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'Velho Sertão' explora relações humanas e a infância em meio à seca

23 de maio de 202614min
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Janaína Barros destaca o livro "Velho Sertão", obra de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino que retrata a infância no sertão brasileiro a partir da história de um menino responsável por entregar leite em meio à seca. Segundo a comentarista, a obra vai além da aridez do ambiente e aborda temas como escassez, solidão, perda da inocência e relações humanas.

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Participantes neste episódio2
F

Fernando

HostJornalista
J

Janaína Barros

ConvidadoComunicadora
Assuntos4
  • Livro de EnoqueInfância no sertão · Escassez e solidão · Perda da inocência · Relações humanas · Fernanda Rios · Marcelo Tolentino
  • Processo criativo e livros recentesInspiração em narrativas familiares · Uso de papel craft e nanquim · Influência do cinema de Velho Oeste · Diálogo com outras artes · Referências literárias · Walter Salles · Guimarães Rosa · Graciliano Ramos · Jorge Amado
  • Diversidade e InclusãoValorização das infâncias rurais · Apresentação de outras paisagens e experiências · Validação de existências · Papel da arte
  • Literatura infantil e formação leitoraSolidão do velho · Sofrimento da criança e do velho · Melhor livro já lido
Transcrição37 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

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Jana, boa tarde, bem-vinda, tudo bem? Boa tarde, Fernando, ouvintes, tudo bem. Bom, vamos lá, literatura, livros, histórias para crianças e não crianças também. Hoje a gente vai começar falando sobre Velho Sertão, de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino. Vamos para o sertão, Janaína, que ambiente é esse, que atmosfera é essa?

Já estou mostrando aqui para quem está nas nossas transmissões em vídeo. Quem não estiver, sugiro que vá. Porque hoje é bem importante olhar esse livro mais do que ouvir. Velho Sertão, da Fernanda Rios, do Marcelo Tolentino. Saiu pela pequena Zara. É uma história que se passa no sertão, como você já adiantou. A primeira imagem que a gente vê nesse livro é a imagem de um menino.

Um menino montado num cavalo que está saindo de casa para entregar leite, que o pai tira das poucas vacas que eles têm. Portanto, aí já se constrói uma imagem de escassez. No entorno, essa imagem fica ainda mais forte. Algumas galinhas, a vegetação da caatinga já se revelando, e na janela da casa, outras crianças observam esse menino partir.

Todo dia, Fernando, a mesma rotina se repete em meio à seca. E é esse calor que a gente vê no ambiente. No caminho, esse menino avista uma casa. E nessa casa mora um idoso.

Com isso, uma chance de pedir um copo d'água para se aliviar um pouco dessa secura, desse percurso. Mas o idoso diz que não tem, Fernando. Não tem água. Não tem água, diz que ele já está muito cansado para ir buscar água e, portanto, ele não consegue. Só que a imagem diz outra coisa. A imagem, a gente vê o idoso com as mãos para trás e, na virada de página, a gente percebe que ele já está muito cansado.

Nas viradas, né? Esse menino vai embora. Ele volta no dia seguinte tentando mais uma vez. E a imagem conta que tem um copo na mão desse idoso. Sim. Mas é uma coisa que a gente só vê na imagem. Que legal, Jana.

E aí, Fernando, a gente foi ouvir os autores aqui desse livro. A Fernanda Rios é autora do texto e conversou com a CBN para contar um pouquinho da inspiração dela. Como que nasce essa história? Esse livro nasceu das narrativas que eu ouvia da minha família, do meu pai, da minha avó, do meu avô.

Eu era uma criança que gostava muito de ouvir como era a infância das outras pessoas da minha família. E aí, uma vez, meu pai me contou que ele carregava leite para o meu avô, ele levava o leite das fazendas para a desnatadeira do meu avô. Uma vez, uma pessoa pegou a comida dele e ele ficou com fome.

E eu fiquei com raiva dessa história, com raiva dessa pessoa. E aí eu inventei essa narrativa em que uma pessoa nega um copo de água para uma criança. Imersa nesse espaço que a gente não sabe muito bem onde é, especificamente nesse sertão do imaginário, nesse sertão das nossas referências, mas também um pouco voltada para a minha família.

Jana, queria saber mais sobre como é que esse ambiente de secura, de sertão, de aridez, revela o que mais? Nas crianças? No idoso? Revela nas relações, Fernando. Mais do que nesse percurso que o menino faz, esse ambiente traz metaforicamente outros significados. Uma aridez na relação entre esse idoso e esse menino. Esse idoso que a gente vê.

traz aqui na imagem essa pele castigada pelos anos, marcas do tempo, talvez de muita perda pelo caminho, a negação dessa água, portanto, a desconfiança desse menino e uma vingança que toma conta dele, que eu não vou contar porque eu quero que o ouvinte leia e possa descobrir por ele mesmo. Nesse caminho a gente também vê uma infância passando, Fernando.

Uma infância que vai se perdendo e com ela a inocência desse menino vai junto. Uma experiência de infância que talvez não se revele plena, né? Nas suas possibilidades de tempo, de brincadeira, de estar ali plenamente vivendo aquele momento. O tema já dá conta de tudo ou a forma? Porque a gente está vendo um formato diferente nesse livro que é uma questão horizontal. Qual a relação?

eu quero chamar justamente a atenção para essa construção de sentidos que vai também no formato. A horizontalidade desse livro, eu estou mostrando na tela aqui uma cena em que o idoso está frente a frente com o menino. O quanto esse formato também constrói significado. Se fosse vertical, e eu estou virando aqui, será que causaria essa mesma sensação? Será que a gente conseguiria caminhar com esse menino pelo sertão?

E sentiria, junto com ele, quão difícil é esse percurso, o cansaço, esse calor, essa quentura que a gente sente na nossa pele, Fernando? Acho que não, acho que não. Isso é pensado? Isso é método? Isso é pensado. E aí mora essa mágica do livro para as infâncias, né? A gente ouviu também o autor das imagens, que é o ilustrador Marcelo Tolentino, e que conta justamente desses estudos e dos materiais que ele usou para esse trabalho.

Falar um pouco do processo de criação dessas imagens, que foram muito inspiradas nos filmes de Velho Oeste, os enquadramentos do Sérgio Leone ali, plano contra plano, aquela situação do duelo, que acontece entre esse menino e esse velho, nesse clima super árido. Então, dentro desse contexto também...

Eu optei por trabalhar de uma forma muito econômica. Escolhi usar um papel que se chama papel craft, que é um papel bastante poroso, e trabalhar só com o nanquim e a tinta guache branca.

e era um papel que puxava a tinta muito rápido, então acho que é uma coisa que conseguiu, de alguma forma, reforçar essa sensação da secura. Posteriormente, essas imagens que foram trabalhadas só com essa luz bem dura, sombra forte, luz dura, digitalmente eu fiz algumas alterações de corpo e o livro ainda ficava um pouco mais quente, bastante quente.

E acho que foi por aí o pensamento de construção das imagens desse livro. Puta, ler livro é legal. Agora, quando você tem a legenda de o que o cara pensou para fazer, mas jamais é pensar nisso. Tal tinta para tal papel, porque traz secura. Inacreditável. É por isso que eu chamo a atenção, Fernando, para os livros para as infâncias. Quanto eles têm de repertório e referência nessa construção do livro.

O quanto as pessoas, os autores estão ali atentos, estudando para trazer essa construção de sentido também no objeto físico. E essa é a grande mágica também do livro ilustrado. Primeiro contar a história por meio do texto e da imagem. A ausência de palavras, os silêncios, as pausas. Dizem muito, principalmente aqui nesse livro. Eu quero chamar a atenção para os olhares.

Olhares como esse desse menino aqui, que não precisam de uma só palavra para serem explicados e que se repetem ao longo do texto. Essa construção que o Marcelo faz. E aqui tem um texto, também é um texto muito pontual, mas escutem. Mentira pura, que só de pensar já sentia o sol queimando.

metaforicamente essa raiva que esse menino sente desse idoso que não lhe dá água. Isso também é desrespeito a uma construção que tem um diálogo com outras artes, Fernando, com o cinema, com a fotografia, com outros sertões incontornáveis da nossa cultura e que os dois se inspiraram. A Fernanda fala que do filme Abriu Despedaçado na nossa conversa do Walter Salles.

de dois livros importantíssimos, que é o Grande Sertão, do Guimarães Rosa, e também o Vidas Secas, do Graciliano Ramos, Tieta do Agreste, de Jorge Amado. Todas essas são referências que eles trazem aqui para o livro. Jana Otávio Pupo.

Está acompanhando a transmissão com muito prazer. O Otávio é o marido da Fernanda. Tenho o prazer de poder acompanhar o processo criativo dela e o quanto influencia o filho deles. Eles estão lá, estão assistindo a gente no laptop e ele com um livro ao lado, lendo, na cama. Que riqueza. Esse friozinho. Que legal. Obrigado pela audiência, Otávio.

Jana, essa não é uma realidade muito próxima de mim, de você, mas é uma realidade. É uma realidade. Por que é importante trazê-la para a gente que não conhece? Vamos deixar a Fernanda contar, fazer essa reflexão para os ouvintes.

É muito importante a gente apresentar outras experiências de infância, tanto porque eu acho que a gente está vivendo em espaços cada vez mais reduzidos nos centros urbanos, então eu queria que, por exemplo, meu filho tivesse a experiência de ver uma história acontecer nesse espaço.

quanto de valorizar as infâncias que acontecem no meio rural, no sertão, em outras paisagens, para que elas também se sintam valorizadas. Então, eu acho, eu acredito que a gente tem que trazer outras paisagens para as crianças e outras experiências para as crianças terem contato. Que lindo.

Por isso que eu insisto, Fernando, na Bíblia e a diversidade, a diversidade dos livros, para mostrar esses outros mundos para essas crianças que vivem aqui no centro urbano e para as crianças que vivem no sertão terem as suas existências validadas. Isso é importante e esse também é o papel da arte.

Trazer situações difíceis, com uma perspectiva delicada, respeitosa, poética. Experiências de infância que não estão necessariamente sendo vividas na sua plenitude, mas que são tão legítimas quanto todas as outras. Nesse lugar seco, árido, de embates históricos, e mais um embate se constrói entre esse menino e esse idoso, mas também deixar espaços.

E aí está a boa escolha de um livro. Livros que não respondem todas as perguntas. Livros que deixam muitos silêncios e muitos questionamentos em abertos para que essas crianças possam construir o seu próprio pensamento a partir deles.

Muito bem, o nosso ouvinte Hélio Com pergunta qual o nome do livro, Janaína? Vamos lá. Vamos lá, o livro de hoje, nosso quadro de hoje, Páginas da Infância, dedicado ao Velho Sertão, de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino, uma publicação da Pequenas a Ar, uma infância que está longe dos centros urbanos.

que envolve escassez, perda, que envolve um embate, que envolve uma perda da inocência, mas que é tão válida e tão linda quanto todas as outras. Legal, tem participação aqui da Eliane, que esse livro está fazendo um baita sucesso na casa do leitor. Tem aqui também falando sobre as crianças, falaram muito sobre... Ai, agora...

Pô, até eu... Perdeu, Fernando. Não, então, tem muita mensagem aqui. Que legal. Peraí, peraí. Que as crianças que leram falaram da solidão do velho também. A leitura com amplitude de sentidos e significados. As crianças que leram falaram do sofrimento tanto da criança quanto do velho. Que legal. Tem criança que diz que foi o melhor livro que já leu.

Olha que bonito esse espaço de diálogo, Fernando. E isso vem muito também do texto da Fernanda, mas da construção das imagens do Marcelo, que mostram pra gente o quanto esse idoso tem essa pele marcada, essa postura, esse sofrimento dos anos que se passaram ali na secura. Mas por que ele não deu água pro menino? Por que ele não deu água pro menino? Tem que ler, tem que ler. Tem que ler e tem que... A Eliane fala que o Marcelo é genial.

O Marcelo é genial, o Fernando é genial. Os dois estão construindo uma carreira muito bonita, acreditando na criança, Fernando, deixando esses espaços abertos para justamente acontecer isso que aconteceu. As crianças dão os seus sentidos para o livro. Perfeito, Jana. Muitíssimo obrigado pela participação aqui mais uma vez no Revista CBN. Todo o material está onde? Quem quiser saber mais.

Tudo lá em arroba bjanaína. Vou deixar o livro e vou deixar também mais pra frente essas declarações, esses depoimentos dos dois autores. Arroba bjanaína. Obrigado, Jana. E um bom final de semana pra você. Pra você e pros ouvintes.

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