Acordo Mercosul-UE começa a valer de forma gradual e inaugura longo processo de transição
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Fernando
Bruna Santos
- Acordo Mercosul-UEEntrada em vigor gradual · Redução de tarifas · Proteção de indicações geográficas · Salvaguardas para agricultores · Vinhos · Queijos · Cachaça · Champanhe · Conhaque · Queijo feta · Mortadela bolonha
- Tensão EUA-IrãCrise de combustível e apagões · Estratégia de estrangulamento energético · Conversas nos bastidores · Pressão migratória · Instabilidade regional · Marco Rubio · Raul Castro
- Liberdade de ImprensaQueda dos EUA no ranking · Subida do Brasil no ranking · Perseguição à imprensa · Corte de verbas para veículos de comunicação · Interferência política na mídia · Autocensura · Intimidação judicial · Pressão econômica sobre veículos · Hostilidade política · Repórteres Sem Fronteiras · Primeira Emenda (EUA)
- Museu da Imprensa em WashingtonFechamento do museu · Compra do prédio por Michael Bloomberg · Escola de política da Universidade Johns Hopkins (SAIS) · Perda do acervo
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No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas. CBN Pelo Mundo, com Bruna Santos. Vamos ao Washington conversar com a Bruna Santos. Bruna, bem-vinda e boa tarde para você. Tudo bem, Bruna?
Tudo, boa tarde. Feliz sexta-feira, feliz feriado para todo mundo. Obrigado. Como é que está o tempo aí em Washington?
Tem sol, tá lindo, o céu tá claro, tá azul, mas não é feriado, né? Não é feriado. Não é feriado aqui. A gente também aqui não, estamos aqui, estamos aqui. Bruno, hoje é um dia importante porque depois de muito tempo, cerca de duas décadas, começa a valer de forma provisória, de forma gradativa, tudo muito devagar, mas uma parte do acordo Mercosul-Neu-Europeia começa a valer hoje. Qual que é a sua avaliação sobre isso?
Então, eu começaria calibrando a expectativa, como você já fez aí, dizendo que é lento e gradual. O acordo é muito importante, obviamente, mas ele não é uma virada de chave instantânea. Ele passa a valer provisoriamente agora, mas ele inaugura também, ao passar a valer, também inaugura um longo processo de transição. Em alguns setores, a redução de tarifa será gradual ao longo até de...
chega até 15 anos. Então, o acordo começa agora, mas você tem aí efeitos econômicos e industriais que ainda vão se distribuir ao longo do tempo. E a gente sabe que a ratificação, que é o que realmente, digamos, selaria isso em cartório praticamente, ela ainda tem muitas resistências na Europa, entre especialmente agricultores europeus, na França, na Polônia.
Mas o que eu acho que é legal do avanço do acordo é a aposta institucional num mundo que está cada vez menos institucional. E no curto prazo, o consumidor brasileiro já vai poder sentir alguma diferença nos produtos europeus que vão ter a tarifa menor ou zerada em vinhos, queijos.
e até equipamentos, o acesso das empresas a máquinas, a equipamentos, a insumos europeus com menor custo, eu acho que vai melhorar a produtividade brasileira. Agora, a pergunta central, Fernando, eu acho que é também como é que o Brasil vai usar esse acesso preferencial ao mercado europeu? Vai usar para subir na cadeia de valor, para investir em infraestrutura, investir em infraestrutura,
numa produção mais sofisticada de produtos para esse mercado, ou vai apenas vender commodities? E eu acho que tem um exemplo que ajuda a ilustrar bem isso, porque o acordo vai mexer com o nome nas prateleiras. Então, nomes como champanhe, cunhaque, queijo feta, mortadela bolonha, são nomes que passam a ter proteção como indicação geográfica no Brasil e do lado brasileiro também.
coisas como a cachaça, que é uma indicação, uma denominação de origem, passa a ter proteção na Europa. Isso parece detalhe, mas não é, porque esse nome, essa designação de origem, ela é um patrimônio econômico. Então, eu acho que para o Brasil traz uma lição importante, que é, por exemplo, exportar cachaça, queijo, canastra, própolis, mel.
com uma designação do território, inclusive valorizando a nossa biodiversidade e podendo ganhar mais valor.
nesse mercado, transformando em uma estratégia econômica. Teve também uma questão importante, eu queria te ouvir sobre isso, porque houve uma pressão muito grande do setor agrícola europeu, da França, como você mesmo ressaltou, para o estabelecimento de salvaguardas, porque vai ter um gatilho automático específico, bateu ali 5%, só que é um cenário para o Mércio Sul, um cenário um pouco diferente para salvaguardas da União Europeia. O que são essas salvaguardas, Bruna?
Então, eu acho que são mecanismos que, em alguma medida, garantem a proteção do agricultor francês e europeu como um todo. Elas funcionam como se fossem, como é que eu vou dizer, freios de emergência, de alguma forma. Ela cria mecanismos que permitem, por exemplo, a União Europeia suspender importações de produtos agrícolas.
vindo do Mercosul, se houver um aumento que ultrapasse um determinado patamar. Então, essas salvaguardas funcionam literalmente, na minha opinião, como freios de emergência, como formas de você ainda exercer, em alguma medida, um protecionismo para o agricultor francês, um protecionismo para o agricultor polonês, que pode sim sofrer com isso.
E aí, da mesma forma, as salvaguardas brasileiras ou do Mercosul teriam, permitiriam o governo brasileiro ou qualquer outro governo aqui da região adotar também esse freio, adotar tarifas ou até cotas, estabelecer cotas de importação. Perfeito. Bom, a gente passa agora para mais um capítulo da tensão envolvendo Estados Unidos e Cuba. Qual é a nova agora?
A nova é que a temperatura está subindo. A temperatura está subindo. Eu acho que... Eu queria trazer isso porque essa semana teve alguns desdobramentos no Senado que, mais uma vez, alguns senadores buscaram impedir qualquer atitude mais drástica em relação à Cuba. E perdeu porque os republicanos não deixaram isso avançar.
Mas eu diria assim, o Trump tem intensificado a velha lógica do embargo numa estratégia muito profunda de estrangulamento energético. E há meses Cuba vem enfrentando uma crise severa de combustível com apagões recorrentes na ilha. E um ponto interessante é a contradição, sabe, Fernando? Porque isso, publicamente, o Washington está indo para cima, está ameaçando.
Mas nos bastidores estão acontecendo conversas. O Trump chega com uma linguagem muito agressiva.
Mas a gente sabe que nos bastidores o Marco Rubio, que é o secretário de Estado aqui, ele tem mantido conversas nos bastidores com o Raul Guilherme, que é o neto do Raul Castro, ao mesmo tempo que a pressão sobe. E essa é uma agenda que, como eu falei na semana passada, importa muito para o Marco Rubio, que é um potencial herdeiro político do Trump.
A Cuba não é só uma pauta externa para ele, é um tema central. Ele é filho de imigrantes cubanos, ele construiu uma grande parte da sua carreira ali na Flórida com um eleitorado cubano-americano. Então, Cuba é uma vitrine muito importante para ele e é muito sério falhar ou não ali. Mas então, eu ainda teria cuidado, óbvio, de dizer que há a iminência de uma intervenção.
não dá para afirmar isso de forma alguma, mas há uma escalada de pressão, há uma escalada de estrangulamento energético e quase beirando uma crise humanitária, se não já ultrapassando essa linha. Então, acho que a pergunta central é, se você bota tanta pressão numa ilha de 10 milhões de pessoas e leva ela ao limite, podendo isso gerar ou não concessões,
ali do regime cubano, você vai gerar uma pressão migratória na região e uma instabilidade regional muito grande. Isso eu acho que é o mais preocupante. O Brasil, junto com o México e na Espanha, recentemente, fez declarações condenando o que tem sido feito, essa pressão colocada à população cubana. Mas eu acho que mostra o limite moral de uma estratégica de pressão máxima, que pode...
Enfraqueceu o regime, sim, mas também pode, antes disso, quebrar uma sociedade, promover uma transição, uma imigração em massa, que pode acabar virando um problema para o México e para os Estados Unidos. E aí, várias vezes, a gente conversa aqui para tentar entender o seguinte, o que quer o governo Trump...
quando olha para Cuba, porque não tem petróleo, aliás, não tem nenhuma riqueza natural substancial que possa, por exemplo, comparar com Venezuela. O que gostaria mesmo, talvez, seria a queda do regime. E aí, como fazer isso, né? Com uma intervenção, que cenário você vê a partir disso? Porque riqueza não tem, é diferente de Venezuela, né? Exato. E a outra coisa que eu acho que é interessante, é por isso que eu percebo uma dissonância, né? Entre...
entre alguns nomes da administração, é que cada vez menos a gente tem visto os Estados Unidos se engajando em intervenções internacionais com a bandeira da democracia. Então, essa não foi uma narrativa que aconteceu com a Venezuela, por exemplo, de defesa de uma transição de regime. Então, com o Cuba, do que a gente está falando exatamente? Por isso, eu acho que tem aí um forte componente da missão.
do secretário Marco Rubio em dar ao povo cubano uma liberdade em relação ao regime comunista ali, sendo que, de alguma maneira, a gente sabe que essa não é a hora, não tem sido a prioridade do governo americano em relação a essas intervenções na região.
Bom, e nessa semana nós tivemos algo surpreendente, que foi a divulgação do ranking mundial de liberdade de imprensa, que é feito, que é formulado pela organização Repórteres Sem Fronteiras. E aí, alguns dados muito interessantes. Vou começar lá com os Estados Unidos, que é o que mais chama a atenção.
Caíram sete posições. Ocupa agora a posição de número 64. O Brasil, diferentemente, subiu. Subiu 58 posições desde 2022 e agora passou os Estados Unidos. E aí, Bruna, basta a gente ver...
Principalmente nesse Trump 2, o quanto há de perseguição à imprensa, corte de verbas para veículos de comunicação, veículos emissoras públicas, interferência política em diversos setores da mídia. O resultado é esse, né?
O resultado é esse. Eu acho que o dado, esse dado que o Brasil ultrapassou os Estados Unidos no ranking global é claramente, eu acho, um dado que nos mostra menos uma vitória brasileira e mais uma derrota, queda para a segunda divisão dos Estados Unidos.
que é um país que, vamos lembrar, por décadas se apresentou como um modelo de primeira emenda, um modelo que é uma primeira emenda da Constituição americana que defende a liberdade não só de expressão, mas a liberdade religiosa e a liberdade de imprensa, que dá uma... E aí, no momento que os Estados Unidos, que sempre foi o bastião dessa defesa constitucional, começa a decair, ele dá uma cobertura simbólica.
para governos que talvez nem tenham esse respaldo constitucional fazerem o mesmo. E eu acho que um outro ponto que é curioso desses dados do Repórteres Sem Fronteiras é o fato de que você não está mais vendo só ditaduras óbvias caindo muito nesse ranking. Não são mais só ditaduras ou regimes altamente fechados. Você tem aí democracias e as Américas são um exemplo claro disso.
de queda dos níveis de liberdade de imprensa. E a forma, outra coisa que eu acho curiosa na evolução, se a gente for olhar para a América Latina, no período das ditaduras militares, para agora o que está acontecendo com essa queda também em outros países, como na Argentina e em El Salvador, em relação à liberdade de imprensa, é interessante notar como a mordaça acontece. Hoje ela não é a censura clássica que acontecia.
durante as ditaduras. É um cerco feito por caminhos muito mais difusos, mas muito evidentes, que é, muitas vezes, essa intimidação judicial, essa enxurrada de processos para calar repórteres, a pressão e a asfixia econômica, como você falou, de veículos de imprensa que cada vez mais sofrem para manter o seu modelo de negócio, sem contar a hostilidade política.
que eu acho muito cruel, que é também de você inibir o acesso a alguns jornalistas, à informação, às fontes, especialmente no jornalismo político. Políticos que se negam a falar com determinados veículos, por exemplo. E além de lançar campanhas de difamação. Então é um cerco muito menos visível, mas talvez mais eficiente do que aquela censura clássica que a gente viu.
E o caso americano eu acho que é interessante por causa desse paradoxo. O país é um país que tem a primeira emenda, que tem leis e casos muito emblemáticos que sempre defenderam jornalistas e a imprensa. A Suprema Corte fez decisões que definiam claramente que não se podia punir a imprensa só porque alguém que ocupa um cargo público se sentiu atacado.
e que dava esse espaço para respirar ao jornalismo político. Então, o que se vê cada vez mais é esse movimento de autocensura também entre muita gente, em que você faz ameaças e deslegitima e restringe acesso. Eu posso citar até a minha experiência pessoal. Eu, obviamente, não sou uma jornalista, sou uma internacionalista.
Mas quando eu fui fazer a renovação do meu visto americano no Brasil, me solicitaram deixar as minhas redes sociais abertas. Ou seja, eu tive que abrir o meu Instagram, que até então era fechado, simplesmente para a minha família, deixar abertos e o meu LinkedIn e por aí vai, porque claramente ia haver ali uma leitura das minhas análises.
E na época, isso faz mais ou menos uns seis meses, algumas pessoas aqui em Washington me disseram, Bruna, será que você não deve dar uma olhada no como estão as suas análises? Vai que tem ali uma crítica muito dura e tal. Eu digo, gente, tudo tem um limite, não são críticas duras, são análises claras que, porventura, podem ser percebidas como positivas ou negativas por quem está recebendo, mas não vai ser feito. Não vou tirar dali. Mas eu acho que isso nos mostra o quanto esse...
tudo isso que está acontecendo leva as pessoas a uma coisa talvez muito mais perigosa, que é a autocensura prévia, que é você se milindrar de falar determinadas coisas para não perder um determinado acesso, para não perder fonte ou para não perder algum espaço, às vezes até nesse caso um status migratório.
Você sabe que eu ia indicar para o nosso ouvinte uma visita ao museu aí de Washington, que é o News 1. Que é o museu... Ele fechou. Ele fechou. Eu fiquei impressionado. Era aqui do lado de casa, até. Eu fui aí em 2012 e... Aí eu descobri agora que o museu da imprensa, o museu super legal, interessantíssimo, seis andares da história do jornalismo mundial, fechou. Você sabe por quê?
Por falta, o Michael Bloomberg aparentemente comprou o prédio para instalar ali a escola de política da Universidade Johns Hopkins, que está aqui, que chama SAIS.
reformou o prédio, o prédio está lindo, e aí eles tentaram mudar para um outro local, mas eu acho que não conseguiram os fundos para isso. E aí o acervo se perdeu, mas foi uma grande perda, era um museu incrível, incrível. Sim, sim. Bom, tá bom. Bruna, mais uma vez, muitíssimo obrigada pela participação aqui na CBN, bom final de semana para você aí nos Estados Unidos, e até semana que vem. Obrigada, obrigada, queridos, um abraço. Até a próxima.
Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte. O Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho que, de fato, somos gigante. Chega de se ver, pequenininho. Bora botar o Brasil no telão.
Ouviu? E mais, em qualquer compra a partir de R$ 199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia até a nossa estreia.
CBN Pelo Mundo
Dili
Dili EX5 EMIMagalu