'Aquela que restou', premiado romance de escritora búlgara chega ao Brasil
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Fernando
Tatiana
José Godoy
- Romance 'Aquela que restou'Rene Karabash · Aquela que restou · Bulgária · International Booker Prize · Albânia · Kosovo · Sérvia · Montenegro · Leis do Canum · Virgem jurada · Dívida de sangue · Vingança de sangue · Moralidade · Liberdade
- Bósnia e Herzegovina· InternacionalAlbânia · Arquitetura comunista · Influência do islamismo · Modernidade · Praias
- Editora HerculanoHerculano
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Conheça a trilha. Pensar fora da curva é o melhor caminho. Saiba mais sobre a trilha em trilhab3.com.br. Clube do Livro CBN, com José Bodói. Oi Zé, boa tarde. Oi Tatiana, boa tarde. Boa tarde. Fernando, boa tarde. Boa tarde.
Zé hoje traz um romance premiado de uma escritora búlgara. Conta tudo, Zé. Vou falar hoje aqui da René Carabache. Tati, Aquela que Restou, meu nome do livro, do romance, está saindo agora no Brasil.
Sirib tem feito uma carreira bem importante lá fora, ele ganhou o principal prêmio de literatura da Bulgária, e agora ele é finalista, o resultado vai sair na semana que vem, do International Booker Prize, o principal prêmio para literatura estrangeira na Inglaterra. É um livro fascinante, na verdade, que é uma história...
É uma história do nosso tempo, mas que mostra como pedaços do mundo ainda seguem outro registro temporal, social, histórico.
É o que acontece numa região da Albânia, na verdade uma região fronteiriça, uma região montanhosa entre a Albânia, o Kosovo, Sérvia, Montenegro. Nesse espaço a René vai construir essa história, a história de uma mulher.
que nasce numa família dessa comunidade. Ela é um nascimento de gêmeos, o irmão e ela, ela sobrevive, e o irmão dela morre, o nome dela é Bekia, Bekia significa aquela que sobrevive ou aquela que resta.
E a vida dela vai ser muito determinada por esse acontecimento de nascimento. Toda a estrutura dessa sociedade extremamente patriarcal, que remete muito aos livros do Ismael Kadaré, para quem leu ou viu o Abril Despedaçado, do Walter Salles, é um livro que conta um pouco da história dessa região. É uma região que obedece um conjunto de regras muito específicos, que são as leis do Canum.
que é uma série de regras de costume que tem que ser seguidas. O fato dela sobreviver e o filho e o irmão morrer cria uma espécie de colapso dentro da família, porque tudo é construído para que se tenha um filho homem que vá assumir a honra dessa família.
E com o passar do tempo, com ela ficando um pouco mais velha, como acontece nesse tipo de situação, ela é prometida num casamento arranjado, mas ela se nega a casar e tem uma saída que é permitida pela essa lei, pela essa lei que rege aquela sociedade, que ela se tornar ali, naquele momento, uma virgem jurada, onde ela faz um juramento de castidade.
E a partir daquele momento ela passa a ter todos os direitos que um homem tem naquela sociedade. Então ela abdica do direito de ser mulher.
E ser mulher nesse lugar é ser nada, é valer 20 bois, como ela descreve em uma das passagens do livro, e passa a ter acesso a todos os espaços onde a mulher não pode acessar a partir dessa figura que pode circular na sociedade dessa virgem jurada.
Essa negativa do casamento vai gerar também uma série de consequências, porque tudo é cobrado como dívida de sangue, ou que vão se acumulando. Então o fato dessa família dela não...
não ter cumprido a promessa de casamento, faz com que algum homem da família dela tenha que se sacrificar para que ela possa se tornar livre. Isso vai gerar uma série de consequências que vão estar se desdobrando ao longo da história.
A história vai ser contada posteriormente com ela já mais velha. Ela já não se chama Beck, ela se chama Matia, que ganha o nome masculino, se veste como homem. E 16 anos depois desses acontecimentos, ela é visitada por uma jornalista, para quem ela vai contando tudo o que acontece naquele período.
desde o nascimento, paixões que ela teve, que não pode concretizar, a questão dessas vinganças de sangue por questões de honra, e vai revelando muito esse regime de...
de sociabilidade, essa diferente sociabilidade que acontece nesses espaços, muito arcaicos, como se elas prosseguissem de muitos séculos atrás, ainda se estivesse aqui entre nós, e revela um espaço do mundo muito surpreendente para nós, como leitores ocidentais, contemporâneos, urbanos.
E ao mesmo tempo muito impactante nesses dilemas morais que vão permear praticamente todas as ações que cada um desses personagens tomam no livro.
São regras de um nível de detalhamento e ao mesmo tempo de crueza, onde, por exemplo, qualquer hóspede, qualquer um que bata na porta de alguém ganha um peso enorme e esse hóspede tem que ser cuidado para esse dono da casa.
que vai cuidar dele com a própria vida, se for o caso. Porém, ele não pode fazer duas coisas que ferem essa lei. Limpar o prato com um pedaço de pão e colocar lenha na lareira. Que absurdo não poder limpar o prato com um pedaço de pão, José Godoy. Pois é, mas é esse tipo de regra louca para a gente, urbanos totalmente conectados e que tomam a vida dessas pessoas. Eu achei fascinante o livro. Eu achei porque...
é um registro muito diferente a Renée Carabacha ela é dramaturga, ela é atriz também então é um livro muito escrito em monólogos, nesses ritmos da fala, dessas confissões ou dessas sugestões que se faz quando a gente conta algo de si pra alguém muito legal, estou vendo aqui uma aspa, uma frase que ela traz no livro
que é assim, abre aspa, uma mulher na Albânia vale 20 bois, não olhe os homens nos olhos, não vá ao bar, cuide das crianças, lave, cozinhe, no máximo leve o leite à leiteira, matar Beccia foi a coisa mais sensata que eu poderia fazer. É isso, ela mata Beccia para se tornar a Mati, para sobreviver nesse lugar, praticamente impossível para uma mulher ter o mínimo de potência de vida.
Muito legal, muito legal. E é uma região do mundo com uma cultura muito diferente mesmo da nossa, como você estava sublinhando, o que torna o livro ainda mais interessante, né, Zé? Pois é, essas regras foram, elas são regras, parece que vem, assim, mas uma antiguidade muito, muito para trás, assim, elas são meio copiladas ali por um...
para um nobre ali no século XV, e mesmo do século XV para cá, elas sofrem poucas alterações, entendeu? Então, é um regime realmente que não sofreu as mudanças da modernidade, é pré-moderno, então isso é muito impactante, e ao mesmo tempo é muito...
Vai muito naquelas questões mais básicas da moral, né? Que é morte, vida, maldade, beleza. Liberdade. Liberdade, exatamente. São essas questões mais básicas que alimentam o sujeito. Você sabe que eu estive na Albânia faz dois anos. Sério? Você conhece a Albânia? Eu conheço a Albânia.
Foi o país mais diferente que eu já tive na vida. Não que eu tenha assim, seja hiper viajada, mas já viajei um pouquinho. E foi o mais para lá que eu fui também, no mapa. O mais para lá para o Oriente, né? Eu fui para a capital e fui para uma cidade de praia.
É um país muito estranho, é muito diferente, porque ao mesmo tempo que ele traz muito da história, tem construções ali da época comunista, então aquela arte brutalista, aqueles edifícios quadrados e tal, tem muita influência do islamismo na própria arquitetura.
Você vê também que a capital é uma cidade já com grandes empresas, com grandes bancos, com prédios espelhados. A gente espera que não todos, mas enfim. A modernidade está chegando e está chegando devagar. É um país que ainda vai ser, eu fiquei com a impressão, sabe?
Você é a primeira pessoa que eu conheço Eu também não conheço você não É muito legal, visitem a Albânia E é um destino barato na Europa Fica essa dica
Diz que é muito bonito, né? É lindo, lindo, lindo. As praias são incríveis. Legal demais, legal demais. Muito bem, faz aquele resuminho para a gente, então, Zé, por favor. Então, falei hoje da René Carabache, é a autora búlgara que escreve sobre a Urbânia nesse livro. O nome do livro é Aquela que Restou. Está saindo aqui no Brasil pela Herculano, uma dessas editoras independentes novas. Está fazendo um trabalho excelente, os livros muito bem editados, muito bonitos.
mais uma dessas boas editoras que tem surgido aí no país. Legal demais. Zé Godói, com a gente toda quinta, não vai se perder, mudou recentemente, põe aí na sua agenda, toda quinta, três da tarde, tem Clube do Livro com Zé Godói aqui no Estúdio CBN.
Valeu Zé, um beijão, até semana que vem Valeu Zé
No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas.
Clube do Livro CBN
Trilha B3