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Falar inglês no Brasil: habilidade essencial ou filtro invisível?

04 de maio de 202613min
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Michel Alcoforado analisa como o inglês virou um dos critérios mais naturalizados do mercado de trabalho brasileiro. No Brasil, falar inglês pode dobrar salários, abrir portas internacionais e acelerar carreiras. Mas, ao mesmo tempo, esse mesmo requisito vem sendo apontado como uma barreira silenciosa que exclui profissionais antes mesmo de uma entrevista, traçando um corte sútil, mas bem direcionado. O que está nas entrelinhas quando o inglês aparece em praticamente todas as vagas de emprego?Ouça.

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Participantes neste episódio3
F

Fernando

HostJornalista
T

Tati

HostApresentadora
M

Michel Alcoforado

ConvidadoAnalista
Assuntos5
  • Mercado de TrabalhoInglês como critério de contratação · Salários e inglês · Desigualdade social e acesso ao inglês · Histórico do ensino de inglês no Brasil · Métodos de ensino de inglês · Tecnologia e tradução simultânea
  • Raça, classe e desigualdade socialExigência de inglês em vagas não relacionadas · Diferença salarial baseada em idioma · Acesso desigual à educação e viagens internacionais · Flexibilização de exigências por parte das empresas · Formação de profissionais pelas empresas
  • Proficiência em inglês no BrasilPesquisa internacional de proficiência · Comparativo com países da América Latina e de língua portuguesa · Percentual de falantes de inglês no Brasil
  • Eleições Rio de JaneiroShow da Shakira em Copacabana · Atendimento a turistas estrangeiros
  • Daniel CavaProfessor da USP · Métodos de ensino de inglês no Brasil
Transcrição37 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

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No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas. Pra Onde Vamos, com Michel Alcorforado. Oi Michel, boa tarde.

Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Fernando, hoje não tá. Esqueci de te avisar. Mas, ó, eu queria saber how you doing.

I'm doing great. The book's on the table. The book's on the table, ufa. Ainda bem que ele tá on the table, viu? A gente vai falar, a gente não, Michel, vai trazer uma problematização muito boa aqui sobre hablar inglês. É uma habilidade essencial ou é um meio de discriminação?

Então, boa parte das vezes é um meio de discriminação. Eu quis trazer essa pauta aqui hoje muito ligada a dois movimentos. O primeiro, obviamente, um monte de gringos se meteu no Rio de Janeiro para ver o show da Shakira, esse sucesso de novo enorme, desse evento que reúne 2 milhões de pessoas na praia de Copacabana, um monte de gringos da América Latina ou de outras partes do mundo, vem para cá.

para poder ver esse espetáculo. E aí a questão que se dá é, caramba, como é que a gente atende esse pessoal todo sem falar inglês? E um outro movimento que casou muito com essa pauta, com esse momento, foi que saiu uma pesquisa feita em 120 países para medir a proficiência em inglês da sociedade brasileira.

E entre 120 nações, a gente ficou na meioca ali. Eu não sei como é que fala isso, o número card. Como é que é? Em posição 60, como é que é isso? É 60º, acho. 60º lugar, muito fácil, viu? Era mais fácil do que eu imaginei que era. Na posição 60. E olha, o problema não é estar no meio, não. O problema é a gente, olhando para a América Latina, estar muito atrás do que a média dos países que compõem a região.

Só para você ter uma ideia, o Chile está na posição 47 e a Argentina está na posição 30. Então, tem muito mais gente nesses dois países que tem uma importância, uma prepoderância, um protagonismo grande na região, com mais gente falando inglês. Mas olha que ponto interessante também. Quando a gente olha para os países de língua portuguesa, Portugal está na sétima posição. Então, está um bocado de posição na frente da gente.

O ponto aqui é que quando a gente olha para o cenário brasileiro, só 5% do país tem alguma habilidade de falar alguma coisinha de inglês. O inglês mais básico, sabe? O how are you, good morning, aquela coisa, I'm fine, I'm fine, I'm fine, e por aí vai.

Agora, que dá em torno, né? Se a gente olhar para a realidade brasileira, a gente está falando, se o Brasil tem 200 milhões de pessoas e 5% está falando inglês desse jeito, a gente tem 10 milhões de pessoas no Brasil que podem arranhar de algum jeito. Não passam vergonha nem fome e não ficam sem resolver as questões mais básicas.

Mas quando a gente olha para a proficiência, ou seja, a gente que consegue entrar numa reunião, ouvir, falar, os números variam de acordo com o dado, de acordo com a pesquisa, mas variam em torno de 1% a 3% da sociedade brasileira. Então, se a gente ficar ali no meio do caminho dessa pesquisa, a gente está falando de um pouco mais de 3 milhões de pessoas que minimamente conseguem participar de uma reunião.

E aí a questão que se dá é que quando a gente olha para o mercado de trabalho no Brasil, inglês é visto sempre como um atributo super importante dentro das dinâmicas de contratação dos novos profissionais. E muito importante, não só porque acredita-se que profissionais mais bem qualificados dominam a língua inglesa,

mas também porque isso é um grande reprodutor de desigualdades dentro do cenário, mesmo quando não precisa de inglês para desempenhar aquela função. Se eu faço um convite aí, entra no LinkedIn, que é aquela rede social de trabalho, olhe qualquer vaga. A vaga não importa qual seja, está lá pedindo que você fale inglês. Sendo que boa parte das vezes, na grande maioria dos casos, você não precisa de inglês para desempenhar aquela função.

Então, precisa de inglês para fulano que é recepcionista, precisa de inglês para fulano que é secretária, precisa de inglês para o outro que é analista, precisa de inglês para o outro que está assumindo uma posição mediana dentro de uma empresa e ninguém nunca precisou de inglês no dia a dia daquele trabalho.

E aí, o que essa pesquisa mostra também é que o inglês é produtor dessas desigualdades, porque quando fulano assume que fala inglês, ele é infinitamente mais bem pago. Olha que ponto interessante. As pessoas que dizem falar inglês no currículo, que colocam o inglês no currículo...

elas de partida já ganham 70% a mais em média de salário. Então alguém que fala inglês ou que acredita ou que diz, ou consegue convencer os outros que falam inglês, já tem uma expectativa de salário 70% a maior. E quando a gente está pensando em cargos de diretoria, que são cargos mais altos dentro das organizações, e não importa se a empresa tem ou não, nenhuma participação comercial ou vínculo com outras nações, a expectativa de salário aumenta em torno de 90%.

E o que é o jogo que está dado aí? O jogo que está dado é que se eu não consigo olhar para você e te oferecer um salário menor por conta de outras variáveis que hoje já não são mais vistas como diferenciadoras de salário, como gênero, classe, raça, eu não posso contratar e pagar menos a ninguém porque é mulher, ou porque é negro, ou porque é pobre.

A coisa de busca por outros atributos, como referendador dessa diferenciação, acaba se transformando num atributo importante para pagar a gente que a gente sabe que nasceu num berço onde acesso ao inglês era possível, gente que a gente sabe que teve acesso a uma classe social onde o cursinho de inglês era algo básico, a família já falava inglês.

Gente que teve possibilidade de, desde pequeno, fazer viagens internacionais, ver filme em outras línguas, ter livrinho dentro de casa. Então, isso é um atributo muito importante na manutenção de uma estrutura de desigualdade que atravessa a sociedade brasileira. E aí, isso está na história, Tati. É muito interessante a gente olhar para isso. No século XIX, inglês era visto como uma língua importante na formação do currículo escolar dos brasileiros.

E quando a gente entra no século XX, essa obrigatoriedade do ensino do inglês e do francês, mas sobretudo do inglês, cai nesse movimento, né? Do século XX, na primeira metade do século XX. E só vai voltar a entrar no currículo básico em 1996.

Então, sendo bom ou ruim, o inglês que a gente ensina hoje na escola pública, ou o inglês que a gente é obrigado a ensinar nas escolas brasileiras, sendo bom ou ruim, ele te dá algum acesso para pelo menos você fazer parte ali daqueles 5% que não vão passar fome quando estão se valendo da língua. Você tem algum forrimento. Mas até 1996, só quem tinha acesso à língua estrangeira era quem podia pagar um curso, uma professora particular, que era privilegiado.

Então, um traço que a sociedade brasileira escolheu como definidora mesmo do nosso currículo, que era ter ou não acesso, e a gente não estava ofertando isso para a população de uma maneira geral, acabou se transformando hoje num atributo requerido, um atributo básico, e que pesa sobre os indivíduos.

Então, o que eu queria trazer aqui é que você, contratante, você, gestor, você que está aí escolhendo a vaga, antes de achar que inglês é básico só porque é o básico de qualquer currículo, e o básico no Brasil, que é um país com muita desigualdade, nem sempre é básico para todo mundo.

pensa bem se você precisa usar esse item como mais um mecanismo de exclusão na oferta da vaga e mais um mecanismo de exclusão no acesso a profissionais que são muito competentes, mas não tiveram acesso a isso, ou vão ter um tempo agora para correr atrás dessa possível deficiência.

Mas a gente precisa, antes de achar que só porque todo mundo pede inglês, a gente vai pedir também, vamos olhar para a vaga e entender se precisa mesmo. Sobretudo num mundo onde o AirPod da Apple ou outros fonezinhos atrelados a softwares dentro do celular já fazem transmissão simultânea ou mesmo o chat GPT e as inteligências artificiais dão conta de traduzir qualquer coisa.

Então, nesse mundo com tecnologia, essas diferenças não estão fazendo mais tanto sentido assim. Então, vamos botar a mão na consciência para não reproduzir desigualdade, mais uma, num cenário que já é marcado por mil desigualdades. E um outro jeito, talvez, Michel, bom, eu estou te ouvindo falar e estou lembrando das empresas que exigem profissionais formados em determinadas universidades.

que eu acho que é análogo exatamente, porque você já deixa de fora um grupo você mira num pequeno grupo e isso tem a ver com discriminação tem a ver com classismo tem a ver com tudo isso que você está dizendo

Quando você diz que há empresas que já estão flexibilizando essa exigência do segundo idioma, e o segundo idioma é o inglês e que não precisa ser fluente porque vai usar super pouco e tal, se o inglês, se o idioma é um qualificador do profissional, as empresas podiam pensar também e oferecer isso, né? Informar, ajudar a formar esses profissionais e oferecer esse curso para eles, não?

Isso, exatamente. Mas eu acho que é um convite também a gente pensar no Brasil a maneira como a gente está ensinando inglês aqui. Porque você vai em qualquer esquina, Tati, você vê uma profusão de curso de inglês, a dar com pau aí, né? Toda esquina de qualquer cidade de médio porte no Brasil tem um cursinho de inglês.

E está todo mundo matriculado no curso de inglês ou matriculado nesses aplicativos de língua e pouca gente consegue desenvolver essas habilidades. Nessa matéria do jornal Globo, muito interessante sobre essa coisa da língua no país, eles conversaram com um professor da USP que se chama Daniel Cava. E ele chamando a atenção para o fato de, se os brasileiros têm dificuldade de aprender essa segunda língua,

Talvez os métodos de ensino de inglês no Brasil precisam ser atualizados. Perfeito. Porque quanta gente a gente conhece que resolveu tirar uma fatia do orçamento familiar, abriu mão de viajar, de sair para beber com os amigos, de ir para restaurante, para poder investir em si, sentou no banco escolar, fez aulinha, se dedicou e não aprendeu. Sim.

E não aprendeu, obviamente, não é porque essa pessoa não tem habilidade para aprender novas línguas ou qualquer dificuldade cognitiva. Não aprendeu porque a forma, talvez, como a gente está ensinando não está funcionando. Então, parar de culpabilizar o indivíduo e tentar entender como essa sociedade produziu gente que não tem capacidade, ou tem dificuldade, melhor dizendo, de falar uma segunda língua, ou de ter acesso a ambientes onde isso seja ensinado de forma democrática,

É o ponto importante para a gente começar a reverter isso e melhorar as posições no ranking. Porque, obviamente, quando você aprende uma nova língua, você tem, para além de um salário maior aqui por conta do cenário brasileiro, você tem acesso a mais liberdade. É muito melhor se você pode viajar, sei lá, para o Vietnã, se você puder falar Vietiramita, é melhor. Se você puder viajar para a Itália e puder falar italiano, é melhor. Você tem mais liberdade.

Então, para além dessa questão do mercado profissional, é ótimo que as pessoas adquiram mais conhecimento. Mas repensar também a forma como a gente está ensinando pode ser um caminho importante. Excelente, excelente. Michel Conforado, conosco toda segunda, quarta e sexta-feiras. Todas as. Segundas, quartas e sextas-feiras com Para Onde Vamos.

Eu ia falar espanhol agora, ia falar muitas graças. Ia fazer uma gracinha em outra língua, não necessariamente em inglês. Obrigada, Michel, por hoje. Um beijo com você e até quarta. Por hoje e até o book continuar on the table, né? Tchau, tchau. Um beijo.

Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte. O Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho que, de fato, somos gigante. Chega de se ver, pequenininho. Bora botar o Brasil no telão.

Ouviu? E mais, em qualquer compra a partir de R$ 199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia, até a nossa estreia.

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