser um bom professor, uma boa professora da escola primária se você não entender ou não perceber que as questões das crianças na escola

centros de poder. Então, o fato das mulheres, por conta da construção histórica que a gente fez nos últimos anos, ainda estarem muito atreladas ao território do cuidado, na nossa cabeça há uma percepção de que elas são mais empáticas. E os homens, como a gente acredita, ou está mais facilmente atrelado aos espaços de poder, empatia não passa muito por ali, não. Então, de forma geral, é o seguinte, tem que ficar claro, não há nada nesse campo da empatia que permita a gente dizer, olha, isso é coisa

de homem ser coisa de mulher, não tem nada a ver com isso. Isso tem um modelo de sociedade que juntou gênero com cuidado e juntou poder com masculinidade e com a onipresença dos homens nesses espaços. E por conta disso, a gente construiu essa ideia geral. Então, se botar mulher no espaço de poder ou botar homem no espaço de cuidado, ou a gente ensinar os homens a cuidarem, certamente essas diferenças vão desaparecer.

Isso é muito citado quando a gente fala de desigualdade de gênero, que é o país menos desigual do mundo. E eles têm um programa de educação, não sei se a gente já falou aqui, Michel, que parece bem legal, que, enfim, trabalha com as crianças desde o começo dessa construção cultural do gênero. Então, comportamentos que são atribuídos a meninas e meninos na Islândia são trocados. Então, meninas são incentivadas a construir coisas,

E meninos são incentivados a falar dos seus sentimentos, a cuidar dos outros. Talvez, em última instância, a praticar e desenvolver empatia. Desde cedo, porque aí, depois de velho, fica mais difícil, né? E, Tati, Fernando, eu acho que é importante da gente marcar aqui que a empatia, enquanto uma predisposição, é importantíssima. Não importa o momento da vida onde você está, a sua classe social, porque é a tônica dos nossos tempos,

vivemos em mundo onde a diversidade e a possibilidade de encontrar com outros modos ou jeitos de viver é cada vez mais frequente, ou você desenvolve uma capacidade empática diante do mundo ou vai se tornar impossível viver. Então, o que é a grande saída que você coloca muito bem, Tati, é que a gente precisa desenvolver nos meninos essa predisposição do mesmo modo que a gente já desenvolve com as meninas, porque isso não tem nada a ver com biologia, gênio, coisa do tipo.

Um elemento que você traz que é decisivo é a alternância. A vida é complexa demais para acreditar que você nasce posto numa caixa e que você não pode sair dela nunca mais, e que tem um conjunto de atributos e deveres que são seus da hora que você nasce até o seu último suspiro. Não, alternância é um elemento importante para a gente desenvolver novas habilidades e disposições diante do mundo. E isso está na hora que você constrói modelos de educação, onde essa alternância está dada, mas também na parentalidade,

caminho importante de invenção desse eu. Na mesma Islândia, nos países nórdicos ali, aqueles que estão acima dos países comumente, aqueles que a gente vê como países europeus, mas esses países nórdicos, e aí estou citando Suécia, Finlândia, Islândia, Finlândia e outros tantos, a alternância no cuidado da parentalidade é decisiva para também criar homens mais empáticos. E é uma coisa simples,

E se essa maternidade que se estende por um ano, mas ela não é concomitante, como em algumas empresas já está sendo feita no Brasil. As moças, quando têm seus filhos, elas são obrigadas a ficar, porque precisam, quatro a seis meses fora do ambiente de trabalho. E agora as empresas mais modernas do Brasil, aquelas mais antenadas com as questões do mundo, obrigam também que os homens cumpram a mesma coisa ao mesmo tempo. Talvez a saída não fosse essa, para a gente criar alternância,

fazem, que é a moça cumpre seis meses da licença maternidade e o moço depois cumpre nos outros próximos seis meses a licença paternidade. E aí o cuidado dessa criança ao longo do dia está no colo desse pai que vai ter que se virar sozinho enquanto a mãe trabalha. Isso se transforma numa baita escola de construção dessas novas disposições. Você tem visto algum movimento, talvez um movimento mais constante de meninos cuidarem mais

no Brasil? Fernando, eu acho que o ponto importante é que a gente, para começar a gerar essa transformação, é a gente se dar conta do problema e se incomodar com o problema. E o que eu tenho observado em famílias mais antenadas com a transformação é uma preocupação de tentar reinventar novos modelos de masculinidade para os seus filhos que não estejam atrelados ao padrão antigo,

por vezes, não só antiquado, mas violento, que a gente viu nas outras gerações. Isso é importante por quê? Não é porque as mães e pais estão preocupados em conquistar um lugar nos céus, não. É porque você vai criar indivíduos e adultos mais funcionais. Esse caso horroroso que a gente viu agora no Rio de Janeiro, desses estudantes que organizam o estupro coletivo em Copacabana, para além de todas as outras questões envolvidas ali, tem uma ideia clara,

não só de uma masculinidade violenta, mas também de uma percepção de que esse outro, que é fruto da sua violência, caso essa menina que bravamente denunciou, é alguém com direitos e deveres e que esse tipo de coisa não deve nem ser imaginado, muito menos praticado. Faltou, para além de todo o resto aí, a invenção de uma masculinidade em diálogo com o reconhecimento dos direitos e deveres do outro,

deveres quanto você também. Então, eu acho que não é mais opção, né? A gente precisa reinventar isso. E as escolas têm um papel importantíssimo nesse jogo, assim como os pais e mães nesse processo todo. Sem dúvida nenhuma. Tô aqui, vim pesquisar porque... Ué, cadê? Sumiu? Alguém tinha escrito no chat sobre... Ou eu perdi? Talvez eu tenha perdido. Sobre o Canadá. Trabalho no Canadá e aqui a licença, lá, lá, lá, lá, lá, lá.

É muito legal, e eu gosto muito de chamar atenção pra isso, que te ouvindo falar, as pessoas podem achar que se trata de algo pessoal, né? Particular. Ah, eu, homem, eu, mulher, sou mais, menos empático e tal. E quando a gente coloca as coisas nesses termos globais, a gente percebe que é um assunto coletivo, tem a ver com o social. Licença parental no Canadá, pelo que eu tô vendo aqui, é de até 40 semanas compartilhadas.

Pago pelo seguro-desemprego que oferece até 40 ou 69 semanas de afastamento compartilhado entre os pais com uma parte da renda coberta. 40 semanas compartilhadas, máximo 35 por pai ou estendida até 69 semanas compartilhadas, máximo 61 por pai. Quer dizer, já chama de licença parental, não chama de licença maternidade. Sim. E já faz toda a diferença, né? Bom, você estudou lá, né?

É, então. Eu morei no Canadá em 2008. Foi a primeira vez que eu morei no Canadá e já existia essa licença parental que me gerou um choque enorme. Eu, um garoto vindo do Brasil, com uma cabeça muito formatada na lógica de que mães tinham direito a quatro meses de licença maternidade quando tinham seus filhos e os pais tinham um ou dois dias e tinham que voltar rapidamente para garantir o sustento dessa família, nessa visão quadrada e conservadora. Eu chego lá e me vejo diante dessa ideia de que a licença não era de ninguém.

ela era dos pais. Isso é interessante que... O que de começo isso cobrava? Isso cobrava uma negociação. O assunto, logo que a moça engravidava ou que a criança chegava à casa, de algum modo isso ia ter que ser discutido. Quem ia para o trabalho primeiro, quem ia para o trabalho depois, quanto tempo um ia ficar no trabalho, quanto outro não. E só por gerar essa discussão, já era interessante para a formatação de novos modelos de família. Então, lá é isso. Você tem direito a 10 semanas.

que esse é o básico estabelecido pelo governo e depois cada empresa desenvolve a sua política a partir disso. Mas eu conheci famílias que as mães ficaram dois ou três meses junto com os filhos e os pais ficaram com o resto, ou famílias que decidiram fazer meio a meio, mas o fato de o pai não ficar nada com o filho não era uma possibilidade nesse país, o que ajuda a gente a inventar um outro jeito de ser pai, certamente, e um outro tipo de indivíduo também, né? Você vê não só a sua mãe cuidando,

E assim, a gente pode dizer o que a gente quiser pras crianças. Elas vão imitar o que a gente tá fazendo. Então, não adianta nada você dizer, ah, seja mais empática se ela percebe que você não é, né? Porque ela vai seguir o exemplo e não o que ela ouve. É ou não é, pai? Sim, sim. É o efeito esponja, né? É. Muito bem. E é isso, né? Parar com essa história de achar que menino é assim, menino é assado, né? A gente tem um modelo de sociedade que inventa gente tal como a gente conhece.

Sem dúvida. Então, dá pra reinventar. Tudo que a gente inventa, a gente desenvolve.

invento e reinvento outra coisa. Obrigada, Michel. Um beijão para você. Até quinta. Tchau, Michel. Um beijo. Até quinta. Tchau, tchau. Tem Michel Alcoforado duas vezes por semana, por enquanto, aqui no nosso Estúdio CBN, às terças e quintas. Estúdio CBN.

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