Parcelar o presente para caber no futuro: a cultura do parcelamento no Brasil e no mundo
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Fernando
Tati
Michel Alcoforado
- Fábricas compartilhadas no BrasilParcelado: Dinâmica de Consumo nas Periferias · Cauê Lopes · Geografia Humana · Dinâmica do parcelado em famílias de classe popular · Publicidade e consumo
- Endividamento das famílias brasileirasGrau de endividamento das famílias brasileiras · Porcentagem do orçamento familiar comprometido · Cartão de crédito · Cheque especial · Taxas de juros
- Planejamento FinanceiroCrédito como ferramenta de acesso · Educação financeira · Acesso à dignidade humana via bens de consumo · Planejamento financeiro · Salários maiores e distribuição de renda
- Poder de compra no BrasilPay Now, Buy Now, Pay Later · Exportação do modelo brasileiro · Ciclo inflacionário · Startups financeiras nos EUA · Brasileirando as formas de pagamento
- Desigualdade SocialDesconto para quem paga à vista · Preço cheio para quem parcela · Ricos parcelam e negociam · Bilhonários parcelam
Pra Onde Vamos, com Michel Alcorforado. Fala, Michel. Boa tarde. Boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando.
Bom, como eu disse na abertura, vai se convencionando aqui que toda sexta-feira Michel traz um assunto baseado num livro. Esse chegou lá para mim, o livro do Cauê sobre parcelamento. Como é que chama mesmo, Michel? É Parcelado, Dinâmica de Consumo nas Periferias.
publicado pela editora Fósforo, o Cauê Lopes, que é um geógrafo, formado, doutorado dele em Geografia Humana na USP, mas hoje ele é professor na Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas. Eu peguei o livro e passei aquele olho na Diagonal, mas ouvi um Café da Manhã da Folha muito bom com ele, para entender mais do que... Como o parcelamento faz a gente entender tanto do comportamento da nossa população, né?
Esse é um dado super interessante, né, Tati e Fernando? Você sabe que um dos dados, um dos números que tem mais atazanado a vida do governo agora é o grau de endividamento das famílias brasileiras. Segundo as últimas pesquisas que vieram a público, cerca de 80,4% das famílias brasileiras dizem estar com alguma dívida ou se veem como endividadas.
Esse é um número que vem chamando a atenção porque é muita gente, mas não só isso. É o fato de que a gente nunca teve tanta gente ou tantas famílias se dizendo endividadas. E o grau desse endividamento também vem chamando a atenção das autoridades.
O primeiro ponto é que boa parte dessas famílias aí que a gente já citou, quase 80% das famílias brasileiras, tem 30% do orçamento familiar, do orçamento mensal, já separadinho para dar conta de alguma conta.
Mas os outros 50, acredita-se que 20% dessas famílias têm mais do que 50% do orçamento familiar só separado para pagar a conta. E boa parte delas não está conseguindo ahorrar as próprias contas. O que é o jogo aí que está trazendo uma dor de cabeça danada?
O grande vilão nesse ajuste, nesse controle do orçamento familiar, está no colo de dois produtos financeiros. O primeiro é o cartão de crédito, e aí tem tudo a ver com o nome do livro do Cauê, parcelado. O pessoal vai parcelando, parcelando, parcelando, parcelando. E depois, aquele monte de parcelinha, quando olha para a fatura, levou o dinheiro do mês todo.
E o segundo ponto é o cheque especial. E são dois produtos financeiros com taxas de juros absurdas, altíssimas, que beiram 436% por ano. Só para o ouvinte ter clareza do que a gente está dizendo, a taxa de juros estipulada pelo Copom gira em torno de 14,75%, se eu não estou errado, mas em torno de 14%. E aí
E a taxa do cartão de crédito é 430%. Então, você deixou de pagar uma conta no final do ano, você está devendo quatro vezes mais, e essa loucura vai virando aquela bola de neve.
O Cauê vai chamar a atenção, depois de uma pesquisa muito intensa, esse livro é fruto de uma releitura e uma intensificação da dissertação de mestrado dele, que ele já publicou, já tinha feito anos atrás, e o Cauê chama a atenção que essa dinâmica do parcelado é algo central à organização das famílias de classe popular no Brasil.
Ele faz um trabalho de campo muito detalhado em bairros periféricos de São Paulo. E quando ele entrava na casa da pessoa, a primeira coisa que a pessoa dizia para ele quando ia mostrar a casa, o sofá, a televisão, a mesa, a cadeirinha que apoiava o pé, o carro que estava estacionado na garagem, ou a máquina de lavar, ou a televisão, como já disse, ou o frigobar, ou a geladeira.
era que tudo aquilo tinha sido comprado parcelado e que ainda estavam pagando. E aí o Cauê vai tentar entender que dinâmica é essa, que vida é essa, que se resume boa parte das vezes a dar conta de pagar a parcela ou a dar conta de pagar as prestações para honrar com o próprio nome.
E ele chega num cálculo e numa equação que é bem representativa da forma como nós brasileiros adquirimos as coisas, os bens de consumos básicos. Ele diz que a dinâmica de uma família periférica no Brasil está apoiada num tripé. E esse tripé é que é responsável por boa parte dos endividamentos.
O primeiro ponto é a publicidade. Você liga a televisão, você abre o seu WhatsApp, você entra em qualquer site desses preferidos que a gente tem, vai aparecer uma propaganda ou uma propaganda baseada em estilo de vida ou modificada em estilo de vida no teu influenciador preferido que vai te vender o sonho de que a vida pode ser melhor comprando um produto. Então, todo mundo, quando acorda de manhã, trabalhando ou não, tem vontade de comprar uma coisinha.
Só que aí a gente chega no segundo pé desse binômio, que é como é que as pessoas compram. Elas compram parcelando, porque o salário médio no Brasil é muito baixo, os bens de consumo são muito caros, pouca gente consegue chegar na loja e comprar uma TV à vista. Então a gente vai lá e parcela. Só que o Cauê traz um terceiro elemento que a gente às vezes esquece. Esse mesmo mercado que te vende sonhos te oferecendo produto...
É aquele que vai dizer que daqui a um ano, aquele produto que você comprou já não serve mais tanto assim. Então você comprou o celular, parcelou o celular, antes do celular ser pago, você já está querendo o próximo celular. E aí, a vida das famílias de classe popular no Brasil se transforma num mero pagar-conta.
E o Cauê, como geógrafo que é, e bom geógrafo, vai chamar a atenção que isso aliena a capacidade dessas famílias, ou seja, tira delas a possibilidade de sonhar uma vida para além só do pagamento de contas. Mas, Michel, como assim? O Cauê vai mostrar que, olha, para dar conta de tanta parcela, o que as famílias de classe popular fazem? Elas começam a usar o tempo de lazer...
para poder ou acelerar o pagamento das contas ou da conta mesmo daquilo que o salário não podia. A gente vai ter jornadas de trabalho ou uma relação das classes populares com o trabalho que é daquele jogo de tipo, fulano não pode ficar um dia sem emprego porque senão a vida vira do avesso.
E a vida se resume, como já disse, essa necessidade de pagar a conta para não estar com o nome sujo, que vai imbricar toda a sua possibilidade de realização de sonhos de consumo para futuros. Então, parcelado, as dinâmicas de consumo nas periferias, esse foi publicado agora, mês passado, pela Fósforo, do Cauê Lopes, que é irmão de Iené Lopes.
que é uma grande historiadora também. Tem um livro que eu adoro, que se chama História do Racismo no Brasil, publicado pela editora Todavia. Essa família é maravilhosa, hein? Fica de olho nesse livro, porque dá conta de explicar muita coisa. Agora, Michel, o parcelamento sempre foi algo... Eu achava que era algo único do Brasil. Mas tem outros países que já estão adotando também, né? O Pay Now, Buy Now, Pay Later.
Eu adoro ouvir essas histórias quando essas jabuticabas brasileiras começam a ser exportadas para outros lugares porque vai dando uma sensação de que a gente não está atrasado não, a gente está na frente. É, vanguarda do mundo. Na frente dos outros. Mas é verdade. Exatamente. Estou saindo do Brasil. Exatamente.
Fernando, engraçado que esse movimento de parcelamento, ele sempre fez muito sentido no Brasil por conta de dois aspectos. Primeiro, a renda média do brasileiro era baixa para comprar produtos que custavam muito mais caro do que isso.
Mas o segundo ponto é de que valia a pena parcelar por conta do nosso ciclo inflacionário. Então, fulano comprava hoje parcelado, estava garantido aquele preço que ele pagou, no cartão de crédito ou em qualquer outro produto financeiro. Então, estabelecia-se ali algum planejamento do que era esse orçamento, dado que os preços mudavam com uma velocidade gigantesca.
Agora que o mundo também é inflacionado, a economia americana está tendo que lidar com taxas de inflação maior do que elas estavam acostumadas no passado, os americanos estão entendendo o valor do parcelamento. E isso já virou um produto lá. Então os bancões nos Estados Unidos ainda têm dificuldade de oferecer isso, mas uma série de startups têm ganhado muito espaço. Por que os Estados Unidos, com essa desigualdade que os atravessa?
E com o aumento da inflação, está brasileirando as formas de pagamento. Então agora os americanos não vão estar mais tão chocados assim quando chegam no Brasil e entendem que a gente aqui pode parcelar qualquer coisa. Você pode parcelar remédio, você parcela comida.
Você parcela eletrodoméstico, você parcela, sei lá, a bala que você compra na banca de jornal. A gente parcela aqui qualquer coisa. Eu, vocês sabem que eu, vira e mexe, estou sentado com grandes executivos, dialogando sobre o que é o Brasil.
E aí um dos dados que mais me chamam a atenção é que quando executivos brasileiros que trabalham para empresas internacionais têm que convencer esses executivos internacionais de que aqui o parcelamento é importante, antigamente dava muito trabalho. Tempos atrás eu conversava com uma presidente de uma rede de joalherias aqui no Brasil.
E ela chamava a atenção da dificuldade que ela teve de convencer os gringos de que diamante não importava o valor do diamante, precisava ser parcelado, porque até rico parcelava diamante aqui. E aí o gringo não imaginava, como assim a pessoa tem dinheiro no banco, ela vai lá para fazer o parcelado.
Agora eles estão entendendo, né? Eles estão entendendo algo que as classes populares obrigaram o setor financeiro a fazer e vem se transformando numa prática não só para outras classes sociais, mas também fora do Brasil. Não sei se vocês lembram, mas há uns quatro anos atrás, os bancos tentaram se organizar para repensar o nosso modelo de cartão de crédito ou pensar como é que seria o parcelamento aqui no Brasil.
E rapidamente essa ideia foi deixada para trás, porque a sociedade brasileira se indignou com isso, porque tomou o parcelamento como instituição nacional. E é mesmo, é mesmo. É tanto que a gente está até exportando para outros lugares do planeta.
Perfeito. Michel Calferado com a gente, toda sexta, também toda quarta, também toda segunda. As vezes. Eu não. Eu não. Enfim, eu não. Eu não vou me alongar.
Eu sim, é bom, né? Mas eu não, eu pago tudo à vista, eu só compro o que eu tenho dinheiro pra comprar, entendeu? No máximo, um cartão de crédito, mas porque senão, é... Uma questão pra mim de organização mesmo, senão eu perco controle. O meu é de sobrevivência. É, mas no fim das contas é disso que se trata. Eu me lembro de uma entrevista que a gente fez sobre isso, eu também ouvi o podcast do...
da Folha sobre isso, o Café da Manhã. Com o Cauê Lopes. E aí eu fiz a pergunta para um professor, Tati, que a gente estava falando sobre isso. E eu perguntei, ele falou assim, atenção, isso não é ruim, ter crédito não é ruim, o problema é você. Ele sublinhou muito isso, né? O problema não é o crédito, o problema é como é que vai usar esse crédito. O problema é, o crédito é bom.
A questão é desorganizar, não ter educação financeira, comprar mais do que pode, não pagar, jogar, fazer bet, essas coisas todas. Mas o crédito é bom, nós temos crédito. Então, exatamente, o que Cauê vai colocar no livro dele, que é muito importante, é que como a renda aqui no Brasil é baixa e o acesso aos eletrodomésticos só é possível para as classes populares através do parcelamento...
A pessoa entra numa sinuca de bico que é diferente da minha, da sua e da Tati. Que por mais que parcelamos, se nos organizarmos, nós temos a possibilidade de comprar qualquer coisa pra nossa casa de um jeito à vista, né? Se a gente se preparar com cuidado. Isso. Ele vai mostrando que não, né? Que o acesso a uma televisão, a uma geladeira, ou, sei lá, uma máquina de lavar, numa família de classe popular, não é luxo, né? É o acesso à dignidade humana.
E isso cobra que essas famílias, para poder terem, para poder conseguirem, né? Para poder ter a chance de conseguir algum padrão de vida minimamente aceitável, elas entram num conjunto de parcelamentos que vão deixá-las com a corda no pescoço. E isso é muito mais grave do que só receber o salário e gastar o salário todo.
Isso implica numa série de outras questões. Por quê? Lazer se transforma num artigo de luz pra boa parte das classes populares. Porque o fulano sai do trabalho, ele senta no carro que ele tá pagando parcelado. Porque pra ter aquele carro, a prestação ele paga com o serviço dele de Uber. Ou qualquer outro desses aplicativos no final de semana. E aí o tempo com a família fica diminuto. Tempo de descanso reinventado. O problema é grave, né?
Crédito não é o problema. O problema é a gente deixar de pagar, porque aí pagam juros exorbitantes.
E é a tua vida ser tomada por prestação, né? Porque senão a gente vive para pagar boleto e viver é muito mais complexo do que isso, né? E muito melhor do que isso, né? E deveria ser mais divertido do que isso. Uma outra questão que a gente discutiu também, Michel, que é o seguinte. Quem tem mais dinheiro consegue pagar à vista e negociar. Fala assim, ó, vou fazer um pix agora. Quanto você me faz?
Aí quem tem mais dinheiro consegue um desconto maior. Aí quem não tem, fala assim, só consigo pagar em 12, então vai ser preço cheio, não tem como chorar, não tem aqui como conseguir um desconto. E aí você acaba beneficiando o mais rico. É. E olha, os ricos, exatamente, os ricos parcelam, né? Até porque quando eles parcelam, eles negociam preço e parcelam, o dinheiro fica no banco. De rico, o Michel entende.
Passar no diamante. Eu no outro dia fui comprar, às vésperas do meu aniversário, eu vou fazer um aniversário daquelas datas redondas, sabe? E aí você nesse dia fala assim, eu preciso lembrar de alguma coisa. Aí eu comprei uma fotografia de um fotógrafo que eu gosto muito. E aí perguntei pro fulano, moço, dá pra parcelar essa fotografia? Que é o meu presente de aniversário. Eu queria muito lembrar que com tal idade eu fiz, comprei tal coisa.
E aí ele disse, claro. Aí ele falou o nome de uma figura muito importante na economia paulistana. Um grande empresário disse, o fulano compra aqui, parcela também. É mesmo? Eu amo. Eu sou rico. Eu me senti bem agora. Um bilionário parcela. O que eu estou aqui para dizer para vocês é bilionário parcela. Parcelar não é o problema. O problema é viver para pagar a parcela. Que é o caso do que esse bilionário não precisa passar por isso.
É tudo sobre planejamento, né? Pague você a vista ou não, você precisa se planejar para ter o dinheiro para pagar a vista ou para ter o dinheiro e arcar com a dívida que você está fazendo sem ter que apelar para o desenrola depois, né? Isso. E, Tati, tem um negócio que é importante você falar do planejamento financeiro, que é uma provocação que eu tenho feito, sobretudo, aos especialistas em planejamento familiar, planejamento financeiro.
É muito fácil para mim e para vocês dois a gente ter na cabeça a ideia de que planejamento financeiro é o fundamental para a gente adquirir as coisas sem precisar pagar juros.
Mas para um cenário onde a renda média é tão baixa como no Brasil e as coisas custam tão caras, o tal do parcelamento é a única possibilidade que essas famílias têm de ter essas coisas. Então, eu diria que esse embrólio do parcelamento não vai se resolver só com caderneta e caneta.
A gente precisa ter salários maiores, maior distribuição de renda e mais possibilidades de aquisição que não seja via parcelamento e crédito. Perfeito. Michel Alcoforado, que vai já já completar 30 anos, está com a gente toda segunda, quarta e sexta. Para onde vamos? Aqui a gente tem Michel em três vezes. Em três vezes sem juros. Três vezes sem juros. Segunda, quarta e sexta. Com 30 anos eu tinha cabelo e a barba não era branca. Estava ótimo.
Até segunda. Beijo, até segunda. Tchau, tchau.