Episódios de Comentaristas

Educar para a era da IA é formar pessoas, não apenas usuários

11 de maio de 202611min
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Michel Alcoforado aborda o ensino diante da era da inteligência artificial. A IA já chegou à escola, a dúvida agora não é se ela deve entrar, mas como será usada, quem orienta esse uso e que tipo de estudante será formado em um mundo onde máquinas respondem cada vez mais rápido. Ouça.

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Participantes neste episódio3
F

Fernanda

HostAdvogada familista
T

Tati

HostApresentadora
M

Michel Alcoforado

ConvidadoAnalista
Assuntos3
  • Habilidades essenciais para fonoaudiólogosComunicação escrita e oral · Trabalhos colaborativos · Pensamento crítico · Capacidade de resolver problemas · Respostas prontas vs. raciocínio
  • Bet EducarUso de IA por alunos · Regulamentação de celular nas escolas · Mudança no papel da escola · Pesquisa TIC Educação
  • Alimentacao EscolarModelo de escola tradicional · Memorização vs. compreensão
Transcrição32 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Pra Onde Vamos, com Michel Alcoforado. Oi Michel, boa tarde.

Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernanda. Boa tarde, Michel. Lá vem ele e a gente vai falar de inteligência artificial e tudo aquilo. Está na escola já a inteligência artificial. Então, quer dizer, apesar da proibição de celulares, porque é uma outra coisa, a inteligência artificial está sendo usada para a educação.

E como em toda área, precisa ser usada com parcimônia, né, Michel?

E não está não, né? A gente está correndo atrás do passado, né? Porque a gente está só preocupado em tentar criar alguma regulamentação para o uso de celular nas escolas. E o jogo que se apresenta é muito mais complexo, porque se, obviamente, o uso do celular cria uma dispersão e atrapalha na aprendizagem dos alunos, quando a gente está falando em inteligência artificial, a relação e o papel da escola muda por completo.

Eu quis trazer essa pauta aqui hoje porque uma amiga estava me contando que o filho dela de 7 anos, e antes de qualquer dúvida, vira para ela e diz, ô mãe, joga no GPT. É tipo, eu não tenho dinheiro, passa cartão. É tipo, é o juventude agora. Então a pobre da mãe, em pleno dia das mães, não pode nem se dar mais ao direito de não saber alguma coisa. Ela tem agora esse concorrente que é o joga no GPT.

E isso, obviamente, se está pegando no mundo do trabalho, nas relações de forma cotidiana, ou de um jeito geral, não tinha jeito de não chegar na escola. Uma pesquisa super interessante feita pelo TIC Educação, ainda no final de 2024, que é o dado mais recente que a gente tem, mostrou que 37% dos alunos que usam a internet já usaram alguma plataforma dessas de inteligência artificial.

E quando a gente olha para os mais velhos, que são aqueles que estão no ensino médio, 70% deles dizem se valer do uso de alguma inteligência artificial para poder dar conta das tarefas cotidianas ou mesmo dos dilemas apresentados pela escola. E os mais novinhos, o pessoal que está no ensino fundamental, 30% deles já entraram numa plataforma dessa para dar conta de algum desafio apresentado pela escola.

A grande questão que se coloca aqui é que a entrada das plataformas de inteligência artificial na maneira como os alunos aprendem ou na forma como eles se formam vai trazer uma série de novos questionamentos para o papel da escola. Sobretudo um modelo de escola que boa...

muitas das vezes, se orientou por uma lógica ponteudista. Você ia para a escola, eu e vocês fomos a essa escola. A gente chegou lá, a professora chegava na frente do quadro negro, escrevia um monte de coisa, a gente copiava no caderno e a prova era para checar se você tinha memorizado.

aqueles conhecimentos todos que a professora tinha colocado no quadro. Não à toa, ficávamos todos muito desesperados às vésperas das provas para pegar o caderno mais completo da sala. Em geral, o CDF era aquele que tinha anotado tudo.

Eu anotava também, mas minha letra já era um horror nesse tempo, então não adiantava de nada. Mas era uma escola conteudista. E num momento onde as inteligências artificiais parecem saber tudo, ou pelo menos vendem para a gente o que é saber tudo, ou dão respostas fáceis para qualquer uma das questões que nos atravessam, conteúdo já não é mais aquilo que vai gerar a grande diferença.

E aí há um aspecto interessante que há algumas iniciativas para tentar redefinir para que serve a escola a partir da entrada massiva das inteligências artificiais e das novas tecnologias. E alguns pontos têm chamado a atenção, que são alguns caminhos que a escola tem se apresentado como uma alternativa ainda muito importante, uma instituição ainda muito importante nesse mundo, onde parece que as máquinas estão sabendo tudo.

Primeiro ponto interessante é que é como é que a gente pensa a escola como um espaço onde você desenvolve comunicação escrita e oral. A gente já falou isso aqui tempos atrás, sobre a importância da produção oral, né, Fernando? E isso determinando muita coisa. Assim sobrou para a gente. A gente fala melhor que as máquinas, né?

pelo menos tem uma habilidade de comunicação ainda, melhor que as máquinas. E gente que tiver a melhor habilidade de comunicação vai conseguir transitar melhor na vida e no mercado de trabalho também. Um outro ponto importante, que é como é que a escola prepara esses alunos para trabalhos colaborativos. O chat GPT não é muito bom de parceria, não. Você faz um prompt para ele, ele entende outra coisa, aí ele te dá uma resposta, você pede para ele mudar, ele não muda direito. Aí ele te dá aquela irritação.

E os problemas do mundo estão tão complexos que gente que tiver a capacidade de trabalhar junto com os outros para poder dar conta dos desafios apresentados no mundo do trabalho, mesmo na vida, vai surfar melhor. E a escola, que é a escola que prepara indivíduos para a vida e para o mundo do trabalho, precisa dar conta disso.

Mas tem um aspecto super interessante que as escolas vêm tentando dar conta e que certamente esse vai ser um dos elementos mais diferenciadores quando a gente pensa na nossa posição em relação a esses softwares, que é o pensamento crítico. O que é o pensamento crítico? Pensamento crítico, ele acontece ou a gente só dá conta dele?

Você consegue dar conta de pegar uma ideia, decompor aquela ideia, estabelecer correlações entre essas ideias ou as partes dessas ideias de um jeito que só você seria capaz de fazer isso. Então, toda vez que alguém dá para você um conceito ou diz para você alguma coisa, você se posiciona diante do aquilo, para não virar gado, né? Não ficar só seguindo a manada ou aquilo que o pessoal está dizendo que você tem que fazer. Então, isso é impossível se você tiver essa capacidade que eu já expliquei.

É, eu escuto aquele negócio, eu tento entender o que levou a pessoa a falar aquele negócio, eu estabeleço a minha posição diante desse negócio e aí eu comunico para os outros o que eu penso sobre isso. Isso é treino. E as máquinas também não vão conseguir fazer isso.

E essa habilidade é tão central hoje que é a única que vai nos sobrar, né? Diante da mecanização da vida. Apesar de nem todo mundo fazer isso, né, Michel? Assim, cada vez menos seres humanos têm interagido dessa maneira. Quer dizer, eu ouço o que você diz, eu penso sobre o que você diz, eu tento entender de onde você está falando, quando você diz, e organizo isso de volta, a julgar pelos diálogos contemporâneos.

Isso é uma capacidade cada vez mais rara, humana também, ou não?

E tá pior e vai piorar, né? Aquele lema que a gente tem repetido aqui. Porque o que o chat EPT oferece pra você, ou qualquer uma dessas plataformas, Cloud, e aí citei chat EPT porque foi o primeiro mais conhecido, né? Essas plataformas, elas te entregam um pensamento pronto. Você dá uma pergunta pra elas, elas te respondem. E elas tiram a nossa habilidade de tentar decompor uma ideia em outras ideias pra poder colocar o teu ponto de vista.

Vocês na faculdade de jornalismo e eu na faculdade de ciências sociais, de antropologia, faculdades humanas são boas disso, boas de fazer isso. Quando eu estava, sei lá, na faculdade, eu me lembro que as provas, elas se resumiam a uma pergunta. O professor chegava na sala, escrevia no quadro uma pergunta, e aquela pergunta a gente tinha que responder às vezes sete laudas, oito laudas, para responder aquela pergunta.

O chat GPT, sei lá, uma plataforma dessa, responderia essa pergunta com três frases. E essa pergunta podia ser respondida por três frases. Mas o que estava se treinando ali na universidade era a nossa habilidade de conseguir falar muito sobre uma pergunta simples.

Eu consegui mostrar o quanto o pensamento conseguia ser esticado ou problematizado ou trabalhar nossa capacidade reflexiva ao ponto de a gente transformar uma noz num saco de nozes. Então, isso é treino, isso é treino e isso é muito importante, porque é quase como se o cérebro fosse um músculo, onde a gente vai esticando, apertando, esticando, apertando e vai ganhando pensamento crítico diante da vida.

Então, se acostumar com resposta pronta é um problema enorme dentro desse jogo. Mas tem uma outra habilidade também, que a escola tem que assumir um papel cada vez mais importante e que as máquinas tiram da gente, que é a capacidade de resolver problema.

A escola tinha esse papel muito decisivo, né? Lembro que quem aqui não recebia, sei lá, no primário ainda, que eu nem sei como é que chama agora, mas aquele momento que você sai da alfabetização e entrou no ginásio ainda, tô revelando toda a minha idade aqui, né? Ensino fundamental. Ensino fundamental. E o tal do ensino fundamental tinha lá a prova de matemática, era problema 1, problema 2, problema 3.

E eram questões de lógica, ou eram questões onde tinha uma pegadinha que você precisava resolver aquilo para dar conta de responder esse pensamento. Isso cobrava uma capacidade de, primeiro, resiliência, né? Que era você se ver diante de uma questão que não tinha uma resposta fácil e você acreditar que você ia dar conta de responder aquilo.

com as ferramentas que você tinha e com a habilidade que você tinha adquirido ao longo do processo de aprendizado. Então, isso dava uma musculatura para enfrentar problemas. Quando você começa a encontrar o caminho mais fácil de dar resposta simples via chat GPT, você vai perdendo isso, vai perdendo massa magra nesse jogo do pensar.

E aí você vai ficando menos sofisticado, né? E certamente, quando chegar no mercado de trabalho, você vai despertar menos interesse dos outros.

Perfeito. Hoje, sempre, mas hoje esse quadro não poderia chamar outra coisa que não. Pra onde vamos? Michel Coforado, um beijo pra você. Até quarta-feira. Espero que essa resposta seja confortável pra todos nós. Eu hoje dei resposta. Pensamento crítico. Pensamento crítico. É a versão de casa. Verdade.

É, hoje é a primeira vez em oito anos, né, talvez. Vou mandar sua coluna para um grupo de amigos que me deixou deprimida na manhã de hoje com essa conversa. Um beijo. Um beijo. Tchau, tchau. Tem podcast que te inspira a conhecer lugares novos, a ir mais longe. É como o Dili EX5 EMI. Conheça o super híbrido Plugin com até 1.300 quilômetros de autonomia combinada com conforto de primeira classe.

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