‘Desenrola não tem nenhum incentivo ao bom pagador’
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- Críticas ao Desenrola 2.0Falta de estímulo ao bom pagador · Ausência de restrições a novas dívidas
- Regras do Desenrola 2.0Bloqueio de CPF em apostas · Ineficácia da regra de apostas · Endividamento por cartão de crédito · Rotativo do cartão de crédito · Risco moral
- Endividamento das famílias brasileirasBancarização · Distribuição de cartões de crédito · Falta de educação financeira · Juros do cartão de crédito
Linha Aberta, com Carlos Alberto Sardenberg. Carlos Alberto Sardenberg fala sobre razões para o alto endividamento dos brasileiros.
Muito bom dia, Milton. Bom dia, Cássia. Muito bom dia, ouvintes do Jornal da CBN. Olha aqui dois comentários sobre o Desenrola 2. Bom, o primeiro comentário é sobre essa regra que está estabelecida ali, dizendo que quem renegocia as suas dívidas fica com o CPF bloqueado nas bets. Quer dizer, então, não pode mais jogar com aquele CPF.
Eu acho que isso aí tem dois problemas. Um é pouco eficaz. A pessoa sempre pode arranjar um outro CPF para fazer as suas apostas. E o segundo ponto é que, ao contrário do que muita gente diz, o problema não está nas apostas das betes. Não é pelas apostas das betes que as pessoas estão se endividando.
O que está acontecendo é um outro fenômeno que é o seguinte, é uma espécie, e esse aqui é o meu segundo comentário, é uma espécie de consequência indireta da bancarização. Bancarização é a introdução de mais pessoas ao sistema bancário, ao sistema financeiro. Por exemplo, pessoas que entram no sistema financeiro podem usar o PIX, que é uma coisa muito boa. Então, essa bancarização...
ela foi muito positiva, muito correta do ponto de vista do funcionamento da economia e do conforto aqui das pessoas que podem usar o sistema financeiro que é mais seguro.
Só que aconteceu o seguinte, com a abertura das fintechs, das instituições de pagamento, elas saíram distribuindo cartão, e sobretudo cartão de crédito, distribuindo muito cartão de crédito para pessoas que, a rigor, não podiam ter direito àquele limite de crédito, ou mesmo não podiam ter direito, não podiam ter condições de receber um crédito daqueles.
E eu digo isso porque os números mostram o seguinte. Qual é o maior problema de endividamento? Onde é que está? Está no cartão de crédito.
exatamente no rotativo do cartão de crédito. Quer dizer, a pessoa toma empréstimo via cartão de crédito. E aí fica encalacrado, porque os juros do cartão de crédito são disparados os piores, os mais altos do mercado. E aconteceu de as pessoas terem acesso aos cartões de crédito sem, por exemplo, a educação financeira e sem uma condição financeira que...
fosse, digamos, adequado, que permitisse a pessoa trabalhar com os cartões. O fato é que as pessoas se empolgaram com esses cartões e o resultado é exatamente esse. A maior concentração de atraso e de inadimplência está no rotativo. E as pessoas que estão...
mais endividadas e mais inadimplentes, são pessoas que são de 1 a 3 salários mínimos. E essas pessoas serão atendidas nesse desenrola 2, que atende com CPFs pessoas até 5 salários mínimos. Agora, a outra crítica, o segundo comentário, é o seguinte, é que o desenrola 2 não tem mecanismo de algum estímulo para o bom pagador.
Você imagina a pessoa que tomou crédito no cartão de crédito e está pagando em dia regularmente, fazendo sacrifício e pagando em dia. Não tem nenhum estímulo para isso. Poderia ter algum estímulo? Poderia. Por exemplo, um mecanismo que facilitasse a troca de dívida cara para dívida barata.
Não tem isso, não tem nenhum prêmio, nenhum incentivo ao bom pagador. E o outro problema é que a pessoa que renegocia a sua dívida pode tomar outro débito, outra dívida. E não pode, deveria ser assim. Quem tem a dívida renegociada não pode ter uma nova dívida. Em vez de proibir a pessoa de apostar nas betes, seria mais eficiente dizer que a pessoa que renegocia a sua dívida não pode tomar.
Dívida nova. Então, são as duas críticas que a gente faz e, sobretudo, essa segunda, que é mais importante, que é não ter mecanismo de estímulo ao bom pagador. Porque sem isso, você acaba criando o que os economistas chamam de risco moral. O que é risco moral? É você criar uma condição em que vale a pena você deixar de fazer alguma coisa.
esperando ser socorrido mais à frente. Ou seja, o pessoal tomar a dívida, gastar por conta e ficar esperando o desenrola 3. Esse é um risco também que está presente. Já estamos no desenrola 2 e é um risco que a gente enfrenta sem a existência de estímulo ao bom pagador e sem a existência de limites, de restrições à tomada de crédito.
É isso aí, obrigado, ouvintes, até mais.
Jornal da CBN