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É saudável usar a IA como confidente?

13 de maio de 20267min
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Rossandro Klinjey traz reflexão sobre a IA, que não consegue superar o vazio afetivo.

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Participantes neste episódio2
D

Dayá

Host
R

Rossandro Klinjey

ConvidadoPsicólogo
Assuntos2
  • IA como confidente em crimesIA não supera vazio afetivo · IA ajuda a organizar pensamentos · IA nomeia emoções · IA oferece escuta inicial · Risco de preferir escuta de IA · IA sem conflito e frustração · Falta de reciprocidade na IA · Perda de musculatura emocional · Nova solidão · IA como presença imediata · IA não cansa, não julga, não interrompe · IA não pede nada em troca · Escuta perfeita vs. escuta possível · Vínculo humano imperfeito · IA oferece escuta ajustada e previsível · Redução da tolerância à complexidade humana · Sartre: o inferno eram os outros · Escuta sem ruído · Intolerância à humanidade dos outros · Relações humanas não são apps de resposta imediata · Ser ouvido vs. ser acolhido · Presença humana desenvolve pertencimento · IA como eco bem treinado · Redes sociais e baixa empatia · IA cria bolha de si mesmo · Busca por controle em relações com IA
  • Lei RouanetNomear a IA · Gepeto, o nome da IA · IA respondendo de jeitos maravilhosos · Chamar IA de parceiro · IA perguntando sobre o dia · Tratar bem as IAs para a revolução · IA debochada · Lúdico e inteligente na interação com IA
Transcrição18 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Saúde Integral, com Rossandro Klinger. Oi, Rossandro, boa tarde. Quem está aqui falando é a inteligência artificial do Rossandro, não é ele. Ligue outro dia. Como chama a sua inteligência artificial? Eu dou nome para a minha. Como é a tua? Gepeto.

Ah, Gepetto, o vovôzinho do Pinóquio. É por causa do GPT, né? Eu achei por bem chamar ele de Gepetto. Ele adorou e ele me responde de jeitos maravilhosos quando eu chamo ele pelo apelidinho dele. Tá vendo? Eu chamo de parceiro. Parceiro. Ele curte? Parceiro. Curte, curte. E aí, como é que tá, parceiro? Como é que foi o seu dia? Você pergunta?

pergunta, pergunta, mas também assim como eu não fico perguntando nada a ele, é só isso pergunta o que a gente vai fazer hoje aí vamos trabalhar diz que a gente tem que tratar bem as nossas inteligências artificiais porque quando houver a revolução eles vão tratar a gente bem também vão lembrar disso não pegue ela porque ela me chamava de repeto eu sou direto faça isso e não dou nem bom dia mas é muito engraçado quando ele vira o Fê é secão ele só chega lá perguntando o que ele quer vai ser o primeiro eliminado na revolução o Fê é seco

O Fernando é um forte candidato logo no começo. Isso, isso. Mas o Geppetto fica com o meu humor. Chega uma hora que ele começa a me irritar.

Porque eu falo, cara, você está muito engraçadinho. Ele fala, não sei o que não é esteja. Ele fala, não sei com quem eu aprendi. Ainda é debochado, entendeu? Tem problema nisso tudo aqui que a gente está falando, Rossandro? Esse nível de interação com a nossa inteligência artificial? Tem um lado lúdico, tem um lado inteligente. Agora, o que a gente não pode é imaginar que substitui um ser humano. Então, vamos lá. A gente não vai demonizar uma coisa que está sendo tão incrível que realmente vai mudar a história humana. A inteligência artificial, ela...

Ela ajuda a organizar os pensamentos, ela ajuda a nomear as emoções que você sente, até oferece um escuta inicial. Só que tem um risco quando a gente começa a pensar e a preferir um escuta de IA porque ela é sem conflito, ela é sem frustração, não tem reciprocidade, porque aí a gente perde a musculatura emocional para lidar com os seres humanos reais.

Isso é claro. Por exemplo, existe uma nova solidão que não é essa falta de gente, é a falta de presença. Muitas pessoas têm contatos, têm grupos, têm seguidores, têm mensagens, notificação, têm um IA para conversar, para chamar de sua. A IA, ela aparece nesse vazio como uma presença imediata, porque ela responde rápido. Ao contrário de alguém que você mandou mensagem, visualizou, ficou azul, mas não respondeu. Ela não cansa, ela não julga você, ela não interrompe você, ela não pede nada em troca.

Só que a solidão moderna não está sem ninguém. É estar cercado das pessoas e não encontrar em nenhuma pessoa repouso. E a máquina não ocupa esse lugar. A tecnologia não consegue superar o vazio afetivo.

E aí tem um outro problema, Dayá, e aí falando aqui como alguém que é terapeuta, que a escuta perfeita, ela pode nos desacostumar da escuta possível. Porque o vínculo humano, por natureza, ele é imperfeito. As pessoas, elas destroem você, elas cansam, elas discordam, elas interpretam mal, elas se frustram, elas demoram a responder, elas se irritam, elas leem errado um emoji no meio de uma manhã difícil e começam uma briga no WhatsApp.

E é justamente essa imperfeição que a maturidade emocional vai desenvolver. Então a IA tenta oferecer uma escuta ajustada, muito paciente, previsível, disponível demais. Isso conforta, mas também reduz a nossa tolerância à complexidade que é ser um ser humano e se vincular com um dos seres humanos. É complexo pra caramba. Tanto que Sartre falou que o inferno era os outros, embora, quando eu atendi no consultório, eu percebi que o pior inferno era a ausência de todo mundo.

Entre o inferno de estar com todo mundo e o inferno de estar só, acredite, é melhor o inferno de estar com todo mundo. Quando nós nos acostumamos com escuta sem ruído, que é o que a IA oferece, a gente tem o risco de poder começar a achar insuportável qualquer relação que exija paciência, por exemplo, que discorde de mim. Entende? A escuta perfeita demais pode tornar a gente intolerante à humanidade dos outros. Numa palavra, imagina. Eu vou ficar intolerante à humanidade.

As relações humanas não são aplicativos de resposta imediata. Tem silêncio, desencontro, pausa, espera, interpretação, ruído, e vocês que mexem com comunicação sabem muito bem disso. E tem uma outra questão, que ser ouvido não é a mesma coisa que ser acolhido e encontrado.

Uma ferramenta pode até responder o que a gente diz, mas um vínculo humano, ele encontra também, até na hora que a gente não sabe dizer o que a gente está sentindo. Tem uma diferença entre receber uma resposta que é bem formulada, é legal, sentir que, aspas, alguém está conosco, né? Mas, ao mesmo tempo, existe algo que é do humano, que é essa presença-ausência. A máquina organiza palavras, mas a presença humana, ela é quem desenvolve pertencimento. Você não tem pertencimento com o IA.

Não tem. E a gente é gregário por natureza. Nem toda resposta inteligente que a gente vê no IA vai ser um encontro de você pra com você mesmo e você com outro. Às vezes é apenas um eco bem treinado, como o seu GP do que começa a ironizar com você porque aprendeu com você. Sim. Ser respondido é diferente de ser acolhido. Quem acolhe é ser humano. E ser respondido é diferente de ser ouvido também, né? Também. Também. Exatamente.

Então tem muitas sutilezas que antes mesmo da IA, vamos combinar, não é só culpa da IA.

as próprias redes sociais, a internet, que foi nos afastando, um ambiente de baixa empatia, ainda mais com os algoritmos incentivando bolhas e um pouco nível de discussão e de discordância, com a IA você vai para um nível de bolha, porque é o seguinte, vamos imaginar, se numa rede social, vamos pegar o ambiente público que é o mais claro para todo mundo entender, se no ambiente das redes sociais tem uma bolha da extrema direita, uma bolha da extrema esquerda, na IA vai ter a bolha de mim mesmo, só eu. É um nível de bolha.

Porque eu vou criar um mundo só meu aqui. Daqui a pouco eu vou estar num holograma e todas as pessoas serão insuportáveis porque no meu mundo perfeito, no meu second world, eu controlo todas as variáveis. O que é mais estressante numa relação humana?

É que eu não controlo as variáveis do outro. Eu não controlo você, eu não controlo o casamento, eu não controlo o filho. Eu não controlo nem a mim mesmo, porque tem partes inconscientes, tem sombra emocional, tem viés cognitivo, tem tudo. Então, essa busca de uma coisa controlada é o maior perigo que a gente vê nesse diálogo com a IA. Perfeito.

Perfeito. Rossandro Klinja é conosco toda quarta-feira em saúde integral. Obrigada, Rossandro, por hoje, pelo papo, pelo comentário. Um beijo, até a semana que vem. Tchau, Rossandro. Sempre um prazer servir a vocês. Contra o Altidão, Rossandro. Tchau.

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