Episódios de Comentaristas

Quando o afeto vira conteúdo: os 'pais virtuais' e a nova gramática do vínculo

06 de maio de 202610min
0:00 / 10:42
Michel Alcoforado fala sobre uma sensação de proximidade que não depende da presença do outro. Na China, jovens têm chamado influenciadores de “mãe” e “pai” nas redes sociais. O que pode parecer exagero, traz uma mudança na forma como o afeto circula hoje, cada vez mais mediado por telas, algoritmos e relações que não exigem reciprocidade. A internet sempre prometeu conexão, mas, em alguns casos, essa proximidade começa a ocupar o espaço de vínculos que, até pouco tempo atrás, eram considerados insubstituíveis. Ouça.

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Participantes neste episódio3
F

Fernando

HostJornalista
T

Tati

HostApresentadora
M

Michel Alcoforado

ConvidadoAnalista
Assuntos2
  • Pais e mães virtuaisRelações parassociais · Influenciadores digitais · China · Brasil
  • Impacto das relações parassociaisSaúde mental · Desenvolvimento social · Sociofobia
Transcrição26 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Pra Onde Vamos, com Michel Alcoforado. Oi, Michel. Boa tarde.

Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, Michel. Bom, Dia das Mães está chegando, esse próximo domingo. E o Michel hoje vai falar sobre as mães e os pais das redes sociais, mas não aqueles que fazem conteúdo voltado para a paternidade ou para a maternidade. Aqueles influenciadores que têm sido chamados de mãe e pai. O que está acontecendo, Michel?

Então, é uma loucura. Aproveitei a chegada do Dia das Mães para mostrar que agora tem um fenômeno clássico, como você colocou, que a gente, que apesar de não ser pai ou mãe de ninguém nem falar desse assunto, desenvolve uma relação com a comunidade de maternidade e de paternidade.

Isso é um fenômeno que está sendo estudado muito no contexto chinês, mas que serve para pensar muito também a relação de boa parte dos adolescentes e das crianças no Brasil com alguns influenciadores, inclusive aqueles que pensam em assuntos ou em matemática voltado mais para a infância, para os temas que interessam a esse grupo. O que os chineses estão revelando com esse fenômeno?

No final dos anos 70 até o começo dos anos 2000, imperou na China uma política do filho único. Todo mundo que casava ou tinha vontade de ser pai ou mãe tinha um estímulo ao governo, senão você pagava multa se tivesse mais do que um filho.

E isso gerou uma geração de chineses que, primeiro, são idealizadas pelos pais. Então, o fato de o pai e a mãe terem um filho só, dentro desse contexto, numa economia que tinha uma perspectiva de crescimento muito grande, fazia com que esses pais investissem todo o dinheiro que tinham e que não tinham para essa criança dar certo, mas também tivesse uma expectativa muito grande sobre esse comportamento.

Um outro elemento interessante é que essa política do filho único fez com que boa parte dos jovens chineses fossem criados pelos avós, longe dos pais. Então os pais viajavam para outros lugares para poder trabalhar, mas o filho ficava com a avó e com o pai. O que esvaziava um pouco o contato intergeracional entre pais e filhos. E o que é o jogo? O jogo foi que isso esvaziou de sentimento uma geração inteira.

Isso vale desse modo para o contexto chinês, mas quando a gente olha para a vida dos brasileiros, sobretudo os brasileiros, os jovens brasileiros das camadas médias, IP, idealização, sobre aquilo que os pais imaginam que os filhos vão ser, e um afastamento muito acelerado por conta da digitalização, também é uma verdade aqui.

E aí o que tem acontecido? Eles têm deslocado os afetos. O afeto deixa de ser colocado como um elemento importante da conexão entre pais e filhos e eles levam esse tipo de afeto para os seus ídolos das redes sociais e também para outras figuras adultas que lhes são próximas. Eu faço vira e mexe muita pesquisa com...

instituições escolares e com escolas espalhadas pelo Brasil. E um dos elementos que os educadores mais chamam a atenção quando estão falando desses novos jovens é que eles são esvaziados de afeto no sentido de carência mesmo daquilo que eles imaginam, que é a lógica que uma criança deveria ter, ou pelo menos tinha no passado, quando está pensando no sentimento. O que eles repararam foi que esses meninos e meninas e adolescentes todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas todas

Apesar de frequentarem a escola e se preocuparem com desempenho, quando olham para os professores, veem muito mais do que só um profissional que está preocupado em te educar ou que está preocupado em transmitir um conhecimento. Eles olham para esses profissionais como parte da família e buscam coisas que os jovens...

braço, beijo e reforço positivo sobre seus comportamentos. O que é interessante aqui é que tanto com esses novos entes, quanto com as celebridades de rede social e com os influenciadores, eles estão desenvolvendo um grau de conexão afetiva que não é real. E não é real por quê? Porque é uma conexão de uma mão só.

E que conexão é essa? Eu olho para a tela do meu celular, eu mando mensagem para essa figura que eu admiro, esperando que ela diga alguma coisa também que vá reforçar essa minha admiração por ela. Isso já tem nome, chama-se relações parassociais, né? São relações onde, ao contrário da relação comum, de paternidade, maternidade, amizade ou parentesco, a reciprocidade não acontece. Ela é uma mão única.

E qual é o problema disso? Isso não cria relações reais e isso complica a dinâmica de conexões ou possíveis relações que essa criança vai desenvolver ao longo da vida. Então, apesar de ser uma notícia do outro lado do planeta, o cenário é global.

A gente retoma o Michel Cofurado. A gente estava falando sobre essa história de chamar os outros de pai e mãe nas redes sociais. Falávamos de relações parasociais. Eu dava aqui, Michel, o exemplo do rádio. Antes da revolução tecnológica, falei para o Fê, quantas pessoas acham que são nossos amigos porque nos ouvem todos os dias?

não vão com a gente tomar um suco na esquina, não vão ver o jogo de futebol do filho do Fê, não vão pedalar comigo, mas tem essa sensação de proximidade. Isso com as redes sociais aumentou muitíssimo, mas daí acreditar nisso tem uma distância. A gente perdeu a comunicação com você quando você dizia que isso pode prejudicar a noção de conexão, de conexão afetiva das crianças.

Nesse mesmo estudo, tem Tati, primeiro, desculpa aí, Fernando, pela queda aqui, eu estou no aeroporto voltando para o Brasil, e aí aconteceu. Mas o que é muito interessante é que tem um grupo de psicólogos que estão estudando esse fenômeno numa universidade da Bélgica.

E eles mostravam que o fato de você ter um número de relações parassociais maior do que relações verdadeiras, dessa conexão face a face, complica não só a saúde mental, mas atrapalha o desenvolvimento social dessas crianças. Porque elas ficam ou muito reclusas, sem saber ter contato social no dia a dia, ou elas vão sofrer mesmo de sociofobia, outros males.

E aí eu acho que o teu exemplo é muito interessante, porque não tem nenhum problema os ouvintes tratarem eu, você, Fernando, como companhias. Outra coisa é achar que a gente é melhor amigo. E muito pior é a gente achar que o fato do comentário engraçadinho que a gente pode fazer aqui, ou do reforço positivo para um comentário que o ouvinte manda, é por si só símbolo ou reflexo de um modelo de relação que se estabelece.

E não é, faz parte do jogo da vida, né? E aí, o grande problema é que esses jovens que estão substituindo influenciadores pela ideia de paternidade, eles estão buscando uma imagem idealizada do que é pai e mãe. E a vida é quebra de expectativa. E o que o contato contínuo traz pra gente é essa quebra de expectativa que gera esse amadurecimento importante.

Então, para não criar filho infantilizado, para não criar adultos infantilizados, que é um fenômeno que a gente tem visto agora, é importante ficar atento a esse fenômeno.

A gente estava vendo aqui que tem políticos já se utilizando disso aí. E aí eu acho que é isso aplicado à política. O brasileiro sempre tão sedento por um pai na política, aquela figura que vai resolver a vida dele, a quem ele pode recorrer e tal. Em troca de um voto. Em troca de um voto. E os que estão buscando esse voto, mobilizando esse afeto de um jeito muito esperto, de modo a conquistar esse voto.

É, é. Nisso atravessa a história do Brasil inteiro. E é muito interessante você trazer isso, que trata de um fenômeno que os cientistas políticos vão chamar do sebastianismo, né? Que é essa ideia de que o pai ou o rei está morto e ele voltará em algum momento para resolver todos os seus dilemas.

Então, não funcionou ao longo dos 526 anos, desde que a gente começou minimamente a tentar construir isso aqui como um país, certamente não vai funcionar agora de novo. E não importa aí a sua corrente política, porque esse artifício é um artifício usado tanto por políticas da esquerda como da direita. E no século XX a gente tem inúmeros momentos onde isso se afirmou. O próprio Getúlio Vargas...

durante boa parte da sua campanha dos anos 50, construiu uma ideia de que era esse velho generoso. Então, as músicas e os jingos de sua campanha chamavam sempre a atenção para botar o retrato do velho na parede. Esse velho era um grande paizão, era o pai dos pobres, era o pai da nação. Então, essa figura vira e mexe e volta, porque ela funciona. O problema é quando a gente começa a achar que isso é a vida real.

Muito bem. Michel Coffurado, esse é o perigo. Michel Coffurado tá conosco diariamente. Diariamente, antes fosse. Às segundas, quartas e sextas. Pra onde você vai agora, Michel? Fala em pra onde vamos. Eu tô voltando pra São Paulo, eu tô em Frankfurt, na Alemanha. Tô aqui passando na imigração. Vou entrar no meu voo pra São Paulo. Então venha, venha em segurança. Boa viagem, um beijo, até sexta. Um beijo, até sexta.