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Rita Lisauskas critica idealização da maternidade e defende limites sem violência: ‘Não tem como não errar’

10 de maio de 202622min
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Em entrevista ao Revista CBN no Dia das Mães, jornalista falou sobre culpa, excesso de telas, adolescência, rede de apoio e os desafios da criação dos filhos

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Participantes neste episódio3
F

Fernando

HostJornalista
D

Daniel Becker

ConvidadoPediatra e sanitarista
R

Rita Lizauskas

ConvidadoJornalista
Assuntos7
  • Educação Infantil e ViolênciaConfusão entre gentileza e permissividade · Importância do contorno e segurança · Desafios da adolescência · Consequências dos atos
  • Uso de Telas por CriançasVício em telas · Falta de espaços verdes e políticas públicas · Pandemia e o uso de celulares
  • Omissão e falta de validação parentalHumildade para escutar os filhos · Relações horizontais com os filhos · Autoritarismo vs. diálogo
  • Paternidade e MaternidadeCulpa materna · Felicidade na maternidade · Idealização da maternidade
  • Como lidar com birrasImaturidade cerebral da criança · Frustração infantil · Violência vs. abordagem respeitosa
  • Problematizações de redes sociais sobre maternidadeExcesso de informação · Curadoria de conteúdo · Rede de apoio entre mães
  • Paternidade do pai da raíçaSobrecarga materna · Importância do colo do pai e da avó · Desapego e divisão de tarefas
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E a gente fala mais sobre os dias da mãe, sobre o dia das mães, neste revista CBN especial, né? A gente fala bastante sobre elas porque merecem, sem dúvida nenhuma. E a nossa convidada agora é Rita Lizauskas, que é jornalista, é autora do livro Mãe Sem Manual. Tem Mãe Sem Manual também no rádio por pouco tempo.

E também tem o recém-lançado Os Mil Dias do Bebê, saiu recentemente pela editora Planeta com o pediatra Daniel Becker. Rita, bem-vinda à CBN mais uma vez. Feliz Dia das Mães e obrigado por conversar com a gente hoje. Oi, Fernando. Tudo bem? Boa tarde. Um prazer estar com vocês. Como e de que forma você começa a falar, a escrever, a entrar nesse mundo de maternar? Como é que é essa história?

Então, Fernando, na época do Facebook, Facebook ainda existe, né? Mas a gente não usa mais do jeito que usava. Eu comecei a escrever algumas coisas sobre essa experiência de...

de maternidade, de criar uma criança. E aí os textos que eu comecei a escrever começaram a chamar atenção, começaram a me convidar a falar sobre o assunto, aí nasceu o primeiro livro, aí nasceu a coluna na Rádio Eldorado. E aí eu acabei me reinventando a partir dessa reinvenção que eu tive como mãe.

Esse livro, recém-lançado, Os Mil Dias do Bebê, com Daniel Becker, como é que surgiu a ideia, o contato com ele, como é que foi? Então, eu tinha entrevistado o Daniel Becker já para a minha coluna, a gente se aproximou depois dessa entrevista, e aí a editora Planeta convidou a gente para escrever uma espécie de guia para os pais de primeira viagem, e pegou esse conceito dos mil dias do bebê.

que é um conceito muito poderoso da medicina e da parentalidade, que é uma fase crucial para a vida de uma criança e começa na gestação. Então, quando você pensa, o que são os mil dias do bebê? Começa na concepção.

E aí a editora chamou a gente para fazer esse guia. Na verdade, a ideia foi renovar algo que já existia quando a gente era pequeno, que chamava o livro do bebê, eu acho, que era do doutor Delamare, não sei se você lembra. Era um livro que passava de mãe para tia, tinha uma prima grávida, você ia lá e emprestava esse livro para ela. Era um livro bem grande.

que falava sobre cuidado dos filhos, né? Mas aí eu até tive a curiosidade de comprar esse livro, a minha mãe tinha e depois eu não sei onde foi parar. Eu comprei esse livro e vi que era muito prescritivo, assim, sabe? Você tem que fazer isso e aquilo para chegar a tal objetivo.

E hoje em dia não é mais assim, né? A gente sabe que existem várias formas de criar uma criança. Então, a ideia foi a gente fazer esse guia para esses pais de primeira viagem, para eles entenderem a importância desses primeiros mil dias na vida dos filhos.

Legal. O Daniel Becker também, a gente sempre conversa com ele aqui, tem duas bandeiras que nós levantamos, eu estou com ele nessa, que é a primeira, mais praças nas cidades e outra, menos lição de casa para as crianças. São as duas que a gente levantou, vamos lá, vamos brigar por isso. Esse de mais praças nas cidades, eu acho que é fundamental, porque a gente reclama tanto das crianças nas telas.

Mas se a gente olha ao redor, onde que essas crianças podem brincar? Antes a gente brincava na rua, hoje a rua não é mais segura. Daí não tem mais praça, a cidade está toda impermeabilizada. Então eu acho que... E é uma coisa que aparece no livro também, né? Essa importância da criança brincar ao ar livre. E a minha questão com a lição de casa com ele, eu falei assim, poxa, várias vezes...

O filho chega em casa, daí assim, poxa, queria descer pra jogar uma bolinha, queria fazer alguma coisa diferente. Não, tem que fazer lição de casa. Assim, pô, mas tem lição de... Às vezes o cara faz no carro aquele garrancho que é pra poder dar tempo de chegar e jogar um futebol. Tu já passa tanto tempo na escola, né? Eu tô com você nessa do menos lição de casa, viu, Fernando? Não seria, assim, não precisa acabar, sabe? Mas, gente, chega em casa, aquele volume gigante, cara.

Aí o tempo que eu poderia estar com a figura tirando uma onda, saindo da tela, não, tem que fazer a tal lição de casa.

Rita, vamos lá. Tem os percalços que estão aqui nessa pauta, a gente vai falar um pouquinho sobre isso também para marcar esse Dia das Mães. Mas eu queria começar falando um pouco de felicidade, do sentimento de se sentir contemplada, realizada, ser mãe em praticar a maternidade. Como é que você descreve isso? Então, eu acho muito injusto.

você achar que toda a felicidade do mundo está na maternidade. É muito decepcionante quando você bota esse peso tanto nessa coisa de ter um filho, quanto nele trazer essa felicidade para você.

Então eu acho que quando um filho é bem-vindo, quando você quer ter um filho, quando você planeja isso, eu acho que você tem que ter em mente que não vai ser uma felicidade imediata, porque isso está na idealização e a idealização é muito ruim.

Então, assim, não vai ser uma felicidade imediata. Talvez você nem olhe para aquele bebê e fale, meu Deus, quem é essa pessoa? Porque existe esse senso comum de dizer que você vai se apaixonar imediatamente pelo seu filho. E pode ser assim, mas pode não ser assim. Então, eu acho que a felicidade pode estar nas pequenas coisas. Não é só felicidade, tem muito perrengue, tem muita coisa.

no meio desse caminho. Então, eu acho que sim, eu sou muito feliz sendo mãe, mas eu acho que tem muita idealização nisso também, sabe? Perfeito. Bom, vamos falar então sobre as imperfeições, já que a maternidade rejeita planejamentos, tem tudo a ver com o seu trabalho, que é o Mãe Sem Manual. Como é que você descreve isso? Está tudo bem errar? Está tudo bem falhar? A nossa geração lida melhor com isso ou não?

Olha, não tem como não falhar, Fernando, não tem como não errar, né? O verbo errar, eu até costumo falar, eu erro, tu erras, ele erra, né? Todos nós erramos. Então, eu acho que o erro faz parte de tudo. Eu acho que, pelo menos para mim, na minha experiência, é ter humildade de escutar também, sabe? Quantas vezes o meu filho já falou, mãe...

não é assim, mãe, eu não concordo. E aí a gente tem que parar para ouvir por que você não concorda, por que você acha que não é assim? E aí a gente perceber quando a gente erra. Eu acho que os pais de hoje em dia, os pais da nossa geração, eles estão mais abertos a isso, porque não sei como é que você foi criado, mas eu fui criado...

numa família muito amorosa, mas ao mesmo tempo autoritária, né? Que era aquela coisa de é do meu jeito e é assim porque eu quero, né? E isso é muito ruim para o relacionamento entre pais e filhos. Então, acho que a gente pegou um pouco dessa experiência, né? De uma relação mais vertical, né? Do pai, a mãe que mandam e o filho que obedece. E estamos construindo coisas mais horizontais, relações mais horizontais com os nossos filhos. Dá mais trabalho.

viu, porque é muito mais fácil quando você fala, é do meu jeito e é do jeito que eu quero, né, não tem, não tem o contraponto quando você é autoritário, né, e quando você quer escutar, você tem que, às vezes, pedir desculpas, às vezes mudar de ideia, né, então eu acho que, pelo menos assim, o que eu tenho visto, são muitos pais querendo ter relações diferentes com os filhos, né, diferentes daqueles que eles tiveram com os próprios pais.

Sabe que no meu caso sempre teve uma relação que era de compensação ou de recompensa. Então era sempre muito atrelado ao estudo. Então assim, se você passar de ano, você faz tal coisa. Se você passar de ano, você ganha tal coisa. E aí às vezes o presente não tem nada a ver com a... Às vezes não tem relação sobre isso. Mas sempre foi algo nesse sentido. Só faz, só ganha, se passa. Se tira nota boa.

Hoje eu tento não fazer isso, sabe? Eu tento mediar melhor essa questão. Como é que você vê isso? No meu caso, eu não ganharia nada. Era assim, você tem que passar de ano porque é sua obrigação. Ah, é? Nossa, tudo dependia disso. Não, você ainda ganhou... No final desse rolê, você ainda ganhava um presente. Comigo, não. Era assim, você tem que passar de ano porque você tem que passar de ano. Você só estuda.

Eu tinha muito disso, de compensação, de recompensa. É, não sei. Agora, tem outra questão também, que é a permissividade. Isso é interessante da gente falar. Como é que você vê mães lidando com isso? Quais os problemas vêm nisso? A importância...

E é importante a gente falar dos limites, né? Não dá para fazer tudo, eu não vou autorizar você a fazer tudo, não vou ser permissivo em tudo. Como é que você tem visto mães ao seu redor lidarem com isso? Então, eu acho que tem muita gente que confunde você ter uma relação...

horizontal e gentil, sem bater, sem gritar, sem violência, é com ser permissivo. Eu acho que dá para você colocar contorno, e as crianças e os adolescentes precisam de contorno, mas você pode fazer de um jeito amoroso. Então, assim, não, você não pode fazer isso, e pode dar os motivos ou não dar os motivos, e você pode fazer isso, você pode dar esse limite sem gritar.

sem ser agressivo. Eu acho que o que acontece com muitos pais da nossa geração é que eles acabam confundindo do tipo eu não posso dizer não. Não, você pode, você deve, você tem que dizer não, porque você é o adulto da relação, né? Você que tem que dar o contorno, é você que tem que garantir a segurança dessa criança, é você que tem que garantir a sanidade dessa criança, né? Então eu acho que há uma confusão.

Aqui em casa, a gente sempre deu limites de formas respeitosas, né? Não, você não pode fazer isso. Agora que eu tenho um adolescente em casa, que é muito mais difícil, e isso ninguém fala, tá, Fernando? É muito mais difícil ter um adolescente do que trocar a fralda de madrugada. Trocar a fralda de madrugada era fácil. Não reclame dessa fase, não reclame.

Não, eu preferia mil vezes trocar cocôs explosivos de madrugada do que ter que lidar com algumas questões de adolescente. É muito mais difícil. Não é que é mais difícil, dá mais trabalho. Dá mais trabalho. É muito recompensador também. Não vou aqui...

é criminalizar a adolescência, né? Adolescência é uma fase muito interessante. Mas, assim, quando você tem uma relação horizontal e respeitosa, eu acho que quando chega nessa fase também, é só você continuar seguindo o que você já tinha feito, entendeu? Falar, poxa, não, você tem que chegar em casa a tal hora, entendeu? Não, você não vai sair a tal hora por causa disso, daquilo e daquilo outro.

E você pode fazer isso sem gritar, sem ser violento, sem colocar de castigo, né? Então, assim, eu sempre tentei fazer isso como uma constante, não é? Agora que virou adolescente eu vou ter que mudar o jeito de maternar. Não, mudou a fase, né? Que nem videogame, ficou mais difícil, a fase seguinte é sempre mais complicada, mas você mantém ali o jeito de jogar que você teve ali desde o começo. Castigo funciona?

Cara, eu não me lembro de ter colocado de castigo. Não me lembro. Eu acho que nunca coloquei de castigo. Mas eu acho que funciona, sim. Não sou contra castigo. E castigo é, de repente, falar cara, você não cumpriu o combinado, então agora você vai ficar sem essa coisa por tanto tempo. Entendeu? Porque se tem um combinado, tem que ter uma consequência. Se o combinado...

não for cumprido, né? Então eu vejo castigo nesse contexto, né? Não é aquele castigo de botar virado para a parede pensando na vida, eu acho que o castigo tem que ter um porquê e tem que ter um combinado antes, né? Pô, nós combinamos um negócio, você não cumpriu, então você vai perder alguma coisa. Eu acho que nesse contexto, sim, eu acho que vale a pena. Eu sempre também pensei no seguinte, e tem que ter relação com o fato, então assim, um brigou com o outro, tenho dois meninos, né?

Aí brigou com o outro, brigou no futebol, na quadra do prédio. Aí deu treta, então ok. Então a gente vai tirar um pouquinho do futebol, porque tem relação com o que vocês fizeram. Tentar colocar no mesmo ambiente essa consequência. Isso eu sempre pensei. Não sei se dá certo. Eu acho que ter consequência é muito importante. É muito importante. Porque o mundo, você vai ter consequência dos seus atos no mundo.

Então, assim, você não pode ter passado a vida inteira sem saber que existiam consequências para os seus atos e descobrir só depois que cresceu, né? Poxa, meus pais nunca me mostraram que havia consequência para as coisas que eu fazia, que não estavam de acordo com o que era combinado, né? Eu acho que essa coisa de fazer entender, porque muitas vezes o que acontece é que o castigo, principalmente quando a criança é muito pequena, ela entendeu de onde veio aquilo, entendeu?

Ela não entendeu por que aquilo está acontecendo para ela. E aí, para quê? Ali é só, poxa vida, esse adulto em quem eu confio está bravo e virando as costas para mim, entendeu? Por que ele está fazendo isso? Então, eu acho que tem que ter ali uma consciência, né? Eu fiz isso, o combinado era aquilo, então eu vou ficar sem aquilo que a gente combinou.

Agora, Rita, a sabedoria de criar filhos, de maternar, sempre foi passada de geração para geração. Então, assim, eu ouvi muito minha mãe e meu pai, acho que você ouviu sua mãe, o pessoal sempre passou de geração para geração. Isso tem mudado desde o surgimento das redes sociais e aí tem muita gente que vai procurar alguma coisa na rede social e aí talvez não haja aquela boa curadoria e aí pode piorar o que está ruim. Você percebe isso?

Nossa, total, total. E quando a gente foi falar do livro, nesse mesmo revista CBN, com a Pétria, Pétria está de folga no Dia das Mães, é isso? Está de férias, minha amiga.

Ah, está de férias, está de férias. Quando a gente foi, eu e o Daniel, falar do Mil Dias, aí no Revista CBN, a Petra falou exatamente isso, que ela gostava de ter um livro físico na mão, e é um livro grosso, de 600 e poucas páginas, porque ali ela sabia que havia uma curadoria e que muitas vezes as redes sociais apresentam tanta coisa para a gente que a gente não sabe o que escolher.

Então, eu acho que ao mesmo tempo em que colocou a gente em contato com outras mães, com outras experiências, e foi importante para a gente entender que, de repente, não era só a gente que estava passando por aquilo.

Ao mesmo tempo, é muita informação, né? E às vezes, quando você está ali meio perdido, sem saber qual caminho que você vai tomar, é ruim, porque não tem ninguém ali te guiando. Então, acho que tem coisas muito boas. Quando meu filho nasceu, em 2010, me ajudou muito encontrar outras mães que moravam perto, que estavam passando pela mesma fase, mas, ao mesmo tempo, hoje...

você tem muita informação, né? E, de repente, se não tem alguém ali fazendo uma curadoria para você, se você não tem ali uma pista do que procurar, você pode ficar meio que perdido, assim, sabe? Rede de apoio, né? Como é isso importante, não, Rita? Nossa, muito, muito, muito, Fernando. Tá. Agora, quem cuida de quem cuida? Ah, pois é, pois é. E hoje, dia das mães, né? Eu acho que as mães são...

são as mais sobrecarregadas quando a gente pensa nessa coisa de criar filhos, né? Porque o senso comum diz que a gente, só a gente sabe fazer tais e tais coisas, né? Ai, comida de mãe, ai, o colo de mãe. E caramba, o colo de pai também é muito legal, o colo da avó, o colo do avô, né? Então, é sobre essa coisa da rede de apoio. A mãe é muito importante.

Mas se a gente for a única cuidadora ou a figura central, isso acaba sobrecarregando. Então, eu acho que, inclusive, nós, as mulheres, precisamos aprender a dividir, a desapegar, muitas vezes. Porque às vezes a gente compra esse discurso, ah, não, mas ele só dorme comigo, ah, não, mas ele só come a minha comida. Isso pode ser pesado para a mulher também. Então, acho que a gente tem que perceber que é muito pesado se a gente tiver que cuidar.

de uma criança 90% do tempo, se a gente tiver que trabalhar, se a gente tiver que cuidar da casa. Então, eu acho que, respondendo essa tua pergunta, quem cuida de quem cuida, se tiver todo mundo cuidando da criança, a gente tem mais tempo de se cuidar, sabe? Eu acho isso muito importante.

Bom, você falou videogame, eu preciso falar sobre telas, porque para muitos pais e mães que eu converso, olha, Rita, tela tem sido um desafio, talvez esteja naquela prateleira lá em cima, num lugar de destaque, todo mundo perdido, muitos adoecendo. Como é que você tem visto isso? Onde a gente vai parar com isso?

Cara, Fernanda, eu acho que essa coisa da lei, né, que proibiu as telas na escola, né, a não ser com fins pedagógicos, isso eu acho que foi um passo muito grande e eu acho que a partir daí os pais viram, já com os primeiros dados que apareceram, que a gente está enfrentando um problema absurdo, né? Então, assim, eu dei celular para o meu filho quando ele tinha 10 anos porque a gente tinha entrado na pandemia.

E foi muito ruim. Eu também fiz isso. Mas ali eu vi que ou eu fazia isso ou ele ficava isolado dos amigos. Só que a tela é uma coisa que vicia enormemente pelo design dela, por esse funcionamento, por esse scroll infinito, por esses vídeos curtos que vem um depois do outro, depois do outro.

Então, eu acho que a gente realmente está enfrentando um problema que os nossos pais não enfrentaram, que é realmente ter colocado na mão dos nossos filhos uma coisa que vicia. Ao mesmo tempo, eu acho que quando a gente não tem essa questão da rede de apoio para as mães, por exemplo, aí a gente não pode cobrar delas.

Poxa, por que você está dando tela para o seu filho? Porque eu sou a única que cuida dele. Eu preciso trabalhar, eu preciso fazer isso, eu preciso fazer aquilo. Então, eu acho que a gente tem um problema social, um problema de saúde pública e um problema de políticas públicas. A gente tem que pensar...

nos espaços verdes para as crianças, na divisão do cuidado, nas creches funcionando em horário ampliado, na creche para todo mundo. Então, acho que é um problema multifatorial. A gente não pode colocar esse problema no colo da mãe, no colo do pai, sabe? Mas que é um problema gigantesco, é. Como é que você define a birra?

Então, até a gente, quando a gente estava escrevendo sobre isso no livro, o Daniel não gosta dessa expressão birra, né? Porque ela tem um peso muito grande, pejorativo, né? Total, claro. Só que a gente acabou usando o termo porque é o termo que as pessoas entendem, né? Então, assim, a birra nada mais é do que uma imaturidade cerebral da criança.

ali de não conseguir se frustrar, de não entender aquela frustração. Então, assim, não é porque a criança é mal educada. Quantas vezes a gente ouviu, a criança se jogando lá no chão do mercado e você olhou para aquela criança e para os pais e falou, nossa, que criança mal educada, quem nunca fez isso? Só que a gente tem que entender, primeiro, que isso é uma coisa normal, que as crianças vão passar por episódios de birra.

porque elas não têm maturidade suficiente para entender a frustração que elas estão enfrentando. Mas existem várias formas de você lidar com isso, e nenhuma delas passa pela violência. Porque, como eu disse no começo do nosso papo, nós somos os adultos da relação.

Então, a gente escreveu no livro um capítulo bem legal, sobre como entender a birra, como lidar com a birra, com as crianças. Mas, assim, eu acho que o mais importante é o entendimento de que não é falta de educação, não é culpa das crianças, ninguém tem culpa, mas a gente precisa entender e precisa saber como abordar isso com os nossos filhos. E, mais uma vez, não é na gritaria, não é na violência.

Rita, muitíssimo obrigado pela conversa, um prazer falar contigo sempre, e parabéns pelo seu trabalho, e feliz Dia das Mães mais uma vez. Obrigada, Fernando, obrigado, eu adoro vocês, e amanhã dá um beijo na Tati Vasconcelos para mim, pessoalmente. Perfeito, pode deixar, obrigado. Dá um beijo na bocheja dela e fala, Rita que te mandou.

Parei, sem dúvida. Obrigado, Rita. Bom domingo para você. Felicidades aí. Divirtam-se todos. Rita Lizauska, jornalista, é autora do livro Mãe Sem Manual e também do Os Mil Dias do Bebê. Saiu recentemente pela editora Planeta e escreveu junto com o pediatra Daniel Becker.

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