Sons que marcaram época
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- Rodadas BrasileirãoRegime militar e coesão sem democracia · AI-5, repressão e tortura · Aterramento afetivo e euforia · Marcos Napolitano · Música popular brasileira no regime militar
- Qualidade sonora de épocaMemória auditiva e musical · Características de sons marcantes · Paisagem sonora · Murray Schafer · Amígdala e córtex pré-frontal · Condições para sons virarem identidade coletiva · Jingles e vinhetas
- Apresentação do Hino NacionalRenascimento da democracia · Nova República e governo Sarney · Música de protesto e orgulho coletivo
- Casas Pernambucanas - história e relevânciaEngenharia simbólica e lógica familiar · Indústria cultural e papel agregador · Renato Ortiz
- O Gigante Acordou (2013)Protestos organizados pela internet e redes sociais · Caoticidade e indignação horizontal · Contraste com hinos organizados
- Evolução técnica de áudioConvergência tecnológica para a invisibilidade · Concentração de dispositivos em smartphones · Tendência ao silêncio na paisagem sonora
O futuro não começa com o carro, começa com energia. Enquanto outros faziam promessas, a BioID já estava construindo baterias. Enquanto o mercado discutia, nós colocávamos milhões de veículos nas ruas. Aqui, tecnologia não é um acessório, é a base. Bateria, chip, motor, software, tudo construído junto desde o início. Por isso, somos mais seguros, mais eficientes e mais acessíveis. Não construímos carros para poucos, criamos mobilidade para todos. BioID, uma revolução global. No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas.
Visões do Futuro, com Álvaro Machado Dias. Álvaro, boa tarde, bem-vindo. Muitíssimo boa tarde.
O Álvaro hoje vai trazer pra gente, a gente vai falar sobre sons que marcaram época. A gente pode dizer também... Já tô até, tô aqui especulando dentro da minha cabeça pra onde que vamos com isso. Eu sei que esse é o quadro do Michel Coffurado, pra onde vamos. Mas memória musical, memória auditiva ou coisas assim, Álvaro? Os hits Paris.
Não, eu queria falar dos sonzinhos, aqueles que, enfim, acabam tendo uma entrada despretensiosa na nossa vida, mas marcam e caracterizam como a gente compreende uma época, um momento, tanto do ponto de vista autobiográfico, quanto do ponto de vista do país, das pessoas ao redor, de tudo que, enfim, envolve a nossa vida.
Tipo, somos do Pix caindo hoje em dia. Quem é que não tem uma associação com esse som? Todo mundo. Eu tô pensando aqui, quando a gente ligava a internet, depois da meia-noite, pra cobrar um pulso só.
E aí tinha aquele barulhinho, o barulho que parecia... Isso, era exatamente assim. Era exatamente assim. Álvaro, por que é que alguns barulhos, alguns sons, grudam no imaginário de uma geração inteira? No imaginário de muitas pessoas?
Porque se a gente for pensar, a maioria dos sons que a gente ouve, quem mora em grandes cidades ouve sons o tempo todo, cada vez mais e mais intensamente, passa batido por nós. O que é que faz um pedaço de jingle ou a ligação da internet que cobra um pulso só depois da meia-noite ficar na nossa cabeça?
Boa. Acho que primeiro a gente tem que entender por que sons viram chiclete, né? Viram essa coisa grudenta, viram identidade. E, por exemplo, isso acontece de maneira muito mais intensa do que em relação a imagens ou mesmo vídeos. Por quê? O que tem no som, né? Que é um tema que a gente começou a esboçar naquele episódio de aniversário da CBN com o Bôscoli. É o seguinte, o som atravessa a memória emocional por uma via muito mais direta que a imagem ou o texto.
Quando você escuta, por exemplo, dois segundos de algo familiar, uma área chamada amígdala, que está afundada no cérebro, ela dispara antes do córtex pré-frontal, que é a área que vai ser usada para o processamento racional, para a decodificação daquilo, entender do que se trata. Quer dizer, o som passa por baixo do filtro racional, por assim dizer. Tem um pesquisador interessante canadense chamado Murray Sheffer.
que ele cunhou o conceito de paisagem sonora. Tem um livro famoso chamado Mundo Afinado. E o que ele defendia é que toda cultura tem assinaturas sonoras que funcionam como uma espécie de infraestrutura simbólica daquela época e daquele lugar. Ou seja, em todo momento que a gente vive, tem essas respostas emocionais sendo geradas no nosso cérebro e muitas vezes elas acendem o cérebro de tanta gente ao mesmo tempo.
E aí, afinal de contas, por que isso acontece? Porque quando a gente está no domínio do som especificamente, alguns viram marcas de uma geração e outros simplesmente desaparecem, mesmo que tenham sido repetidos na mesma quantidade. Para o som virar um elemento de identidade coletiva, virar essa marca registrada, ele precisa atender a três condições. A primeira é que ele precisa ser associado a momentos de alta carga emocional.
Então, por exemplo, futebol, notícia urgente, encontros de família. Por exemplo, as casas pernambucanas, que tem esse famoso jingle dos anos 60, marcava um momento que as crianças iam dormir. Minha mãe sempre falou disso e muitas outras pessoas. Então, tem uma associação forte ali, tá?
Depois, esse som precisa ser repetido com fidelidade. Então, por exemplo, um som que tem muitas variações, ele tende a desaparecer. Jingles que mudam e assim por diante. Aquele que se repete, não. Ele fica consolidado nessa memória. E o último fator...
é a duração. Olha que interessante. E isso explica porque a gente lembra de jingles, mas dificilmente de uma sinfonia. Porque o cérebro, do ponto de vista emocional, vai conseguir arquivar e vai ter essa disposição para aquilo que cabe numa cápsula sonora. E é justamente a vinheta, o bip e assim por diante. Uma coisa só para fechar.
Um som familiar, ele ativa áreas do cérebro ligadas à representação de si mesmo, o selfie autobiográfico. Quer dizer...
Esses sons que a gente acha que estão definindo simplesmente momentos da nossa vida, ou mesmo dispositivos, coisas que não tem nada de pessoal, no fundo eles acabam definindo quem a gente é, porque eles marcam a nossa passagem pelo tempo. A gente pode chamar isso de o nosso envelhecimento. Então tem essa característica também. Sons que marcaram a sua vida, porque naquele momento você estava vivendo algo relevante, vão ter...
esse sinal pessoal. Mas, no final das contas, na memória coletiva, o que importa mesmo é estar ligado a momentos afetivos para todo mundo, ser muito repetido com fidelidade e ser curtinho. Bom, aqui trabalhamos com áudio, então vamos ouvir. Primeiro o jingle, quem bate é o frio.
Quem bate é o frio. Não adianta bater, eu não deixo você entrar. As casas pernambucanas é que vão aquecer o meu lar. Vou comprar flanelas, lãs e cobertores. Eu vou comprar nas casas pernambucanas e nem vou sentir o inverno passar. Pernambucanas, onde todos compram. Faz parte da memória e da família.
Cumpriu a função? Com toda certeza, tá? A minha opinião é que esse é um dos jingles mais importantes do Brasil e ele tinha um papel de engenharia simbólica, né? Quer dizer, ele era um jingle para marcar a lógica da família, que tinha a televisão, que se colocava junta dentro dessa lógica de consumo, que era uma coisa que estava surgindo.
O Renato Ortiz tem um livro importante chamado Cultura Brasileira e Identidade Nacional. E ele mostrou que a indústria cultural vai tendo esse papel agregador a partir da década de 60. E as pessoas vão sentindo que fazem parte de alguma coisa que é moderna, que é para frente, por causa disso. É o mesmo caso, por exemplo, dos jingles ou hinos ufanistas.
A gente tem, por exemplo, o Pra Frente Brasil, da Copa de 70. Se tiver aí, até vale a pena te escutar, porque ele traz isso.
Vamos pra frente Brasil, salve a seleção De repente é aquela corrente pra frente Parece que todo o Brasil tem uma mão Todos ligados na mesma emoção
Tudo é um só coração, todos juntos vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve a seleção. Todos juntos vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve a seleção. E ainda uma marchinha de carnaval que é pra animar, Álvaro.
É, eu acho essa marchinha, esse hino, dos mais maravilhosos da história do Brasil, tá? Eu adoro, acho que assim, pra futebol, pra momento de Copa, assim, não tem igual, enfim, marcante, e acho que a gente devia explorar mais, escutar mais. Dito isso...
É muito interessante pensar a origem e os sentidos que esse hino, esse jingle teve na época. Que é o seguinte, o regime militar naquele momento ele precisava de coesão. Pra frente Brasil, vamos todos juntos. Só que é coesão sem democracia. É coesão no auge do AI-5, ou seja, repressão forte, tortura, mortes, tudo aquilo que já foi plenamente documentado. E a música funcionava como esse... É...
esse aterramento afetivo, tá? Esse gerador de uma euforia para sustentar uma coesão para além de qualquer lógica racional do ponto de vista da política, qualquer lógica humanitária. Ou seja, a gente vê como essas cápsulas sonoras têm um poder de transformação no nosso entendimento de mundo. Porque não importa a sua consciência sobre o que estava acontecendo no Brasil naquele momento, estava todo mundo junto naquela hora com todas.
certeza. Tem um sujeito muito interessante chamado, um historiador chamado Marcos Napolitano, tá? E ele falou sobre música popular brasileira no regime militar. E o que ele mostrou é justamente que esses jingles nunca foram inocentes. Muito pelo contrário. Eles têm esse papel, essa intenção de direcionar o olhar, o que a gente pode chamar de manipular o olhar. Mas não importa. Eles não deixam de ser bonitos por isso. Bom, por falar em democracia, a gente tem mais um aqui que tem muito a ver com isso.
Essa é Fafá de Belém, 1984, direta já. Quem é esse? Eu tô em Vilela. Esta música é a melodia do... É Ulisses. Sinto-me dentro dela... Foi quando o Brasil pôde voltar a cantar na rua, né, Álvaro?
Exatamente. É um som que reflete uma crença popular no renascimento da democracia, numa nova era. E é interessante pensar que o resultado político, num certo sentido, foi um pouco paradoxal. Porque, enfim, Tancredo morreu, entrou Sarney, a gente teve a Nova República, enfim. O Brasil não cantou o próximo hino de maneira...
consonante, alinhada a esse momento, mas foi lindo, e eu acho que marcou sim a história nacional, e trouxe muito orgulho para as pessoas, o que é muito bom, né, no Brasil, a gente tem bastante música que é de protesto, que é de tristeza, que é de solidão, mas essas públicas, coletivas, que marcam o orgulho da gente estar fazendo uma transição para um momento melhor, são raras, e são maravilhosas.
Aí acho que foi quando o gigante acordou. Eu sou brasileiro, como um profundo... Onda da... Que ano é isso, João?
2013 foi quando o gigante acordou mesmo. Não vai ter copa? Isso. Não, copa foi depois. Não, não, não. Esse 2013, se eu não me engano, são aqueles protestos do vem pra rua. Eu acho que, se eu não me engano... Isso, é isso mesmo. E o mote era o gigante acordou.
Exatamente, o gigante acordou. Olha que interessante, né? Esses sons, quando a gente compara diretas já e o gigante acordou, a gente vê um contraste, né? Você vê o canto de 2000...
84, era organizado, tinha letra de música, artistas no palco, toda uma vertical de sons. O canto de junho de 2013 é literalmente um vem para a rua, ou seja, bem menos organizado do ponto de vista de paisagem sonora. É muito som de corneta, palavras de ordem e assim por diante.
O que marca essa mudança? Na minha opinião, ela tem muito a ver com o fato de que os protestos de 2013 foram organizados, são os primeiros protestos organizados a partir da internet, a partir das redes sociais. Ou seja, há essa caoticidade.
Essa coisa da indignação que se organiza horizontalmente, de paisagens sonoras que vão pipocando aqui e ali sem que você tenha uma manifestação artística diretamente associada. E eu acho que a tendência depois disso foi essa, né? A gente vê a multiplicação dos sons em contraste com o passado que a gente tinha hinos muito mais claros para os protestos e outros movimentos sociais. Barulho gostoso, vamos lá.
Calma que no dinheiro não tá fácil. Opa! O que é isso? Pingou o dinheiro aí na minha conta? Pingou na minha, na amiga, não na sua. Eita, mas não fui eu que mandei, não. Eu tô só esperando receber. Então é igual. Tem mais um, tem mais um. Então é igual. Olha lá. Ai, que medo essa hora que dá errado.
Quem viveu o Môo dentro dos anos 90? Olá, conectou. Rapidinho, Alvaldo, sobre esses dois barulhinhos aí, só para a gente terminar. Tá bom, o que muda aqui é massivo, tá? A grande característica dos nossos dias é o silenciamento dos sons da tecnologia. A tecnologia converge à invisibilidade, tá? Isso é uma coisa que eu até já escrevi a respeito. Por quê? Porque conforme ela começa a se tornar mais presente, mais ubíqua na nossa vida...
a gente começa a ficar incomodados com a sua aparição muito relevante, muito forte. Então, por exemplo, o celular vai concentrando uma série de dispositivos que nos anos 80 e 90 estavam espalhados por aí. O GPS, o telefone, qualquer outra coisa que você pudesse acessar. E assim vai, a lente de aumento, a fotografia e assim vai.
Então, a gente vai trazendo tudo para coisas que são cada vez menos espaçosas, menos visíveis. Sonoramente acontece o mesmo. O pixel não é completamente silencioso, porque a necessidade desse sinal é vital para a pessoa compreender que a operação aconteceu. De resto, deveria ser. Então, há uma mudança na paisagem sonora, e ela é forte, e ela vai em sentido ao silêncio. Esse é o papel da tecnologia na nossa vida, quando a gente olha do ponto de vista das paisagens musicais. É isso. Muito bom.
Álvaro Machado Dias em Visões do Futuro, toda quarta-feira, no nosso estúdio CBN. Tem mais um barulhinho bom também. Antes da gente terminar. Essa tá no ar faz tempo, hein?
Desde o começo, melhor som do Brasil. Recomendo a todos e todas. Até semana que vem. Beijo, Álvaro. Obrigada. Em um mundo cheio de respostas, escolhemos fazer as perguntas certas. Somos a Trilha. Fazemos perguntas que movem negócios com dados e inteligência aplicada. Saiba mais sobre a Trilha
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