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Álbum de figurinhas da Copa: prática de colecionar voltou a organizar encontros e vínculos presenciais

27 de maio de 202611min
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Um colégio do Rio precisou criar regras para conter o 'frenesi' das figurinhas da Copa: álbum confiscado em sala, trocas apenas no recreio e estudantes responsáveis pelos próprios pacotinhos. Mas, por trás da aparente bagunça escolar, é possível identificar que, em tempos de telas, ansiedade e relações cada vez mais mediadas, a velha prática de colecionar voltou a organizar encontros, disputas e vínculos presenciais. Ouça o comentário de Michel Alcoforado!

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Participantes neste episódio3
F

Fernando

Co-hostJornalista
T

Tati

Co-hostApresentadora
M

Michel Alcoforado

ConvidadoAnalista
Assuntos2
  • Golpes com Figurinhas da CopaRegras escolares para figurinhas · Custo do álbum e pacotes · Troca e negociação de figurinhas · Valor simbólico vs. valor econômico · Colecionismo como organização do mundo · Saúde mental e colecionismo · Habilidades cognitivas e sociais
  • Mercado e ColecionismoColecionismo de livros · Colecionismo de discos de vinil · Colecionismo de moedas antigas · Colecionismo de arte · Valor de custo econômico vs. valor simbólico
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Conheça a trilha. Pensar fora da curva é o melhor caminho. Saiba mais sobre a trilha em trilhab3.com.br Pra onde vamos? Com Michel Alcoforado.

Oi, Michel. Boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde. Já completou seu álbum.

Você tem filho, né? Tá gastando dinheirinho, hein? Comprei dois, maior arrependimento da minha vida. Mentira! É, porque os dois brigam demais. Olha, pra não dar briga, eu vou comprar dois. Daí no final me arrependi. Você fez as contas? Não, nem vou fazer, tá maluco. Então vou fazer pra você, tá? Não precisa. Eu já sei, eu já sei. Você sabe que no outro dia fiz um comentário lá no meu Instagram, brincando com essa coisa de quem era rico, rico de estimação.

E aí o consenso foi uma moça que tinha três filhos e tinha comprado três álbuns.

E essa aí é rica, né? Porque o álbum custa em torno de 25 reais, não é? 24,90? É, é. Pelo que eu ouvi dizer... É, capa dura que é mais carinha, tá? É, capa dura, edição especial, só dá pra comprar no site. Mas o que eu... E aí custa uma fortuna isso. Mas é... Cada pacote de figurinha tem 7, custa 7 reais? Uhum. Então, tem 980 quadrados dentro do álbum. Se tudo der certo, todos os pacotes vierem perfeitos, você gasta mil reais de largada. Você já gastou dois mil, né?

Só que, segundo as estimativas... Eu tô incentivando o bafo e a troca. A compra não incentiva muito, não. Segundo as estimativas, em média, as pessoas estão gastando de 3 mil a 6 mil reais pra completar um álbum, tá? Mesmo com todas as brincadeiras. Mas eu sou entusiasta, acho que você fez bem. E pensa, na escola tá uma bagunça, um frenesi, porque a molecada largou o celular e pegou a figurinha. Mas, melhor do que um celular, não.

Exatamente. Tati, gostava de álbum desse negócio? É, gostava. Assim, não era uma hiperentusiasta, não morria pra completar o álbum nem nada. Eu gostava de trocar figurinha e de bater figurinha.

Fernando, e eu acho que é isso, revela que apesar da passagem do tempo, as gerações têm se comportado nesse assunto mais ou menos do mesmo modo, né? Não à toa as escolas de São Paulo, do Rio de Janeiro e de outras grandes cidades no Brasil estão tendo que criar um código de conduta para as crianças poderem, pelo menos inventarem ali um jeito menos prejudicial para o processo de aprendizado para lidar com esse tema do álbum. Por quê?

Porque o pessoal quer falar de figurinha no recreio, na sala de aula, na entrada, na saída.

e negociar essas figurinhas em tudo quanto é lugar, em todas as oportunidades dentro do ambiente escolar.

Eu teria a dizer para a escola, para os educadores, que o tema da figurinha pode ser uma boa oportunidade para a gente não só desenvolver habilidades cognitivas desses jovens, mas também abrir oportunidade para trazer o conhecimento tradicional, formal da escola para pensar isso. Porque as figurinhas são interessantes, porque, em primeiro lugar, a gente está falando aqui de uma discussão sobre o valor. Para além da ideia de coleção, você está falando sobre uma discussão sobre o valor.

É caríssimo ter um álbum, é caríssimo completar um álbum. Mas quando você compra ali aquele álbum, né? E aí você precisa comprar os pacotinhos. Dentro de cada pacotinho, vem lá um monte de quadrado colável no álbum. Só que a gente automaticamente vai criando hierarquia de valor pra aquelas figurinhas que teriam, teoricamente, o mesmo valor. O mesmo preço. Porque cada uma delas custaria um real.

Só que não, né? Se ela for brilhosa, você sabe bem que ela vale dois, né? Quem aqui já foi criança lembra. Se for uma figurinha difícil de conquistar, sei lá, de um personagem difícil, a negociação também cobra uma perspectiva de valor diferente. A criança não topa trocar um por um, ela vai ali, ah, não, sei lá, né? Eu sou do tempo do Zidane, eu ia dizer Zidane vale mais.

Mas sei lá, né? Você tinha ali essas figuras que valem mais. E por outro lado, é super interessante também, porque sobretudo os jogadores faltantes dentro dessa seleção, a gente pode abrir uma discussão com as crianças pensando por que o fulano que está escalado...

para a seleção brasileira não consta no álbum. E por que ele está dentro e está fora? Ou seja, é uma baita oportunidade dos pais e da escola discutirem essa dupla dimensão de valor ou de precificação que vão balizar boa parte da relação dessas crianças ao longo da vida, na medida que forem amadurecendo. Porque assim é a vida, né? Na hora que você quer comprar muito, sei lá, um carro, e você pensa no carro em si, para que serve um carro? Ele só serve para te levar de um ponto a outro.

você pode comprar o mais barato. Mas, a partir do valor que você dá para uma determinada coisa, para o teto solar, para o ar-condicionado, para a direção hidráulica, sei lá o quê, você vai dando uma perspectiva simbólica para aquele negócio diferente. Então, figurinha ajuda a gente a entender que as coisas valem o que elas valem, mas elas podem valer mais a partir da escassez, a partir de caracteres que são valorizadas pelo grupo, a partir de uma série de outros fatores.

Mas há um aspecto interessante também, assim, dentro desse movimento, que é a importância do colecionar. Vários teóricos nas ciências sociais já pensaram sobre esse negócio. E um dos elementos interessantes que o colecionar traz pra gente é que ele ajuda a gente a organizar o mundo. Pelo menos no período da Copa, e se você gosta muito de álbum de figurinha, boa parte dos seus problemas vão estar organizados nas figurinhas que faltam no álbum do que nas outras faltas que acometem a tua vida.

Quando a gente coleciona qualquer coisa, a gente inventa o mundo nosso e a gente abre possibilidades também de inventar faltas que não são as faltas comuns para os outros. Então, isso traz uma construção mais perene, estruturada, daquilo que é o teu mundo. E, ao mesmo tempo, vai te criando âncoras ou formas de se conectar com temas que te interessam.

super importante, sobretudo para a saúde mental. Então, gente que coleciona coisas, apesar do caos que está aí fora, tem a chance de ter uma percepção de que as coisas estão mais ou menos organizadas, porque seu mundo está mais ou menos organizado. Não à toa, não importa o campo que te agrade, pode ser figurinho ou não, colecionar é um hábito que persiste, permanece ao longo do tempo. A gente gosta de colecionar coisas. Vocês colecionam coisas?

Eu já colecionei quando eu era mais jovem. Tô pensando o que eu coleciono hoje. Acho que não. Nem minhas credenciais eu coleciono mais. Coleciono inimigos? Brincadeira. Eu coleciono amigos. Eu tenho esse defeito seríssimo que é coleciono livro, né? Livro fica no rolê, né? Vocês também, né? Então, tipo assim, né? E o Fernando...

Discos. Ah, disco, disco, disco de vinil. Estou esperando o seu presente. Estou cheio de coleção. Eu só livro, eu acho. A única coisa que tem muitos na minha casa é isso aí. Tem os discos, gente. Como é que eu pude esquecer? Você sabe que, ainda voltando para os álbuns, o meu filho tem 15 e já tem 3 álbuns.

Tudo que é nos pedaços, mas já tem três. Está no terceiro agora. E ele guarda? Guardou todos. Guardou até as figurinhas da Copa anterior. Achei legal. E no ambiente escolar tem uma coisa também que as professoras e professores também entram na onda. E é muito legal porque tem sempre acordos. Ok, depois da aula, a gente troca. Depois de tua atividade, a gente troca. E aparentemente tem funcionado. Eu estou curtindo o ambiente.

E eu acho legal, Abessa, também, a gente imaginar como é que uma coisa, né? Que é essa coisa colecionável, ela é capaz de inventar um novo tipo de sociabilidade, ou seja, uma nova razão para encontrar. Porque quando a gente inventa que tem um determinado momento do ano que as figurinhas interessam os álbuns também, as crianças que estavam presas na tela, né? Olhando só para si, olhando só para as interações digitais, começam a achar que esse outro que está do lado, que tem algo que interessa a elas, também é passível, de contato, é interessante.

E isso é um teste importante, é um modelo interessante de aprendizado para o desenvolvimento de habilidades sociais que são fundamentais na vida de uma forma geral.

Então, eu vim aqui para dizer, apesar do preço, não faça a conta econômica que você está tendo que bancar para o seu filho se divertir, faça a conta simbólica da quantidade de coisas que ele pode aprender trocando figurinhas. Se figurinha está caro demais para o seu bolso, brinca de outra coisa aí, de colecionar. Mas acho que colecionar pode ser uma baita ferramenta de socialização de crianças.

E de entendimento de como é que elas podem desenvolver não só habilidades cognitivas, mas habilidades sociais. Nosso ouvinte Samuel coleciona moedas antigas. Tem moedas até da Grécia Antiga, que eram do avô. E tem quase todas as moedas do mundo atual. Ah, que legal. Tá rico. Tá rico.

rico. Isso é coisa de rico, hein, Michel? É coisa de rico? Então, mas essa aqui é a graça, assim, porque no final das contas o colecionador vive esse drama, né? Porque ele gasta muito dinheiro pra conquistar coisas que ele acha que tem muito valor, mas se ele quiser vender, vender, vender, ele nem sabe se aquelas coisas tem um valor pros outros do mesmo modo que é o valor que teve pra ele quando pagou. Então esse fulano aí que é rico, sei lá, coleciona obra de arte, vive esse drama, né?

Ele chega agora, agora tá tendo arpa aí em São Paulo, né? Que é uma dessas feiras de arte no Pacaembu, se não me engano.

Você chega lá e gosta de um quadro. Aí o fulano diz, esse quadro custa 100 mil reais. É, tela, né? Tinta lá, o trabalho do artista, sei lá o quê. Se te tocou e você tem o dinheiro, você acha que vale a pena aquele negócio. Mas se você leva pra tua casa e fala, vale? Pra eu vender, eu vou ganhar os mesmos 100 mil reais que eu paguei?

Vale porque valeu pra você, né? Mas talvez não valha pros outros. Então todo colecionador vive um pouco desse drama, né? Que é essa dimensão entre o valor do custo econômico mais o valor simbólico pra você. E esse drama acompanha a vida da gente até o fim, né? Acompanha na hora que você tá, sei lá, criando filho, né? Filho é um baita investimento econômico que o valor simbólico é infinitamente maior. E essa conta a gente faz. Vale quando você tá pensando na sua carreira, tá pensando em viajar, tá pensando em sair pra jantar.

Estava pensando por um bocado de coisa. Então, use essa experiência do colecionar como uma forma de treinar essas duas dimensões do valor. Muito bom. Michel Cofrado conosco, às segundas, quartas e sextas, em Pra Onde Vamos com Nossas Coleções. Obrigada por hoje, Michel. Um beijo. Até sexta. Muito obrigado, muito obrigado. Até sexta. Tchau, tchau. Abraços.

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