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Formas de utilizar o verbo ‘emprestar’

12 de maio de 202610min
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O ouvinte compara o uso do verbo ‘emprestar’ no sentido de ‘pedir ou pegar emprestado’, com os verbos em inglês ‘lend’ e ‘borrow’, que possuem sentidos diferentes. O professor Pasquale explica o uso do verbo no português. Ouça.

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Participantes neste episódio3
P

Professor Pasquale

HostProfessor
F

Fernando

Co-hostJornalista
T

Tatiana

Co-host
Assuntos1
  • Uso do verbo emprestarEmprestar no sentido de pedir emprestado · Diferença entre 'lend' e 'borrow' em inglês · Uso poético do verbo emprestar · Brasileirismo no uso do verbo emprestar · Georges Lacombe · Professor Pasquale · Rita Lee · Roberto de Carvalho · Titãs · Lacombe Lucien
Transcrição23 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

A nossa língua de todo dia, com o professor Pasquale. Oi, professor, boa tarde. Oi, Tatiana, boa tarde. Fernando, boa tarde. Ouvintes, boa tarde. Estou abrindo aqui para ver vocês.

Não tinha aberto ainda. Vamos lá, professor. Está bonito como sempre. Hoje, dúvida de Georges Lacombe.

Ele fala o seguinte, hoje vejo muita gente usando o verbo emprestar no sentido de pedir ou pegar emprestado. No inglês nós temos o land, que é emprestar, e o borrow, que é pedir ou pegar emprestado. Essa forma de emprestar no sentido de pegar emprestado é recente mesmo ou já está com um sagrado há muito tempo, professor?

Bom, antes de tocar nesse ponto, assim, com os detalhes que ele quer, vamos direto para um auxílio maravilhoso, que a gente vai ver o uso mais comum do verbo emprestar. Uma canção antológica composta por Rita Lee e Roberto de Carvalho. A Rita gravou isso primeiro, mas depois...

Há uma gravação, acho que um ano depois, de 98, no Acústico MTV. A Rita Lee com os Titãs. É uma maravilha. Vamos ouvir e a gente começa a conversar a respeito.

Não tenho grana pra pagar um hotel Não tenho grana Sou do tipo que frequenta Portel Não sou do tipo Você precisa me quebrar esse galho Você precisa Então me empreste o carro, papai Me empreste o carro Pra poder tirar o sal Com meu bem Papai, eu não fumo Papai, eu não beco Meu único defeito é não ter medo de fazer o que gosta

E aí, papai, me empresta o carro? Fernando, vá se preparando, né? Pra pedir, vem a você. Ah, é verdade. Falta pouco, hein, cara? Falta pouco.

É, papai me empreste o carro. Nesse caso, todo mundo sabe qual é o sentido de emprestar. O carro é seu, papai, e eu quero que você, papai, me empreste o carro. O que diz o nosso ouvinte, o Georges Lacombe, nome bonito, né? Lacombe me lembra um filme maravilhoso, não sei se vocês viram, chamado Lacombe Lucien.

que é um filme do Louis Mal, um filme que trata da resistência na França durante a ocupação dos nazistas e tal. É um filme antológico, memorável. Lacombe Lucien. Lacombe é o sobrenome do personagem, Lucien é o nome dele. É um menino que entra para a Gestapo, um menino francês, e acontece o diabo.

Bom, esse sentido que ele diz aparece sim no caso do verbo emprestar, não de você, Fernando, dono do carro...

cedendo o carro para mim gratuitamente, ou você, Fernando, me emprestando dinheiro que eu tenho de devolver, que eu sou obrigado a devolver, ou pura e simplesmente no mesmo valor, ou até com juros, o famoso empréstimo bancário. Existe o verbo emprestar com o sentido de tomar emprestado, como ele mesmo diz aí, eu emprestei o carro da minha tia. Nesse caso...

Eu me beneficio disso, não sou eu que empresto, no sentido de eu ser o dono e eu vou emprestar para você. Não, a dona é minha tia, ela me empresta o carro, mas eu não digo a minha tia me emprestou o carro, e sim eu emprestei o carro da minha tia. Isso é um brasileirismo.

É um uso específico do português do Brasil, tomar por empréstimo. O AIS dá um exemplo aqui, emprestou da mãe um vestido para ir à festa. No dicionário Aulete, há um exemplo, tomar por empréstimo, no mesmo sentido, emprestou mil reais do amigo.

emprestou mil reais do amigo isso tem registro sim faz muito tempo, mas é um uso específico do português do Brasil no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa aparece o verbo emprestar com esse sentido mas

com a marca, com a rubrica de brasileirismo, ou seja, coisa típica do português do Brasil. Isso é muito comum. Coisas que só acontecem no português de Portugal, coisas que só acontecem no português do Brasil, mas é perfeitamente possível, documentado, usado, registrado e por aí vai. E se a gente tiver tempo...

Eu quero tocar o segundo auxílio, porque vai aparecer o verbo emprestar, tão bonito, poeticamente usado. Como é que estamos aí? Podemos? Podemos, rapidinho. Podemos, então a gente vai ouvir uma canção chamada... chamada Qualquer Lugar.

uma composição de Loborges e César Maurício, querido e saudoso Loborges, é ele que canta, está num disco chamado Um Dia e Meio, de 2003. Vejam que poesia há no uso do verbo emprestar, logo no começo da letra. Vamos lá.

Vou emprestar meu corpo pra você e pra mim e que possa me ver através de você. E são seus olhos que me guiam nesses dias e seu calor é todo sangue em minhas veias. Eu quis parar o sol ao meio de dar o mundo pra você.

Belíssimo, professor. Pois é, você viu, né? Eu me lembrei de um texto antológico que a Betânia diz num show dela, lá dos anos 70. É um poema, um texto escrito por Jacob Levi Moreno, traduzido para o português, que diz algo assim, olho a olho.

cara a cara, olho a olho, e quando estiveres perto, eu arrancarei teus olhos e os colocarei no lugar dos meus, e tu arrancarás meus olhos e os colocarás no lugar dos meus, dos teus. Então eu te verei com teus olhos e tu me verás com os meus.

É mais ou menos o que está aí nessa canção do Lô e do César Maurício. A letra diz no começo, vou emprestar meu corpo para você, para mim, e que possa me ver através de você, e são seus olhos que me guiam nesses dias e tal. Vou emprestar meu corpo e o cobertor me aquecendo sempre através de você.

É um uso poético lindíssimo. Imagino aqui letra do César Maurício e melodia do Lu. Esse verbo emprestar usado da maneira mais comum. Eu empresto uma coisa a você. Mas o sentido que o nosso ouvinte menciona também ocorre e é típico do português do Brasil. É isso. Perfeito. Obrigado, professor. E até amanhã. Um beijo.

Beijo para vocês. Até amanhã. Ah, sim, uma coisa só. Essas palavras que têm esses sentidos, assim, mais ou menos, como se fossem antônimas delas mesmas, elas têm um nome, isso, né? São antagônimos. Uma palavra que é mais ou menos oposta a ela mesma, dependendo do uso. Tá bom? É isso.

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