Mãe idealizada, mãe vilanizada, mãe elaborada: como amadurecemos nossa relação com as mães
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Nando
Tati
Carol Chukian
- Ideal de mãe perfeitaMito da mãe perfeita · Mãe vilanizada · Mãe elaborada · Frustrações e faltas maternas · Amadurecimento da relação mãe-filho
- Redefinindo o propósito e a suficiênciaFalar das faltas sem culpa · Não culpar a mãe · Desconstrução da idealização materna · Luto pela mãe idealizada · Mãe suficientemente boa
- Individualidade e Amor MaternoAmor é um verbo · Legado de afeto e cuidado · Maternar uns aos outros · Memórias sensoriais e rituais · Coragem e inspiração materna
- Relação mãe-avó na educação infantilOlhar dos primeiros cuidadores · Herança e looping de inadequação · Traumas geracionais · Mães como meninas a quem faltou afeto · Perda do colo da mãe
CBN Amores Possíveis, com Carol Chukian. Carol Chukian, boa tarde.
Boa tarde, Tati. Boa tarde, Nando. Boa tarde, Carol. Carol, hoje vai falar sobre mães, tipo de mães. As nossas mães são tão parecidas em algumas coisas, porque diz que mãe é tudo igual, mas mãe pode ser tão diferente, né, Carol? E a gente carrega tantas frustrações similares, né, Tati?
Hoje o convite dessa coluna é para a gente ter uma coluna ambígua, ambivalente e pensar nos ecos desse Dia das Mães, de como é que a gente pode se autorizar a amar e odiar, a falar das faltas, mas também das presenças. Então eu quero falar da mãe idealizada, a mãe vilanizada e fazer um convite para a mãe elaborada.
Como a gente amadurece a nossa relação com as nossas mães para reconstruir um amor possível, tanto com elas quanto com nós mesmos. Porque eu acho que poucas relações são tão carregadas de mito quanto a relação com a mãe, né? De é o maior amor do mundo, a mãe é o amor incondicional, é o porto seguro, é a pessoa que te entende sem você ter que falar nada, né? Freud já coloca mesmo.
Eu vivo citando aqui que a gente se entende a partir do olhar dos nossos primeiros cuidadores, da forma como a gente foi ou não foi acolhido. Isso gera uma angústia gigante tanto para as mães quanto para os filhos. E o que eu percebo é que a gente fica numa eterna herança e num looping de inadequação, tentativa de compensação e geração de novos traumas nos filhos, que vão traumatizar os seus filhos também.
Aí me vem Elis, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. É incrível. E tem uma outra citação que eu trago muito aqui, né? Que é Ferenczi, que é esse grande psicanalista que eu estudo, ele fala, raspe o adulto e encontrará a criança. A gente falou muito disso quando a gente fez a análise do valor sentimental, falando daquele pai.
E acho que vale a gente olhar para as nossas mães também como meninas a quem lhes faltou afeto, palavras de apoio. Eu quero que a gente possa honrar essas crianças possíveis e também honrar as nossas faltas. Então, poder falar da casa e da falta, da presença, da cobrança, da proteção.
e da invasão. Eu escrevi na folha, na minha coluna da semana passada, sobre onde a gente descansa quando a gente perde o colo da mãe. Né, Tati? É duro.
E aí eu recebi muitos e-mails e mensagens de pessoas que se sentem sem colo da mãe, mesmo com mães presentes. Também não é raro. Não é nada raro. E por isso que eu quis trazer esse espaço. Então quero abrir para os ouvintes também, para vocês poderem compartilhar. Quais foram essas faltas, esses desencontros, as dificuldades que você viveu ou vive com a sua mãe?
e como isso reverbera em você hoje. Mas também quero abrir um espaço para a gente poder falar de quais coisas você aprendeu com ela, você viveu, que coisas essa mãe te proporcionou, como ela te ensinou a sentir, ou como ela fez você se sentir. Pelo que você é grato pela sua mãe, sem a gente cair num lugar de santificação.
Porque eu acho que a gente também meio paralisa a hora que você elogia, então parece que essa mãe está nesse lugar da ordem.
da mãe perfeita. Acho que o convite de hoje é exatamente a gente poder destruir esse mito da mãe perfeita e dar espaço para essas duas falas. E aí eu vou ficar muito curiosa até para ver o que vem mais dos nossos ouvintes. Então primeiro eu já quero deixar aqui o Claudio que fala assim, um registro singular, singelo, perdão, e aí
de paixão pelo artigo sobre ter mãe, não ter mãe no Dia das Mães, que você citou há pouco. Ele conta que eu estava em cada vírgula daquele texto. Aí eu falei assim para ele, Cláudio, conta mais. Então, vou aguardar. Cláudio, espero as suas palavras. E primeiro, eu agradeço e acho que esse gesto é um gesto também...
que é um convite que eu ia fazer mais para frente na coluna, mas que eu quero fazer agora, que é da gente poder maternar uns aos outros e poder falar dessas faltas. Porque eu acho que parte desse mito da mãe perfeita é a gente ter a sensação de que todo mundo tem uma relação maravilhosa com a mãe, menos a gente. Principalmente quando a gente é criança.
Acho que é importante a gente entender que sim, algo me faltou e que falar dessas faltas não é...
culpar a mãe, porque muitas vezes eu vejo que a gente nem se autoriza, né? Então, a gente não fala, ah, essa mãe não me escutou, ou ela só me criticou, essa mulher competiu muito comigo, ela me fez cuidar dela quando eu era criança que precisava ser cuidada, porque daí a gente logo justifica. Não, mas ela era uma mãe solo, tinha que cuidar de mim e dos meus três irmãos.
ou a vida dela foi muito difícil, ou eu sei que ela estava num quadro depressivo. Você pode saber tudo isso. Nomear não é você vilanizar a sua mãe, é você sair do desmentido, é você poder dizer sim, aquilo me machucou, ainda que não tenha sido a intenção. Sim, me fez falta um colo, e talvez sempre vá faltar nossa...
ela não ter me escutado faz com que hoje eu tenha muita dificuldade de falar, seja numa reunião, seja para colocar um incômodo para uma amiga, seja para puxar uma discussão com a minha companheira ou com o meu companheiro. Então, eu quero fazer um convite para, ao olhar essas faltas, a gente também limpar o terreno da idealização que vem de nós, filhos.
acho que a gente tem que se perguntar qual era a sua idealização materna, né? Com quem você comparava? Que ideal de mãe é essa? O que você esperava dessa mãe, da relação de vocês? Porque eu acho que muitas vezes a gente também fica só preso no lugar do filho faltante e tem algo do poder pensar na gente, né? Eu vejo, por exemplo, eu que perdi minha mãe com cinco,
Eu idealizo uma relação perfeita, gente, é óbvio. Olha que legal, Carol. E nada garante que seria, né, Carol? É isso, é isso, Tati. Eu tenho que entender que talvez eu amplifique as minhas faltas.
Porque eu não passei uma adolescência com uma mãe. E poderia ter sido muito difícil. Vocês poderiam ter rompido. Sei lá, estou aqui inventando mil hipóteses. É isso. Exatamente esse o ponto. A Sônia, nossa ouvinte, ela fala... Olha que coincidência. Ela também perdeu a mãe.
com 5 anos. Logo, ela não sabe como é ser filha, tampouco tem um modelo de mãe a não ser a mãe dos outros. Aí, hoje, ela tem filhos, ela procura ser uma mãe suficientemente boa, colocou entre aspas aqui. E vou inicote. Acolho, ajudo, mas também cobro, quando necessário, sou a mãe que consigo defini-la.
E é muito importante tanto as mães que estão nos ouvindo se autorizarem a serem as mães suficientemente boas, as mães que conseguem, até porque o Inicot já dividiu todo esse estudo com a gente, que é maravilhoso, que é a mãe suficientemente boa é a melhor mãe para os filhos, que é a mãe que falta, que erra e que repara. A gente tem uma mãe que se cobra a perfeição, que fala, nossa, eu não posso gritar com meus filhos.
Você tem que poder ser a mãe que vai gritar e depois vai falar, desculpa, eu me excedi. Não é legal eu falar nesse tom com você, ainda que eu ache que você precise de uma bronca. É a mãe que vai ensinando a reparação. Aqui, talvez fique cinco dias sem colocar você para dormir, porque está até mais tarde no trabalho, para proporcionar uma vida com mais conforto do que ela teve. Mas você também tem o direito de se sentir...
abandonado. Isso dela falar da mãe dos outros, muitas vezes a gente compara nesse lugar de nossa, mas a mãe de fulana só elogia ela e a minha mãe sempre me critica ou a minha mãe é muito dura e aí você percebe que ela também teve uma mãe muito dura, que os elogios são difíceis pra ela.
Eu acho que nesse momento a gente também tem que se convidar a fazer o luto da mãe que a gente gostaria de ter tido. Porque essa mãe, como a Sônia diz, né? Eu sou a mãe que eu consegui ser.
Foram as nossas mães também, que conseguiram e que não conseguiram. Eu sempre cito esse trecho da Carla Madeira do Tudo é Rio, que eu acho maravilhoso, que ela fala, a Dalva poderia ter feito mil coisas, poderia ter voltado para a casa da mãe, poderia ter pedido colo para os irmãos, poderia ter contado tudo para o delegado, poderia ter tido outro filho. Dalva poderia tantas coisas, se pudesse. Quem vê de fora faz arranjos melhores.
Mas é bem de dentro do lugar que não se vê que o não da conta ocupa tudo. Nós como... Olha aí, eu ia falar nós como mães. Opa, um beijo Freud. Olha o ato falho. Beijo para o ato falho. Vou levar para a minha análise. Vocês como mães e nós como filhos podemos dizer que a gente não deu conta. Não dei conta de...
de passar minha adolescência, né? Pensando, putz, como é que será? Eu contei pro meu pai a minha primeira vez, né? Fui comprar motos com ele. E eu pensava, como é que você iria ter contado pra uma mãe? Qual conselho ela me daria? Não dá pra saber. Não dá. Eu tenho que poder viver esse luto. E a gente tem que poder olhar pra fazer esses lutos as nossas mães.
como crianças grandes, perceber que elas também não receberam tudo, que elas também são atravessadas por faltas, nesse lugar ambivalente, não é, ai, coitada da minha mãe, eu não posso sentir nada, mas é pensar, o que atravessou a história dela e se repetiu em mim? O que será que ela nem se deu conta? O que será que ela tentou interromper, mas não conseguiu?
E o que eu carrego em mim? Porque eu acho que aqui a gente olha com uma empatia e com uma ternura para essa mãe que não é ingênua, ela é trágica no sentido bonito da palavra, que é a gente poder nomear, que o não dar conta ocupou tudo, que muitas vezes esse excesso de opinião...
é a tentativa dela se fazer importante, porque agora você tem 44 anos e tem a sua carreira, e tem a sua casa, e tem as suas coisas. Então, ela criticar o jeito como você guarda os copos na cozinha ou o dia que você põe o lençol para lavar, é um jeito dela querer ser relevante. É a gente poder olhar com mais compaixão, mas também poder falar para ela, mãe, eu me irrito com isso. Posso pedir para você...
Não dá mais palpite na minha roupa e vamos conversar sobre outros temas. E aí a gente pode se colocar não como as crianças faltantes, mas como adultos que vão se relacionar com adultos, que vão também poder maternar essas mães, que vão poder agradecer, vão poder nomear o que faltou. E aí por falar em agradecer...
eu queria deixar um espaço nessa coluna também para a gente poder falar do que ficou delas na gente, que talvez a gente nem saiba. Antes de perguntar para os ouvintes, eu queria perguntar para vocês dois e vou me colocar na roda também para não sair colocando...
Vocês, já vou marejar meus olhos, ontem eu revi os vídeos, meus pais gravavam vídeos com aquelas câmeras grandes, vi a HS em casa, no parquinho do prédio, e aí eu fiquei vendo vídeos da minha mãe conversando comigo, e ela era muito doce e muito carinhosa.
E eu talvez de algum jeito tenha herdado esse carinho e essa doçura dela, sem nem mesmo saber racionalmente. Ela era uma mulher que amava marzipan. E todo dia das mães eu encomendo uma torta de marzipan.
para me conectar com ela. Eu acho que ela amava crianças e ela largou a profissão do pai e do avô, que eram engenheiros, para abrir o primeiro bife infantil aqui em São Paulo, nos anos 80. E eu larguei a minha carreira de publicitária para ir trabalhar com crianças grandes na psicanálise. Então, eu queria ouvir também da Tati, que está com a mãe.
Ausente e donando. O que as mães de vocês deixaram em vocês? Para a gente poder homenagear. Para você primeiro. O cuidar. E o amor ao... A cozinha, a comida. Ao lidar com a comida. Então cuidar porque tem esse cuidado de sempre estar presente para cuidar.
Então, acho que hoje eu cuido da minha família por causa dela, que eu aprendi a cuidar com ela. E ela cozinha tão bem, acabou passando pra mim. Eu adoro cozinhar. Por mim, eu ficaria o dia inteiro na cozinha, cozinhando, transformando os alimentos. Eu gosto de ver quatro bocas de fogão acesas ao mesmo tempo. Eu adoro isso, porque ela faz isso com baita carinho. Nosso rito lobo. Isso é ritualizar, né, Fê? É criar memórias. A gente tá tão no racional. Memórias sensoriais. É transformar.
Algo que poderia ser do cotidiano, no simbólico. Cozinhar para a família é no trilho de afeto. A gente está transportando agora para o digital, a gente vai ter que fazer isso com mais rapidez, as receitas dela que estão no caderninho, para a gente e para os netos também.
Mas não se desfaz desse caderno nenhum, não. Guarda ele. Eu tenho alguns, embora não use. Como vocês sabem. Putz, minha mãe tá comigo todo dia, o dia inteiro, Carol. Eu lembro dela nos momentos mais inesperados, assim. Ontem foi dia das mães e eu não tive esse momentinho de ai meu Deus, que saudade da minha mãe, porque eu tava ocupada.
Mas esse momentinho chega pra mim inesperadamente muitas vezes. Muitas vezes, assim. Não marca a hora. Não marca dia, sabe? Mas acho que eu gosto de um baralhinho e de jogos e de reunir as pessoas ao redor da mesa. Eu aprendi com ela. Não só com ela, né? Minha família era uma família muito jogadora, muito conversadora.
que gostava de ficar ali reunida em torno da mesa com atividades lúdicas, jogando mímica, jogando jogos de tabuleiro, jogando baralho e tal.
Mas eu acho que eu sinto muita falta da minha mãe nas minhas conquistas profissionais, porque ela era muito entusiasta da minha carreira. E nessas horas eu acho que eu... E assim, no meu estilo de vida eu lembro dela todos os dias. Todos os dias porque acho que eu virei a mulher que...
Que ela... Eu não sei fazer essa frase. Eu virei a mulher que ela criou a menina pra ser. Sabe? Sim. E eu não vou chorar hoje, não, tá? Não vou começar a semana chorando no microfone, não, tá, Carolina? Você para. Mas que a gente possa homenageá-las, né? Assim, ouvindo vocês dois, é como as mães...
transmitem afeto para a gente através da ação. Eu trago aqui sempre, né? Bell Hooks, amor é um verbo. Eric from Amor é o que o amor faz. É o fazer a comida, é o fazer a família junta no baralho. É o fazer de investir e incentivar o seu desenvolvimento profissional, intelectual.
isso está na gente. É eu me dar conta de que talvez a minha coragem de ter largado a profissão e o caminho do mundo do pai veio por essa mãe que me atravessa e talvez eu nem lembre racionalmente. Quero até deixar um beijo ao vivo para o Bruno e para a Tefi, que são dois grandes amigos que perderam a mãe, passaram o primeiro dia das mães sem mãe.
E num momento onde a gente olha muito as faltas, que a gente possa lembrar... A Tia Thaís tinha um teatro de bonecos. Ela era lúdica também. Que legal! Ela era lúdica nos jogos. E eles são muito lúdicos e simbólicos. E tem um olhar muito sensível para o mundo. Está na gente. Que a gente possa falar das faltas, mas que a gente também olhe as delicadezas e as ações de amor.
dessas mulheres que hoje estão em nós e que nós nos responsabilizemos por sermos mães uns dos outros, das nossas amigas, dos nossos pais, dos nossos irmãos, dos nossos colegas de trabalho. Sim. Agora eu lembrei que ontem não tinha minha mãe para eu mandar uma mensagem, porque o Corinthians ganhou.
Ela era palmeirense, a gente tinha essa coisinha também. Tá bom, também nem ligo mais pra futebol depois que ela morreu. Carol, obrigada por hoje. Um beijo pra você. Boa semana pra gente. Que a gente seja capaz de viver feliz, satisfeita e em paz, mesmo na falta. Lindo. Um beijo enorme. Obrigada vocês dois por compartilharem.