Episódios de Comentaristas

Timor-Leste celebra 24 anos da restauração da independência

25 de maio de 202613min
0:00 / 13:52
Timor-Leste comemora 24 anos da restauração da independência. Filipe Figueiredo, que esteve no país, destaca a história local. Ouça.

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Participantes neste episódio2
F

Fernando

HostJornalista
F

Filipe Figueiredo

ConvidadoEspecialista
Assuntos5
  • Timor-Leste na ASEANAssociação das Nações do Sudeste Asiático · Crescimento econômico do bloco · Presidência do bloco em 2029 · Construção de centro de convenções em Díli · Diversificação da política externa
  • Lideranca PoliticaJosé Ramos Horta (Presidente) · Xanana Gusmão (Primeiro-Ministro) · Eleições presidenciais futuras · Desafio de renovação geracional · Gap geracional pós-ocupação
  • História colonial e luta pela independênciaRestauração da independência em 2002 · Ocupação indonésia e genocídio · Missão da ONU · Sérgio Vieira de Mello
  • Economia e recursos de Timor-LesteCampos de gás e petróleo · Fundo soberano para infraestrutura, saúde e educação · Projeto Greater Sunrise · Turismo como destino regional · Diversidade biológica para mergulho
  • Domínio de múltiplas línguas e sotaquesPortuguês como idioma oficial · Tétum como idioma local · Proibição do português durante ocupação · Influência do indonésio e inglês · Poliglotismo dos timorenses
Transcrição37 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

CBN pelo mundo, com Felipe Figueiredo. Toda segunda-feira com a gente, Felipe Figueiredo. Oi, Felipe. Boa noite pra você aí. É bom dia aqui. Tudo bem?

Bom dia, Fernando. Boa tarde, bom dia, boa noite a todos os nossos ouvintes, todos os nossos amigos da CBN. Bom, vamos explicar. O Felipe esteve nos últimos dias no Timor-Leste, agora está em Sydney, na Austrália, mas o nosso assunto hoje aqui no CBN pelo Mundo é Timor-Leste.

oficialmente a República Democrática do Timor-Leste, um dos países mais jovens do mundo, que fala português e o Felipe esteve lá numa comemoração, numa celebração muito importante. O que você foi ver lá, Felipe? Conta pra gente.

Então, Fernando, eu tive o privilégio de estar no Timor-Leste para o 24º aniversário da restauração da independência. Como você mencionou, é um país extremamente jovem, fez 24 anos de idade, ou seja, mais novo do que muitos dos nossos ouvintes. E por que os timorenses falam restauração da independência? Porque a independência em si foi declarada em 1975.

Porém, depois disso, o país foi ocupado pela Indonésia, sofreu uma ocupação violentíssima, um processo que muitos historiadores consideram que foi um genocídio. E, em 1999, nós temos um referendo que acaba com essa ocupação, aí estabelecida uma missão da ONU, que foi chefiada pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello, inclusive.

E em 2002, no dia 20 de maio, a independência completa foi restaurada no Timor-Leste. Aí fala-se português, foi uma colônia portuguesa, mas também fala indonésio?

Então, Fernando, essa questão do português é muito interessante, ela é muito curiosa, porque, falando como uma anedota para os nossos ouvintes, eu cheguei no hotel falando português e a recepcionista imediatamente pediu para eu falar inglês. Por quê? Porque o português é o idioma oficial do Timor-Leste, é importante deixar isso claro, é um dos idiomas oficiais.

junto com o tétum, que é o idioma local, que é uma mistura de vários idiomas, incluindo o português, com palavras de origem portuguesa. Mas o português...

Primeiro, ele foi proibido durante a ocupação indonésia, então muito desse hábito se perdeu. E ele hoje é uma língua utilizada especialmente na administração do país, usada especialmente pelas elites políticas e intelectuais do país, porém, no cotidiano, se usa o tétum.

E, além do tétum, também tem uma presença muito grande do indonésio, do barraça, e do idioma inglês. O inglês que tem não apenas a influência mundial do idioma inglês, mas também muito devido à proximidade com a Austrália.

A Austrália, que é um parceiro muito próximo do Timor-Leste, foram tropas australianas que conduziram, em 1999, a retirada das tropas indonésias do território. Tivemos, inclusive, algumas escaramuças, alguns soldados australianos e um soldado neozelandês perderam suas vidas nesse processo. Então, o idioma no Timor-Leste é muito interessante, Fernando, porque todo timorense é um poliglota.

Todo timorense fala pelo menos dois idiomas, às vezes três ou quatro, com muita naturalidade. E o idioma do português?

tem se recuperado nos últimos anos, com parcerias, inclusive, com Portugal e com o Brasil. O Brasil, durante muito tempo, enviou professores de português para lá, porque o Timor, ao valorizar essa herança do idioma português, isso também contribui para ele se distinguir dos seus países ao redor. Felipe, sobre a economia do Timor-Leste, o que é forte aí? Tem petróleo, tem gás, tem turismo, o que é?

Você já matou a charada, né, Fernando? O Timor, ele tem, dentro da sua zona econômica exclusiva, participação em campos de gás e de petróleo. Pouco tempo depois da restauração da independência, foi criado um fundo soberano com dinheiro do gás e do petróleo.

que, seguindo o modelo norueguês, busca pegar esse dinheiro e, pelo governo central, investir em melhoras de infraestrutura, em melhoras na saúde pública, na educação pública, porque é um país também marcado por pobreza. Existem áreas muito pobres no Timor-Leste.

Se você olhar no ranking de PIB per capita, ele estará na metade de baixo da tabela mundial. Então, esse dinheiro dos hidrocarbonetos tem sido utilizado para essas melhorias.

Tem um novo campo de gás a ser explorado, o projeto do Greater Sunrise, junto com a Austrália, porque isso é um outro debate bastante aprofundado. E como você mencionou, o turismo. O Timor-Leste busca se tornar um destino turístico, pelo menos para os países da região, se espelhando um pouco no fenômeno que acontece em Bali. Então...

um destino que une cultura, belezas naturais. O Timor-Leste tem se tornado também um destino para mergulho, porque o Timor-Leste tem uma variedade, uma diversidade biológica de corais e de peixes muito grande. É um fenômeno muito interessante, inclusive.

Então, a indústria do turismo tem se desenvolvido nos últimos anos no Timor-Leste, porém, ainda é uma indústria bastante incipiente e que sofre com o progressivo desenvolvimento da infraestrutura que ainda enfrenta alguns percalços.

Felipe, o Timor entrou recentemente na ASEAN, que é a Associação das Nações do Sudeste Asiático. Conta mais pra gente o que é esse bloco. A entrada do Timor-Leste na ASEAN foi vista como uma vitória enorme pro país. A ASEAN...

Para o nosso ouvinte, a Ásia é o bloco que une Indonésia, Vietnã, Malásia, Brunei, Tailândia, países que nos últimos anos cresceram muito economicamente. O próprio Timor tem registrado uma média de crescimento do seu PIB nos últimos anos de 4, 5% por ano, todo ano.

A ASEAN é um dos blocos econômicos que mais cresce no mundo. E o Timor foi aceito na ASEAN como membro pleno no ano passado.

Durante muito tempo, o Timor pleiteou essa candidatura, mas passava por alguns desafios em relação à governança, em relação à estabilização da sua relação com a Indonésia. Agora é um membro pleno, não apenas é um membro pleno, mas em 2029 vai presidir o bloco, tá, Fernando? E para esse processo de presidência do bloco, inclusive...

Está sendo construído no Timor-Leste, em Dili especificamente, a capital, um novo centro de convenções, um grande investimento, esse é um local enorme. Dili, várias áreas de Dili, parece que são um canteiro de obras, a céu aberto, porque é uma economia que, repito, tem crescido muito.

E, além disso, essa entrada na ASEAN, Fernando, contribui para o Timor-Leste não apenas estabilizar de vez a sua relação com a Indonésia, a potência que ocupou o território por mais de duas décadas, mas também dar o Timor...

Mais uma alternativa, mais uma cartada no cenário internacional, porque sendo um país pequeno e geograficamente distante dos grandes centros, o Timor, nas últimas décadas, ficou entre Indonésia e Austrália, basicamente. Nos últimos anos, temos um crescimento da entrada chinesa econômica no país.

temos os laços históricos com a lusofonia, porém agora o Timor também consegue diversificar a sua política externa, para a ASEAN, também com parcerias com a Índia, com Emirados Árabes Unidos, e pensando que é um país, repito, geograficamente pequeno e...

numa localização complicada, é uma vitória muito grande a entrada na ASEAN e projeta para o timor nos próximos anos a manutenção desse crescimento econômico e a entrada de investimentos.

Felipe, quando a gente fala em Timorlet, tem duas figuras importantes que a gente sempre ouve falar. Um é José Ramos Horta, que inclusive ganhou um prêmio Nobel da Paz, e Xanana Guzmão. O Ramos Horta, ele é o presidente ainda?

Sim, o Ramos Horta é o presidente e o Xanana Gusmão é o primeiro-ministro. Perfeito, queria que você falasse mais sobre eles. No que vem teremos eleições presidenciais. O José Ramos Horta ainda não confirmou publicamente que será candidato, mas muito provavelmente será. E aí, Fernando, nós temos um, eu não vou dizer dilema no Timor, mas nós temos um desafio que se apresenta para o futuro próximo, que é...

O José Ramos Horta, como você mencionou, é um nobo da paz, é uma figura internacionalmente reconhecida, é uma figura que tem acesso a líderes mundiais quase instantaneamente, tem boas relações com os últimos quatro papas, tem boas relações com o presidente Lula no Brasil, tem boas relações com governantes dos Emirados Árabes Unidos, com australianos, enfim.

Então, ele é uma figura importantíssima para articular essa política externa muito diversa do Timor. Já o Xanana Guzmão foi o líder da resistência, o líder da guerrilha, da Fretilin, pela independência. Ele é o líder do movimento de independência desde 1981 e depois se tornou o primeiro presidente do país.

e desde então basicamente alterna entre presidente e primeiro-ministro. Ele é uma figura que conta com um enorme prestígio popular devido à sua luta pela independência. Porém, Fernando, ambos estão envolvidos nessa luta desde 1975. Ambos já estão num estágio de idade...

um pouco mais avançado, e no Timor já ocorrem debates, discussões sobre as futuras gerações de liderança. E aí nós temos um aspecto muito triste, que é o fato de que o Timor-Leste teve uma geração que...

Sofreu muito com a ocupação, sofreu com os danos causados, com as violências causadas pela ocupação indonésia, pelas milícias pró-indonésia e pela retirada dos indonésios em 99. Então, nós temos uma espécie de gap geracional no Timor-Leste entre os mais jovens.

e a geração dos pais fundadores, vamos dizer assim, especialmente José Ramos Horta e Xanana Guzmão. Então, nos próximos anos, eu digo dentro de uma década talvez, nós vamos ter um debate muito importante de renovação política no Timor-Leste e que vai ser um desafio muito grande, porque, repito, o José Ramos Horta, especialmente pela sua capacidade de articulação internacional, ele consegue...

contribuir para essas vitórias internacionais do Timor-Leste, como a entrada na ASEAN. Daqui a alguns anos, esse cenário provavelmente vai mudar. Então vai ser um desafio muito grande. Perfeito. Bom, notícias sobre o Timor-Leste, você ouve aqui no CBN pelo Mundo. Felipe Figueiredo, mais uma vez, obrigado pela participação. Boa viagem aí e até o seu retorno. Grande abraço. Eu que agradeço, Fernando. Um abraço pra você e um abraço pra todos os nossos ouvintes da CBN.