EUA e China: os bastidores do encontro presidencial
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Bruna Santos
- Encontro Xi Jinping e TrumpDonald Trump e a NASA · Xi Jinping · Rivalidade EUA-China · Crise comercial · Estreito de Hormuz · Armadilha de Tucídides
- Guerra comercial EUA-ChinaTaiwan · Tecnologia · Energia · Comércio · Pacote de armas para Taiwan · Irã
- Preparação para o BrasileirãoSoja brasileira · Minerais críticos · Terras raras · Urnas eletrônicas · Chips de Taiwan
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No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas. CBN Pelo Mundo, com Bruna Santos.
Bruna Santos, diretamente de Washington, conosco toda sexta-feira no CBN Pelo Mundo. Oi, Bruna, boa tarde. Oi, queridos, boa tarde. Boa tarde, bem-vinda. Bom, vamos ouvi-la hoje sobre a reunião entre Trump e Xi Jinping. Quero começar te pedindo uma visão geral, uma análise geral dessa reunião, Bruna.
Pois é, foi só o que se falou essa semana e na anterior aqui em Washington, realmente ganhou muita atenção esse encontro entre o Trump e o Xi Jinping em Pequim, que foi uma cúpula que mostrou uma imagem de aproximação, de reaproximação entre os dois países, mas que teve, eu acho que no pano de fundo, na substância, muita rivalidade.
Teve elogio, teve banquete, foto, tudo com muita cordialidade, mas no pano de fundo apareceu uma simetria muito importante, que é o fato de que o Trump e o Xi jogam jogos, estão jogando jogos muito diferentes e operando em relógios políticos muito diferentes. O Trump chegou lá, levou uma delegação de empresários, entre eles os CEOs da Tesla.
da Apple, da NVIDIA, e precisando muito mostrar resultado, precisando reduzir a tensão comercial entre os dois países, principalmente para aliviar o preço da energia, e tentando buscar a ajuda da China para destravar a crise no Estreito de Hormuz, causada pela guerra com o Irã.
E do outro lado, o XI num outro estilo, um estilo muito mais frio, muito mais controlado, altamente roteirizado. Os chineses são realmente obcecados por protocolo nessas visitas.
E aí, enquanto a gente percebeu que o Trump estava ali super preocupado em produzir uma imagem positiva, enquanto que o Xi estava mais preocupado em definir a moldura dessa relação daqui para frente. Eu acho que o que resume muito a cúpula essa semana foi...
A ideia de que o Trump tentou transformar um jogo mais longo numa transação de curtíssimo prazo, enquanto que o Xi Jinping estava ali buscando transformar a transação no reconhecimento geopolítico. Acho que o próprio fato do Xi ter trazido o exemplo da armadilha de Tucídides, que é uma ideia que vem lá da Grécia Antiga, de que Atenas e Esparta entrariam em guerra de forma inevitável.
já mostra o quanto o Xi está dizendo ali para o Trump, olha, a China e os Estados Unidos não podem ter uma relação baseada em negociação trivial transacional. É uma disputa estrutural, uma disputa de longo prazo, que precisa, para garantir a ordem internacional, ser muito bem pensada. Então ali teve algumas mensagens, alguns recados meio tortos de um lado para o outro, que eu acho que são interessantes de observar.
Perfeito. Agora, Bruna, a barganha real por trás dessa reunião, qual era? A barganha passa por três temas, Taiwan, tecnologia e energia. Eu acho o mais importante Taiwan. Taiwan é um tema muito importante. O Xi colocou no centro da conversa a questão da ilha, que é um tema deixando claro que se fosse mal administrado, China e Estados Unidos poderiam chegar a um choque, até a um conflito.
E dizendo basicamente para Washington que há um limite nessa lógica do toma lá, dá cá. Não adianta ficar focando numa transação comercial enquanto se o Washington seguir com uma visão hostil em relação à Taiwan e não apoiando a visão que a China tem que é de uma reunificação pacífica entre a ilha e o continente.
Eu acho que a preocupação em Washington e entre os aliados asiáticos, sobretudo, era justamente de que o Trump, com uma visão muito transacional, levasse a concessões de longo prazo no que diz respeito a Taiwan.
E isso deixa muitas vezes uma coisa muito sutil, uma coisa que não é muito explícita, mas diz muito mais respeito à linguagem. O que eu quero dizer? A posição tradicional de Washington é dizer que não apoia a independência de Taiwan.
Mas se o Trump disser que os Estados Unidos se opõem à independência de Taiwan ou se isso só há de alguma forma aberto à reunificação pacífica, isso já gera uma ambiguidade estratégica que é importante para a China no longo prazo. E aí eu acho que o outro ponto importante da gente salientar é a energia. A cúpula foi assombrada pela guerra no Irã.
O Trump chegou lá enfraquecido politicamente pela alta dos preços da gasolina, um negócio que a gente já vem falando bastante por aqui. Ele precisa que a China, como maior compradora de petróleo do Irã, use a sua influência sobre Teherã para reabrir o estreito. O Xi sabe disso e usa essa vulnerabilidade para tentar extrair concessões nessas outras áreas. E esse era um dos medos, inclusive, dos...
dos americanos aqui em Washington, de que ao saber dessa vulnerabilidade, dessa necessidade dos Estados Unidos de resolver o conflito no Irã, o Chi viesse com um pedido maior de concessões em relação a Taiwan, em relação ao acesso a semicondutores, ao acesso a tecnologias sensíveis.
O outro ponto de barganha, claro, é comércio. A gente viu ali que o Trump foi a Pequim com uma série de propostas, anunciando as compras chinesas dos aviões da Boeing, a empresa americana de aviação.
Tem claro a expectativa de compras agrícolas como soja, que é um ponto importante que foi diminuído significativamente as compras de soja pela China dos Estados Unidos.
Mas o que eu acho interessante é que os detalhes do que foi discutido comercialmente segue nebuloso. A gente não sabe se esses acordos vão realmente vingar, porque o calendário e o grau geral, o grau real de compromisso ainda fica incerto. E o último ponto que eu acho que é o mais importante é que eu achei a China jogando realmente...
um jogo onde eles entenderam as suas vantagens e eles entenderam que Trump estava naquela viagem porque precisava da imagem de um acordo. E eles usaram isso, a forma da reunião, toda a pompa, toda a circunstância, muito mais como estratégia do que simplesmente como pompa por si só. A forma nunca é só forma, ela acabou sendo parte da negociação nesse encontro.
Bruno, eu queria voltar num ponto com relação a Taiwan. Há nesse momento um pacote, eu acho que já foi aprovado, de 14 bilhões de dólares em armamentos para Taiwan. E o Trump precisa decidir se ele aprova isso, dar seguimento a isso ou não. Isso é complicado nesse momento, logo após uma visita como essa.
É super complicado e eu acho que isso ainda vai ficar em suspenso inicialmente, porque isso muito provavelmente foi algo colocado na pauta, mas ainda...
ainda eu acho que vai vir de forma ainda mais abstrata futuramente. Eu não acho que a cúpula resolveu esse tema. Essa decisão, o pacote de armas de 14 bilhões ainda precisa...
ser decidido e eu acho que essa cúpula pode adiar, fazer com que o Trump ganhe tempo com relação a isso. A outra coisa é o limite, os Estados Unidos estão muito pressionados nos gastos com defesa, muito pressionados, os números com o Irã, os números com as incursões na Venezuela, eles extrapolaram todos os limites e isso todo mundo que acompanha as ações militares dos Estados Unidos no Pacífico diz que
muito do orçamento que está voltado para garantia da segurança na região, está deficitário por conta dessa...
desse foco demasiado agora no Oriente Médio, sem muita perspectiva de quando isso será resolvido. Então, acho que isso também, essa pressão orçamentária também pesa bastante nesse momento em relação a esses 14 bi. Agora, o que a gente tem a ver com tudo isso, Bruna? O que essa cúpula pode significar para o Brasil, sobretudo depois do encontro do presidente Lula com o presidente Donald Trump?
Bom, em relação ao Brasil, o Brasil tem que ler as letras miúdas da conversa entre os dois países. A primeira implicação, claro, é comercial. O Brasil tem a soja como um exemplo mais imediato, se a China...
promete comprar mais soja americana, isso significa que o Brasil perde mercado amanhã, não imediatamente, mas o Brasil tem tido muita vantagem com essa competição e com o acirramento da competição China e Estados Unidos nas commodities, ganhou muito espaço não só na soja, mas também no milho. Então, claro, a soja brasileira segue competitiva, não significa que o...
que isso muda imediatamente, mas passa a operar com mais incerteza política, ainda que os calendários das compras chinesas dos Estados Unidos são diferentes das do Brasil por conta da safra. A segunda implicação, acho que mais ampla, é a estratégica. O Brasil, a disputa, um dos temas da pauta é o acesso dos Estados Unidos aos minerais críticos processados da China.
e terras raras, e isso mostra, obviamente, que essa disputa por essas cadeias de suprimento estão cada vez mais, viram cada vez mais um assunto de poder e não só um assunto econômico. Então isso é importante para o Brasil, para ele não entrar nessa conversa apenas com as reservas, com a ideia da geologia como vantagem, mas buscando também aí uma estratégia industrial. E a outra implicação mais objetiva é a tecnológica. Eu acho que uma coisa que é...
Até as urnas eletrônicas em 2018 foram afetadas por a falta de acesso de chips de Taiwan. E isso demonstra o quanto a gente é vulnerável em relação a uma ilha tão pequena sobre o acesso dessas tecnologias, né? Então, acho que essa implicação também é importante da gente observar. Perfeitamente. Bruna Santos conosco toda sexta-feira no nosso CBN Pelo Mundo. Ela que está em Washington, conosco toda semana. Obrigada, Bruna. Bom fim de semana para você. Obrigada. Até sexta que vem.
Até sexta que vem. Tchau, tchau, gente.
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